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Luiz Alberto Machado
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EU: PRIMEIRA PESSOA, SINGULAR

 

Casei, descasei, namorei, alonguei o corpo e dancei entre o som agudo das hortências e o grave dos gerânios. Era 1968: o tumultuado ano das descobertas políticas. Deus não podia me ver lendo Mão Tse Tung. Algum de seus anjos poderia me denunciar. Então afastei-me d´Ele. Ele não existia. ´A religião é o ópio do povo`. Meus passos ateus percorreram dezenas de passeatas, centenas de asembléias e fiquei só. Mais só do que em qualquer situação da minha vida ”. Risomar Fasanaro, in: Eu: primeira pessoa, singular.

 

Era aproximadamente 17 horas, quando eu retornava da caminhada na orla de Maceió depois de um dia de trabalho intenso, quando, ao divisar vizinhos na portaria do meu prédio, fora instado pela chegada de um volume entregue pelos correios.

Agradeci ao porteiro, cumprimentei os presentes, mas como estava pra lá de esbaforido e molhadíssimo de suor, logo corri para a escadaria e cheguei no meu apartamento que fica no primeiro andar.

Meio azougado depositei na escrivaninha o volume postado e outras coisas que trouxera no bolso da bermuda, me livrei do tênis, tirei as meias, arranquei a camisa ensopada e passei inutilmente pelo rosto na tentativa de demover o suor que me ardia nos olhos.

Tomei um copo d´água ainda ofegante da caminhada diária e fui para o chuveiro tomar aquele banho demorado para um completo restabelecimento.

Refrescante banho tomado, foi então que me enxuguei e vesti uma outra bermuda limpa enquanto esfregava os cabelos com a toalha e fui ver as coisas que haviam chegado na escrivaninha.

Remexendo nas coisas, cheguei no volume. Nem olhei direito quem havia postado. Abri e vi um título sintomático. Pegou-me na veia e de cheio.

Uma dedicatória amável estava ali com uma caligrafia daquelas bonitas e caprichadas que mais ainda me cativou grudando minha atenção.

Revirando as páginas encontrei logo uma citação de Clarice Lispector: “ Escrevo neste instante com algum prévio pudor por vos estar invadindo com tal narrativa tão exterior e explícita. De onde no entanto até sangue arfante de tão vivo poderá quem sabe escorrer e logo coagular em cubos de geléia trêmula. Será essa história um dia o meu coágulo? ”. Clarice, sempre Clarice.

Folheei ainda desatento e fui lendo a primeira página da história. Agarrei-me e não mais desgrudei. Mudei de poltrona e preguei os olhos no que estava sendo narrado.

Lá pelas 23:30 horas eu havia, de um fôlego só, consumido as 142 páginas com um dos maiores deleites que já tive na vida. Estava, confesso, mais que deliciado e com tudo remoendo na cabeça: cenas, fatos, coisas hilárias. E olhe que eu já li um bom bocado. Mas tudo me tocou: o título da obra, a epígrafe da Clarice e a forma singela, simples e graciosa com que a autora narrou toda história.

Umas coisas me apegavam ao livro: as imagens do meu Pernambuco. Outras coisas jocosíssimas como o tio abofelado: “ Vendo esta merda ”. Ou a serviçal que batia o pé dizendo: “ Coloquei sim sal no feijão, coloquei; só se tiraram” . Isso afora imagens de Socorro, do Cabo de Santo Agostinho, o encontro com o mar em Gaibu, os casamentos, a militância política nas décadas de 60 e 70, os recomeços e tropeços, a detenção por tirar uma foto de um quartel, a literatura, a música, a repressão, nossa! Quanta coisa, tudo fascinantemente narrado com simplicidade, singeleza e graça, reitero.

Tanto é que, só ao final, cheguei a ver que o José Louzeiro, o Deonísio Silva e o Ignácio de Loyola Brandão, nomes destacados que compuseram o júri e avalizaram que o texto tornou-se vencedor do IV Prêmio Teresa Matin de Literatura, promovido pelo Instituto Educacional Teresa Martin e Universidade Federal de São Carlos, editoras do livro através da Série Literatura Brasileira – Obras Premiadas, assinalando na contra-capa ser “ uma obra que, certamente, encantará o leitor ”. E me encantou.

Foi aí que voltei à capa do livro e encontrei a razão de logo sentir uma empatia evidente com o volume. Estava claro, com um título desses, não havia como ser de outro jeito e é só constatar: “Eu: primeira pessoa, singular ”. Autora: Risomar Fasanaro. Anotem título e autora. E, com certeza, ao se deterem com a narrativa saberão a razão do meu deleite.

Obrigado, Risomar Fasanaro, pela oportunidade de conhecer o “ Eu: primeira pessoa, singular ”. Nada mais posso dizer, apenas agradecer. E, aqui, estou aplaudindo de pé.

 

Luiz Alberto Machado

Maceió, 14 de janeiro de 2004.
 

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