“Casei,
descasei, namorei, alonguei o corpo e dancei
entre o som agudo das hortências
e o grave dos gerânios. Era 1968: o tumultuado
ano das descobertas políticas. Deus não
podia me ver lendo Mão Tse Tung. Algum de
seus anjos poderia me denunciar. Então afastei-me
d´Ele. Ele não existia. ´A religião é o ópio
do povo`. Meus passos ateus percorreram dezenas
de passeatas, centenas de asembléias e fiquei
só. Mais só do que em qualquer situação
da minha vida ”. Risomar Fasanaro, in: Eu:
primeira pessoa, singular.
Era
aproximadamente 17 horas, quando eu retornava da
caminhada na orla de Maceió depois de um
dia de trabalho intenso, quando, ao divisar vizinhos
na portaria do meu prédio, fora instado pela
chegada de um volume entregue pelos correios.
Agradeci
ao porteiro, cumprimentei os presentes, mas como
estava pra lá de esbaforido e molhadíssimo
de suor, logo corri para a escadaria e cheguei no
meu apartamento que fica no primeiro andar.
Meio
azougado depositei na escrivaninha o volume postado
e outras coisas que trouxera no bolso da bermuda,
me livrei do tênis, tirei as meias,
arranquei a camisa ensopada e passei inutilmente
pelo rosto na tentativa de demover o suor que me
ardia nos olhos.
Tomei
um copo d´água ainda ofegante
da caminhada diária e fui para o chuveiro
tomar aquele banho demorado para um completo restabelecimento.
Refrescante
banho tomado, foi então
que me enxuguei e vesti uma outra bermuda limpa enquanto
esfregava os cabelos com a toalha e fui ver as coisas
que haviam chegado na escrivaninha.
Remexendo
nas coisas, cheguei no volume. Nem olhei direito
quem havia postado. Abri e vi um título
sintomático. Pegou-me na veia e de cheio.
Uma
dedicatória amável estava
ali com uma caligrafia daquelas bonitas e caprichadas
que mais ainda me cativou grudando minha atenção.
Revirando
as páginas encontrei logo
uma citação de Clarice Lispector: “ Escrevo
neste instante com algum prévio pudor por
vos estar invadindo com tal narrativa tão
exterior e explícita. De onde no entanto até sangue
arfante de tão vivo poderá quem sabe
escorrer e logo coagular em cubos de geléia
trêmula. Será essa história um
dia o meu coágulo? ”. Clarice, sempre
Clarice.
Folheei
ainda desatento e fui lendo a primeira página da história. Agarrei-me e não
mais desgrudei. Mudei de poltrona e preguei os olhos
no que estava sendo narrado.
Lá pelas 23:30 horas eu havia, de um
fôlego só, consumido as 142 páginas
com um dos maiores deleites que já tive na
vida. Estava, confesso, mais que deliciado e com
tudo remoendo na cabeça: cenas, fatos, coisas
hilárias. E olhe que eu já li um bom
bocado. Mas tudo me tocou: o título da obra,
a epígrafe da Clarice e a forma singela, simples
e graciosa com que a autora narrou toda história.
Umas
coisas me apegavam ao livro: as imagens do meu
Pernambuco. Outras coisas jocosíssimas
como o tio abofelado: “ Vendo esta merda ”.
Ou a serviçal que batia o pé dizendo: “ Coloquei
sim sal no feijão, coloquei; só se
tiraram” . Isso afora imagens de Socorro, do
Cabo de Santo Agostinho, o encontro com o mar em
Gaibu, os casamentos, a militância política
nas décadas de 60 e 70, os recomeços
e tropeços, a detenção por tirar
uma foto de um quartel, a literatura, a música,
a repressão, nossa! Quanta coisa, tudo fascinantemente
narrado com simplicidade, singeleza e graça,
reitero.
Tanto é que, só ao final, cheguei
a ver que o José Louzeiro, o Deonísio
Silva e o Ignácio de Loyola Brandão,
nomes destacados que compuseram o júri e avalizaram
que o texto tornou-se vencedor do IV Prêmio
Teresa Matin de Literatura, promovido pelo Instituto
Educacional Teresa Martin e Universidade Federal
de São Carlos, editoras do livro através
da Série Literatura Brasileira – Obras Premiadas,
assinalando na contra-capa ser “ uma
obra que, certamente, encantará o leitor ”.
E me encantou.
Foi
aí que voltei à capa do
livro e encontrei a razão de logo sentir uma
empatia evidente com o volume. Estava claro, com
um título desses, não havia como ser
de outro jeito e é só constatar: “Eu:
primeira pessoa, singular ”.
Autora: Risomar Fasanaro. Anotem título e
autora. E, com certeza, ao se deterem com a narrativa
saberão a razão do meu deleite.
Obrigado,
Risomar Fasanaro, pela oportunidade de conhecer
o “ Eu: primeira
pessoa, singular ”. Nada mais
posso dizer, apenas agradecer. E, aqui, estou aplaudindo
de pé.
Luiz Alberto Machado
Maceió,
14 de janeiro de 2004.
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