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Lea Madureira: por não haver navegado
Tenho sempre acompanhado o excelente trabalho desenvolvido pela Uapê, um projeto editorial nascido do Espaço Cultural Barra que traz no seu significado o compromisso com a cultura brasileira.
Interessante saber que o nome o Uapê, significa na língua índigena dos Uaupés, tribo do alto amazonas, a flor vitória-régia. Dái, vê-se definida numa proposta editorial que valoriza a produção intelectual e artística dos autores, criando oportunidades para aqueles que querem publicar obras de qualidade, comprometidas com a realidade brasileira, cultivando, assim, as raízes do nosso solo cultural.
Esta editora iniciou suas atividades em 1992 como um centro cultural, com o objetivo de trabalhar a cultura em suas múltiplas manifestações, ou seja, oferecendo oficinas coordenadas por profissionais de grande destaque no cenário artístico, filosófico e literário do Rio de Janeiro e abrindo suas portas para exposições e mostras de artes visuais, debates com escritores, palestras sobre filosofia, psicanálise, literatura e poesia.
Durante algum tempo, manteve um grupo de estudos de Criação Literária constituído por escritores que além de estudos promoveram encontros com agenciadores de livros, editores, autores e livreiros com o intuito de acompanhar o movimento literário brasileiro.
Hoje emplaca uma série de títulos nas áreas de Ciências Humanas, principalmente Filosofia e Literatura e Artes, em destaque a Poesia. Dentre eles, o livro “Por não haver navegado”, da poeta e professora carioca Lea Madureira, lançado em 2002.
Antes da publicação deste livro, a autora participou de várias coletâneas, dentre elas as Antologias Poéticas nº 1, 2 e 3, Naturaleza, Imagens e Versos e Quem são os Poetas da Barra?; Momentos Poéticos, ZMF Editora; Coletânea de Poemas 93, da Secretaria Municipal de Educação. Além disso, ela colabora com os jornais Poesia Viva e Barramares, além de ser membro da Comissão Editorial do Jornal Poesia Viva, editado pela Uapê.
O livro “Por não haver navegado”, de Lea Madureira reúne suas poesias em quatro partes, sendo a primeira delas, Água, encontro da foz ao tempo que as águas movem distante nascente.
Nesta primeira parte, para se ter uma idéia, destaco: Paisagem:
“Vou
Correnteza-ilha
Ponto em pedra
Desço flutuante
Cismas – ausências
Estancado no olhar
Observo
Vôo
Contextos dispersos
Ânsias contidas
No espaço
Perco-me azul
E mergulho.
Simples garça
Em leve folha de papel
Esvoaço”.
Na segunda parte vem Ar, plena de arco-íris a lagarta vence a noite nas asas do dia, que abre com “Imaginário” afirmando “(...) Pássaros e pipas alinham poemas na ponta dos bicos”. E não menos impressionante é o seu poema: Metamorfose.
“Caçador, às vezes caça,
O disfarce desliza.
Ao f´eérico pulsar
Nas entranhas contido,
Escapo da morte.
O medo, o tempo escala
Em mutações, acordes
Sinfonia de todas as cores
Retida no sopro de todas as vozes.
Camaleão...
Caçador, às vezes caça,
Sou metamorfose”.
E também, a sua expressão em: Senha
“Alguns rabiscos guardados na gaveta
Ainda sujos do caminho – sombras de papel
No espelho bordado de esmeril.
A dor- senha de aço –
Verte um poema profano.
Em versos resiste antiga resina.
O devenir permeia os flancos da estrada”.
Na terceira parte, vem: Fogo, estanca o caminho sopro de mata queimada origem perdida. E aí, o poema “Êxtase” se sobressai:
“Voz zuave... entanto põe fogo às entranhas.
A língua a esgueirar-se em tom coloquial,
Entre curvas e adágios de ousadas façanhas,
Mar sequioso, rio a correr em caudal.
O jeito de lebre sob trêmula veste
Os espaços permeia em fôlego aflito.
Lânguida a noite pronta e fugaz se despe,
Sobre o lesto desejo a conduzir o rito.
Inexorável laço no voraz caminho!
Desliza entre mamilos, brancas presas descem.
Varrem beijos de sal no campo em desalinho.
Ao sôfrego cálice que recebe o vinho
Brincam os corpos e dançam e desfalecem.
Cântaros deitam sombras às dobras do linho”.
Por fim, a quarta parte: Terra, ao tronco que tomba o entalhe do cerne exala a vida respira. E vem “Renascimento”:
“Enlaço a terra – umbigo e raiz –
E arrebato o sêmen. Do caule, a chuva,
Desvio da seiva na estrada.
No cerne do tempo,
Sangria de silêncio a esvair-se em pedra,
Arde, represa, macera.
Desejo em floração de asas
Invade o sol. Novas espécies.
Sabores de vento em combustão
A fecundar a pele.
De pronto, amanhece!”.
O livro não está apenas reduzido a estes poemas. Os que aqui destaco, são alguns entre tantos poemas de magnífica poética. Tanto é que, sobre o livro, escreve Leda Miranda Hühne:
“O livro de Lea Madureira reúne em poesia os quatro elementos básicos que constituem o fluco da própria realidade. Eles revelam o modo de ser e de criar da poeta que se transforma em cada poema, manifestando-se em múltiplas formas. Por não haver navegado aponta o jogo em que ela se move entre os quatro elementos. Seus poemas mostram que ao longo da existência foi levada pelos ventos dos sonhos que, muitas vezes, faziam e se desfaciam nos ares. Arrastada pelo vigor da erupção do fogo incensou os seus ideais. E se enraizando nos tentáculos da portentosa terra, mergulhando nas águas geladas da infância foi germinando o mundo da poesia. Mas nesse mundo os quatro elementos começaram a se encontrar e se harmonizar e na sua palavra aparece a magia que arrasta a poeta para o reino da criação-navegação. Aí, o dizer poético transcende modelos e técnicas, de modo belo e significativo, se faz presente em diferentes formas, seja em soneto, verso livre, e outras modalidades. E a poesia de Lea expressa o seu livre rumo nas vias da linguagem, aberta a tantas interpretações”.
A autora também se manifesta sobre sua obra, dizendo que o livro “Vem das trilhas não percorridas, por opções várias. Vem dos rios que nos correm internamente e movem, com freqüência, a superfície. Vem dos questionamentos nunca respondidos, desde sempre, da infância. Se houve o isolamento, a insegurança, houve também a porta aberta para o mágico, a invenção, a natureza. Pela necessidade do estar-com-o-outro, a procura do diálogo. Nesse devenir, o poema singular de cada um poderá se fazer plural. E foi a isso que me propus”.
Então, “Por não haver navegado” é todo um caleidoscópico emanar da poeta Lea Madureira, por meio dos flagrantes que o seu processo de criação sintonizou entre o que existiu e o que poderia ter sido feito. E com um detalhe: não com o remorso, arrependimento ou julgando desventuras ou venturas. Muito pelo contrário, tudo se insinua na possibilidade do que foi, pelo que já é e o que poderá ser.
“Por não haver navegado” é um desses livros que nos embala às reflexões com a singeleza da poeta: a quem interessar possa, são as expressões pelos quatro elementos da sua poesia, numa oportunidade de conhecer extraordinária expressão de mulher. E, melhor ainda: a vida.
MADUREIRA, Lea. Por não haver navegado. Rio de Janeiro: UAPÊ, 2002.
Maiores detalhes sobre o livro, é só acessar: http://www.uape.com.br.
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