| | ENTREVISTA |  |  |
| Nataniel dos Santos Gomes é doutorando em linguística pela UFRJ. Amiúde confere palestras sobre C.S.Lewis, cuja obra esse guia considera imprescindível em qualquer biblioteca, juvenil ou não. Também buscamos falar sobre Harry Potter, série que esse Guia também considera um marco na história da Literatura Juvenil, sobre a qual Nataniel tem algunas ressalvas.
| A presença de elementos pagãos não 'demonizados' na obra de Clive S. Lewis não é comum entre os autores protestantes. Como tal obra se encaixa no quadro atual? Artigo em inglês, demonizando a obra de Lewis | C.S. Lewis (Clive Staples Lewis, 1898-1963) é considerado um dos maiores críticos literários, escritores de obras de ficção e teólogo do século XX. As Crônicas de Nárnia são hoje citadas lado a lado com obras como O Pequeno Princípe. As figuras utilizadas nas suas obras são aparentemente incompatíveis com o Cristianismo, extraídas do paganismo. A idéia parecer ser de visitar um mundo imaginário forjando seres distintos dos reais: centauros, gnomos, bruxas, leões, magos, faunos e outros. Ele utiliza desses recursos para o reelaborar e colocá-lo à disposição dos leitores cansados do cotidiano. Assim, como Cervantes, C.S. Lewis usa o sonho e a fala dos animais para expressar as suas idéias. A história das Crônicas de Nárnia começa quando uma criança, Lúcia, entra num guarda-roupas que a leva ao um mundo mágico: algo comum aos olhos humanos que se torna extraordinário quando experimentado, desafiando os seus leitores a considerem suas vidas como algo mais do que o existir e experimentarem novas oportunidades na vida. Talvez com nosso preconceito de adultos, sejamos capazes de demonizar a história com muita facilidade, como tenho visto com freqüência. Quando Lewis escreve uma última carta para criança que era sua fã, ele diz que as crianças logo percebem quem é Aslam, a figura de nosso Salvador, coisa que geralmente os adultos não conseguem perceber. Assim, o conto de fadas foi o melhor gênero que Lewis encontrou para expressar suas idéias. | | Qual o grande motivo da explosão da literatura juvenil de fantasia nessa virada de milênio? | A criança tem se identificado com personagens que sofrem os mesmo dilemas que ela. Hoje temos um tipo de abandono presente assustador. Deixe-me explicar. Quantas crianças são criadas por empregadas e pelas "Xuxas" matinais? Acho óbvio que elas venham a se identificar com um Harry Potter órfão, criado pelos tios "malvados". Além disso, as crianças observam muita impunidade neste mundo e alguns destes personagens (vide Harry Potter e a Pedra Filosofal) cometem muitos erros e não sofrem as conseqüências naturais, nem uma consciência pesada... Obras mais maduras (Senhor dos Anéis - A Sociedade do Anel) não seguem esta linha, mostrando as conseqüências de nossos erros. Além disso, existe um forte apelo para tentar manipular o mundo via instrumento pouco éticos. Um exemplo disso é um famoso Harry Potter. | | Desde a família 'perfeita' de I Love Lucy até os Simpsons ou os Dursleys (tios de Harry Potter), como a mídia mudou seu olhar sobre a célula familiar? | Na realidade, houve uma grande mudança de paradigmas na sociedade ocidental nos últimos anos ou décadas, fruto da chamada Pós-Modernidade. Tentarei dar uma panorâmica meio filosófica para tentar responder. Uma forma de definir a chamada Modernidade seria a partir de todos os fenômenos sociais que aconteceram devido ao desfruto das pessoas nos avanços da ciência e da tecnologia; assim como, pela urbanização rápida e excesso de informações, ainda que superficiais e manipuladas Nesse período não há espaço para realidades sobrenaturais, todo acontecimento do universo é pura obra do acaso e não há nenhuma interferência sobrenatural. Podemos perceber que a cada dois ou três séculos ocorrem grandes transformações na história. Essas transformações têm tanto impacto na sociedade, que ela precisa se reorganizar para poder se adequar à essa nova visão de mundo, revendo seus valores, avaliando sua estrutura e política, e até mesmo suas artes. A Modernidade tem raízes na criação da imprensa por Gutemberg, em 1455, e na Reforma Protestante, em 1517, o que fez surgir o chamado Renascimento. Nas ciências exatas, vimos Copérnico descobrindo que muitas propostas medievais de esclarecimento do mundo não passavam de armadilhas para manter as pessoas presas à religião. A partir deste momento o único centro do universo seria o próprio homem. Na esfera política, surge uma nova concepção de Estado com a publicação de O Príncipe, de Maquiavel (biografia e texto completo em português para download). Com a Revolução Francesa, surgiu um conceito novo, o de religião secular, a crença da salvação pela sociedade. Mas o que aconteceu com a filosofia? Para René Descartes, a filosofia deveria se basear somente no que a razão apreende com clareza e nitidez. Para ele, a verdade tinha que ser mensurável, objetivamente captada pela razão. Kierkegaard, considerado por muitos como o pai do Existencialismo, propôs que quando nos envolvemos com provas racionais da existência de Deus ou com tais argumentos racionais perde-mos nossa fé, e com ela, nosso fervor religioso. O existencialista vê que a vida humana é movida por suas paixões, não podendo ser reduzida a elementos rudimentares de biologia, a atividade intelectual. O grande dilema do existencialista é de conviver num mundo que não faz o menor sentido, apesar de suas paixões. No final das contas, ele não encontra ninguém fora de si mesmo. É por causa disso que em pouco tempo o existencialismo tornou-se uma força questionadora da Modernidade. O próprio Albert Camus ao observar as atrocidades cometidas nos campos de concentração viu confirmada sua tese de que o mundo não fazia qualquer sentido. Já Sartre defendia que os seres humanos precisavam dar um sentido à vida, só que criado por eles próprios, afinal não existem pontos de referência previamente estabelecidos para guiar o homem. O existencialista volta para si mesmo, porque o relacionamento com o outro lhe causa "náuseas". É a partir da sua individualidade ele tenta dar sentido à vida. Na evolução desse processo temos Nietzche tentando transformar o ser humano em um "super-homem" como única forma de contrapor ao absurdo e à incoerência da própria existência. Mas na Modernidade, as pessoas diziam: "Deus está morto", na Pós-Modernidade, elas anunciam: "Marx também está, e eu estou doente de morte". Infelizmente, esse o novo-homem que o niilismo sonhava acabou tornando-se um selvagem predador de seus semelhantes. A chamada a Pós-Modernidade aconteceu também na esfera sociológica levando à secularização, à privatização, o que alterou os pilares básicos da sociedade: o convívio, as relações pessoais e a ética. Na realidade, o Pós-Modernismo prometeu liberdade, mas lançou o homem na pior das es-cravidões: a solidão. É nos anos 60 que começamos a ver a utopia da modernidade ruir. Os filhos da tecnologia "chutaram o pau da barraca", desistindo do sonho da modernidade, desafiando os seus pilares: a fé na razão; a fé no progresso tecnológico; a fé que a ciência poderia substituir a religião como guia do destino; a fé que o homem auto-suficiente seria capaz de resolver seus dilemas Mas bastou apenas uma década para que esses hippies se desencantassem do próprio projeto alternativo e passassem aos valores da burguesia que tanto lastimavam; assim transformaram-se em ricos yuppies, investidores do Wall Street. É incrível perceber que na Pós-Modernidade, já nem se questiona a dependência do Iluminismo na razão como forma de verificação da verdade, mas que exista qualquer tipo de verdade. Para esta geração, objetividade, absolutos e conceitos universais não existem mais. A própria arte da modernidade focaliza o objeto da arte, que está contido em si mesmo. Na Pós-Modernidade, a arte não tem objeto, ela apenas obedece a processos. Há apenas decriação, des-construção e sempre antítese. Se a Modernidade valorizava a presença, a pós-modernidade só vê au-sência. Com tudo isso conseguimos observar alguns sinais que anunciam a desintegração das sociedades: - um sentimento de abandono;
- um cínico fatalismo;
- desaparecimento de qualquer idealismo;
- o deixar se levar pelas circunstâncias, lançando-se nos modismo;
- deixam de existir quaisquer tipo de mobilizações;crescimento da culpa, devido ao abandono moral,
- uma aceitação de tudo, um ecletismo e uma tolerância acrítica da ética.
Finalmente, em 1989, vimos a queda do Muro de Berlim, que simbolizou a morte das utopias, sobretudo do socialismo. O mais alarmante talvez seja na filosofia da pós-modernidade, que já não se separa em diversas escolas, há apenas os otimistas, que são poucos, e os pessimistas, que crescem a cada instante. Nesse último anos na casa do mil, notamos um interesse internacional sem paralelo por textos gnósticos e apocalípticos. É a hora marcada pela síndrome do dia do juízo final, pelos fantasmas, do medo. O apocalipse ainda é parte de nossa bagagem ideológica. Ele acabou se tornando um afrodisíaco, um pesadelo, uma mercadoria como qualquer outra. O homem agora não considera que Deus tenha morrido, como na Modernidade, mas que simplesmente enlouqueceu. Afinal, existe coerência? De onde ela vêm? Conforme dissemos acima, os pilares da sociedade foram abalados, trazendo como conseqüência a secularização, privatização da sociedade: o convívio, as relações humanas e a percepção da ética. O homem pós-moderno largou os métodos racionalistas e científicos de aproximação ao sagrado, misturando Jesus Cristo com os gurus, faz estudos cabalísticos e numerológicos em runas e nos escritos do Mar Morto. Sobre o assunto:Pontos comuns do cristianismo/budismo, Pastor polêmico, Dimensões da espiritualidade
A velocidade nos viciou. Tudo tem que ser veloz porque a concentração das pessoas não passa de alguns minutos. Como conseqüência as pessoas não se interessam mais por relacionamentos profundos, e se acostumam com a superficialidade. Tudo mudou os nossos paradigmas familiares. Não acredito que seja pura e simplesmente influência da mídia, ela somente mostra o que já está acontecendo e reafirma. | | Qual o significado das 'trilhas seguras' nos contos infanto-juvenis? | Poderíamos abordar de inúmeras formas. O tradicional poderia ser classificado como "seguro", para aqueles que querem manter o modelo estabelecido. A Profª Nelly Novaes afirma que o tradicional poderia ser caracterizado pelo: - espírito individualista;
- obediência absoluta à autoridade;
- sociedade que valoriza o ter;
- moral que é dogmática;
- sexofobia;
- preferência absoluta pelo passado;
- condição transcendental do homem;
- racionalismo;
- racismo e
- a criança como um "adulto em miniatura".
Enquanto, os valores novos são gerados em reação aos antigos. Vejamos algumas características: - espírito solidário;
- questionamento da autoridade;
- sistema que valoriza o fazer como manifestação do ser;
- responsabilidade ética;
- sexófilia;
- reinvenção do passado;
- concepção mutante do passado / mutação humana;
- instuição fenomenológico;
- anti-racismo;
- crianças como seres em formação..
( Nelly Novaes, entrevista, onde fala da importância da leitura e elogia Harry Potter, artigo onde ela comenta a literatura no momento atual) | | Qual a diferença da literatura juvenil para a adulta? | É difícil. Arrisco dizer que a diferença está na linguagem. Parece que a linguagem da obra infanto-juvenil é mais próxima do falar dos jovens, apesar da temática ser a mesma. Em sua natureza é destinada à criança, ou seja, sua diferença está determinada pela natureza do seu receptor. Mesmo assim, podemos perceber que cada período possui as suas características. Parece haver uma opção ideológica múltipla e em contínua mudança, em um processo muito dinâmico. Uma coisa que chama a minha atenção é como As Viagens de Gulliver são lidas por crianças hoje, mas a obra surge como uma crítica muito forte de seu tempo. A obra juvenil continua sendo literatura, arte, fenômeno que criativo, representativo do homem, do mundo, da vida... Nota do editor: As Viagens de Gulliver (obra completa em inglês para download gratuito) se tornou obra juvenil a partir de suas versões cinematográficas, tendo sido a primeira uma paródia de Meliés (1906), a segunda um desenho animado de Max Fleischer (1939), a terceira com efeitos de Ray Harryhausen (1960) e o tiro de misericórdia com o seriado da Hanna Barbera (em português, em inglês). Recentemente houve um musical com Richard Harrys (Dumbledore/Homem Chamado Cavalo) e com Catherine Schell (Maya de Space 999). Há uma extraordinária versão adulta de três horas, por Charles Sturridge, de 1996, que passou na TV como minisérie. Fenômeno similar está em curso com o Corcunda de Notre Damme de Victor Hugo.
| | Quem são os autores juvenis que você recomenda? | Sem dúvida alguma C.S. Lewis com as Crônicas de Nárnia, J.R.R.Tolkien com O Hobbit, O Senhor dos Anéis e Roveradom, Monteiro Lobato e o seu Sítio do Picapau Amarelo. | Fale sobre os fenômenos Harry Potter e Pokemon. Porque as crianças os amam? Os fundamentalistas evangélicos têm reais motivos para temê-los? Ações fundamentalistas contra Harry Potter, opinião do sempre atento Massino Introvigne, | Basta ligarmos a nossa tv em algum telejornal e vamos observar que sempre há um montão de gente atrás do entrevistado para poder aparecer também. Não sei se você já se perguntou por que um homem muito rico, um Silvio Santos ou um Antônio Ermírio de Moraes, gasta tanto dinheiro em um candidatura política? Parece que a luta não é ideológica, nem financeira, mas na realidade é uma luta de poder. Nada nos fascina mais do que o poder. Nem o sexo, nem o dinheiro. Quantas pessoas eu conheço que querem ganhar mais para ter mais poder, e não bens de melhor qualidade? Outros vivem buscando sexo de forma quase compulsiva, não pelo desejo, pelo amor, mas pelo poder de sedução. Mais do que tudo isso, a maior tentação que vivemos vem da possibilidade de mandar no Sagrado. A Profª Neuza Itioka afirma que a "magia é um meio que os homens chamados "primitivos" usam para influenciar as forças da natureza, utilizando-as para o bem ou para o mal, através da música, do canto, da dança, ou das orações mágicas. Feitiços é um meio para se manipular a situação com a ajuda do poder sobrenatural". A lógica parece ser que, se conseguimos dominar o poderio do universo: os rios, o átomo, os ventos... por que não controlar o Sagrado? Parece que esta é a lógica do Harry Potter e do Ash com os seus Pokemóns. O Potter comete uma série de deslizes morais e mesmo assim ele não sofre as conseqüências, nem fica com a consciência pesada, triste, pede desculpas... nada! Diferente do Boromir, que quando é tentado pelo poder do Um Anel (O Senhor dos Anéis - A Sociedade do Anel), ele sofre as conseqüências e paga com a própria vida, ainda que tenha se arrependido amargamente. Acho que estes são malefícios que as duas séries podem desenvolver: a falta de responsabilidade pelos seus atos. Agora, não é muito fácil definir o que vem a ser o fundamentalismo, já que é um termo que surge primeiro no Cristianismo, depois em outras religiões. O termo conservador, por exemplo, pode ter diversas conotações, dependendo da área: Economia, Política, Lingüística etc. Mas, voltando ao termo fundamentalismo. No início do século XX, surgiu uma grande controvérsia entre os cristãos: - o liberalismo teológico, filho da alta crítica, que questionava algumas doutrinas consideradas básicas ao cristianismo Afirmava-se que o homem moderno jamais aceitaria uma fé tão bárbara, sangüinária e primitiva como aquela do período apostólico.
- Os chamados fundamentalistas lutavam pela inerrância das Escrituras e pelos alicerces da fé (você ver as bases do cristianismo, no site www.abub.org.br). Na prática, existem extremos de gente rodando discos ao contrário, de procurando o diabo em tudo que é desenho da Disney, mas não se percebe a degradação de valores mais sútis que são passados. Como foi falado acima: a busca de poder e a irresponsabilidade para com suas ações.
| | A série Nárnia soa um pouco anti-islâmica, em particular o seu último volume. Comente sobre isso. | Já ouvi algumas pessoas fazerem tal afirmação. Contudo, parece-me um equivoco. Primeiramente, o nome do leão Aslam, é retirado da cultura árabe, que quer dizer "Leão". Em segundo lugar, segundo a Profª. Drª. Gabriele Greggersen, C.S. Lewis considerava "o islamismo maometano, ao lado do cristianismo e o budismo as únicas "religiões" propriamente ditas." Para C.S. Lewis, as outras religiões seriam tentantivas mais ou menos felizes de buscar a Eternidade. Outra coisa que ele destaca são diversos ensaios que Maomé nunca pretendeu ser filho de Deus. Neste sentido, não há paralelos entre ele e Jesus Cristo. Esta é uma das diferenças fundamentais entre as duas religiões. A Profª Gabriele ainda diz que Lewis "o islamismo é uma heresia cristã e não alguma seita imediatamente vinculada ao terrorismo, como a grande maioria das pessoas supõe hoje." Outro fato importante é que o tarcamãa que servia a Tash, foi resgatado por Aslan, no final da Última Batalha!!! A idéia de C.S. Lewis foi sempre a de buscar a tradição e raízes comuns entre os cristãos, e mesmo as verdades coerentes com o cristianismo em outras religiões. De qualquer forma, se observamos os outros volumes da série (O cavalo e seu menino, por exemplo), parece haver uma relação bem pacífica entre o Nárnia e os povos vizinhos. De qualquer forma, não podemos esquecer que ele vivia na Inglaterra, um país que colonizou boa parte do Oriente. Portanto, não me parece uma atitude de anti-islã, mas talvez de "superioridade" cultural em que Lewis estava inserido.
|
| |