| | ENTREVISTA |  |  |
| Paffomiloff entrevista Alexandre Martins Fontes | 
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A Assessora de Imprensa Rosângela tornou possível que eu agendasse uma entrevista com o próprio Alexandre Martins Fontes, responsável por toda linha juvenil da Editora Martins Fontes. O problema é que eu estava no Rio de Janeiro e ele em São Paulo. Penteei os cabelos e vesti um terno - não era um telefonema qualquer. A presente matéria basea-se no material gravado, tendo sido submetida à aprovação do entrevistado. Os comentários em azul são meus, e detalham as informações mencionadas por Alexandre.
| | De olho na Perenidade | "Ler é fundamental. Qualquer coisa, podem ser quadrinhos... se os jovens estiverem lendo, então está tudo OK". Embora Alexandre admita que a produção deva ser vendida, para garantir o negócio, ele não leva em conta a filosofia dos Best Sellers: "ou vendem muito em seis meses ou são fracassos". Para ele, o mercado brasileiro é pequeno e complexo. Por isso é necessário um planejamento específico. A Martins Fontes investe em livros de qualidade, que garantam a perenidade da editora. Essa política editorial unge suas publicações em qualquer faixa etária. Uma política como essa não é para amadores, só funciona com gente como os Martins Fontes, profissionais em cujas veias correm sangue e letras.
| | Um Anel para conquista | Se pairar alguma dúvida quanto ao sucesso dessa filosofia, basta dar uma olhada no Senhor dos Anéis. Há aproximadamente treze anos, a Martins Fontes adquiriu os direitos de publicação num leilão da Harper Collins por U$50 000 - preço de um bom apartamento de dois quartos. Foi uma aposta ousada, considerando que era um livro de mais de quarenta anos na época e nem se cogitava em fazer outro filme do Tolkien. Mas a Martins Fontes sabia que estava comprando uma obra fundamental da literatura juvenil. Alexandre lembrou que a primeira edição do Senhor dos Anéis foi da extinta Artenova. Publicada em seis volumes, cuja brochura parecia ter sido fixada com goma arábica, mas ostentava capas extraordinárias, principalmente a do primeiro volume, que foi intitulado de "Terra Mágica". O Retorno do Rei contou com uma arte extraída do desenho animado de Ralph Bakshi. A principal crítica dos fãs a essa edição foi da tradução, pois Antônio Rocha e Alberto Monjardim aparentemente tentaram reproduzir os antigos romances de aventuras e abrasileiraram os nomes, uma ofensa mortal aos fãs do escritor sulafricano.
A segunda tradução foi feita em Portugal. Durante os anos 1980, a Europa América comprou os direitos para todos os países de língua portuguesa, o que incluía o Brasil e África. Também publicou Silmarillion, Contos Inacabados e outras obras de Tolkien. Foi mais tarde que a Harper Collins entendeu que o mercado brasileiro e português eram mercados diferentes. A edição da Europa América (há boatos de que está em crise) é de leitura difícil, quer seja por causa do estilo pesado quer seja pelos erros de tradução. Cito como exemplo o próprio título do excelente Farmer Giles of Ham, que virou O Lavrador Giles de Ham. Oras bolas! Se 'fazendeiro' e 'lavrador' fossem a mesma coisa, nossa reforma agrária teria sido resolvida no período colonial.
A Harper Collins impõe algumas definições para as editoras que publicam seus livros, visando qualidade ou vendas. Uma das mais positivas foi a de publicar um volume único do Senhor dos Anéis. Até mesmo Alexandre olhava com desconfiança para aqueles êmulos de lista telefônica, mas o fato é que venderam muito, por causa do preço, na opinião do editor.
| | O Leão Dourado ainda está na toca | As Crônicas de Nárnia foram tratadas de forma similar ao Senhor dos Anéis, com cuidado para que tivessem vida longa, embora sua aquisição tenha sido realizada com um adiantamento bem inferior, porque Lewis sempre vendeu menos no Brasil, mas os direitos sobre essa obra, adquiridos há sete anos aproximadamente, antes de mais nada, dão orgulho à Martins Fontes. A ciência de que o mercado é pequeno não dá margens a ilusões de que se está em outro mercado. Nárnia vendeu menos que o Pequeno Nicolau, de Sempé e Goscinny, cujo conteúdo é referenciado em livros didáticos. Embora as vendas não estejam sendo grandes, esse clássico está em edições extremamente cuidadosas - Alexandre informou que isso é outra exigência da Harper Collins, para atender à vontade dos herdeiros de Lewis, numa espécie de resgate internacional das ilustrações originais da Pauline Baines. A edição da Martins Fontes recebeu uma indicação da FNLIJ. Houve duas edições anteriores em português, uma da Ediouro, outra da ABU (Associação Bíblica Universitária)
A infalível coleção completa num volume de capa dura - mais outra exigência - está momentaneamente com as vendas mornas, mas está sendo feita uma nova versão cinematográfica. Houve um desenho animado, que já passou no Brasil, e uma mini-série live-action da BBC para TV, datada dos fins dos anos 80, que nunca veio para essas bandas. Essa nova versão será produzida pela desconhecida Walden Media em grande parte financiada por Philip Anschutz, um bilionário cristão, cujo dinheiro já contratou o diretor de Schrek - Andrew Adamson. Creio que a capacidade de divulgação dos evangélicos ao longo do mundo, associada à sua necessidade de dar uma resposta fundamentalista cristã ao fenômeno Harry Potter, tornará esse filme num sucesso. Se isso acontecer, a estratégia da Martins Fontes novamente será vitoriosa. Pessoalmente faço votos.
| | Clássico Embrionário | Mas não se pode dizer que a Martins Fontes não tome atitudes mais ousadas, preferindo encastelar-se nos clássicos. A editora adquiriu os direitos sobre uma trilogia da qual só foi escrito o primeiro volume. Trata-se da Saga Otori (artigo em inglês), da escritora australiana Lian Hearn (Gilian Rubenstein), que passou pelo crivo da qualidade. Não é como a Objetiva fez com a trilogia de Philip Pullman, que já era conhecido. A conterrânea de Pamela Travers é bem mais arriscada, pois é uma autora que ninguém conhece, mas a lendária percepção Martins Fontes apontou-a como sendo um clássico. O mercado está concordando com isso e já se fala em transformar a saga em filme. A resenha da IstoÉ está muito parecida com a da ABC.
| | Livros e Chocolates | "Eu gostaria que livros vendessem como chocolates, mas são mercados distintos". Uma determinada marca de cereais oferecia, em sua caixa, um cupom de desconto para a compra do livro O Senhor dos Anéis. O valor do desconto superava o valor nominal da caixa do cereal. Não há reais garantias de que a filmagem venha a proporcionar incremento nas vendas. Roald Dahl, por exemplo, vende principalmente porque foi adotado nas escolas, não por ser um dos autores mais filmados, ao contrário do Ursinho Puff, que foi um fracasso de vendas. Alguns filmes baseados em livros de Roald Dahl: a Fantástica Fábrica de Chocolate (com Gene Wilder), Matilda(de Danny deVito), A convenção das Bruxas(com Anjelica Houston), Gremlins (de Joe Dante, baseado num livro de 1943, quase ninguém sabe dessa) e James e o pé de Feijão. Dahl roteirizou Chitty Chitty Bang Bang (de Ian Flemming, criador de James Bond) para o cinema, numa produção que usou grande parte da equipe de Mary Poppins, desde Dick van Dyke até o maestro responsável pelas músicas: Irwin Kostal.(Que também fez a música para Charlotte´s Web) Está sendo preparada uma nova versão da Fantástica Fábrica, por conta do roteirista Gwyn Lurie e fala-se de Nicolas Cage para fazer o milionário Willy Wonka, sendo possível que o diretor Tim Burton lidere o projeto: Além de Roald Dahl, a Martins Fontes detém os direitos sobre outro clássico que é Hugh Lofting, autor do Doutor Dolittle, que teve duas refilmagens por conta de Eddie Murphy. A primeira versão, com Rex Harrison, manteve a história original, a de Murphy descaracterizou completamente a obra de Lofting, mas deve ter feito sucesso, porque já está no segundo episódio.
A Charlotte´s Web (A Teia de Charlotte) de Elwyn Brooks White, teve seus direitos adquiridos pela Martins fontes. Sua mais famosa versão para desenho animado ficou por conta da Hannah-Barbera, em 1973, tendo se chamado em português: "A Menina e o Porquinho".
| Ao fim da entrevista, concluí que deveria ter ido pessoalmente até São Paulo, porque essa disposição da Martins Fontes em privilegiar os clássicos guarda identidade com um dos objetivos desse Guia.Alexandre comentou sobre a importância de jornalistas especializados, que busquem informações mais aprofundadas sobre Literatura Juvenil.
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