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BRÁULIO TAVARES: A FALÁCIA DA VANGUARDA Exibir próxima mensagem
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Luiz Alberto Machado



Mensagens: 1379

MensagemEnviada: Ter Jun 21, 2005 6:33 pm Responder com CitaçãoVoltar ao Topo

A falácia da vanguarda (17.4.2005)
Bráulio Tavares

Perguntaram a Charles Baudelaire se ele se considerava um poeta de vanguarda e ele respondeu: “Não gosto de metáforas militares”.

Vanguarda é um conceito defeituoso porque nos induz a uma visualização errada da literatura. Vanguarda é aportuguesamento de “avant-garde”, “guarda avançada” ou “tropa avançada”, aquele pequeno grupo que vai à frente do restante do exército, embrenhando-se no território inimigo, descobrindo caminhos e correndo perigos que os que vêm lá atrás não correm. Ser de vanguarda, portanto, dá a idéia de ser mais audaz e mais corajoso, de não ter medo de correr riscos, e de estar conquistando hoje um território onde indivíduos mais prudentes só terão coragem de pisar muito tempo depois.

Quando se diz: “Fulano é a vanguarda da poesia brasileira de hoje”, a gente fica com a impressão de que a poesia brasileira é um grupo de gente indo numa direção, e que Fulano está centenas de metros à frente de todo mundo. Admiramos e invejamos Fulano pelo seu talento e pela sua coragem de partir na frente sozinho, descobrindo tudo por conta própria. E aí nos vem o maior erro de pensar em termos de vanguarda: achamos que o Poeta Vanguardista está mais adiantado do que nós em algum tipo de maratona, e que precisamos ultrapassá-lo. E a única maneira de ultrapassá-lo é fazer, mais ou melhor do que ele, aquilo que ele está fazendo.

Quando a crítica começou a considerar James Joyce a vanguarda do romance ocidental muita gente se sentiu na obrigação de passar à frente dele. E tentou fazer isto escrevendo romances que eram imitações ao-pé-da-letra dos romances de Joyce. Todo país ocidental hoje em dia tem esses romancistas, indivíduos que tentaram ser aquele escritor que, como diria Shakespeare, “out-joyces Joyce” – o cara que supera em joyceanismo o próprio Joyce.

Joyce fez um mergulho fundo na fusão entre voz e escrita, na colagem de diferentes discursos literários dentro de uma mesma obra, no mergulho nos arquétipos culturais de sua Irlanda natal, e assim por diante. Seu trabalho é monumental e impressionante, mas em hipótese alguma significa que a literatura inteira esteja indo neste rumo, com ele à frente. Cada literatura está indo em mil direções diferentes. Todo mundo está escrevendo livros diferentes, e neste sentido cada escritor só é vanguarda de si mesmo, ou talvez de um grupo de textos com os quais ele deliberadamente dialoga – a novela de detetive, a crônica urbana, o romance histórico, o conto psicológico...

Jovens, em geral, acham que precisam ser de vanguarda, porque sentem-se com a compreensível missão de trazer ao mundo o Novo, o Inédito, o Original. Só que a melhor maneira de conseguir isto não é tentando suplantar o que já está sendo feito, e bem, por Fulano ou Sicrano. Vanguarda é toda vez que um indivíduo descobre sua voz pessoal e uma comunidade literária descobre o quanto esta voz lhe fazia falta.

artigos diários publicados no “Jornal da Paraíba” (http://jornaldaparaiba.globo.com/braulio.html)
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Luiz Alberto Machado



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MensagemEnviada: Sex Nov 23, 2007 7:12 pm Responder com CitaçãoVoltar ao Topo

A literatura do presente (3.10.2007)
Braulio Tavares

Um entrevistador me pergunta: “Quem você destacaria na atual Literatura Nacional?”. Pergunta difícil, a começar pelo fato de que eu não considero que há uma literatura atual e outra que não o seja. Para mim, a Literatura é o conjunto de textos disponíveis. A literatura brasileira envolve desde Gregório de Matos até o jovem poeta que acaba de publicar seu primeiro livro de tentativas. Um não é mais atual do que o outro, e há muitas chances de que Gregório de Matos se mantenha atual por mais tempo do que muitos poetas que estão vivos, inclusive eu próprio.

Para mim a literatura se compõe em primeiro lugar de livros, e só depois de autores. Por isto, trato em pé de igualdade Machado de Assis e Rubem Fonseca. Não importa se um já morreu e o outro está vivo, e sim que seus livros estão lado a lado na livraria, na biblioteca, na minha estante. Os livros estão “vivos e bulindo”, e para mim é isto que constitui a atualidade da literatura.

Suponhamos, então, que a intenção da pergunta seja de recensear os autores surgidos recentemente, os que começaram a publicar há pouco tempo e que por isto podem ser vistos como novidade, renovação, algo diferente. Aí tenho de confessar algo que não pega bem para um jornalista e aspirante a crítico literário, como é o meu caso. Mas o fato é que eu não dou a menor atenção aos novos escritores que estão surgindo. Não porque julgue que são maus autores, longe disso. Penso até que estou perdendo coisas muito interessantes quando passo semanas inteiras mergulhado em livros obscuros do século passado. Mas não tenho o objetivo de me manter em dia com a produção editorial, como acontece com os jornalistas de redação, os que todo dia no jornal recebem exemplares para resenha, enviados pelas editoras. Cabe a estes dar conta ao leitor das novidades que surgem no mercado. Nada tenho contra isto, até porque sou um beneficiário direto, já que sou leitor dos cadernos literários da grande imprensa.

Só para dar uma idéia: nunca li nenhum livro de Milton Hatoum, João Paulo Cuenca, Marcelo Mirisola, Marçal Aquino, Luiz Alfredo Garcia-Roza, Bernardo Carvalho, Luís Ruffato, Alberto Mussa... Estou citando autores surgidos nos últimos dez ou doze anos. Por que nunca os li? Porque acho que não são bons? Pelo contrário. Conheço pessoalmente alguns deles, e o que tenho ouvido sobre a obra de todos é, em geral, muito elogioso. Mas eu não pesquiso o momento atual da Literatura Brasileira; leio obras em torno de algo que estou escrevendo no momento. Como acabo de lançar uma antologia de contos fantásticos, nos últimos doze meses li centenas de contos de terror do século 19. Para escrever um livro sobre Ariano Suassuna, li mais algumas dúzias de livros relacionados. São leituras de trabalho, notas ao pé da página para meus próprios livros. Tem momentos na vida em que o sujeito só lê o que vai para seus próprios livros, não tem tempo de ler livros que não são seus.
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Luiz Alberto Machado



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MensagemEnviada: Sáb Dez 15, 2007 10:00 am Responder com CitaçãoVoltar ao Topo

As vogais e as consoantes (10.11.2007)
Braulio Tavares

As vogais e as consoantes! Será possível que sejamos tão cegos, tão desfocados, que não percebamos o Segredo transcendental que nos revelam? Rimbaud dedicou um soneto de alquímica simbologia às vogais, mas ainda nos faz falta um poeta de maior fôlego (valha o termo!) que faça o mesmo com as consoantes. Porque juntas estas duas entidades sonoras explicam, como metáforas corporais, lingüísticas, o funcionamento de nossa mente.

Você consegue conceber, caro leitor, uma língua composta apenas de vogais, ou apenas de consoantes? Impossível. Tão inconcebível quando o disco-de-um-lado-só imaginado por Borges, o objeto que existe de um lado mas não existe do outro (não me refiro a “ser invisível”, e sim a não existir mesmo). Podemos fazer brincadeiras, como Ítalo Calvino ao batizar o narrador de suas “Cosmicômicas” como Qfwfq, ou como a saudação jovial dos surfistas cariocas: “Ó o auê aí, ó!” Mas nunca iremos muito além disso.

A vogal é a Emoção, a consoante é a Razão. Sem uma das duas, ninguém diz nada, ninguém articula ou se expressa, ninguém existe. A vogal é a projeção do ar que temos nos pulmões, é o nosso gesto instintivo de botar para fora algo que temos no peito, e de fazê-lo ruidosamente, despertando a atenção de quem está próximo. E as consoantes são obstáculos que colocamos em torno desses sons, moldando-os, dando-lhes forma, modulando-os, fazem com eles o que a mão do oleiro faz com a argila mole.

A Emoção cria e a Razão formata. As vogais são o ar em expansão que a razão transforma em ar comprimido, contendo-o, retendo-o, acumulando sua força e dirigindo sua explosão. Por isto que a voz é um instrumento musical: porque se baseia no mesmo princípio. Como a sanfona, em que o ar produzido pelo fole (as vogais) é formatado em notas pelas palhetas e teclas (as consoantes). Como o violão, em que a vibração da corda percutida pela mão direita (a vogal) é retida e modificada pela mão esquerda (a consoante).

Estou exagerando? Acho que sim, pois nem tudo é absoluto de um lado ou do outro. Na própria enunciação de cada vogal básica (á, é, í, ó, ú) já existem diferenças de modulação, ou seja, cada uma já tem algo de “consoante” a modificá-la. E no próprio jogo de consoantes existe uma emissão sonora autônoma: aí estão o zumbido do M, o ciciar do S... Aí está a sutil diferença entre sonoras e surdas que nos permite distinguir o J do X, o D do T, o B do P...

Antes que o meu argumento se estilhace num excesso de exceções e de sutilezas, melhor encerrar a metáfora, melhor carimbar e rubricar aqui o postulado teórico. Quem é que cria – a emoção, ou a razão? Resposta: as duas. Sem a emoção, a razão não passa de um aglomerado de regras e restrições, que não têm o que formatar. Sem a razão, a emoção não passa de ar derramado no ar. Cada vez que falamos, exercemos nossas duas liberdades: a de emitir sons e a de modificá-los, a de controlar nossa expansão através da nossa disciplina.
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MensagemEnviada: Sex Jan 11, 2008 5:55 pm Responder com CitaçãoVoltar ao Topo

doce pornografia (20.12.2007)
Braulio Tavares

Carlos Drummond já dizia: “Sejamos pornográficos, docemente pornográficos... Por que seremos mais castos que nosso avô português?”. A pornografia é a mais incompreendida das artes, até porque quando usamos este termo estamos nos referindo à Pornografia do Sexo, às artes voltadas para a descrição dos atos sexuais. Ora, existe também a Pornografia da Violência, hoje em dia tão em moda no cinema e nos videogames. Existe a Pornografia da Afetividade – os livrinhos e fotonovelas de amor destinados às jovenzinhas e às donas-de-casa. Existe a Pornografia da Política, mais conhecida como “o romance engajado”, aquele em que todas as relações humanas são reinterpretadas em função da luta de classes e da ascensão do proletariado. Pornografia é qualquer arte que bate o tempo inteiro numa única tecla, numa única nota.

A Pornografia do Sexo parece ser mais antiga que todas estas, e nas bibliotecas tradicionais era confinada a um setor chamado “O Inferno”, ao qual só tinham acesso leitores autorizados. (Uma interessante metáfora do próprio sexo, ou seja, a genitália humana sendo uma parte a que só têm acesso pessoas autorizadas pelo Estado e pela Igreja, através do casamento civil e religioso.) A Biblioteca Nacional de Paris está abrindo neste mês de dezembro (até 2 de março) uma exposição intitulada “L’Enfer de la Bibliothèque - Éros au secret”, organizada por Marie-Françoise Quignard e Raymond-Josué Seckel, na qual estão expostas mais de 350 obras, entre livros, fotos e gravuras, que fazem parte desse acervo proibido. Ali estão autores obscuros dos séculos 18 e 19, além dos inevitáveis Georges Bataille, Jean Genêt, Guillaume Apollinaire e o Marquês de Sade (do qual está em exibição o manuscrito original de “Justine, ou Os Infortúnios da Virtude”). Baixem o catálogo aqui: http://www.bnf.fr/pages/catalog/rtf/enfer.rtf.

A mostra conta com um interessante recurso publicitário: uma estação desativada do metrô (Croix Rouge, na linha 10) está sendo usada como vitrine: o trem não pára ali, mas ao passar por ela os passageiros a verão iluminada e cheia de cartazes e reproduções de obras, convidando o público a comparecer à Bibliothèque. A exposição é proibida para menores de 16 anos, o que levou os jornalistas do websaite The Literary Salon a afirmar que “a proibição é apenas um truque dos bibliotecários para atrair a atenção dos garotos e fazê-los pensar que os livros podem ter algo interessante para oferecer”.

Resta uma questão. Uma exposição assim prova que, finalmente, a cultura ocidental conseguiu chegar a um acordo com o erotismo e a sexualidade, e não mais considera essas obras transgressoras como uma ameaça? Ou significa que a pornografia (principalmente após o excesso de oferta na Internet) invadiu o mundo como um exército de bilhões de cupins triunfantes, e que não há outro recurso senão depor as armas e render-se ao seu poder? Quem puder ir a Paris, dê uma olhada e me informe.
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MensagemEnviada: Sex Fev 22, 2008 7:40 am Responder com CitaçãoVoltar ao Topo

Gramiro de Matos (25.1.2008)
Braulio Tavares

Na minha estante dedicada aos autores fora-de-esquadro, àqueles que não se encaixam com facilidade em estilos, movimentos ou épocas, guardo com carinho e curiosidade o livro “Os Morcegos Estão Comendo os Mamãos Maduros” (Rio: Eldorado, 1973), assinado por Gramiro de Matos, autor baiano nascido em 1944. É seu segundo livro e seu segundo nome, porque a primeira obra, “Urubu Rei” (Rio: Gernasa, 1972) foi assinada por Ramirão Ão Ão. Tem muita poesia essa história de assinar cada livro com um nome novo! O estilo de Ramiro Silva Matos (seu pálido nome oficial) é um dos pontos altos da prosa-poesia beat-tupiniquim, concreto-psicodélica, rock-joyceana, cultivada com furor por algumas dezenas de malucos durante os anos 1970. Gramiro previne nas páginas iniciais: “Os dessemelhantes tipos de leitores deverão contentar-se com as transformações ilimitadas que tenta uma narativa ligada à atividade mental variável – não apenas uma linguagem que apresente o mundo, mas a metamorfose do mundo inconsciente em movimento”.

A filiação linguística do livro é deixada explícita por citações diretas que emergem aqui e acolá no texto fragmentado do romance: Anthony Burgess (“Laranja Mecânica”), Sousândrade, James Joyce, João Ubaldo Ribeiro, Waly Sailormoon. O autor admite que o romance não tem propriamente um enredo e que as páginas estão “soltas no espaço”, o que aliás não importa muito, porque cada uma delas é uma combinação de achados brilhantes, cascalho bruto do linguajar cotidiano, imagens violentamente surrealistas, proliferação incontrolável de termos indígenas, interferências semânticas e ortográficas, fragmentação tipográfica do fluxo do texto.

O livro conta várias histórias de amor e farra entrelaçadas, sendo a principal delas a que envolve os personagens denominados O Besta e A Doida. Outros personagens têm nomes curiosos como Fhedra, Don Xenaldo, Bavy, Kilânio, Finado Bufa, Perilampo. Eles bebem em botequins, amam-se nas areias da praia, questionam o Universo em janelas de apartamentos, fazem bobagens, têm alucinações, escutam música tropicalista.

O livro tem capa de Mixel, texto de Jorge Amado na contracapa, pós-escritos de Silviano Santiago, Affonso Romano de Sant’Anna e Laís Corrêa de Araújo, todos com apreciações críticas de “Urubu Rei”. Gramiro teve impacto na época, mesmo que esse impacto não tenha lhe rendido uma visibilidade contínua como a de que desfrutou seu companheiro de geração e de estilo, Waly Sailormoon (ou Salomão).

É uma obra difícil? Não por falta de explicações, como esta, irretocável, à página 142: “Neste’mpo fora do corpo, na cabeceira da cumieira mesa-telha-planeta, ou s’esmaga ou decepa a cabeça da serpente y da semente, Finado Bufa livre do’sequazes’orri escorrendo em sangue fantasmagórico pelo chão di azulejos medievais antiazuis indo juntar seu pensamento motor transmissor numa molécula captora-voadora doutr’semente’semelhantes da consciência cósmica pós-consciente”. Precisa mais?
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