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BRAULIO TAVARES: BILAC & LEANDRO Exibir próxima mensagem
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Luiz Alberto Machado



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MensagemEnviada: Ter Jun 21, 2005 6:31 pm Responder com CitaçãoVoltar ao Topo

Bilac e Leandro (16.4.2005)
Braulio Tavares

Gosto de coincidências numéricas, até porque são as únicas indiscutíveis, as únicas que não dependem de uma projeção de nosso ponto de vista sobre os fatos. A cristalina frieza dos números que se encaixam uns nos outros faz um “clic”, e o resto é conosco. Revisando um texto recente sobre poesia, percebi uma coincidência singular: tanto Olavo Bilac quanto Leandro Gomes de Barros nasceram em 1865 e morreram em 1918. Isto faz com que dois dos maiores poetas brasileiros tenham existido precisamente no mesmo nicho cronológico, e por si só já bastaria para que algum estudante de Letras, entre as centenas que se formam anualmente em nossas faculdades, escolhesse como tema de sua futura tese de Mestrado algo como: “Bilac e Leandro: o Brasil Oficial e o Brasil Real através da Poesia”.

Bilac foi eleito em vida “O Príncipe dos Poetas Brasileiros”, foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, e participou de campanhas cívicas como a Abolição da Escravatura e a instituição do Serviço Militar obrigatório. Vivia, portanto, no Brasil oficial. Leandro era um caboclo rude que saiu do sertão da Paraíba e fixou-se no Recife; não sei se algum dia terá sequer conhecido o Rio. Carlos Drummond (num texto reproduzido no livro de Irani Medeiros “No Reino da Poesia Sertaneja”, João Pessoa, Editora Idéia) compara a poesia dos dois, observa que a de Bilac “correspondia a uma zona limitada de bem-estar social, bebia inspiração européia”; e diz que se alguém merecia o epíteto de príncipe era Leandro e sua poesia “pobre de ritmos, isenta de lavores musicais, sem apoio livresco”.

Não creio que o texto de Leandro fosse tão pobre assim, embora certamente o fosse se comparado à riqueza de nuances que um artesão como Bilac sabia extrair do decassílabo e do alexandrino. Bilac foi o maior artífice de um gênero, de um conjunto de preferências culturais que ele soube enfeixar com harmonia e refinar com perfeição. Quando um gênero cai de moda, é natural que o mestre daquilo mergulhe no esquecimento. Talvez daqui a 50 ou 100 anos surja no Brasil um novo surto de Parnasianismo e ele volte a ser o maior poeta brasileiro, e será a vez de Drummond e Cabral ficarem hibernando nas prateleiras.

Bilac celebrou como ninguém o amor romântico e o erotismo do corpo feminino; Leandro passou a vida descendo a ripa nas esposas, nas sogras e no casamento. Bilac mergulhou fundo na História clássica, na mitologia grega, nas grandes jornadas épicas dos conquistadores e desbravadores; Leandro estendeu-se no campo da sátira, da crônica cotidiana de costumes, da saga dos valentões e cangaceiros, e dos contos de aventura e encantamento. Um estudo minucioso das semelhanças e diferenças entre os dois poderia nos dar uma idéia desse complicado sistema de espelhos em que um poeta olha para o mundo à sua volta e produz textos que não apenas reflitam esse mundo mas também o enriqueçam. Pouco lembrados hoje em dia, Bilac e Leandro ainda explicam bem nosso país.

artigos diários publicados no “Jornal da Paraíba” (http://jornaldaparaiba.globo.com/braulio.html).
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Luiz Alberto Machado



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MensagemEnviada: Qui Jan 12, 2006 7:10 pm Responder com CitaçãoVoltar ao Topo

) Canções de escárnio e maldizer (10.12.2005)
Braulio Tavares

Nos velhos livros de Português do ginásio estudamos que no Romanceiro Português Medieval havia vários tipos de cantigas: cantigas de amor, cantigas de amigo, e um gênero cujo nome sempre me fascinou: “cantigas de escárnio e de maldizer”. Por alguma razão freudiana, eu sempre me senti mais habilitado para este tipo do que para os demais, e só não me dediquei desde muito cedo ao seu cultivo por causa do meu espírito cristão (e do medo de levar cascudos). Depois, acabei fazendo algumas, das quais o bolero brechtiano “Soberano Desprezo” talvez seja a mais notória.

O gênero foi mantido vivo através dos séculos pela poesia popular, e ninguém escarnece tão bem quanto um cantador de viola. Em peleja com José Francalino, o Cego Aderaldo mandou: “Puxa fogo, cabeleiro / instinto do mal, Lusbel / febre negra de acobaça / dentes de leão cruel / Judas que cuspiu em Cristo / entranhas da cascavel”. E Francalino ripostou: “Puxa, puxa, cego velho / te sustenta a retintiva / apanha hoje não tem jeito / de chorar ninguém lhe priva / tu ronca no nó da peia / apanha até dizer viva”. A tradição do desafio de ofensas é inesgotável, e o seu encanto rude se prolonga pelo forró; basta ouvir Biliu de Campina cantando “Eu sou melhor do que tu” ou João Gonçalves dizendo “vai tomar banho na cacimba, quando tu levanta o braço ninguém agüenta a catinga...”

Escarnecer e falar mal são uma Grande Arte como qualquer outra. E ninguém é obrigado a recorrer ao insulto, ao palavrão, à ofensa direta. Temperamentos mais chegados à política e a diplomacia podem produzir textos igualmente arrasadores. Veja-se como o nosso atual ministro Gilberto Gil reduziu a pó seus detratores: “Tu, pessoa nefasta, vê se afasta teu mal, teu astral que se arrasta tão baixo no chão...” Leiam esta letra e tremam, amigos. É alta filosofia, e é cantiga-de-maldizer pra nenhum trovador da Galícia botar defeito.

Bob Dylan, que é outro PhD em Sarcasmo, tem duas canções monumentais neste gênero. “Positively 4th Street” (1965) é um acerto de contas, cheio de vitríolo, com os falsos amigos e os aproveitadores em geral: “Eu sei por que você fala de mim pelas costas; já freqüentei sua turma. Eu gostaria que por um momento você estivesse em meu lugar, para poder saber que droga é olhar pra você”. E em “Idiot Wind” (1975) ele diz: “Há um vento idiota que sopra toda vez que você abre a boca... Você é um idiota, rapaz. É um milagre que você saiba respirar”.

Os estudiosos da poética dos trovadores medievais explicam que as cantigas de maldizer eram dirigidas explicitamente contra Fulano e Sicrano, enquanto que as cantigas de escárnio eram menos diretas. A grande vantagem destas últimas é serem suficientemente explícitas para que o destinatário, na primeira vez em que as ouça, saiba de imediato que a carapuça lhe cabe, e ao mesmo tempo terem profundidade bastante (e riqueza exemplificativa) para serem uma receita de larga aplicação. Sempre há quem mereça.
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Pupila



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MensagemEnviada: Qui Jan 12, 2006 9:09 pm Responder com CitaçãoVoltar ao Topo

Sempre trazendo Ótimos textos de Bráulio Tavares!
beijos poéticos

_________________
*ADESÃO AO POST ÚNICO - EM ASSUNTO: POEMAS DE...; DEPOIS use só o RESPONDER para novas postagens. *"INTERAJA com outros Membros";menos postagens e mais qualidade em comentários.
MAÍSA CRISTINA *Pupila
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Luiz Alberto Machado



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MensagemEnviada: Sex Nov 23, 2007 7:13 pm Responder com CitaçãoVoltar ao Topo

O que faz escrever (9.10.2007)
Braulio Tavares

Todo escritor se depara de vez em quando com a obcecada pergunta: “O que o faz escrever? Ou seja, qual a sua principal motivação enquanto escritor?” Se fizéssemos a pergunta equivalente a um camioneiro, a um alpinista, a um político, a um médico, talvez encontrássemos algumas das respostas que os escritores nos dão. Assim como um camioneiro, um escritor gosta de tentar reunir o máximo de duas coisas antagônicas: liberdade e responsabilidade. Ele gosta dos grandes espaços abertos (do espírito, no seu caso), do desafio constante de ir a lugares onde nunca foi, da excitação de rever lugares onde passou muito tempo atrás, e durante todo o tempo sentir-se responsável por algo muito valioso que não lhe pertence (uma tradição literária) mas da qual ele é, naquele instante do seu trabalho, o único defensor e guardião.

Assim como um alpinista, o escritor é seduzido pela possibilidade de ser O Maior, de atingir alturas que os seres humanos comuns nunca alcançaram. Ele sabe que quanto mais sobre mais seu raciocínio fica inebriado pelo ar rarefeito; que corre o risco de morrer de solidão e de frio; que um passo em falso pode precipitá-lo no abismo. Mas ele sempre acredita que pode dar mais um passo, ou seja, que pode escrever mais uma página.

Um político dirá que tem uma responsabilidade para com um grupo de pessoas que acreditam nele, acreditam na sua capacidade de fazer coisas importantes e de melhorar o mundo. Pouco importa se o mundo tem sido muito pouco melhorado, seja por políticos, seja por escritores. O importante é achar que, se há ainda muita coisa a ser feita, nada melhor do que alguém candidatar-se a fazê-la. Enfim: cada profissional tem razões múltiplas para fazer o que faz, mas ao que parece é apenas aos escritores que se faz essa pergunta. Parece que seguir qualquer profissão é algo óbvio, cuja necessidade não precisa ser explicada, mas ser escritor é uma missão misteriosa, desnecessária e que deve ser justificada tintim-por-tintim..

Talvez a melhor resposta, para qualquer profissão, seja: faço isto por que gosto, e porque é o que sei fazer melhor. Jogadores de futebol dizem isto o tempo inteiro: “Sou um sujeito de sorte, porque me pagam um bom salário para que eu faça a coisa que mais gosto”. Ninguém pergunta a um jogador por que motivo ele joga. Pressupomos que ele descobriu em si mesmo aquela habilidade, e que não viu motivo para se dedicar a outra coisa.

Com um escritor dá-se o mesmo. Ele descobriu muito cedo que 1) gosta daquilo; 2) sabe fazer aquilo bem; 3) vê naquilo a possibilidade de juntar duas coisas importantes, o útil e o agradável, ou seja, uma profissão que lhe dê sustento e uma atividade prazerosa que lhe dê algum tipo de realização pessoal. Escritores, no entanto, criam para si mesmo a imagem de alguém que sabe respostas secretas e bombásticas sobre as perguntas mais banais. Podem até saber, mas a resposta que melhor os explica é esta aqui acima, a mais banal de todas.
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Luiz Alberto Machado



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MensagemEnviada: Sáb Dez 15, 2007 9:59 am Responder com CitaçãoVoltar ao Topo

O soneto anagrama (3.11.2007)
Braulio Tavares

A intersecção da Literatura com os quebra-cabeças (jogos em que uma regra arbitrária precisa ser seguida à risca) nos dá os palíndromos, os lipogramas e outros barroquismos já comentados nesta coluna. Folheando o magnífico livro de Douglas Hofstadter “Le Ton Beau de Marot” (New York: Basic Books, 1997), que examina problemas abstrusos de linguagem e tradução, encontrei um soneto de um tal David Shulman, intitulado “Washington Crossing the Delaware”. O título alude a uma famosa pintura a óleo de E. G. Leutze que retrata um momento da Guerra da Independência norte-americana em 1776, quando George Washington cruzou com suas tropas o Rio Delaware para pegar de surpresa as tropas britânicas.

Não transcreverei aqui o soneto inteiro. Para ilustrar minha tese (que é a mesma de Hofstadter) basta-me o primeiro quarteto, que assim diz: “A hard, howling, tossing water scene: / strong tide was washing hero clean. / ‘How cold!’ Weather stings as in anger / O silent night shows war ace danger!” Os versos dizem algo como: “Uma cena fluvial árdua, cheia de uivos e de agitação: / uma poderosa maré lavando por inteiro o herói. / ‘Que frio!’ O tempo dá agulhadas, como que furioso. / Oh, noite silenciosa, que mostra ao ás da guerra o perigo!” Não boto a mão no fogo por esta tradução, porque o texto original me parece truncado, sem beleza. (Quem quiser o soneto todo é só pedir.)

Mas... Faça uma pausa, amigo. Confira as letras de cada verso, e perceba que cada uma das quatro linhas citadas acima é um anagrama perfeito (ou seja, contém exatamente as mesmas 29 letras, inclusive as repetições) do título do soneto. E o soneto todo é assim: suas catorze linhas são catorze anagramas do próprio título, e conseqüentemente todas são anagramas umas das outras. E o soneto inteiro retrata, de maneira aceitável, a cena descrita. É aquilo que os franceses chamam de “tour de force”, uma demonstração fenomenal de habilidade.

Isto é poesia? Não sei. Tecnicamente é, pois se trata de um soneto que obedece às regras básicas da forma, ainda que não seja um grande soneto, ou sequer um bom soneto. Coloca uma questão curiosa: um péssimo poema é poesia? O que define a presença da poesia: a presença de um conjunto de regras, ou a qualidade literária do resultado? O texto de Shulman pertence a uma zona intermediária entre a literatura e o que eu chamo de “ludismo verbal”, que inclui desde os travalínguas dos repentistas até os caligramas (poemas cujas palavras criam um desenho na página) dos poetas barrocos portugueses ou de Guillaume Apollinaire.

A façanha de Shulman talvez só seja possível numa língua como o inglês, mais monossilábica que a nossa. Duvido que alguém consiga compor em português um soneto com quinze anagramas (título mais catorze versos) que faça um mínimo de sentido. (Pronto, já sei que acabo de atrapalhar a vida de meia dúzia de malucos, os quais de agora em diante se dedicarão a provar que é possível, sim.)
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MensagemEnviada: Qua Jan 30, 2008 3:50 am Responder com CitaçãoVoltar ao Topo

Decifrando palavras (13.1.2008)
Braulio Tavares

Existem palavras cujo significado não sabemos mas que nos impõem respeito pelo seu tamanho, pela sua sonoridade. Autores como Augusto dos Anjos ou Guimarães Rosa jogam em nosso colo, a cada linha, um polissílabo indecifrável, e nem por isso deixam de ser lidos. É claro que outros autores de vocabulário igualmente rebuscado caíram num injusto esquecimento, como é o caso de Coelho Neto ou Emílio de Menezes, mas em todo caso a fama de uns e a obscuridade dos outros deve ser atribuída a um conjunto de fatores que vai além do simples vocabulário.

Augusto dos Anjos dizia muitas vezes coisas incompreensíveis, mas com uma tal precisão métrica e uma tal riqueza sonora no uso da rima que aquelas palavras pareciam não só inevitáveis, como obrigatórias. O fato de não sabermos o que é “o cosmopolitismo das moneras” perdia importância diante do impacto melódico com que ele surge no interior da estrofe. Há um divertido poema de Pablo Neruda, “Orégano”, em que ele descobre essa palavra e se deixa fascinar por ela. Sai pelas ruas bradando: “Orégano! Orégano!”. À sua passagem as pessoas se espantam, e os leões se ajoelham aos seus pés. Toda palavra nova que descobrimos é uma palavra mágica, capaz de gerar prodígios.

Uma palavra vale como signo total da coisa que representa. No seu célebre poema “Liberdade”, Paul Éluard dizia: “E pelo poder de uma palavra / eu recomeço minha vida / eu nasci para te conhecer / para te nomear: / Liberdade”. Pelo poder de cada palavra existente podemos evocar seu sentido direto, seus significados secundários, suas nuances, suas associações de idéias... Mas acima de tudo podemos evocar significados impossíveis ou improváveis que brotam da sonoridade, da rima, da semelhança dessa palavra com outra. “Orégano” pode a uma pessoa lembrar “origem”, a outra pode lembrar “ébano”, a uma terceira pode lembrar “onagro” (jumento selvagem, ou uma espécie de catapulta militar antiga). Guimarães Rosa, em “São Marcos”, tem um longo trecho sobre a magia sonora das palavras, que segundo ele, numa expressão que se tornou famosa, “têm canto e plumagem”, ou seja, se impõem pela sua força melódica e pela vividez de sua sugestão visual.

Augusto dizia que a idéia “vem do encéfalo absconso que a constringe”. Sabemos que encéfalo quer dizer cérebro (todo mundo já ouviu falar em “eletro-encefalograma”, etc.). “Constringe” é uma mistura de “constrange” e “restringe”, mas não deve ser invenção de Augusto, e sim uma variante híbrida dos dois termos. O que diabo será “absconso”? Pelo contexto significa algo remoto, misterioso. Seu formato sugere que é formada de “ab + sconso”. “Sconso” ou “esconso” deve ser variante de “escondido” (assim como “canso” é variante de “cansado”). Em alguns segundos, numa leitura lenta, sem pressa, o encéfalo processa essas possibilidades, o texto entremostra seus segredos, apenas o bastante para que continuemos a explorá-lo.
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MensagemEnviada: Sex Jul 11, 2008 8:04 am Responder com CitaçãoVoltar ao Topo

A visão da FC (12.6.2008)
Braulio Tavares

Existem muitas diferenças entre a literatura fantástica e a literatura do “mainstream”. (“Mainstream”, correnteza principal, é um termo muito usado pela crítica para designar a parte principal da literatura de uma época, a tendência dominante. A correnteza principal da literatura de hoje no Ocidente é o romance realista.) Se considerarmos todos os títulos produzidos durante um ano, ou dez anos, veremos que a literatura fantástica (incluindo ficção científica, terror, fantasia, etc.) é apenas uma pequena parte disso. Apenas uma fatia numa pizza redonda e gigantesca. Em outras culturas (no Oriente, p. ex.) o romance realista é cultivado mas não tem uma predominância tão grande. Achar que a literatura serve para reconstituir o mundo em que vive o autor é um cacoete cultural do Ocidente.

Vista desse modo, a literatura fantástica é uma literatura menor: menos títulos, menos autores, menos leitores. É como os partidos pequenos num Congresso, que precisam sempre estar se associando aos partidos maiores para ganharem um mínimo de visibilidade.

Tudo isso ocorre porque a literatura realista pretende lidar com algo mais importante, a Realidade, e o fantástico atrai menos leitores porque lida com coisas tidas como secundárias como a imaginação, o sonho, o irreal, etc. Mas se pegarmos essas duas formas de narrativa e examinarmos como elas abordam a Realidade, vamos ter um gráfico que é o contrário do anterior. Porque o Realismo aborda apenas uma fatia de uma imensa pizza, e o Fantástico aborda a pizza inteira.

O mundo que vemos à nossa volta não é a única coisa real. Coisas imateriais, como as representações subjetivas do pensamento, são reais. O que se passa na cabeça de cada um de nós também é real. Um pensamento não precisa estar “certo” para ser real. As idéias erradas também existem, também são entes, mesmo que sua interpretação dos fatos esteja equivocada. A teoria de que a Terra é oca, por exemplo, é real, existe, embora a Terra não seja oca. Os discos voadores, para Jung, eram uma realidade psíquica tão verdadeira quanto qualquer outra realidade psíquica baseada em objetos concretos. É um erro afirmar que algo, simplesmente por não existir no mundo material, não existe. Se fosse assim, toda a Filosofia seria irreal, porque os conceitos da Filosofia só existem em nossas mentes. Não há filosofia na Natureza.

O fantástico lida com sonhos, com fantasias; propõe situações absurdas que jamais poderiam ocorre no mundo aqui em redor. Através da ficção científica, descreve planetas imaginários, civilizações inexistentes. E tudo isso, curiosamente, é tão real – no plano das idéias – quanto descrições de cavalos e bois, ou histórias ambientadas na corte de Luís XIV. É irônico que a parte maior da pizza literária (o mainstream) se dedique apenas à parte menor do Real, e que caiba à fatiazinha representada pelo Fantástico a abordagem da pizza inteira do Universo.
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Luiz Alberto Machado



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MensagemEnviada: Sex Jan 16, 2009 8:10 am Responder com CitaçãoVoltar ao Topo

Olavo Bilac e João Cabral (8.1.2009)
Braulio Tavares

À primeira vista, não podem haver dois poetas mais dessemelhantes. Quem lê um e logo em seguida pega um livro do outro precisa passar por alguns minutos de adaptação mental, como aqueles mergulhadores que têm de voltar à tona aos poucos, de tão grande que é a diferença de pressão. O mundo de Bilac nos lembra uma imensa galeria do Louvre cheios de quadros históricos e de langorosos nus femininos, pintados por Courbet, Degas, William Bouguereau, Alma-Tadema. São figuras da mitologia, episódios épicos ou bíblicos, virgens diáfanas envoltas em tules e musselinas, bosque sombrios, pássaros canoros, ameias e torreões de castelos, casais pré-rafaelitas enlaçados nos transportes da paixão. Já o mundo de Cabral nos arrebata para um deserto árido e cheio de arestas, povoado por cabras e retirantes; mangues pegajosos, cidades rústicas que mal se distinguem das colinas pedregosas que as cercam. Seu mundo lembra, até pelo exame permanente do traço, da forma, da dinâmica abstrata dos processos, a fase de gravuras geometrizantes de Max Ernst, ou as xilogravuras de cortes brutais de Segall, Scliar ou Darel.

E, mesmo assim, poucos poetas defenderam com tanta eloquência, em tribunas opostas e até antagônicas, os mesmos princípios estéticos. Tanto Bilac quanto Cabral são os poetas da construção, do perfeccionismo, do intelecto avassalador apropriando-se das mais ínfimas tarefas da criação poética. Os dois divergem no temperamento pessoal e nos assuntos que abordaram, mas o modo de empunhar a poesia é o mesmo.

É costume contrapor a obra de Bilac à de Castro Alves, pois os dois foram os mais populares e festejados poetas brasileiros do século 19. Castro Alves é inspiração torrencial, transbordante, indisciplinada, produzindo poemas gigantescos e tonitruantes crivados de pequenos defeitos. Diz-se que era um bom improvisador de versos, e de fato tinha as qualidades e os defeitos de qualquer repentista. O surgimento de Bilac enxugou a poesia brasileira desses excessos. Cabral foi ainda mais longe, e reduziu a poesia a osso, viga, concreto, medula.

Em sua famosa “Profissão de Fé”, Bilac invoca como modelos de poeta o Ourives (que ele prefere) e o Escultor. Já Cabral elegeu o Engenheiro e o Arquiteto. Por diferentes que sejam, todos trazem em si o traço que une os dois poetas: o propósito de construir, em vez de apenas “parir” o poema. Com a mente lúcida e a mão minuciosa. Reescrevendo dezenas de vezes até achar a palavra certa, a sílaba tônica ou átona na posição exata, a simetria quase imperceptível de consoantes em pontos opostos da linha. Ritmo, sonoridade, evocação sensorial de imagens, tudo isto é pesado e medido, com balança de precisão, lupa e bisturi. Que profissões simbólicas serão invocadas como modelo pelos poetas construtivistas do futuro? Engenheiro de software? Webdesigner? DJ? Programador de mosaicos verbais logarítmicos com variáveis randômicas? As possibilidades, como sempre, são infinitas.
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