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FRANCISCO SOBREIRA

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Clarita & Crônica do amor e do ódio: o universo narrativo de Francisco Sobreira

Conheci Francisco Sobreira através do seu excelente blog " Luzes da cidade*", uma bela homenagem ao Chaplin e, também, onde ele se mostra cinéfilo juramentado.

Sempre estou dando uma passeada pelos posts do seu maravilhoso blog. E foi lá que eu fiquei sabendo que ele é cearense de Canindé e que reside em Natal, a aconchegante capital potiguar.

Nos seus dados biográficos ele logo se diz estudioso de cinema que foi cineclubista e presidente do Cine Clube Tirol, em Natal, e do Clube de Cinema, de Fortaleza.

Não resta dúvida pelos posts que se trata de uma autoridade no assunto. Mas é também uma outra coisa: Escritor. E dos bons. Pois, já publicou os seguintes livros: A Morte trágica de Alain Delon (contos, 1972), A Noite mágica (contos, 1979), Não enterrarei os meus mortos (contos, 1980), Um dia... os mesmos dias (contos, 1983), O Tempo está dentro de nós (contos, 1989), Palavras manchadas de sangue (romance policial, 1991), Clarita (novela e contos, 1993), Grandes amizades (contos, 1995), Crônica do amor e do ódio (contos, 1997), A Venda retirada (romance, 1999), e Infância do coração (romance, 2002).

Além disso, participou de antologias de contos no Ceará e no Rio Grande do Norte. E para ter uma idéia do prestígio dele, o seu nome está incluído na Enciclopédia de Literatura Brasileira, de Afrânio Coutinho e J. Galante de Sousa.

Pois bem, dessa vasta quantidade de livros publicados, tive a oportunidade de ler dois deles: "Clarita" e "Crônica do Amor e do Ódio".

O primeiro, Clarita, traz comentários de Anchieta Fernandes que assim se manifesta nas orelhas do livro: "(...) O autor de "Clarita" é um bom contista, na acepção exata do termo. Por saber contar estórias, tirando do seu interesse pela vida a matéria-prima para o operar de sua vocação narrativa".

E é verdade, asseguro. Quando li "Clarita" logo percebi o poder engenhoso da narrativa de Sobreira, destacada no conto novelesco que leva o título do livro, como nos demais, destacando "Adélia e Maria do Carmo", "O Velhinho" e o "Mascarado".

Incrível como em cada conto do livro, Sobreira desperta tanto do simplícissimo fato como da inesperada situação para, com engenho, ir traçando o fio da meada de forma inequívocamente elaborada sem rebuscar de nada, muito menos sair da naturalidade de quem sabe contar - e sabe mesmo - histórias. E isso está patente nos 11 contos do volume.

Evidentemente que em "Crônica do Amor e do Ódio" a gente se depara com a nitidez do narrador engenhoso na sua expressão. Fato que levou Nelson Patriota a se manifestar assim nas orelhas da brochura: "(...) a obra de Sobreira avilta pelo paradoxo de ser extremamente econômica, na medida em que o autor evita dizer mais do que determinam as normas internas do seu universo ficional. E são normas rígidas, haja vista que ao autor resta a opção da exposição factual dos episódios com que narra o conto, com poscos, e escrupulosamente indispensáveis flash-backs. (...) Com personagens despojados de grandes projetos existenciais, uma vez que estes aconteceram, e se mostraram falhos, no passado, Sobreira vai construindo uma obra fiel ao seu tempo. Herdeiros de si mesmos, seus personagens refletem a perplexidade do homem contemporâneo num mundo impermeável a interpretações. Refugiados na penumbra do passado, experimentam as emoções fortes da revolta, do ressentimento, da ira e do ódio, mas de raro em raro descobrem, com visível espanto, as possibilidades do amor e da amizade, com incursões no terreno do humor via ironia. E se sentem plenamente humanos, outra vez".

Usei, então, os depoimentos de Anchieta Fernandes e de Nelson Patriota para melhor enfatizar o que mais me admira em Sobreira, que é o fato de constatar, como sempre defendi, que o homem de hoje tem dois compromissos: um com o seu tempo; o outro, com a sua terra.

Notadamente num momento de universalismos exacerbados, mundializações indiscriminadas em que tudo se reveste de uma homogeneidade camuflada de harmonia quando as disparidades heterogêneas são bastante acentuadas. Isso porque são gritantes, indubitavelmente.

Em Sobreira, este compromisso com a sua terra e o seu tempo, é o que universaliza, aí sim, de forma inequívoca, sem os rojões contemporâneos de apologias mistificadas que, por isso mesmo, desmistifica mesmo os equívocos que sempre nos acompanhou na universalização. E isso se deve porque as personagens em Sobreira são vivas, humanas, erráticas e que emergem da terra com todos os tabus, todas as precauções, todos os temores, no meio da simplicidade de meros seres humanos que boiam na existência, apenas se dando conta da vida pelos dissabores, invencionices, perplexidades e bocejos.

Sobreira é totalmente sóbrio em seu estilo cristalino, depurado. Façanha de contador de história, narrador cônscio de seu ofício. Aplausos para ele que ele merece!

http://luzesdacidade.blogspot.com


 

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