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Cyana Leahy, escritora e pesquisadora, PhD em Educação Literária, autora de obras literárias e acadêmicas que já recebeu prêmios no Brasil e no exterior, além de tradutora e editora.
GP - Cyana, vamos começar por algumas coisas que achei curiosas demais. A primeira: como é essa coisa de niteroiense soteropolitana?
É simples: filha de um casal baiano-irlandês, nasci em Salvador, mas, ainda antes de aprender a falar 'mainha', Hilton e Cypri se mudaram para o Rio de Janeiro e, depois de alguns anos, para Niterói. Tinha eu 04 anos de idade, e Niterói se tornou minha terra. É uma geografia entranhada em mim, da qual morro de saudades sempre que me afasto, ainda que temporariamente. Então, se meus documentos informam que minha naturalidade é baiana, meu coração e alma são niteroienses.
GP - Outra coisa: como é isso de uma pianista erudita abandonar a música pela literatura?
Comecei a tocar piano também aos 04 anos de idade, quando ganhei meu primeiro piano, um Kingswood, e nunca mais parei de tocar. Aos 17 anos já havia terminado o curso, e fui para a Escola Nacional de Música (da atual UFRJ). Lá me formei, e passei a me dedicar a compor repertório erudito, com a firme intenção de ser concertista. Mas era ainda mais difícil naquela época... Morei nos EEUU, dei alguns concertos por lá, sempre com entrada franca (ou não teria platéia), mas me cansei da solidão do intérprete, da imensa responsabilidade, da busca do toque ideal e da performance perfeita. Sou um ser movido pela imperfeição! Voltando para o Brasil, abandonei a carreira, cursei Letras na UFF, e mudei meu rumo. Tive um professor de 'alta interpretação pianística' (o nome é pomposo) que me recomendava viver 'com' a música, jamais 'da' música. Ele estava certo. Vivo com ela até hoje, sem cobranças de parte a parte. Embora toque mal, com técnica deficiente, correr os dedos pelo teclado me enche de felicidade. Levanto do piano uma pessoa melhor, em paz. Equivale a uma boa sessão de análise...
GP - Falando em literatura e como este é um Guia de Poesia, então pergunto: como se deu seu encontro com a literatura, com a poesia? Quais as influências marcantes que lhe levaram para a poesia, para a literatura?
Venho de uma família de leitores, e isso foi fundamental. Meus pais me presenteavam com livros desde pequena, e aprendi a ler informalmente, no colo da minha mãe, lendo letreiros de rua, aos quatro anos de idade. Então, a literatura sempre existiu em minha vida. Minha irmã, que é da área médica, é uma grande leitora, lê por puro prazer.
Descobri a poesia como expressão da força interior por volta dos 12, 13 anos. Um dia, eu estava à janela, vendo pessoas fugirem de um temporal que desabava na cidade, quando tudo o que eu queria era estar sob aquela chuva, admirando a beleza dos relâmpagos, o som majestoso das trovoadas. Então, escrevi meu primeiro poema, uma coisa horrível que dizia 'tantos correm em tantas ruas/ mas correm por quê?/ Fogem/ quando deveriam ficar/ deixando que a chuva lavasse de suas almas/ tudo o que há de triste e ruim'... Veja você...
Tive uma professora na escola, Irma Alvarez Pinto, que foi fundamental para que eu escrevesse, apoiando, entendendo, incentivando, numa fase da vida em que é tão fácil desistir de qualquer coisa, basta o estímulo certo ou errado. Da minha mãe nem falo, pois sempre foi minha maior incentivadora, mas... santo de casa não faz tantos milagres assim, certo? Meu pai morreu cedo, antes da minha adolescência. Deixou o legado da leitura.
GP - Você já ganhou diversos prêmios no Brasil e no exterior, muitos deles pelo seu trabalho acadêmico proeminente, uma vez que você é mestre em Educação e doutora em Educação Literária. Como a intelectual articula a veia artística com o acadêmico, cada qual na sua área ou se complementam?
Não há ser humano unidisciplinar, não é mesmo? Minhas influências vêm de casa - Cypriana, minha mãe, era professora universitária na área de Letras, e foi um marco em seu tempo, segundo seus ex-alunos. A necessidade de escrever veio de dentro, talvez por ter sido filha única durante quase cinco anos, uma criança tímida e solitária. Adolescente, a perplexidade diante do mundo era canalizada e expressa na palavra, mais do que através da música, que se tornou canal emocional importante para mim na idade adulta. Eu convivo bem com o lado acadêmico, mais construído, e o lado artístico, mais intuitivo, e vejo traços dos dois em tudo o que faço. O problema é a 'academia', que cria compartimentos estanques e intransponíveis: ou você pensa a literatura, ou a produz. Fazer as duas coisas não pode. Também sempre trabalhei no cruzamento de fronteiras acadêmicas, na confluência entre educação e literatura, e isso ainda é mal visto: pensar, construir, estudar, pesquisar ainda são verbos de delimitação de poderes. Lamentável... Acredite, meus colegas da universidade nunca frequentaram meus lançamentos e leituras de poemas. Essa é uma forma de negar a coexistência de ciência e arte.
GP - Você tem um foco de pesquisa pelas várias formas de narrativas autobiográficas de mulheres. Quais as conclusões desses estudos? Inclusive, você lançou no final do ano passado o seu livro “106 falas de amor (e seus cenários)”, reunindo depoimentos de pessoas acerca do grande amor. Inclusive, dou minha impressão nos artigos deste Guia a respeito dessa obra. Mas como se deu o desenvolvimento desse livro? E quais as conclusões que você chegou com este estudo?
Publiquei trabalhos, orientei teses e dissertações sobre questões de gênero, e o resultado confirma o que já sabemos: também a literatura é um campo masculino. É só visitar o cânone literário, representado pelos livros didáticos e antologias escolares: para cada 100 homens são apresentadas 5 mulheres, em média. Isso leva o leitor a pensar que a mulher não escreve, o que é uma grande mentira. A mulher é invisibilizada; sua participação nas ciências e artes só começa a ser vista e estudada sistematicamente em meados do século 20. Veja Nísia Floresta, Julia Lopes de Almeida, Ercília Nogueira Cobra e tantas outras, sucessos de vendas, famosas em seu tempo, mas varridas da memória, ausentes do cânone, que é um registro social, político, cultural masculino.
Quanto às narrativas autobiográficas, elas são um gênero considerado 'menor', até porque de difícil classificação: ficção? não-ficção? É o crescente interesse atual na leitura de biografias e autobiografias que vai começar a justificar seu estudo. Consegui reunir mais de 100 títulos de diários, cartas, memórias e autobiografias propriamente ditas. O resultado de minha pesquisa ainda vai sair em livro.
Meu livro 106 falas de amor (e seus cenários) esbarra nisso, ao relatar histórias de amor de 106 pessoas diferentes, famosas e comuns, homens e mulheres, hetero e homossexuais, duradouras, fortuitas, clandestinas ou abertas, mas que precisavam ser ditas. Você já o leu. Sabe como ele foi concebido, desenvolvido e a que conclusões cheguei, pois tudo isso está dito lá, na conversa com a jornalista que me entrevistou.
GP - Você também acabou de lançar um outro livro “A leitura e o leitor integral”. Fala a respeito dessa obra.
Esse livro saiu agora na Bienal de S. Paulo (março 2006), editado pela Autêntica de Belo Horizonte, que vem se especializando na área de educação e leituras. A leitura e o leitor integral trata de um projeto de leitura em bibliotecas escolares desenvolvido entre 1988 e 1993, com resultados altamente positivos: alunos e alunas de escolas públicas passaram a frequentar a biblioteca para ler, descobrindo prazer na leitura. Comportamentos anti-sociais foram modificados - sem doutrinação - principalmente através do desenvolvimento da auto-estima positiva dos alunos, pessoas comuns que também querem matar suas sedes de presença no mundo, de conhecimento, de reconhecimento e de afeto. Foi um projeto que me deu muito prazer e teve ramificações importantes para todos os envolvidos.
GP - Cyana, como é falar de literatura, educação, arte, leitura e leitor num país de desigualdades e analfabetos?
Falar é manter acesa a chama da esperança. É preciso escrever e falar contra a injustiça e a desigualdade que indignam os brasileiros apaixonados por nosso país e nossos irmãos. Não vamos nos iludir: a desigualdade não é nosso privilégio, ela é condição de manutenção do poder, a todo tempo, em todo lugar. A questão do analfabetismo me parece menos dramática, segundo as estatísticas oficiais. Quero acreditar nisso, até que me provem o contrário, que tudo não passa de articulação político eleitoreira. O curioso é que o Brasil é um país de leitores, sim. Veja as tiragens milionárias dos jornais e revistas populares, os folhetins românticos de bancas de jornais, veja o sucesso editorial de autores de auto-ajuda. Então, repetir que 'brasileiro não lê' é contribuir para minar ainda mais nossa combalida auto-estima social, reforçando mitos colonialistas: somos ignorantes, somos pobres, somos iletrados, não lemos... somos até feios, e nossa língua é difícil e inadequada. Queremos ser louros de olhos azuis e falar inglês, francês ou alemão!? É importante a manutenção desses mitos, que reforçam a superioridade do colonizador. Quando repetimos, invejosamente, que ingleses são grandes leitores, esquecemos de que nos meios de transporte britânicos todos estão lendo, sim, para aumentar a distância entre as pessoas. Lêem folhetins, jornais sensacionalistas, conservadores e xenofóbicos, lêem os mesmos livros de auto-ajuda que aqui rejeitamos como leitura... só que lá, eles lêem Paulo Coelho em inglês, e aí pode, aí isso vira leitura séria, importante, invejável... Por quê?
Sempre que falo de literatura, arte, educação, encontro eco em ouvintes e leitores. Há grande interesse generalizado. Se meus livros não vendem mais, como eu gostaria, é porque talvez eu não tenha escrito ainda exatamente o que as pessoas querem ler, ouvir e saber, e sim, o que eu preciso dizer. Não acho que seja um problema dos leitores, mas da minha escrita, dos meus temas. Quem quiser se tornar popular, além da sorte indispensável, deve, neste momento, tentar ajudar as pessoas diretamente, apontando soluções rápidas para problemas eternos, oferecendo crenças terrenas para questões existenciais, criando um novo Messias. Por ora, não é esse o meu interesse. Mas não acho justo acusar o povo brasileiro, nem a ignorância nacional. Livros de auto-ajuda ainda são o maior filão editorial internacional.
GP - Você mantém uma página na internet, a seu ver a internet tem contribuído para a difusão de seu trabalho e ampliação do seu universo de pesquisa?
Como escritora e editora, a internet contribui lentamente. Recebo contatos através dos sites www.cyanaleahy.com (pessoal) e www.cledicoes.com (editorial). Chegam muitos originais de autores inéditos, querendo publicar seus textos. Alguns são bons, mas não tenho como bancar uma edição por conta própria, e os autores não querem investir a fundo perdido, salvo exceções. Fazer um livro bonito e de qualidade gráfica não é barato. Mas o que realmente encarece o livro é a distribuição (60% do valor, em média) ou a consignação em livrarias (40% do preço, no mínimo). Não existe garantia nem prazo de retorno do investimento, e o autor fica com no máximo 10% das vendas. Na realidade, quem sai perdendo é a editora que banca, que investe e não recupera, a não ser com a venda rápida de grandes tiragens, acima de 2 mil exemplares. Se um livro custa 20 reais, a editora vai ficar com 25 a 30% do preço de capa, ou seja, 5 ou 6 reais por livro. É com isso que paga revisores, capistas, gráfica, papel, divulgação, lançamentos, convites...
Para pesquisa, considero a internet uma revolução. Além de escrever e pesquisar, também sou tradutora. Nessa área, é valiosíssima. Quanto à difusão do meu trabalho como escritora, a internet me faz mais conhecida, mas não me ajuda a vender livros...
Consta que há no Brasil mais editoras que livrarias. Neste ano de eleições, muitas bibliotecas estão sendo implantadas no interior do país. Resta ver se serão mantidas atualizadas e abertas, se a leitura terá estímulo permanente, ou se ano que vem volta tudo à estaca zero.
GP - Quais os projetos que Cyana Leahy tem perspectivas de realizar em seguida, tanto na área acadêmica, quanto na área literária?
Tenho vários livros começados. Este ano sairá um livro que já foi premiado na Irlanda, com o Ireland Literary Exchange 2005: uma adaptação dos contos tradicionais irlandeses, ainda sem título definitivo. Há outros encaminhados, ainda sendo gestados. No momento me dedico a escrever, editar, traduzir. Estou afastada da vida acadêmica formal. Precisei de um tempo para escrever. É essa minha principal forma de comunicação e expressão com o mundo. Quando eu me fôr, bons ou ruins, meus livros é que falarão por mim e contarão minhas histórias...
Obrigado, Cyana. E não deixe de conhecer mais sobre ela acessando: www.cyanaleahy.com e www.cledicoes.com
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