SobreSites > Poesia > Artigos > Palmares, a memória que resta da Terra dos Poetas
Página Inicial do Guia
Editorial
Portais Poéticos
Poetas Consagrados
Contemporâneos
Poeta do mês
Entrevistas
Resenhas
Artigos
Palmares
Bibliotecas Virtuais
Concretismo & Afins
Cordel
Haikai
Revistas Eletrônicas
Associações
Publique
Eventos & Concursos
Fórum
Fale com o Editor
  Poesia
Luiz Alberto Machado
Editor do seu Guia de Poesia na Internet
Pesquisa personalizada
PALMARES

Saiba das atualizações por e-mail

Palmares, a memória que resta da Terra dos Poetas

 

Por Luiz Alberto Machado

 

 

Dois são os motivos que me levam a tratar sobre Palmares neste artigo.

 

O primeiro, de ordem histórica e em razão do secular rio Una, palco das lutas dos quilombos, da Guerra da Praieira e da resistência das ligas camponesas na década de 60.

 

O rio Una, conforme encontrado nos registros recolhidos por Nieuhof (1948), Southey (1965), Coelho (1981), Maciel (1984), Tavares (1969), Albuquerque (1986), Porto (1981) Silva (1988), Moura (1983) e Freitas (1982), dentre outros diversos autores pesquisados, já explorado e navegável no período da colonização brasileira, notadamente quando a Marinha Mercante Francesa recolhia de suas margens o cobiçado pau-brasil. Além disso, foi cenário para as fugas dos negros quilombolas que, conforme mapa hipotético de Freitas (1982), a região palmarense estaria localizada na indicação do quilombo de Amaro. Também, conforme Porto (1981), foi cenário da Guerra da Praieira, quando recebeu o nome inaugural de terra de Trombetas, passando, posteriormente, a ser chamada de povoado dos Montes e, finalmente, Palmares.

 

O caudal do Una, como foi chamado pelo escritor Pelópidas Soares em artigo publicado no Diário de Pernambuco, tem sua nascente no município de São Bento do Una, terra do premiadíssimo escritor Gilvan Lemos e do cantor e compositor Alceu Valença, perseguindo sua trajetória margeando por completo a cidade palmarense, até desembocar no oceano Atlântico.

 

Do rio hoje apenas vê-se o seu completo assoreamento, quase completamente inexistindo nos períodos de verão, ressurgindo nos períodos chuvosos com intermitentes transbordamentos os mais violentos, invadindo tragicamente todos os municípios que se encontram às suas margens.

 

Nesta parte convém registrar os descasos constatados em todas as extensões pluviais do país, creditando-se às administrações públicas desastrosas pelo completo desrespeito histórico e aos sobreviventes moradores dessas áreas abandonadas.

 

Das administrações públicas de Palmares, excetua-se as administrações do prefeito Luis Portela de Carvalho, quando o município foi revigorado e restaurado, inclusive, com a criação da Fundação Casa da Cultura Hermilo Borba Filho, o tombamento da Casa do Alto do Inglês e a homenagem com a exposição do monumento a Ascenso Ferreira numa das entradas da cidade. No mais, as demais administrações, excetuando-se as intenções das de Francisco de Assis Rodrigues, foram talqualmente as demais administrações públicas desastrosas nos municípios brasileiros.

 

Já o segundo motivo é em razão do universo poético palmarense, tendo a figura de Ascenso Ferreira, por ter sido um dos representantes significativos do movimento Modernista brasileiro, o seu principal ícone.

 

Os demais nomes representativos palmarenses são os do escritor Hermilo Borba Filho e dos artistas plásticos, Darel Valença Lins e Murilo La Greca, dentre outros nomes de destaque na atualidade.

 

Este universo poético mereceu registro, numa iniciativa de seleção tomada e organizada pelo poeta Juarez Correia que, ao lado de Eloi Pedro da Silva, criou a Editora Palmares e publicou a primeira edição da antologia “Poetas de Palmares”, em 1973.

 

Nesta primeira edição destaca-se Ascenso Ferreira, um dos maiores poetas brasileiros de todos os tempos, autor de “Catimbó”, “Cana Caiana” e “Xenhenhém”.

 

Ao lado dele, o poeta, contista, ensaísta e pesquisador, Jayme Griz, autor, dentre outros livros, de “Rio Una” e “Negros”.

 

De Jayme Griz podemos destacar “Nordeste”:

 

Verão! / Sol quente de tinir! / Sol quente de rachar o chão! / De repente / Chuva / Chuva / Chuva / Chuva / Chuva / Chuva de danar a paciência! / Chuva de sapo pedir aos céus clemência!/ ......... /Mãe Natura endoideceu.... / E se ela, / que é mãe, / que é sábia, / que é única, / a cabeça perdeu..../ quanto mais eu..../ quanto mais eu....

 

Também merece destaque nesta primeira edição, o poeta Raymundo Alves de Souza, autor do livro organizado postumamente, Celeiros d´alma – antologia poética, sendo, ainda, protagonista de uma celeuma envolvendo a paternidade de Vinicius de Morais. Quando em vida, numa entrevista concedida a mim, Mauricio Melo Junior e Luiz Gulu de França, Raymundo recitou poemas, falou dos seus amores e de filhos que possuía e não conhecia. Logo após o poeta Juarez Correia também entrevistou o poeta registrando numa das edições da revista “Poesia”, a questão da paternidade de Vinicius de Morais. O que se sabe, inclusive narrado de viva voz, é que ele, Raymundo, um alfaiate Don Juan, teve entre as suas muitas e diversas namoradas, uma distinta jovem filha de usineiros de um estado vizinho. Ocorre que quando ela descobriu que ele era casado, ela já grávida enfureceu-se e mandou assassinar o poeta, tiro de espingarda que lhe pegou no braço causando apenas ferimentos. Mais tarde, o poeta recebe a visita de um cidadão que se dizia marido dela e queria que ele esquecesse o filho para sempre, selando um pacto. Disse ele quando ainda vivo, que tudo foi presenciado por Zezinho Quaresma que, inclusive, segundo depoimento do próprio Raymundo, foi quem ficou contactando Vinicius e os familiares dele. Questões de lado, o que fica é a poesia deste importante poeta palmarense, aqui destacando um trecho do seu “Velhice”:

 

Quando o meu derradeiro amor sucumbiu, /num grito eu perguntei, / atento, procurando, / o derradeiro afeto que fugiu: / Onde estão as mulheres que eu amei? / (....) Ocultas vivem talvez, / nas decepções do meu passado, / não sei. / Apesar de as ter procurado / com ressonâncias sutis de românticas baladas, / sinfonias de amores, de dor e de pecado / e nas meigas recordações / de uma voz, um beijo ou um sorriso / três poemas abraçados/ que nos momentos desgraçados / me levaram ao paraíso. / (...) Foram-se as quimeras no turbilhão dos ventos / ficando somente as saudades de outras eras.

 

Nesta primeira edição, dentre outros, ainda merecem destaque: o dramaturgo e poeta Fenelon Barreto, o escritor e poeta Artur Griz, o escritor, poeta e artista plástico Telles Junior, o poeta e professor Eniel Sabino de Oliveira e o poeta Afonso Paulins.

 

Na segunda edição, vem o prefácio do Hermilo Borba Filho, uma matéria publicada no Diário de Pernambuco, em outubro de 1973, ocasião da primeira edição da antologia, onde ele menciona a sua frase lapidar: “Palmares é a minha marca para toda a vida”.

 

Além do prefácio de Hermilo, esta edição vem acrescentada com poemas do teatrólogo e poeta Lelé Correia, do Manuel Bemtevi que aqui no Guia de Poesia já mereceu destaque noutra seção, do Aloísio Fraga, do professor, poeta e escritor Amaro Matias da Silva, Elita Afonso Ferreira, Ângelo Meyer, Sandra Lustosa, Leonilda Silva, Paulo Menezes, Wilmar Carvalho, dentre outros.

 

É conveniente também registrar que além da Antologia organizada por Juarez Correia, o trabalho de Gilberto Melo, Inez Koury, Arnaldo Afonso e outros, capitaneando a Editora Bagaço torna-se também responsável pelo resgate não só poético, como da literatura palmarense, proporcionando a publicação de livros, por exemplo, do premiado escritor Luiz Berto, as memórias do professor Brivaldo Leão, a literatura infantil de Elita Afonso Ferreira, Gilberto Melo e Mauricio Melo Júnior, dentre outros tantos títulos que figuram no catálogo desta editora que nasceu em Palmares e hoje é palmarense no Recife e no Brasil.

 

Assim, Palmares, uma cidade rodeada e penalizada pela monocultura da cana-de-açúcar, um município vítima de todas as coisas típicas das cidades pólos regionais, que possui um hino que diz “Palmares é canção da natureza, exortou certa vez Silva Jardim... “, que se dá ao luxo de ser desmemoriada, que já foi acusada de ser o Moscouzinho de Pernambuco, chega, por isso tudo, a ter, como diz o poeta Juarez Correia “mais poetas que poste para cachorro mijar”, devido a multiplicidade de doidos, verseiros, versejadores, cantadores, repentistas, maloqueiros e sabidos.

 

Saindo do campo da pilhéria, na verdade, Palmares está registrada nas duas edições da antologia dos seus poetas, nos catálogos da Editora Bagaço, nos anais da Fundação Casa da Cultura Hermilo Borba Filho e no trabalho resistente do Grupo Cultural dos Palmares – GRUCALP e da resistência dos artistas locais que insistem ainda manter viva a lembrança da menção de “Terra dos Poetas”.

 

BIBLIOGRAFIA:

ALBUQUERUQUE, Manoel Maurício. Pequena história da formação social brasileira. Rio de Janeiro: Graal, 1986.

BARBALHO, Nelson. Cronologia pernambucana. Recife: Fidem, 1982.

COELHO, Duarte. Memórias diárias da guerra do Brasil. Recife:PCR/SEC/Fundação de Cultura Cidade do Recife, 1981.

CORREIA, Juarez (Org.). Poetas de Palmares. Palmares: Palmares, 1973.

_______. Poetas dos Palmares. Recife/Palmares: FUNDARPE/Fundação Casa da Cultura Hermilo Borba Filho, 1987.

_______. Poemas de Ascenso Ferreira. Recife: Nordestal, 1981.

FREITAS, Décio. Palmares: a guerra dos escravos. Rio de Janeiro: Graal, 1982.

GRIZ, Jayme. Negros. Recife: Arquivo Público/ Imprensa Oficial, 1965.

LEÃO, Brivaldo. Memórias da noite e do dia. Palmares/Recife:Fundação Casa da Cultura Hermilo Borba Filho/ Editora Bagaço, 1987.

MACIEL, José de Almeida. Questões de toponímia municipal pernambucana. Recife: Centro de Estudos de História Municipal, 1984.

MOURA, Clovis. Os quilombos e a rebelião negra. São Paulo: Brasiliense, 1983.

NIEUHOF, Joan. Memorável viagem marítima e terrestre ao Brasil. São Paulo: Martins, 1948.

PORTO, Costa. Os tempos da praieira. Recife? PCR/SEC/Fundação de Cultura Cidade do Recife, 1981.

SABINO, Jessiva (Org). Ascenso Ferreira: Eu voltarei ao sol da primavera. Palmares/Recife: Fundação Casa da Cultura Hermilo Borba Filho/Secretaria de Educação do Estado de Pernambuco, 1985.

SILVA, Amaro Matias. Dos Palmares – extensão, lutas e fatos. Palmares/Recife: Gabaço, 1988.

SOUTHEY, Robert. História do Brasil. São Pauloo: Obelisco, 1965.

SOUZA, Raymundo Alves. Celeiros d´alma – antologia poética. Palmares/Recife: Bagaço, 1988.

TAVARES, Muniz. História da revolução pernambucana. Recife: Governo do Estado/Casa Civil de Pernambuco, 1969.

 


 

Projeto SobreSites | Sala de Imprensa | Usabilidade
Política de Privacidade | Condições de Uso | Torne-se Editor