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Cristiane Grando
O contato com a Cristiane Grando nasceu duma conversa que se prolongou por quase 3 anos. Foi quando tive a idéia de fazer uma homenagem aqui no Guia de Poesia para Hilda HIlst. A conversa circulou e foi se estreitando até chegar na jornalista Ana Lucia Vasconcelos (veja a entrevista dela aqui no Guia) e no poeta Tchello d´Barros (Veja também a entrevista dele aqui no Guia). E foi exatamente por intermédio do Tchello que cheguei na Cristiane Grando que gentilmente me concedeu esta entrevista.
A Cristiane Grando é poeta, fotógrafa, tradutora e pesquisadora nascida em Cerquilho, São Paulo, fez doutorado em Letras pela USP e especializou-se na obra de Hilda Hilst, pos-doutoranda da Unicamp e foi laureada UNESCO/Aschberg em 2002. É diretora do Jardim das Artes, um espaço cultural e residência internacional de artistas, na sua cidade natal. É autora dos livros “Caminhantes” (2004) e “Fluxus” (2005), tendo vários trabalhos publicados e traduzidos em vários países. Também é professora convidada na Universidad Autônoma de Santo Domingo – UASD, República Dominicana.
Com você, Cristiane Grando:
GP - Cristiane, primeiro a pergunta de praxe: como e quando foi seu encontro com a arte, com a poesia?
O encontro decisivo se deu num curso sobre Manuel Bandeira, no primeiro ano de faculdade na USP. O professor Joaquim Aguiar encaminhava as aulas de uma forma tão apaixonada, brilhante, que decidi ser poeta. Antes disso, a professora Cinira Módena, de Cerquilho, também despertou em mim o gosto pela leitura e pela literatura de uma forma mais intensa da que já me freqüentava. Sempre gostei dos livros, desde criança. Mas minha biblioteca pessoal na infância era bastante pequena. Sempre incentivo as crianças a começarem suas bibliotecas, mesmo que seja com meia dúzia de livros. Hoje perdi as contas de quantos livros tenho, o que me deixa feliz pois meu sobrinho, Guilherme, tem duas bibliotecas à sua disposição: a dele e a minha. E fica maravilhada, olhando para o alto das estantes repletas de livros.
GP - Você é poeta e tem 2 livros publicados: Caminantes (2004) e Fluxus (2005). Fala um pouco da sua atividade poética, do seu trabalho com a poesia.
Escrever é uma questão de vida. É o ar que respiro. Poderia resumir assim. Sem a leitura, a escritura e as artes em geral, sinto que estou morrendo. Caminantes e Fluxus são meus primeiros livros publicados. Tenho muitos outros que são inéditos. Caminantes escrevi em Marnay-sur-Seine, na França, em francês e português, graças à bolsa UNESCO-Aschberg, que ganhei em 2002. Fluxus escrevi em Castro, Ilha de Chiloé, no Chile, graças ao convite do poeta Mario García para participar de um encontro de escritores em 2004. Esses dois livros contaram com o apoio de muitos amigos e familiares para chegarem à publicação, principalmente Jorge Bercht e os tradutores Leo Lobos (espanhol), Espérance Aniesa (francês), Levana Saxon (inglês), Pere Bessó (catalão). No momento, sou professora de Língua Portuguesa e Cultura Brasileira na Universidad Autónoma de Santo Domingo (UASD), República Dominicana. Na ocasião da X Feria Internacional del Libro, em abril de 2007, publiquei Fluxus y otros poemas / e outros poemas. Devo meus agradecimentos a todos os que me apoiaram, principalmente a Maria do Carmo Souza, Osvaldo Pizzá e Ronaldo Edgar Dunlop, Agregada Cultural, Conselheiro Cultural e Embaixador do Brasil em Santo Domingo, respectivamente; a Jorge Bercht, Espérance Aniesa, Melania Yens, Juan Miguel Bautista, Julio César e Marisol Báez, Aparecida Zanetti Grando, minha mãe, e Fabiana Grando, minha irmã.
GP - Você também é tradutora, além de ser traduzida e possui trabalhos poéticos em inglês, francês, castelhano e catalão. Fala dessa sua atividade de tradutora e da relação de sua poesia em português e com outras línguas.
Traduzir me proporciona o mesmo prazer que escrever. Por isso busco sempre traduzir... também para aprender outras formas de expressão. Minha poesia tem uma proposta política quando busco valorizar o amor (e indiretamente um mundo de paz), quando proponho ao ser humano pensar sobre a sua vida e a forma como se organiza a sociedade, mas ainda não encontrei uma vertente para escrever poesia social, por exemplo, o que me encantaria. Neste momento, estou traduzindo Hay un país en el mundo, do poeta dominicano Pedro Mir (1913-2000). Traduzindo Pedro Mir, realizo meu sonho de escrever poesia social.
Como publico meus livros em vários idiomas numa mesma edição, as traduções acabam influenciando o texto de origem. Há um verdadeiro diálogo entre o que escrevo em português e as traduções ao francês e espanhol, línguas que domino. Algumas vezes soluções poéticas das traduções – que os tradutores encontram ou que eu mesma encontro ao fazer parceria nesse trabalho – acabam gerando modificações nos versos em português.
GP - Também consta que você é fotógrafa. Qual a relação da fotografia com a sua poesia? Fala a respeito dessa sua atividade.
Escrever poesia, fotografar e ir ao cinema têm efeitos terapêuticos em mim. Se estou triste, às vezes consigo relaxar e mudar meu estado de ânimo ao fotografar ou ir ao cinema; outras vezes a inquietude interna aumenta tanto que explode em criação literária. Quase sempre que faço fotos, entro em estado de encantamento: com a fotografia, busco enfocar o que há de belo na vida. Na literatura, sobretudo nos contos, me permito buscar o lado escuro do ser humano. Mas me encanta muito também o lirismo.
A capa de Caminantes e as imagens internas são fotos que realizei em Marnay-sur-Seine, enquanto escrevia o livro; a capa de Fluxus é uma foto que realizei em 2003, que fala muito do conteúdo do livro, apesar de não ter sido clicada com a intenção de ilustrá-lo; a capa de Fluxus y otros poemas é uma reprodução de um óleo sobre tela que realizei em 1998. Busco ao máximo integrar meu trabalho poético e visual. Um projeto que pretende unir foto e poesia desenvolvi em Châtres, na França, e permanece inédito por falta de verba para publicá-lo. O livro se chama Uma brasileira no Paraíso / Unne brésilienne au Paradis, e conta com tradução ao francês de Espérance Aniesa. Devo meu coração à família Aniesa pois vivemos três meses de 2006, em Châtres, de puro amor, muita risada, vinho e champanhe. E queijos, é claro! Vivíamos em contato com a natureza: as flores, as frutas, a horta de Zebio, os pratos divinos preparados por Lolita e Espérance. Lá vivi em família mas tinha tempo para sentir a solidão e a liberdade vivendo em harmonia dentro de mim (... a cidade tem apenas 600 habitantes). Lá senti uma abertura ao desenvolvimento espiritual muito grande... colhi frutos do que vinha buscando há anos graças à delicadeza de meus amigos-familiares de Châtres. Lá aprendi a colher framboesa, transformada em experiência poética: “fotografias na memória e nas paredes:/ conhecer a pele macia e vermelha/ e a doçura de colher framboesas”.
GP - Como pesquisadora, você realizou estudos, envolvendo mestrado e doutorado, inclusive o seu pós-doutorado é a respeito da obra e dos manuscritos de Hilda Hilst. Fala a respeito dessas suas pesquisas.
Iniciei meus estudos sobre Hilda Hilst quando ela não era tão conhecida como hoje. Não que ela fosse uma desconhecida, mas se você perguntasse para estudantes de Letras sobre essa autora, a maioria deles não sabia quem era. A Hilda passou a ter mais leitores depois de sua morte, em 2004. Infelizmente muitas obras-primas passam a ser lidas e estudadas depois da morte de seu autor. Por isso valorizo muito a literatura contemporânea e na medida do possível faço traduções ou trabalhos em parceria com escritores vivos. Um exemplo é a exposição que está nesse momento no Jardim das Artes: “Visões fantásticas: desenhos de Valdemar Grando, poemas de Wilmar Silva” (até 30 de junho de 2007). O Valdemar mora em Cerquilho; o Wilmar é mineiro, mora em Belo Horizonte e em meu coração. Os dois são grandes artistas. Voltando à Hilda Hilst: meu mestrado e doutorado foram desenvolvidos na FFLCH-USP e meu pós-doutorado no IFCH-UNICAMP. O estudo dos manuscritos ampliaram minha forma de ver sua obra, especialmente com o desejo de traduzi-la (ao francês e ao espanhol).
GP - Como você vê a Literatura de Hilda Hilst?
A literatura de Hilda Hilst? Múltipla: poesia, teatro, prosa ficcional, crônica. Profunda: fala da literatura, da vida, dos sonhos, das esperanças e desesperanças, entre milhões de outras formas de tocar a alma de um leitor. É apaixonante, assim como foi sua vida. Questionadora, como foi a própria escritora: questiona a linguagem e os padrões convencionais de viver.
Resumindo, Hilda Hilst é um gênio da literatura brasileira.
GP - Você é diretora do Jardim das Artes. Fala a respeito deste espaço cultural e residência internacional de artistas.
Sou a idealizadora e fui a primeira diretora do Jardim das Artes. Atualmente, o diretor é o arquiteto Jorge Bercht. O Jardim das Artes é um projeto que realiza eventos culturais para Cerquilho e região; leva artistas de várias partes do Brasil para a minha cidade natal (para o Jardim das Artes e para escolas públicas). Até o momento, todas as atividades foram gratuitas. Se contarmos com patrocinadores, essa característica do Jardim das Artes poderá se manter. Funciona como espaço cultural por enquanto, mas no futuro temos a intenção de ampliá-lo: será uma residência internacional de artistas, num sítio que está muito próximo da cidade. O Jorge Bercht permitiu que esse projeto fosse realizado muito antes do que eu sonhava: cedeu duas salas de sua casa, onde funcionam as exposições, palestras, encontros culturais. A mãe do Jorge, a artista Dona Nenê Bercht e seu marido, recebiam artistas internacionais em sua casa, em Porto Alegre, quando o Jorge era pequeno. Ele se identificou com meu projeto não somente nesse sentido, mas também por ter vivido na França, ser artista, apreciar o belo, cultivar a arte e os sonhos. Desde que nos conhecemos, em 2002, trabalhamos juntos e somos grandes amigos. O poeta Wilmar Silva diz que o Jorge Bercht é a primeira maravilha do mundo. Concordo plenamente.
GP - Como estamos conversando para o Guia de Poesia, um veículo virtual, gostaria de saber a sua opinião a respeito da poesia e da arte na Internet.
Há muitos textos e manifestações artísticas excelentes difundidos pela internet, mas há de se considerar que o “navegante” há de saber selecionar porque também há textos e imagens muito ruins sendo veiculados, não somente na internet, mas na televisão também. Os professores, na atualidade, deveriam se preocupar mais em formar leitores críticos de textos e do mundo, seres humanos que saibam selecionar o que há de bom na vida e na tela (do computador e da TV) – e que saibam num segundo momento desfrutar o belo e reeducar-se constantemente.
GP - A seu ver a Internet tem contribuído para a difusão das Artes, notadamente da Poesia e dos estudos literários?
Certamente. A internet facilita muitíssimo o acesso aos textos literários e às diversas modalidades artísticas. Para quem viaja muito, o uso da internet é fundamental, porque infelizmente não se pode carregar uma biblioteca enorme nas costas, ou melhor, nas malas. Mas nada substitui o prazer de ler um livro, de apreciar a textura do papel, a diagramação. Há muitos sites e revistas virtuais que também valorizam a forma de apresentar seus conteúdos aos leitores, mas há de se considerar que a leitura na tela do computador cansa os olhos muito mais rapidamente. Há de se considerar também que existem muitos erros de digitação, de ortografia e dados incorretos difundidos pela internet. É preciso muitas vezes consultar vários sites para ter certeza de que uma informação está correta. A menos que seja um site confiável, coordenado por pessoas responsáveis, cujo trabalho e reputação você conhece de antemão.
GP - Quais os projetos que Cristiane Grando tem por realizar? Quais as suas perspectivas?
Os projetos são muitos. Neste momento, estou me dedicando especialmente à criação de um novo livro de poemas: Meu país. Escrever poesia sempre é motivo de júbilo. Quando me mudei para Santo Domingo, vários amigos me escreviam e-mails, querendo saber das novidades da República Dominicana. Uma questão que se repetia muito: eles queriam saber se eu tinha tempo para dedicar-me à criação literária. Podem ficar tranqüilos! Vivo numa casa onde reina a paz, com uma dominicana muito especial: Dueña Lydia. Ela me oferece todo o conforto e o silêncio que necessito para escrever. Conforto: um jardim repleto de orquídeas! ... espaço para caminhar quando quero sair do mundo interior onde moro enquanto estou escrevendo. Silêncio, silêncio, o silêncio... e algumas palavras...
prece
a mim
só me resta o silêncio
falar com os olhos
sonhar o tudo
e te querer mais que o pensamento
porque as palavras
no agora
não trariam felicidade
apenas desejo
então peço bênçãos
e silêncio
para seguirmos sendo
porque as palavras
não dão conta
do sentimento
que diante dos olhos tenho
imersa nesse amor imenso
Cristiane Grando
crisgrando"arroba"yahoo.com.br
Obrigado, Cristiane.
Para conhecer mais da Cristiane Grando, acesse:
http://www.germinaliteratura.com.br/cristiane_grando.htm
http://www.germinaliteratura.com.br/pcruzadas_triptico_cg_jun07.htm
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