E nada, nunca mais, será como antes...
"Quem teve a idéia? Por mim não sei, Só posso garantir que não fui eu" Mário de Andrade
Na época em que o "Prêmio viagem à Europa" (1918), oferecido pela Escola Nacional de Belas Artes ainda era disputado com paixão pelos artistas nacionais, que voltavam de lá academizados embora fossem aqui recebidos como modernos, a Semana de Arte Moderna - SAM , em fevereiro de 1922, na verdade foi sim, um festival dadaista bem ao estilo dos então organizados em Paris.
Mas o que se pretendia era exatamente colocar a cultura brasileira a par das correntes de Vanguarda do pensamento europeu. Neste afã, vistos com olhos frios de historiadores, os revolucionários incorriam no mesmo erro dos acadêmicos e a pregada tomada de consciência da realidade brasileira ficava vivamente influenciada pelas cores e formas européias.
Graça Aranha abriu o evento:
- 'Para muito de vós a curiosa e sugestiva exposição que gloriosamente inauguramos hoje é uma aglomeração de "horrores". Aquele Gênio suplicado, aquele homem amarelo, aquele carnaval alucinante, aquela paisagem invertida se não são jogos da fantasia de artistas zombeteiros, são seguramente desvairadas interpretações da natureza e da vida. Não está terminado o vosso espanto. Outros horrores vos esperam. Daqui a pouco, juntando-se a esta coleção de disparates, uma poesia liberta, uma música extravagante, mas transcendente, virão revoltar aqueles que reagem movidos pelas forças do Passado.'
(A Emoção Estética na Arte Moderna - Conferência de Graça Aranha que, no entanto, não chegou a causar espanto. )
A preocupação do grupo em discutir a identidade e os rumos da nação brasileira não pode ser subestimada pois todo este movimento concorreu para quebrar as servidões acadêmicas à qual a arte no Brasil se encontrava secularmente submetida.
As liberdades expressivas e técnicas que viriam a florescer ainda dentro dos movimentos Pau Brasil e Antropofágico ativaram os interesses pelas raízes da nossa cultura abrindo possibilidades de afirmações cada vez mais inovadoras.
Apesar de tudo isto ter acontecido em um passado tão recente, a frase do escritor carioca Lima Barreto : "Nós não nos conhecemos uns aos outros dentro do nosso próprio país." continua atual como nunca gritando a necessidade de os movimentos da pintura contemporânea brasileira, ainda que inquieta e polêmica, voltarem-se para o regional.
As transformações sociais e políticas operadas em nosso país tendem a descaracterizar a representação cultural por uma americanização crescente da mesma maneira como naquela época acontecia em relação à cultura européia.
Nesta feita, não o virtuosismo técnico mas um estado de desconsideração com a necessária maturidade do artista vem se impregnando prejudicando a versatilidade da linguagem artística nacional.
Cabe renovar os votos!
Buscar intensamente uma liberdade de expressão com total conhecimento das raízes culturais para que se produza, cada dia mais, uma obra marcante pela originalidade que possa identificar a nossa terra:
a cada um o seu canto, a cada canto o seu povo e a este povo uma nação para que não terminemos como disse Mário de Andrade em seu artigo de 1942:
- "...continuaram pura inteligência de abastecimento urbano. O nome deles acaba onde a cidade acaba."
(O Movimento Modernista - republicado pelo jornal O Estado de S. Paulo em 10/02/2002)
Maria de Fátima Seehagen é facilitadora em Criatividade Aplicada, Coordenadora do de Fátima atelier http://www.defatima.com.br
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