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BRAULIO TAVARES: RITMO E POESIA Exibir próxima mensagem
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Luiz Alberto Machado



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MensagemEnviada: Sáb Dez 02, 2006 9:38 am Responder com CitaçãoVoltar ao Topo

1101) As faculdades de literatura (26.9.2006)
Braulio Tavares

Este é um assunto que volta e meia reaparece na imprensa. Há alguns meses divulgou-se a criação de um destes cursos de formação de escritores no Rio Grande do Sul, e a polêmica recrudesceu. Como o moído é grande, pegarei para analisar apenas duas idéias, uma de cada lado. A turma A diz: “É impossível ensinar alguém a ser escritor. Qual foi a faculdade que ensinou a Machado de Assis, a Guimarães Rosa?” A turma B diz: “Ser escritor é uma profissão como qualquer outra: médico, engenheiro, jogador de futebol... Queremos ensinar a técnica, o talento é por conta do aluno”.

Vamos à frase A. Guimarães Rosa, Machado, e tantos outros são exemplos de auto-didatismo que deu certo. Eles não freqüentaram cursos de literatura. Cada um deles criou um curso de literatura para uso próprio. Leram de tudo, e leram em vários idiomas, para não ficar dependendo apenas do mercado editorial da província. Conviveram em diferentes círculos de idéias; compararam uns aos outros, superaram a todos. Grandes escritores formam-se, muitas vezes, à margem das regras e das normas. Se houvessem escolas de literatura naquele tempo, e eles as tivessem freqüentado aos vinte anos, talvez tivessem sido inutilizados para sempre. Muitos (tão bons quanto eles) provavelmente foram.

Vamos à frase B. Ser escritor é uma profissão? Às vezes. Eu, por exemplo, sou um escritor profissional. Ganho a vida escrevendo artigos de jornal, traduções, press-releases, críticas e resenhas, roteiros de cinema e TV, letras de música, ensaios, peças de teatro. Só não escrevo bula de remédio e bilhete de suicida. É possível ganhar a vida como escritor, mas isso não tem nada a ver com a Arte Literária. Talvez em cada vinte escritores profissionais, no Brasil, apenas um viva de Literatura.

Escrever profissionalmente é outra coisa, e para esta, cursos e faculdades são necessários. Um escritor profissional deve saber mais gramática do que a média da população, saber usar diferentes registros de voz e de discurso, imitar estilos, produzir texto sob encomenda com idéias que não são suas (se não concordar com elas, é só recusar a encomenda). Um escritor profissional escreve por si e por outras pessoas. Para isto, precisa de formação básica, treino, rigor, auto-crítica.

Curso de literatura não pe para formar grandes autores, assim como uma Auto-Escola não visa formar um campeão de Fórmula-1. Ambas querem ser apenas um primeiro passo, sem o qual ninguém chega ao pico do Everest. Faculdades de literatura não formam literatos, assim como escolas de Belas Artes não formam artistas. Universidades formam técnicos. Artistas surgem aleatoriamente. A arte fica um nível acima da simples técnica. O artista assimilou a técnica mas tem um fator desequilibrante, tem uma visão pessoal que faculdade alguma fornece. Mas se surgirem faculdades ensinando gramática e expurgando clichês... ah, meu amigo, os leitores brasileiros agradecem, e muito.
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Luiz Alberto Machado



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MensagemEnviada: Sex Jun 20, 2008 10:13 am Responder com CitaçãoVoltar ao Topo

As modas literárias (11.5.2008)
Braulio Tavares

Houve uma época, a partir dos anos 1960, em que o sucesso de Guimarães Rosa e James Joyce dava aos jovens da minha geração a idéia de que escrever bem era inventar palavras novas o tempo inteiro, recriar o “fluxo de consciência” dos personagens, etc. Foi um momento salutar para a literatura. Ajudou a libertar o talento de escritores que tinham instintivamente esse perfil mas não achavam um ambiente propício junto à crítica e o público. Rosa e Joyce os libertaram para ser quem realmente eram. O problema é com os escritores que não eram assim, mas acharam que para serem publicados e admirados teriam que escrever assim. A gente sente, instintivamente, quando o autor não tem uma idéia muito clara do que está fazendo, e que o faz somente para seguir uma moda.

Talvez Guimarães Rosa, Clarice Lispector e Rubem Fonseca sejam os autores brasileiros com maior número de seguidores hoje em dia. “Seguidores” são pessoas que sofreram uma forte influência. São os que se identificaram a tal ponto com Fulano de Tal que absorveram suas idéias, suas opiniões, seu vocabulário, seu ritmo de fala, seus cacoetes, seus preconceitos, seus equívocos. Ao escrever, vibram em uníssono com o espírito de Fulano, e o que fazem não é nem sequer imitação, chega a ser quase uma psicografia mediúnica (mais admirável ainda quando se trata de autor vivo).

No caso de Clarice e de Rosa, é principalmente a linguagem que escraviza os jovens imitadores. Há leitores com uma propensão instintiva para o jogo lúdico da linguagem, a montagem e desmontagem de palavras novas, a derivação imprevisível, que são características de Rosa. Como ainda são muito jovens, não tiveram tempo de desenvolver isto por conta própria, e ao ler “Grande Sertão” na adolescência sofrem uma conversão brutal e definitiva como a que São Paulo sofreu na estrada de Damasco. Tornam-se rosianos, antes de terem tempo de ser quem são.

O mesmo se dá com Clarice, com sua sintaxe truncada que corresponde de maneira tão tocante às dificuldades dos adolescentes em produzir um raciocínio coerente com começo, meio e fim. Estão ali as crises de identidade em que nos sentimos dezenas de seres contraditórios e incompatíveis. As neuroses mansas que em vez de nos destruir como um fogo nos mantêm insones como uma luz. A catação incessante de cacos de uma realidade nunca apreendida por inteiro, e onde tudo oscila entre o urgente e o irremediável.

Já Rubem Fonseca veio ao encontro de numerosos escritores com propensão para a prosa jornalística, a ética estóica do “roman noir” americano, e um cinismo “blasé” e auto-suficiente que é tão carioca. Rubem fez com a narrativa policial brasileira o que Dashiell Hammett fez com a americana. Suas lições (como as de Rosa e Clarice) são numerosas e enriquecedoras, mas mais fácil do que estudar seus métodos (o que certos autores fazem com êxito) é tentar reproduzir seus resultados, o que já naufragou tanta gente.
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