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Luiz Alberto Machado
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TERRA DA GENTE PARAÍBA

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Sempre fui muito andejo. Isso vem desde meu avô paterno que foi administrador de engenho da cana-de-açúcar entre os estados do Rio Grande do Norte até na Bahia. Para se ter idéia, dos vários filhos que teve, quase, cada um é natural dum estado diferente compreendendo a extensão de sua pisada. Andou tudo e se fincou em Pernambuco onde eu nasci. Meu pai, também, sempre foi de botar o pé na estrada. Adorava mudar de casa. Num só município, em 10 anos, mudou mais ou menos 10 vezes de residência. E, na minha infância e adolescência, ele saía nos finais de semana atravessando fronteiras. Por causa disso, virei quase um errante para sempre estar em novas paragens.

 

Também sempre fui tocado pela magia da fotografia, isso desde tenra idade. Nada profissional, só para flagrar o momento e dali buscar o olhar diferente. Lembro das minhas caminhadas com violão nas costas, máquinas nas mãos, idéias a todo vapor e na companhia dos amigos Mauricio Melo Júnior, Ozi dos Palmares, Luiz Gulu de França, Célio Carneirinho Siqueira, Zé Ripe, Ângelo Meyer e outros amigos da adolescência, quando a gente saía de Palmares, a pé pelas ruas, arruados, estradas, engenhos, matas, rios, riachos e morros até a Serra da Prata, em Catende – entoando Ascenso Ferreira no “Trem das Alagoas”: “(...) Eu vou danado pra Carende, eu vou danado pra Catende, eu vou danado pra Catende com vontade de chegar!” -, quando de lá a gente via o espetáculo do espaço geográfico e a sensação daqueles que diziam: “Até onde a vista alcança, tudo é meu”. Não era a posse que nos interessava, era ter o privilégio de ver tudo aquilo ali ao alcance dos olhos: quase toda região Mata Sul de Pernambuco.

 

Um dia desses fui conhecer a Paraíba. Isso ao lado do professor João da Silva e, mais uma vez, do hoje jornalista Maurício Melo Júnior. Estávamos, à época, promovendo a IV Feira de Música, em Palmares, Pernambuco. Eu e Mauricinho éramos estudantes do colegial, ainda. O professor que levava a gente a conhecer as coisas de João Pessoa até Campina Grande. Foi o primeiro contato, isso pelos anos 70.

 

Mais tarde refiz essa viagem em dias alternados, saindo do litoral, passando pela Depressão e de lá pelas Serras, pelos Brejos até a Chapada da Borborema, chegando nos Cariris do Paraíba e, depois, do Piranhas. Segui pelo Sertão do Seridó e fui bater no Baixo Sertão atravessando a terra até o Alto Sertão. Rodei as 32 léguas de costa, da foz do Igaraçu até a baía da Traição. Depois, quase transitei integralmente, leste-oeste, os 56.372m 2 de extensão do estado paraibano. Na verdade, eu apenas estava conhecendo mais de perto a terra de José Lins do Rego, de Augusto dos Anjos, de José Américo de Almeida, de Ariano Suassuna, Bráulio Tavares, Celso Furtado, Sivuca, Jacson do Pandeiro, Paulo Pontes, João Câmara, Ipojuca Pontes, Chico César, Zé Limeira, Zila Mamede, José Nêumane Pinto, Elba Ramalho, Cátia de França, Geraldo Vandré, dentre outros que li, reli, curti e sempre apreciei. Eu encontrava a expressão dessas pessoas impressa nos flagras que me embevecia desde o que se sabia da resistência dos potiguaras nas lutas contra a invasão do colonizador, até imagens das várzeas do litoral do Cabo Branco, das ruas da Filipéia de Nossa Senhora das Neves hoje João Pessoa, das esquinas de Campina Grande, das serras, caatinga, agreste, bangüês, brejos serranos, artesanato, cantoria de viola, cordéis, repentes, miscigenação, Festival da Cachaça e da Rapadura, enfim, em cada rincão da terra cantando “(...) Hoje mando um abraço pra ti pequenina, Paraíba masculina, muié macho, sim senhor” (Paraíba, de Luiz Gonzaga & Humberto Teixeira).

 

Hoje quando me deparo com o livro-álbum “Terra da Gente Paraíba – Fotografia”, de Guy Joseph, duas sensações aprazíveis me ocorrem. A primeira delas, a saborosa lembrança de ter nas minhas andanças a oportunidade de curtir o povo, a fala, a poesia e as paisagens paraibanas. E a segunda, a impressão do poeta inglês W. H. Auden, ao expressar que: “A função primordial da poesia como a de todas as artes é ampliar a consciência que temos de nós mesmos e do mundo à nossa volta. Não sei se essa consciência ampliada nos torna pessoas mais corretas ou mais eficientes: espero que não. Mas acho que nos torna mais humanos...” que, surpreendentemente está na epígrafe do texto de apresentação do livro e que foi escrito pelo editor Carlos Cordeiro de Melo. Evidentemente que esta não é a única coincidência, mas uma das agradáveis coincidências que fui constatando ao longo dessa luxuosíssima e maravilhosa publicação.

 

O editor mencionado, além dessa citação, escreve “No instante do clique, o mistério da fotografia”, apresentando a obra: “(...) Essas fotos, em sua rica variedade, em sua luxuriante beleza, não se detêm em um tema único. Elas captam o dia-a-dia das pessoas anônimas, seu trabalho, seu vai-e-vem nas ruas, suas festas religiosas; seu carnaval, suas brincadeiras e folias. (...) Não são fotos documentais. (...) As fotos falam por si, não necessitam de nenhuma retórica para explicá-las ou apoiá-las. A gente Paraíba é assim, como toda gente. Vive sua vida, trabalha, luta, ri, chora, dança, abraça e briga”. E é exatamente isso que o leitor vai encontrar na reunião que o autor expõe nas páginas coloridas do volume. Ou melhor, como bem disse o jornalista Petrônio Souto: “(...) Guy parece ter sido iluminado pelos deuses da fotografia, no momento em que elegeu o que deveria ser captado pelas suas lentes. Nessa tarefa ele possui a serenidade de um oriental que, curtindo o pôr-do-sol, saboreia uma taça do melhor vinho. As fotos, todas elas, revelam também certa dimensão mágica”. E reitero: é isso mesmo.

 

O livro, Terra da Gente Paraíba- Fotografia, é o resultado de uma peregrinação iniciada em 2003, por pouco mais de dois anos e meio de viagens percorrendo todo o estado para registrar a terra, a gente e a cultura na Expedição Terra da Gente Paraíba, realizada pelo artista plástico, designer-gráfico e fotógrafo paraibano, Guy Joseph, reunindo 215 fotos em 136 páginas recheadas por surpreendentes imagens coloridas.

 

O autor que cursou Desenho e Pintura no Setor de Artes Plásticas do antigo Depto. Cultural da UFPB e, também, Artes Gráficas na Escola de Artes Gráficas do SENAI, no Rio de Janeiro, já trabalhou em agências de propaganda, exercendo a função de Diretor de Arte, além de arrebatar vários prêmios e realizar exposições no Rio de Janeiro, São Paulo e Paraíba. Em 1968 lançou seu álbum "América, América", com serigrafias e, em 1987, editou a revista Em Dia, ao lado do poeta Juca Pontes, publicação circulou durante quatro anos. E adotou a fotografia digital, há oito anos trazendo, agora, o livro-álbum “Terra da Gente Paraíba”, reunindo depoimentos dos jornalistas Petrônio Souto, Carlos Cordeiro de Mello, José Nêumanne Pinto, Evandro da Nóbrega, Juca Pontes e do fotógrafo João Lobo Maia que é, também, o responsável pela edição de fotografia do volume.

 

Sobre o autor, escreveu o poeta e jornalista gaúcho radicado na Paraíba, Lau Siqueira: “Misturando arte e vida, esse cidadão do arco-íris se percebe explodindo nos mistérios da sua própria condição de gente, tecendo imagens que se formam nos olhos de um público ainda restrito ao mundo das listas de discussões cibernéticas sobre a cidade de João Pessoa e suas belezas tangidas pelos cancros administrativos. Uma leitura lúdica da realidade dos rios semi-mortos emoldurados em selos ou telas virtuais que misturam sensualidade e exatidão do infinito. Como diria o poeta e artista plástico baiano, Almandrade, em Guy se encontra "a poesia do olhar". As aves do deslumbramento agregam seus ecos leves e concisos no que o artista baiano define como poesia visual: "a poesia como objeto do olhar". A obra de Guy Joseph se mostra em uma miríade de roupagens que transcendem todos os conceitos de virtual. O "texto" do artista caminha pela membrana incerta do que se pode ver sem saber se o quanto do tudo que se vê, realmente existe. Estamos, penso, diante de um momento de magia”.

 

Sobre o livro escreveu o poeta e jornalista José Neumânne Pinto: “A fotografia de Guy Joseph delata e trai o artista plástico que a produz. Ela não reproduz simplesmente a realidade do ângulo do olho de quem a vê, mas ressalta as formas que dela emergem, como se estas fossem frutos suculentos da imaginação de um pintor ou escultor, com uma câmara à mão e formas no quengo. (...) As imagens captadas pela lente sensível de Guy são uma exaltação ao bom gosto e ao senso de organização especial da inteligência privilegiada de uma Entidade Suprema que possa ser responsabilizada pela criação da natureza. (...) A sensação de ver estas fotos é a de conviver com aquela beleza toda sem sequer a ter percebido. E o impulso irrestivel é sair e rever todos os ligares flagrados com calma, altenção e uma mãozinha dada pelo olho privilegiado deste poeta da imagem...”.

 

A impressão que se tem ao apreciar a obra é conferida com indefinível emoção manifestada diante da espantosa e magistral forma de olhar as coisas e entes mais naturais, com a singeleza da alma apreciadora, investigativa, poética. As andanças e o olhar que se fazem registrando cada close, cada perspectiva, cada imagem capturada perfazem a riqueza do caleidoscópio paraibano que passaram nos olhos, lentes e sentimentos de Guy Joseph e demonstram o tamanho do seu coração.

 

A arte de Guy Joseph pode ser conferida na rede nos endereços: http://www.terradagenteparaiba.com/ e nos blogs http://paraibartesplasticas.blogger.com.br/ e http://www.infogravuras.blogger.com.br/.


Luiz Alberto Machado

 

 

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