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Quando quem manda é o amor & as 106 falas de Cyana Leahy
Luiz Alberto Machado
Vai a vida nem aí, meio insossa mas tudo transcorrendo na panorâmica do normal, sem sobressaltos, sem atropelos. Até à toa, tudo nos conformes escorrendo na calha do racional, nem insinuando qualquer saída dos trilhos das metas ao alvo determinado. E é nessa hora que a gente se acha seguro, na certeza de que nunca mais definhará ou se submeterá ao estrupício de qualquer paixão. Ledo engano. Nada como um dia atrás do outro e uma noite no meio para provar que, do inopinado, tudo se vira de pernas pro ar. Segurar o tranco é que são elas: força redobrada no braço, pulso firme, punho determinado. De nada adianta, nada mesmo.
Até o dia em que rola um clima ninguém, mas ninguém mesmo, sabe de onde vem, onde se escondia ou de que raio de lugar chega a eclodir. Rolou, assim, do nada. E só sente o flagra enquanto ouve uma daquelas canções do João Bosco, que diz "(...) o amor quando acontece a gente logo esquece que sofreu um dia..." e olhe que foi só um olhar nada pretensioso que cruzou sorrateiro, na exaltação do flerte. Depois, vem o arrepio na espinha dorsal, o coração minando, a libido acendendo. As idéias dão um nó e seja lá o que deus quiser. Nada, tudo leva a crer que vai sair ileso, é só para ficar, mais nada. Nada o que?
Compelido pela imantação do flerte, vai surgindo aquela incipiente e depois volumosa revolução no peito que, de tão estrondosa, não se sabe bem o que é, mas que deseja ardentemente está ao lado daquela pessoa que vira tudo dos pés à cabeça na nossa lucidez.
Na maior desorganização a coisa desgoverna na convergência dos olhares, na timidez revoltada, no encontro agradável, cada um mais surpreendido com o outro, uma gentileza infinita, uma identificação exaltada. Nossa, um talqualzinho o outro, quanta coincidência, hem?
Pois é, mesmo nem sendo tão parecidos assim, tudo se inclina no estreitamento e no conluio dos afetos. E isto quer dizer que, no terreno do amor, um passa a ser o outro e vice-e-versa, a viver pelo outro, a fazer tudo pelo outro desmedidamente.
Como os dois passam a ser um, ocorre a unidade dos sentimentos. Será? Isso sem contar com o febril perfume que vai incentivando aquele desejo desenfreado no mel da paixão avassaladora, acendendo a volúpia possante que desemboca num sim pro namoro, estreitando as almas desgarradas. É a aí que se perde a noção de si em mil ternuras que explodem demonstradas, milhões de carinhos dedicados, zis encantações afloradas, tudo em nome da entrega absoluta dos quereres mais arraigados. É o amor. E quando ele reina, não há espaço para mais nada.
Ah, é o amor na vez do seu domínio. E com ele vem a febre do desejo ardendo, o fogo da paixão atiçando, os corpos incendiando na combustão amorosa, tudo levando a saciar carências sedentas e a satisfazer o prazer de todas as alucinações.
Por causa dele, o sol brilha mais veemente, a vida é mais espetacular, o mundo passa a merecer a razão de se estar vivo, o universo é uma mera distância que exalta a infinitude do idílio, a natureza é o palco para a real felicidade.
Amar, por isso, é o sentimento mais sublime de comunhão humana. É nele que tudo é vivo, tudo é verdadeiro, tudo é a mais real manifestação da verdadeira vida.
Então, com este depoimento acrescento mais uma às 106 falas de amor (e seus cenários) recém-publicado pela escritora, pesquisadora e PhD em Educação Literária, Cyana Leahy.
Cyana também é autora de obras literárias e acadêmicas que já recebeu prêmios no Brasil e no exterior, além de tradutora e editora.
Desta vez, Cyana reúne depoimentos recolhidos na rua, por mail, em casa, ali e acolá, onde as pessoas narram como se deu o grande amor da sua vida.
Quando a gente abre o belíssimo volume, a gente encontra, de cara, Martinho da Vila dizendo: “Quem viveu um romance inesquecível gosta, ou gostaria de falar dele com os amigos, ou amigas, para satisfazer o ego (...) Todos temos histórias de amor a contar. (...) Todo adulto já teve o seu romance, ou está tendo, ou ainda vai ter. Pois o amor chega em qualquer tempo e qualquer idade, e só não o encontra quem não está de coração aberto. Os casos aqui narrados podem ser fantasiosos ou reais, exagerados ou omissos, mas levarão você, que está com este livro nas mãos, a pensar e refletir sobre o que já de melhor no mundo – o amor”.
Verdade, tudo isso mencionado pode ser encontrado nas 5 partes do livro: primeiro, os depoimentos onde as pessoas narram que aconteceu o lance da paixão em espaços públicos; na segunda, os que ocorreram em ambientes quase domésticos; terceiro, aqueles que explodiram à primeira vista ou não nos locais de trabalho ou estudo; quarto, os que se iniciaram por cenários móveis, como viagens e internet; e, por fim, os que vieram à tona no meio dos múltiplos amores e de amor nenhum.
No volume estão narradas todas as formas de amor. E aparecem deliciosamente como aquela canção do Milton Nascimento e Caetano Veloso: “(...) toda maneira de amor valerá”. Cada um se revela seja explicitamente, seja metaforicamente. Cada qual ao seu modo. E é como diz a poeta Renata Pallottini: “Quando a poesia nos visita não há mais o que fazer: é dar-lhe espaço, dar-lhe praia, tempo. É o que faz Cyana neste livro, e só nos resta, a nós poetas e leitores, agradecer...”. Isso mesmo, não só os poetas, os depoentes, os leitores, mas todos pelo universo plural que se é demonstrado na vivência individual.
Merece aqui também o registro de Rogério Andrade Barbosa: “(...) Verdadeiras! ´As palavras`, de acordo com um provérbio moçambicano, ´são como o vento e passam depressa`. Antes que elas se espalhassem como folhas secas, Cyana recolheu-as feito uma formiga registrando variadas e deliciosas formas de amar”.
O que também ressalta, por fim, Gustavo Bernardo: “(...) Ao colher depoimentos de enamorados e abandonados, de solitários e bem-amados, de mulheres e homens indistintamente apaixonados ora por homens ora por mulheres, a autora desafoga o trânsito das emoções ao mostrar como são tantas as vias de acesso ao outro. A vida de cada pessoa que depõe parece arte: finge-se tão completamente que chega a se fingir que é amor o amor que deveras todos sentem. A história contada por cada um parece mais viva e mais intensa, porque à prova do medo e da rotina. Comove pensar na comoção que sentiram as mulheres e os homens que falaram ou escreveram sobre suas histórias de amor. É como se Cyana os convidasse a tornar palpável, sensível, visível, real!, o que todos viveram como se fosse um sonho ainda nublado”.
Pois é, o amor é coisa vigente. Sempre foi: desde a antiguidade mais remota até o presentíssimo momento, o amor ronda a vida de qualquer ser humano, malgrado se entenda sua real significação, ou como queiram tratá-lo, se como os gregos distinguiam-no por erótico, ou afeição, fraternidade, ou como ágape, a escolha deliberada, ou como se quiser. Concordo em gênero, grau e número com a autora quando ela diz: “(...) o sexo continua sendo tabu: tratado sem naturalidade, tema espinhoso nas escolas e nas famílias, surge nas rodas sociais como referência anedótica (...) Encontrar o amor continua a ser evento sem grandes novidades, em tempos pós-modernos. Ele nos espreitado do lado da casa, do outro lado da rua, na loja vizinha ao prédio, na sala ao lado, entre aluno e aluna, professor e aluna, aluno e professora; pode surpreender na festinha de aniversário, pode vir pela internet, pode ser flashback da adolescência reaparecendo e surpreendendo, ou confirmando que não era para ser. Pode estar no exterior, no acampamento, no aeroporto, na quadra da escola de samba, no churrasco na casa de amigos. Pode estar em qualquer lugar, e exige olhos de ver e coração de sentir”.
Exatamente! Desvelada a fumaça dos tabus, preconceitos e estereótipos, resta-nos a fidedignidade do sentimento, da expressão e da integridade humanas. E nada mais poético que tratar do amor que, parafraseando Albert Einstein, é a única forma de nos mostrarmos realmente humanos.
SERVIÇO:
Livro: 106 falas de amor (e seus cenários), de Cyana Leahy
186 p. 16x23cm ISBN 85-902228-8-8
CLEdições www.cledicoes.com
Rio de Janeiro (21) 8133-8401
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