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BRAULIO TAVARES: A POESIA MARGINAL Exibir próxima mensagem
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Luiz Alberto Machado



Mensagens: 1379

MensagemEnviada: Ter Jul 26, 2005 8:14 pm Responder com CitaçãoVoltar ao Topo

A poesia marginal (19.5.2005)

Braulio Tavares

Nos anos 1970-1980 houve um movimento de poetas jovens que, diante das dificuldades que encontravam para ter seus livros publicados nas grandes editoras, decidiram publicar e divulgar os livros por conta própria. Muita gente chamou a isto “Poesia Independente”, o que me parece uma descrição satisfatória; mas alguns grupos de poetas chamavam o movimento de “Poesia Marginal”, e o que isto rendeu de polêmicas não está no gibi.

Para mim era muito claro. Chamava-se poesia marginal porque estava à margem da corrente principal da literatura, daquilo que em inglês chama-se de “mainstream”. A imagem embutida neste conceito é de que a literatura oficial é como um rio onde alguns conseguem colocar suas canoas para que este os leve; e que quem não consegue fazê-lo vai ter que ir a pé, pela margem. “Margem”, para quem tem cultura literária, também lembra de imediato o conceito das margens de um livro, local onde muita gente gosta de fazer anotações. Daí o título de “Marginália” que se dá a muitas obras de literatura que consistem em pequenas notas, comentários curtos, fragmentos, lembretes, indagações...

Vai daí que os poetas chamavam a si próprios de “poetas marginais”... e a imprensa e a sociedade consideravam isto um escândalo. Porque para os de fora do mundo literário, “marginal” é quem vive à margem da sociedade, é bandido, criminoso. Quando eu chegava num programa de TV e dizia, com esta minha incurável inocência, que era um “poeta marginal”, era como se estivesse dizendo que era um “poeta assassino” ou “poeta estuprador”. Não é de admirar que ninguém comprasse meus poemas filosóficos.

É preciso ter cuidado com os rótulos que escolhemos. Os músicos de choro, por exemplo, ficam danados da vida quando alguém diz que eles tocam chorinho, ou que são músicos de chorinho. Acham que o diminutivo envolve um certo paternalismo não isento de desdém – é como dizer “um forrozinho, um sambinha”... Digam “choro”, colegas, para não correr o risco de uma gafe. Outro rótulo que sempre me pareceu inofensivo foi o de “forró universitário”, que se usa muito no Rio e São Paulo para designar esses grupos de jovens estudantes, urbanos, que fazem faculdade e que querem compor e cantar forró, como é o caso do grupo Falamansa. Para mim é uma descrição adequada, mas certa vez ouvi um forrozeiro da velha guarda reclamar: “Eles são o forró universitário, e nós somos o que? O forró analfabeto?!” É preciso cuidado, porque calos todo mundo tem.

Perguntem a esses milionários e zés-ricos que tocam nos rodeios se eles gostam de ser chamados de “duplas caipiras’. De jeito nenhum. Tem que ser “dupla sertaneja”, se bem que no frigir dos ovos até eu sou mais sertanejo do que esses caras, com seus helicópteros, suas Pajeros e suas canções texanas. Mas eles acham que “caipira” são os sertanejos pobres, e é preciso traçar uma linha deixando bem claro quem é quem. Às vezes a gente pensa que está elogiando um cara, e está chamando ele justamente do que ele menos gosta de escutar.

* publicado nos artigos diários no "Jornal da Paraíba", que podem ser lidos diariamente em: http://jornaldaparaiba.globo.com/braulio.html.
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Pupila



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Localização: São Paulo

MensagemEnviada: Seg Ago 01, 2005 9:41 pm Responder com CitaçãoVoltar ao Topo

Rótulos...como incomodam rs
ótimo artigo!
beijos poéticos

_________________
*ADESÃO AO POST ÚNICO - EM ASSUNTO: POEMAS DE...; DEPOIS use só o RESPONDER para novas postagens. *"INTERAJA com outros Membros";menos postagens e mais qualidade em comentários.
MAÍSA CRISTINA *Pupila
Membro Moderador do Fórum do Guia de Poesias.
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malee



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MensagemEnviada: Ter Ago 02, 2005 12:21 pm Responder com CitaçãoVoltar ao Topo

Eu diria que hoje em dia nós somos os Novos Poetas, mas poderia estar comentendo erros pois muitos que fazem poesias há muito tempo , naum aceitariam se enquadrar nesse rótulo..........por isso o importante é continuar a escrever, todos querem publicar suas obras, publicar um livro......mas será que isso basta, será que somente a satisfação de ter conseguido já é grande coisa para o poeta?............na minha opinião eu digo que naum, eu quero somenter aprender a escrever cada vez melhor, que as pessoas possam ler e se identificar com o que penso e assim encontrar o seu lugar............sim , às vezes sou bem idealista mas um amigo abriu os meus olhos e disse que esse mundo está perdido, os jovens poetas não fazem poesias por amor a palavra, mas por "hobbie".......enfim, eu respeito quem batalha para publicar um livro mas naum penso dessa forma!

bjos a todos!
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Luiz Alberto Machado



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MensagemEnviada: Sex Out 21, 2005 4:14 pm Responder com CitaçãoVoltar ao Topo

) Eu blogo, tu blogas (21.8.2005)
Braulio Tavares

O caro leitor ou a cara leitora tem um blog na Internet, ou já teve? Então está devendo um dólar a Jorn Barger, e se cada um desses numerosos devedores comparecesse na caixinha quebraria o maior galho para esse sujeito que é mais um dos heróis anônimos do ciberespaço. Já falei aqui nos blogs (“Blog”, 17.2.2005) e já homenageei Scott Fahlman, o cara que inventou o emoticon, aquela carinha engraçada tipo Smile feita com sinais de pontuação (“Os emoticons”, 15.8.2003). Pois agora quero tirar um chapéu metafórico para o sujeito que inventou a palavra “weblog” para esta mistura de diário íntimo e manifesto público, de caderneta de anotações e de discurso-numa-caixa-de-sabão no meio da praça, este sucedâneo da poesia mimeógrafo, do jornal mural e da carta pros amigos.

Barger tinha uma página na World Wide Web, “a rede do tamanho do mundo”, intitulada “Robot Wisdom”, onde ele colocava todas as coisas interessantes que achava na Internet, onde garimpava o dia inteiro. Isto era no final de 1997, e o título da página era “Robot Wisdom WebLog”. Vejam a colocação da maiúscula: ela indica que se trata de uma palavra composta de “web + log”, sendo que “log” significa diário, livro de anotações periódicas. Coube a Peter Merholz, em 1999, quebrar a palavra de maneira diferente: “we + blog”, criando um verbo novo: “nós blogamos”. Blogar virou sinônimo de manter uma página da Web onde o titular “posta” (verbo típico do jargão dos blogueiros) textos periodicamente, às vezes todos os dias e até várias vezes por dia, o que dá aos blogs adolescentes essa equivalência aos diários ou agendas onde registram suas emoções e os fatos do seu cotidiano. Um blog, tipicamente, permite a colagem de fotos e ilustrações, permite que se coloquem links para outras páginas da Web, e permite também que os leitores postem os seus comentários a qualquer material incluído no blog, os quais podem ser lidos por todo mundo. Um blog é um empreendimento pessoal, mas interativo.

Jorn Barger ainda mantém o seu “Robot Wisdom”, que pode ser acessado em: http://www.robotwisdom.com/ . Ele não é de postar comentários longos, e seu blog hoje é uma infindável coleção de links com descrições breves. Barger é um típico nerd da geração Internet (hmmm, acho que acabei de inventar uma palavra nova, “internerd”). Leitor de filosofia, de misticismo oriental, de James Joyce e de informática, sempre teve um problema danado com essa coisa irritante que é ganhar dinheiro (“mon semblable, mon frère!”). Bateu cabeça pra lá e pra cá, e meses atrás um jornalista o encontrou na rua com um cartaz: “Inventei a palavra blog e nunca ganhei um centavo”. Morava na casa de amigos, e sobrevivia com um dólar diário. Vamos, pessoal. Nós todos que usamos estes troços não ficamos comprando produtos da Microsoft? Vamos mandar um dólar para Jorn Barger. Alguma coisa me diz que estamos financiando a América errada.
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Luiz Alberto Machado



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MensagemEnviada: Qui Fev 16, 2006 4:49 am Responder com CitaçãoVoltar ao Topo

Canções de amigo (14.1.2006)
Braulio Tavares

Canção de amor qualquer sujeito de boa memória faz, não é mesmo? “Eu te amo demais, sem você não sei viver, em você encontrei minha paz, não vejo a hora de abraçar você...” Três minutos desse repetitório e estamos conversados. Canção de amor, amigos, virou xerox de clichê. Assim como hamburger do MacDonald’s e churrasquinho-no-espeto de porta de Estádio são as mais rudimentares entidades que ainda podem ser chamadas de “comida”, canção de amor desse tipo é a pizza-congelada-de-supermercado da música popular.

Fazer canção de amigo é outra história. O amor é diferente da amizade, e, como disse Caetano Veloso, “quem há de negar que esta lhe é superior?” O amor pode ser um sentimento mais intenso e mais profundo, mas a amizade é algo mais equilibrado e mais amplo. Os Beatles têm um clássico como “With a little help from my friends”, ou então “Two of Us”, cançãozinha que exprime como nenhuma outra a sensação de excitação e liberdade de garotos correndo à solta pelo mundo, sem compromisso, “aprontando” sem preocupações: “Nós dois, mandando cartões postais, escrevendo cartas em cima do muro, riscando fósforos, destrancando portões...” (Embora algumas versões digam que MacCartney fez a música para sua então recente namorada Linda: “Eu e você temos recordações mais vastas do que a estrada que se estende à nossa frente”)

Lembrem-se de “Morro Velho”, a canção em que Milton Nascimento conta a vida de dois garotos de fazenda, um branco e um preto. É uma história da amizade que, na infância, se resume ao afeto puro e irrestrito, sem malícia, de garotos que vivem soltos no mato, tibungando em barreiro, caçando passarinho. O tempo passa, e a diferença de classes os separa na vida adulta: “E o seu velho camarada já não brinca, mas – trabalha...” Existem as amizades cuja origem só se explica no final, como em “Chico Mineiro” de Tonico e Tinoco, em que a tristeza do narrador após a morte do amigo se explica (folhetinescamente) ao descobrir que Chico era seu “legítimo irmão”.

A canção clássica que define os parâmetros da amizade é “You’ve Got a Friend” de James Taylor, que aliás pede uns versinhos emprestados a “Any Time at All” dos Beatles: “All you’ve got to do is call, and I’ll be there...” O próprio Taylor, ao vir cantar no Rock in Rio em 1985, quase caiu para trás ao ver 200 mil brasileiros cantando a música inteira a uma só voz. Em português, não conheço outra tão singela e tão tocante quanto a homenagem de Roberto Carlos para Erasmo: “Você, meu amigo de fé, meu irmão camarada... Amigo de tantos caminhos e tantas jornadas...” Dentro da singeleza poética de Roberto, é uma canção mais verdadeira e mais contidamente emocionada do que muitas das canções de amor que ele (ou melhor, a dupla) compôs ao longo de muitas décadas. Dizer que você está doido por uma mulher é relativamente fácil; eu quero ver é o camarada fazer uma música falando de seu afeto por outro homem.
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Luiz Alberto Machado



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MensagemEnviada: Sáb Dez 02, 2006 9:40 am Responder com CitaçãoVoltar ao Topo

Os paradoxos do jornalismo (3.10.2006)
Braulio Tavares

Stanislaw Lem observou que no conto “A Loteria de Babilônia” de Jorge Luís Borges, tudo obedece simultaneamente ao Acaso e ao Determinismo. Um universo tão contraditório quanto o das gravuras de M. C. Escher, onde há elementos espaciais e visuais que se excluem mutuamente. Se um deles existir, o outro é impossível. Algo dessa relação existe na maneira como tratamos a imprensa e o jornalismo. Porque todo mundo que fala ou escreve sobre este assunto recorre o tempo todo a dois conceitos que para mim não podem coexistir no mesmo Universo. São os conceitos de “liberdade de imprensa” e de “jornalismo imparcial”.

O conceito de liberdade de imprensa sofreu uma distorção benigna, mas ainda assim uma distorção, durante os longos 20 anos da ditadura militar. A imprensa queria denunciar tudo que havia no Brasil daquela época: as prisões, as torturas, as arbitrariedades, a corrupção, as pequenas máfias que foram se formando à sombra dos abusos de poder. Pedia-se liberdade de imprensa o tempo inteiro, e esta expressão ficou sendo encarada como um Absoluto, um dogma inatacável. Liberdade tinha que ser ampla, geral e irrestrita. Quem sugerisse qualquer limitação à liberdade de imprensa (ou a qualquer outra) era chamado de nazista ou coisa pior.

Ao mesmo tempo, as faculdades de jornalismo procuram advertir os estudantes de que o jornalismo deve ser imparcial, não deve tomar partido, tem que ficar eqüidistante, “parecendo a imagem da Justiça”. O jornalista não deve se envolver ideologicamente ou emocionalmente com os fatos reportados. Ora, esta é uma situação ideal, própria dos manuais e dos decálogos de mandamentos, mas difícil de alcançar na vida prática. Todo mundo se envolve, mais cedo ou mais tarde. Não se envolve em tudo, claro. Mas acaba se envolvendo em algo, ainda que movido pela “indignação cívica” ou outro conjunto equivalente de boas intenções. Envolve-se, e torna-se parcial, quando defende o que acha Certo contra o que acha que é Errado.

Liberdade e imparcialidade são dois extremos de uma escala. Quando pedimos liberdade de imprensa, não é para publicar receitas de bolo, é para publicar coisas que vão incomodar alguém. Liberdade para dizer coisas que gente importante preferia que não fossem ditas. Liberdade para botar a boca no trombone, dizer que o rei está nu, e que existe algo de podre no reino da Dinamarca. Liberdade, num mundo cheio de conflitos de interesses, cedo ou tarde vai incomodar alguém, cedo ou tarde vai tomar partido, vai dizer ao público: “Está acontecendo tal e tal coisa, e isto está errado”. Ou seja, quando pedimos liberdade de imprensa, estamos pedindo justamente que a imprensa tenha o direito de não ser imparcial, de tomar partido, de ficar do lado de A ou de B quando A e B estão travando algum tipo de combate. Um jornalista (ou um juiz, etc.) não pode ser totalmente imparcial e ao mesmo tempo defender o Certo contra o Errado, conceitos escorregadios como o mercúrio.
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Luiz Alberto Machado



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MensagemEnviada: Sáb Mai 19, 2007 12:23 pm Responder com CitaçãoVoltar ao Topo

1234) Os nacionalismos (25.2.2007)
Braulio Tavares

O mundo está cheio de nacionalismos de natureza muito diversa, e poucos conceitos são tão suscetíveis, quanto este, de provocar brigas insensatas. O mais interessante nesta discussão, para mim, é a imensa auto-estima com que umas pessoas se proclamam nacionalistas, e o imenso amor-próprio com que outros afirmam que não o são. Dá para perceber que o Nacionalismo envolve, tanto nos que o aceitam quanto nos que o rejeitam, valores muito íntimos, muito pessoais, muito definidores que cada um desses grupos vê de melhor em si mesmo.

Não posso resolver aqui o problema, quem me dera, vou apenas anotar alguns sintomas. Falarei do nacionalismo cultural, que se distingue do nacionalismo econômico ou político – cada um tem exigências distintas. Em cultura, existe algo a que chamo de “mau nacionalismo”, e que afirma mais ou menos o seguinte: a) Tudo que é nacional é necessariamente bom, porque a Pátria se auto-justifica; b) Tudo que não é nacional é estranho à Pátria, portanto não tem valor intrínseco, e portanto não há motivo para conhecê-lo ou utilizá-lo; c) Tudo que vem de fora é ameaça.

Atitudes como estas são muitas vezes estimuladas por Estados autoritários que planejam exigir da população sacrifícios e sofrimentos, e sabem que fazê-lo em nome da Pátria é mais seguro do que em nome do Governo. Quem pretende iniciar campanhas militares de ampliação do território, invadindo países vizinhos, costuma alertar a população de que tudo que vem de fora constitui ameaça, o que dá um caráter “preemptivo” às suas próprias invasões. Claro que num clima político desta natureza, a produção cultural que vem de fora, sobre a qual o governo local não tem controle, só pode mesmo ser vista como perigosa.

O erro principal, a meu ver, é defender o nacionalismo baseado na premissa de que somos superiores a alguém. O verdadeiro nacionalismo cultural deve se basear no conceito inverso: o de que não somos inferiores a ninguém. Neste último caso, fica pressuposto o respeito a quem quer que seja, mas sempre ressalvando o fato de que estamos a exigir respeito idêntico. O nacionalismo saudável deve partir do princípio de que nosso povo faz parte da Humanidade e tem a mesma importância e o mesmo valor intrínseco de outros povos. Mesmo que estes sejam mais poderosos em termos políticos e econômicos. Mesmo que tenham uma cultura muito mais antiga que a nossa. Mesmo que vivam num ambiente socialmente mais justo e digno de admiração. Mesmo que esses povos, que achamos ter razão para admirar, não nos admirem. Porque cabe a nós provar-lhes que somos dignos de admiração, que o que produzimos é, apesar de diferente do que eles fazem, tão valioso e tão fundamentalmente humano quanto a produção cultural de quem quer que seja.

É uma atitude que se baseia numa auto-estima e num amor-próprio temperados pelo respeito ao Outro e pela curiosidade natural pelo Outro, sem os quais não pode haver amizade nem convivência.
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Luiz Alberto Machado



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MensagemEnviada: Sáb Jun 02, 2007 9:42 am Responder com CitaçãoVoltar ao Topo

Arte Conceitual (3.5.2007)
Braulio Tavares

Chego ao Centro Cultural, pego minha senha, adentro a exposição principal. É um vasto salão de paredes nuas, chão nu, teto nu, e toda essa nudez dionisíaca deve ter como propósito equilibrar a sobriedade apolínea da obra exposta no meio do aposento. Aproximo-me. Sobre o chão de tacos há um praticável de madeira em tom neutro, com um metro quadrado, e em cima dele A Obra. É uma caixa de acrílico transparente, que parece inteiriça, porque não percebo junturas nas suas arestas. Não é quadrada nem retangular; lembra um pouco uma estrela tridimensional, com raios que se expandem em todas as direções a partir de um centro, só que um raio é cilíndrico, outro é um cone fino e torto, outro é uma série de bolotas de tamanhos diferentes, outro é uma haste que se expande em cálice-losango, cada um deles com diâmetros entre dez e vinte centímetros, e todos ocos.

Rodeio dum lado, rodeio do outro, fazendo de conta que não vi direito algum detalhe, mas na verdade estou ganhando tempo diante de mim mesmo, porque me sinto na obrigação de ter uma idéia. À minha esquerda um casal, ele de bengala e barba branca, ela de óculos acadêmicos e cara de sobrenome europeu. “Multiplicidade”, murmura ele. “E simultaneidade”, retruca ela. Ele pega a deixa: “É um corte sincrônico nas possibilidades do Ser”. Ela: “Sim – mas é uma interrupção no seu devir”.

Rodeio de novo. Dois rapazes de roupa descuidada, cavanhaque pop e cara de quem deu uma bola. “Vi um igualzinho em Kassel”, diz o mais alto. “O autor disso também viu”, diz o outro. E soltam casquinadas escarninhas, tapando a boca com a mão.

Volto a rodear e me aproximo de um grupo de moças, todas bronzeadas, todas de ombros à mostra, todas de testa franzida, em volta de um quarentão de cavanhaque, terno preto, camisa preta, cabeça raspada, parecendo o Agente 47 do “Hitman”. Uma dela diz: “Mas, o que que tem aí dentro?” Antes que ele responda, uma mais impetuosa responde: “Oxigênio!”. Ele sorri, passa os braços sobre os ombros das duas (enciumando as demais, que se aglomeram em torno), e diz: “Sim. Oxigênio, azoto, poeira, mas acima de tudo...” Faz uma pausa dramatúrgica, e prossegue: “Espaço. É uma fragmentação do espaço através desse invólucro. Vejam como a substância envelopante tenta manter-se invisível, imperceptível. Não é ela a obra. A obra é esse formato que ela delimita. Podemos ter certeza de que não há, agora, neste instante, em todo o Planeta Terra, em todo o Sistema Solar, em toda a Galáxia, nenhum outro trecho do continuum-Espaço-Tempo que tenha o mesmo formato deste que estamos contemplando.” Uma delas joga o cabelo para trás: “Uau”. Outra murmura: “Ai, professor, me arrepiei agora”.

Entenderam o que é Arte Conceitual? É uma peçazinha de teatro que o público improvisa sem saber, criando diálogos e atitudes em torno de um Objeto Mudo que lhe serve de Catalisador de Idéias, ou de Mote Universal, ou de Tábua de Salvação.
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Luiz Alberto Machado



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MensagemEnviada: Sex Jul 27, 2007 9:33 pm Responder com CitaçãoVoltar ao Topo

Dois tipos de autor (7.7.2007)
Braulio Tavares

Na literatura existem dois focos distintos (para simplificar uma situação muito mais cheia de nuances) onde se concentram duas formas de produzir textos. Vamos chamá-los de Alta Literatura e de Literatura de Massas. Na primeira estão aqueles autores que constituem o cânone literário, os mais capazes praticantes da arte. São autores diferenciados, personalíssimos, de perfil inconfundível, mas compartilham alguns traços: visão profunda e complexa do mundo e da vida; e domínio da palavra escrita capaz de recriar a profundidade e complexidade dessa visão.

Na Literatura de Massas a visão é mais rasa e não vai muito além do que é consensual ou largamente aceito. É uma visão com menor índice de contribuição individual, e mais apegada ao clichê. O estilo não inova, apenas procura usar com eficiência os recursos expressivos criados por outros autores e já assimilados pelo público. O típico autor da Literatura de Massas procura criar poucos problema para ser compreendido pelo leitor. O que ele quer é ganhar tempo e “ir direto ao assunto”.

Na Alta Literatura, o Inconsciente está presente no processo de auto-revelação implícito no ato da escrita, e da escrita considerada de alto nível. Todo o material inconsciente que aflora durante o processo de criação é assimilado pelo intelecto criador e regente, ao qual cabe dar a última palavra. Por mais que o autor de Alta Literatura pareça delirante, caótico, incoerente (neste aspecto pode-se pensar na primeira impressão causada por um texto de James Joyce, ou Samuel Beckett), percebe-se afinal na elaboração do texto um intelecto poderoso em ação, mesmo que seja um intelecto trabalhando num plano além do racional.

No caso do autor da Literatura de Massa, pode-se dizer que, em vez de dominar o texto, é dominado por ele. Este tipo de autor escreve para consumo imediato. Não o faz para exprimir idéias pessoais ou suas próprias emoções, mas para satisfazer as expectativas de um público. Recorre a si mesmo porque isto é inevitável no processo da escrita, mas para ele importa muito mais “o que o público quer ler” do que “o que eu tenho a dizer”. Como diz o escritor Thomas Ligotti, “a arte é feita para exprimir as emoções do artista; o entretenimento é feito para produzir emoções no público”.

Pela natureza de seu ofício, o autor de Literatura de Massas dialoga com o público de maneira mais superficial que o outro Autor, mas de uma maneira mais próxima e imediata. O autor das Massas é um sismógrafo do gosto que lhe é contemporâneo, do Espírito do Tempo. Se o grande autor revela seu próprio Inconsciente, cabe ao autor popular revelar o Inconsciente Coletivo de sua sociedade e de sua época. Dois grandes grupos de autores podem servir como exemplos típicos deste processo: os autores de folhetins europeus do século 18 (Alexandre Dumas, Ponson du Terrail, Eugene Sue, etc.) e os autores da “pulp fiction” norte-americana nas décadas de 1920-1940.
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Luiz Alberto Machado



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MensagemEnviada: Sáb Ago 04, 2007 11:01 am Responder com CitaçãoVoltar ao Topo

O escritor anônimo (13.7.2007)
Braulio Tavares

Se, numa capa de livro, o nome do autor é maior que o título da obra, estamos diante de um desses autores best-sellers como Sidney Sheldon ou Barbara Cartland, porque evidentemente o leitor que os lê procura por eles, não por uma obra específica. O título serve apenas para tirar a dúvida natural do “será que eu já li este?” Mas o nome em letras garrafais é muitas vezes sintoma de amadorismo. É a ansiedade muito compreensível, da parte de quem nunca publicou, em ver seu nome exposto nas vitrines. Tem gente que para ver seu nome na capa de um livro é capaz até do imenso sacrifício de escrever um.

Por isso sempre achei curiosas certas táticas de despistamento e anonimato que a história de literatura nos oferece. Por exemplo: em 1827 um jovem soldado de 18 anos chamado Edgar Allan Poe publicou na cidade de Boston seu primeiro livro de poesia, intitulado “Tamerlane and Other Poems”. Um volumezinho de quarenta páginas em tiragem de 200 exemplares, dos quais apenas dezoito se conservaram, fazendo dele uma das maiores raridades bibliográficas dos EUA (uma edição facsímile está à venda por 800 dólares). O livro, curiosamente, era assinado por “Um Bostoniano”. Por que motivo um poeta se esconderia por trás de um tal disfarce? A resposta mais óbvia é o fato de o jovem poeta saber-se completamente desconhecido, e, como o seu nome não serviria de chamariz para as vendas, talvez o bairrismo levasse algum leitor esperançoso a apostar no conterrâneo desconhecido. O livro, é claro, passou em branco, e provavelmente a maior parte da edição foi para o lixo.

E temos um exemplo local. Em 1854 o carioca Manuel Antônio de Almeida publicou um romance intitulado “Memórias de um Sargento de Milícias”, cujas páginas alguns milhões de vestibulandos brasileiros já percorreram com impaciência e perplexidade. O livro é útil e divertido, para quem se interessa por aquela época e consegue saborear aquela linguagem; e foi assinado, modestamente, por “Um Brasileiro”.

Na “História da Inteligência Brasileira” (vol. 3, p. 478 e seguintes) Wilson Martins põe o dedo na razão deste anonimato. Almeida era jornalista (o livro saiu primeiro em folhetins periódicos) e seu livro não era mais do que o resultado de suas freqüentes conversas com um antigo sargento, português de nascimento, chamado Antonio César Ramos. Muito jovem nessa época, Almeida não poderia ter recordações do “tempo do Rei”, em que transcorre a ação do livro. O título é totalmente adequado, pois o livro não passa de uma recolha das lembranças desse sargento; e se vem assinado “um brasileiro” é para ressaltar a parceria entre o autor que conta e o autor que escreve. Mais do que modéstia, diz Martins, vê-se aí “algum constrangimento em apresentar-se como autor de um livro que não lhe pertencia inteiramente”. A obra literária anônima era ainda possível num século 19 em que cultura oral e cultura escrita eram ainda misturadas como café e leite numa xícara.
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