|
Por Luiz Alberto Machado
O Barroco só foi habilitado como movimento estético substancial dois séculos depois.
Foi um movimento que se instaurou na península ibérica, em pleno século XVII, determinado a partir da dimensão que se tem do universo que se distingue como um substancial espaço de contradições.
Para alguns, a exemplo de Assis Brasil, o Barroco é apenas um estilo de época, enquanto que para Afrânio Coutinho, era o desenvolvimento natural do Classicismo renascentista para um estilo posterior, visual, pictórico, composto em profundidade, partes subordinadas a um conjunto aberto e com claridade relativa.
Para se ter idéia, a expressão Barroco, conforme Oliveiros Litrento, era ambígua, com acepções de bizarro, absurdo e mau gosto, e era usada em reação à pintura, escultura e arquitetura dos séculos XVII e XVIII.
Só muito mais tarde a critica literária se interessou em estender à literatura os preceitos do barroco como um estilo dinâmico, livre, imaginativo.
Por isso, Otto Maria Carpe
aux define suas características como a do heroísmo exaltado e do estoicismo melancólico, na religiosidade mística ou hipócrita e sensualidade brutal ou dissimulada, representação solene e crueldade sádica, linguagem extremamente figurativa e naturalismo grosseiro.
Na Literatura o estilo barroco carrega uma característica predominante: o escritor usa expressões latinas e mitológicas, e certos vocábulos difíceis, como se tudo fosse feito para que as coisas nunca fossem ditas diretamente, mas de forma alusiva, com sutileza e trocadilhos.
Adotado inteiramente na Europa do sec. XVII, o Barroco teve representação na literatura européia em nomes como Cervantes, Gôngora, Tasso, Quevedo, Lope de Veja, Calderon, Shakespeare, na filosofia de Pascal e na pintura de Velasquez, Rembrandt, Michelangelo, Tintoreto e El Greco, entre outros.
Este estilo que passou a ser desenvolvido nos centros de importância cultural do Brasil, como Salvador, Rio de Janeiro e Recife-Olinda, se distinguindo em relevo à continuação da prosa informativa e histórica, da oratória religiosa e do centro jesuítico erudito cultivados nos colégios da companhia, além da poesia.
Tanto a prosa como a poesia barrocas são cultivadas no Brasil colonial, com o Padre Antonio Vieira, através de sua oratória religiosa, cujo sermonário era voltado para o Brasil, além da influência geral que exerceu na época. Ele é considerado o mestre da época seiscentista.
Além disso, o Barroco se desenvolveu no Brasil a partir da crônica do frei Vicente do Salvador, com a Historia do Brasil (1627), do Simão Vasconcelos, com a Crônica da Companhia de Jesus (1663) e A vida do venerável padre José de Anchieta (1672), e, também, com Ambrosio Fernandes Brandão, com os Diálogos das grandezas do Brasil (1618), numa linha nativista de reconhecimento e defesa dos interesses da terra.
É neste movimento que se observa a questão temática onde se valoriza a experiência humana e se acentua a contradição entre a vida e a morte, tendo em vista que a vida é transitória, a beleza física passageira e a felicidade é apenas um aceno longínquo. Mas merece destaque que com isso a bondade suprema de Deus é reconhecida, porque ele redime as fraquezas humanas.
É importante ressaltar que a poesia barroca exalta ainda o amor e o sentimento religioso, o que caracteriza bem a poesia de Gregório de Matos Guerra (1623-1696) que é, para muitos, o verdadeiro iniciador da literatura brasileira.
Como um dos primeiros poetas brasileiros, sua obra sobreviveu manuscrita sendo a confrontação das duas grandes contradições surpreendidas no lírico e no satírico, voltado para a critica e a agressão ferina, às vezes de auto-lamentação, aos costumes, hábitos e individualidades de sua época, compondo um retrato amplo de Salvador da segunda metade do séc. XVII, inclusive do Recôncavo Baiano, onde se desenvolvia a economia do açúcar.
Também sua obra é vista como uma manifestação da época, objetiva e documental, exaltando o amor carnal e platônico, destacando-se na sua poesia a beleza das mulheres.
Seu estilo variado, desde satírico, lírico, amoroso e religioso demonstra a tradição da poesia quinhentista portuguesa, de Camões, mais a influencia preponderante do Barroco espanhol com Lope de Veja e Quevedo.
Sua sátira em versos cortantes atinge grandes e pequenos, e acaba sendo perseguido e destituído de suas funções de vigário-geral e tesoureiro-mor, nomeações que havia conseguido através de D. Gaspar Barata.
Sua fama, inicialmente foi de caráter local, com a obra inédita ou espalhada por inúmeras publicações, inclusive alguns poemas sem assinatura.
Segundo Assis Brasil, tido como canalha ou gênio, o Boca do Inferno é responsável pelo primeiro momento alto da poesia brasileira, praticamente na época de sua origem e formação. Um barroco por excelência, segundo os críticos, quer na poesia lírica ou religiosa, sendo a sua obra de temas pendulares, como o amor platônico e devasso, o pecado e a pureza, a boemia e o moralismo. Critico mordaz da sociedade, foi reconhecido pelo padre Antonio Vieira, que fez paralelo entre os seus Sermões e a Sátira de Gregório de Matos, como instrumentos de critica.
Segundo Ronald de Carvalho, foi Gregório de Matos o primeiro jornal brasileiro, onde estão registrados os escândalos miúdos e graúdos da época, os roubos, os crimes, os adultérios e até as procissões, u aniversários e os nascimentos que ele tão jubilosamente celebrou nos seus versos. E para Antonio Dimas, a linguagem barroca do português se expande e se enriquece com Gregório que incorporou um vocabulário rico com maior sonoridade, ridicularizando políticos e religiosos, zombando da empáfia dos mulatos, assediando freiras e mulatas, manejando a poesia de forma popular e acessível, recheado de jogos, brincadeiras carregadas no visual e num plano metapoético, abrazileirando o movimento importado.
Mediante isso, determina-se que indubitavelmente o verdadeiro movimento autonômico da literatura brasileira, começa com Gregório de Matos Guerra.
O Barroco também é o momento de Manuel Botelho de Oliveira e frei Manuel de Santa Maria Itaparica, conhecidos como poetas pela poesia de inspiração nativista, na linha do louvor dos aspectos e recursos naturais da terra, espécie de retrato complexado do Brasil-colônia em confronto com Portugal colonizador.
FONTES BIBLIOGRÁFICAS:
BANDEIRA, Manuel. Noções de história das literaturas. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1940.
BRASIL, Assis. Dicionário pratico de literatura brasileira. Rio de Janeiro: Tecnoprint, 1979.
______. Vocabulário técnico de literatura. Rio de Janeiro: Tecnoprint, 1979.
CARPEAUX, Otto. Pequena bibliografia critica da literatura brasileira. Rio de Janeiro: Tecnoprint, 1979.
CARVALHO, Ronald. Pequena história da literatura brasileira. Rio de Janeiro: F. Briguet, 1955.
COUTINHO, Afrânio. Introdução à literatura brasileira. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1978.
DIMAS, Antonio (Coord). Gregório de Matos. São Paulo: Abril, 1981.
FERREIRA, Pinto. Historia da literatura brasileira. Caruaru: Fadica, 1981.
LIMA, Alceu Amoroso. Introdução à literatura brasileira. Rio de Janeiro:Agir, 1956.
LITRENTO, Oliveiros. Apresentação da literatura brasileira. RJ/Brasilia: Forense/Universitária/INL, 1978.
MARTINS, Wilson. A literatura brasileira. São Paulo: Cultrix, 1967.
MIRANDA, Ana. Boca do inferno. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.
ROMERO, Silvio. História da literatura brasileira. Brasília: INL, 1989.
SODRÉ, Nelson Werneck. História da literatura brasileira. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1976.
Veja mais sobre a Literatura Brasileira no blog Varejo Sortido.
|