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BRAULIO TAVARES: TEORIA DA INSPIRAÇÃO Exibir próxima mensagem
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Luiz Alberto Machado



Mensagens: 1379

MensagemEnviada: Sex Jan 11, 2008 5:56 pm Responder com CitaçãoVoltar ao Topo

A arte da digressão (22.12.2007)
Braulio Tavares

Uma das críticas mais injustas que se pode fazer a um romance é censurar ao autor o uso de digressões. Uma digressão é um afastamento do assunto principal para contar uma história secundária, refletir sobre algum aspecto da vida ou do mundo, ou explicar algum detalhe acessório da narrativa enquanto a história principal fica esperando. Como tudo o mais na esfera da arte, tem gente que gosta e gente que não gosta. Eu sou dos que gostam, e vou explicar por quê.

Primeiro, uma pequena digressão. Quando eu tinha dezesseis anos, vi dois caras conversando sobre um curso de Leitura Dinâmica anunciado no jornal. Um deles perguntou qual era a vantagem de ler cinco ou dez vezes mais depressa (era o que o curso prometia). O outro retrucou: “Quando você está lendo um livro, qual é a coisa que você mais quer saber?” O outro embatucou. Eu, que escutava ali por perto, também. O primeiro respondeu: “Ora, você quer saber o fim, quer saber como o livro acaba. E com a Leitura Dinâmica o livro acaba mais depressa”.

A digressão desagrada esse pessoal: os que querem que o livro acabe depressa. Esse tipo de leitor (a que eu chamo, quando estou de mau humor, “leitor americanizado”) tem uma visão utilitária da leitura, e quer maximizar a eficiência do ato leitoral. Quer ler cada vez mais depressa, consumindo cada vez mais palavras por minuto. E exige do autor que não fique enrolando, vá direto ao ponto, conte a história em linha reta, como uma seta em vôo instantâneo rumo à palavra “Fim”.

Cada um lê do jeito que lhe apraz, e não sou eu quem irá ensinar aos outros como viver. Mas os leitores como eu não querem que o livro acabe logo, não querem saber já como é o fim, a não ser quando a leitura é feita por obrigação profissional, para publicar uma resenha na semana que vem. Quando lemos por interesse próprio ou por prazer, não estamos disputando uma corrida de cem metros rasos. Avançamos no interior do livro como alguém que passeia numa cidade onde deverá passar os próximos dias: sabendo que não vai dar para ver tudo, sem pressa de conhecer todos os detalhes, caminhando meio ao acaso, sem lugar específico para ir e sem hora para lá chegar.

As digressões são como mudanças de rumo provocadas pelo impulso súbito de pegar um ônibus que parou ao nosso lado, ou de entrar por uma galeria de lojas que surgiu à nossa direita, ou de saltar do metrô numa estação desconhecida para saber o que existe ali em volta. Não há necessidade de caminhar em linha reta, rumo a um objetivo, porque tudo ali nos interessa igualmente. A digressão serve para abrir janelas, links de hipertexto, notas de pé de página. Traz temperos e sabores diferentes ao prato principal. O rei da digressão, Laurence Sterne, dizia que as digressões são “a luz do sol”. Elas não são a história que estamos lendo, não são a paisagem onde viajamos, são a luz que ilumina tudo aquilo e os torna reais aos nossos olhos.
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Pupila



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Localização: São Paulo

MensagemEnviada: Sex Jan 11, 2008 10:25 pm Responder com CitaçãoVoltar ao Topo

Luiz Alberto Machado escreveu:
A dificuldade de escrever (27.9.2005)
Braulio Tavares

“Quais são as principais dificuldades de ser um escritor no Brasil?” Imagino uma cena de filme em que um entrevistado ouve essa pergunta, fica em silêncio durante cinco minutos diante das câmaras, ao vivo, e depois murmura: “São muitas... são muitas... Acho melhor ir ser taxista”. Prefiro focar uma questão básica, que se coloca para muita gente que escreve: 1) Ser um escritor tempo integral, e tentar viver da literatura; 2) Ter outra fonte de renda (um emprego fixo) e escrever nas horas vagas. Cada uma tem vantagens e inconvenientes.

A segunda opção foi adotada pela grande maioria dos nossos grandes autores, que eram funcionários públicos, diplomatas, médicos, professores, jornalistas, etc., e não dependiam da vendagem dos seus livros para sobreviver. Isso dá ao autor uma certa liberdade. Ele escreve exatamente o que quer, e se o livro não vender, o prejuízo é da editora, e a pedra de tempo é do livreiro. O Escritor Nas Horas Vagas é num certo sentido um homem livre, que escreve o que lhe dá na telha; por outro lado, perde um tempo precioso de vida literária útil redigindo ofícios administrativos (como Drummond), demarcando fronteiras no meio da selva (como Guimarães Rosa) ou tratando de doentes (como Moacyr Scliar).

À primeira vista, o ideal seria o escritor viver da literatura e para ela. Já pensou, ter como único ofício o trabalho literário, 24 horas por dia, 365 dias por ano? O problema é quando a vendagem dos livros não cobre as despesas de aluguel, supermercado, contas, colégio das crianças. O escritor começa a folhear os suplementos, olhar a lista dos Mais Vendidos: “Hmmm... Parece que livros sobre os Templários estão tendo boa saída...” E aos poucos ele vai resvalando para a primeira opção de quem vive do ofício: fazer, não o que gostaria de escrever, mas o que o público está gostando de ler.

Como sempre, não é possível juntar o melhor de dois mundos. Já vi alguns autores dizerem que a melhor coisa para um escritor é exercer uma profissão que lhe exija atividade física (piloto de lancha, lenhador, etc.) e escrever nas horas vagas, porque aí a escrita vira um descanso. Para estes, passar o dia dando aulas de literatura (ou ralando numa redação de jornal) e tentar escrever à noite é suicídio.

É difícil viver de literatura no Brasil, portanto a opção de viver de outra coisa é a mais prática e a mais sensata. Para adotá-la, no entanto, é preciso ter disciplina e obrigar-se a escrever com regularidade. Escrever muito, e publicar apenas os 10% que parecerem de melhor qualidade, não importa se são vinte páginas por mês ou por ano. As principais dificuldades de ser escritor não têm nada a ver com o Brasil, ou com a China ou com o Haiti. Os problemas do escritor são parecidos no mundo inteiro e começam todos em casa, ou seja, dentro da cabeça dele. Se um escritor conseguir resolver os problemas que ele próprio se cria, já tem mais de meio caminho andado.


Estava lendo e relendo textos teus.
Bráulio,
Todos, uma aprendizagem para esta Pupila dos versos.
beijos poéticos

_________________
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MAÍSA CRISTINA *Pupila
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Luiz Alberto Machado



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MensagemEnviada: Qua Jan 30, 2008 3:48 am Responder com CitaçãoVoltar ao Topo

Onde começar a história (4.1.2008)
Braulio Tavares

Um aspirante a escritor perguntou a um autor famoso como deveria escrever um romance, e ouviu como resposta: “Comece pelo princípio, e quando chegar ao fim, pare”. Típica resposta de quem está num coquetel, querendo conversar amenidades, e sem disposição para teorizar questões técnicas. Uma das principais dificuldades em contar histórias (seja na ficção, no jornalismo, onde quer que seja) é o fato de que começo e fim não são pontos claros e indiscutíveis. Qualquer evento pode ser começo de uma história e final de outra. Fazemos uma escolha arbitrária, dependendo de que história queremos contar.

Um texto de James Wood sobre Tolstoi no “The New Yorker” (em: http://www.newyorker.com/arts/critics/atlarge/2007/11/26/071126crat_atlarge_wood?currentPage=all) revela um detalhe curioso da concepção de “Guerra e Paz”. Diz ele: “Tolstoi queria, a princípio, escrever sobre 1856, narrando o retorno de um nobre com idéias revolucionárias, após seu exílio na Sibéria. Mas para escrever bem sobre 1856, no entanto, ele achou que precisaria retroceder até 1825, quando os rebeldes aristocratas chamados “dezembristas” foram executados ou exilados. Mas 1825 não poderia ser evocado, conforme Tolstoi explicou numa anotação, sem se falar no ano histórico de 1812, quando Napoleão invadiu a Rússia e ocupou Moscou por quatro semanas. Mas 1812 também precisaria de uma preparação, e é por isso que o romance se inicia em 1805”.

Este processo lembra o paradoxo de Zenão de Eléia, que diverte muito os estudiosos de filosofia. Diz ele que para ir do ponto A ao ponto B precisamos passar primeiro por um ponto C, que fica na metade da distância entre os dois. Muito bem. Mas para passar pelo ponto C é preciso passar pelo ponto D, que fica no meio do caminho entre A e C. Só que para chegar nesse ponto D precisamos passar primeiro pelo ponto E, que fica a meio caminho entre A e D. E assim por diante. Nunca podemos chegar no ponto que desejamos, porque antes dele temos que atingir outro, e outro, e outro.

Do ponto de vista filosófico, é uma falácia. Para atingir infinitos ponto, não precisamos de infinitos movimentos, mas de um movimento contínuo que cubra esses pontos num mesmo impulso. Qualquer pessoa que já foi até a geladeira pegar uma cerveja corta esse nó górdio. No caso da literatura, contudo, entram outros fatores. Imagino que Tolstoi queria criar um romance histórico gigantesco (como de fato criou) contando a história da Rússia, assim como Érico Veríssimo quis contar a história do Rio Grande do Sul em “O Tempo e o Vento” e Ariano Suassuna a da Paraíba no “Romance da Pedra do Reino”. O problema com o romance histórico é que a História não tem começo nem fim. Antes de cada fato histórico ocorreu outro que o influenciou. Definir onde se começa a narrativa é uma decisão literária que mais cedo ou mais tarde o autor tem que tomar, se pretende começar o livro pra valer.
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Luiz Alberto Machado



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MensagemEnviada: Sex Fev 22, 2008 7:39 am Responder com CitaçãoVoltar ao Topo

A inspiração equivocada (20.1.2008)
Braulio Tavares

O poeta John Hall Wheelock conta que quando estava na universidade foi assistir uma montagem do “Ricardo III” de Shakespeare. A certa altura, ele ouviu um dos atores dizer um verso que o encantou: “Vai, dorme... Eu te contemplo dos balcões do céu”. Wheelock pensou: “Que belo verso! Gostaria de tê-lo escrito”. Escreveu então um poema intitulado “De Coelo – Canção baseada num verso de Shakespeare”. E começou a receber cartas de leitores (inclusive especialistas em Shakespeare) perguntando onde se encontrava o tal verso. Ele o procurou em todas as cópias do texto da peça, e o verso não aparecia em nenhuma. Wheelock tinha certeza, por outro lado, de não ter inventado o verso por conta própria, porque teve inclusive de procurar no dicionário o significado da palavra “oriel” (“balcão”), que ele desconhecia.

E agora? De onde veio o verso? Ninguém sabe. Wheelock, nas edições subseqüentes do poema, assumiu a autoria, depois de perceber que não era mesmo de Shakespeare. Poderia talvez ter sido um “caco”, um improviso do ator, mas eu duvido. Uma interpretação imaginosa seria a de que no momento em que desejou ter escrito aquele verso o poeta o fez com tal intensidade que foi magicamente transportado para um universo paralelo em que esta linha estava ausente da peça de Shakespeare, dando-lhe assim a oportunidade de assumir sua autoria.

Mais realista é supor que, na acústica variável de um teatro, Wheelock ouviu palavras parecidas e as traduziu por outras. Acontece muito, e às vezes esses erros nos dão de graça algumas boas idéias. Já referi nesta coluna que o título “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” ocorreu a José Saramago quando ele, passando por uma banca de revistas, viu de relance palavras soltas e montou esse título, achando que o tinha visto em algum jornal. Voltando atrás, percebeu o engano, mas achou que o título seria um bom ponto de partida para um livro. Coisas assim nos acontecem o tempo todo. Algum tempo atrás passei por uma rua onde havia um cartaz lambe-lambe na parede anunciando o show de um grupo chamado “Sobrado Mardito”. Voltando atrás, percebi que na verdade era “Sorriso Maroto” – mas o falso título daria um belo filme de terror com trilha sonora de Adoniran Barbosa.

O músico Brian Eno criou um baralho chamado “Estratégias Oblíquas” com frases para estimular a criatividade. Numa das cartas ele diz: “Honre o seu erro como uma intenção oculta”. E explica: “Você pode dar-se o trabalho de elaborar uma série de condições, na esperança de que a certa altura haverá um estalo e as coisas irão todas na direção certa. Mas muitas vezes não é isto que acontece. Então, o melhor é organizar deliberadamente as coisas de modo a que ocorra entre esses elementos uma sinergia que você mesmo não compreende. Na verdade, o que ocorre não é que você tem controle total sobre o processo, mas que você está criando uma situação que expande a sua noção de controle”.
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Luiz Alberto Machado



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MensagemEnviada: Sex Jul 11, 2008 8:03 am Responder com CitaçãoVoltar ao Topo

O Beletrista Teórico (5.6.2008)
Braulio Tavares

Conheço o Beletrista Teórico desde que vim morar no Rio. Ele freqüentava o antigo Bar do Violeiro no Baixo Leblon, e findava a noite no Diagonal, tomando chope acompanhado da tradicional sopa de cebola com torradinhas. Era um desses talentos loquazes, cachoeirísticos, um derramamento contínuo de idéias brilhantes, frases bem-humoradas, sacações originais. Conversar com ele pagava a noite, inclusive porque, diferentemente da maioria dos intelectuais de mesa de bar, não costumava criar polêmicas. Pelo contrário. Era um colaborador entusiasta.

O Beletrista tinha a mania de me dar idéias. “Olha, você não escreve ficção científica? Pois veja bem: alienígenas entre nós, só que são iguais a nós e passam despercebidos. Casam, têm filhos... Depois não sabem mais o que são! Já pensou? Um filme de ET existencialista!” Eu dizia: “Taí, ninguém nunca tinha pensado nisso”. E ele, em pleno entusiasmo: “Claro! Olha, quando você terminar o livro, não esquece de me mandar, pra eu fazer uma revisão, ver se está tudo certo”.

Entendeu? O Beletrista Teórico é aquele cara que, se for amigo de Ronaldinho Gaúcho ou de Kaká, liga para ele numa terça-feira e diz: “Velho, tive uma idéia sensacional para um gol. É assim; você recebe na meia-lua, e parte com a bola na direção da esquerda. Quando os zagueiros fecharem, você corta para a direita de repente, eles passam, você atrai o goleiro e manda por cima dele... Que tal?” A vantagem no caso do futebol é que ele não pode pedir ao jogador para “revisar o gol”.

O Beletrista Teórico é aquele cara para quem uma boa idéia corresponde a 50% de uma obra, e a execução aos outros 50. Nada disso, companheiro. Sem querer desmerecer o valor das boas idéias, eu diria que delas o chão do Amarelinho está repleto. Se você passar lá num sábado de noite com um aspirador de pó, vai chegar em casa com uma média de 2 ou 3 mil boas idéias que nossos gênios em potencial derramaram nababescamente pelo chão, ao longo de uma noite de chope. O mundo está cheio de gente disposta a ter boas idéias, mas o que faz mais falta hoje em dia é gente disposta a sentar numa cadeira dez horas por dia, seis dias por semana, e botar essas idéias na ordem em que elas precisam ser botadas.

Um amigo que trabalhou no “Globo” me contou que de vez em quando o telefone tocava para Chico Caruso, ele atendia, desligava, e suspirava: “Mais um cara com uma ótima idéia para um cartum... O pessoal quer ficar com a parte boa, e deixar comigo o trabalho braçal”. A parte boa de um cartum é ter a idéia. O trabalho braçal é transformá-la num cartum publicável. O mesmo ocorre com contos, romances, canções. Todo mundo tem boas idéias. Eu já tive no mínimo um milhão. Desse milhão de boas idéias resultaram algumas músicas, alguns livros. Não mais. Enquanto isto, o Beletrista Teórico liga para um amigo, grande Don Juan, e diz: “Tive uma idéia para uma noitada com uma garota. Você deita ela na cama, e...”
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