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BRAULIO TAVARES: TEORIA DA INSPIRAÇÃO Exibir próxima mensagem
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Luiz Alberto Machado



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MensagemEnviada: Ter Jul 26, 2005 8:16 pm Responder com CitaçãoVoltar ao Topo

Teoria da inspiração (20.5.2005)

Braulio Tavares

Não tem pra onde correr. Toda vez que um cineasta, teatrólogo, escritor, etc. dá uma entrevista, lá vem a pergunta de sempre: “E de onde vem a inspiração?” Eu entendo e compartilho o drama dos coleguinhas da imprensa, que todos os dias são forçados a fazer uma prancheta inteira de perguntas a desconhecidos. Mas isso não me poupa do suspiro resignado diante desta questão específica, que, caso vocês não saibam, é uma das mais desnecessárias entre as que abordam a criação artística.

A inspiração, para o sujeito que cria, é o óbvio, é o inevitável, é o mais-que-possível. Um leigo deve pensar que um artista é um sujeito igual a todo mundo, que acorda, escova os dentes, dedica-se a tarefas rotineiras, e de repente é possuído por um espírito, ou atingido por um raio, e passa a produzir febrilmente uma obra de arte, antes que aqueles minutos de iluminação mística se dissolvam no ar. Concordo que de vez em quando acontece algo assim, mas, creiam-me, isto é um acesso eventual, e o processo normal da inspiração se dá por canais muito diferentes. Perguntar a um artista de onde vem a inspiração é como perguntar a um casal em lua-de-mel de onde vem aquela vontade de ficarem juntos o tempo todo. A inspiração não é um relâmpago eventual que cai quando menos se espera: é um estado permanente da alma, é uma condição mental que uma vez instaurada só pode ser revertida à custa de muita lavagem cerebral, muita discussão de besteira, muito trabalho tedioso, muito tempo desperdiçado com as irrelevâncias da vida.

O mais errôneo da pergunta, no entanto, é falsear o eixo da questão, ao sugerir que a inspiração “vem” até nós. É justamente o contrário. A inspiração é um estado mental auto-induzido. É um gesto da vontade. É uma decisão que tomamos: “Vou botar a cabeça pra funcionar. Vou pensar em coisas interessantes, vou examinar idéias que me atraem e me intrigam, vou começar a brincar com formas que me dão intenso prazer, vou criar variantes, vou criar comentários, vou criar respostas às coisas que estou vendo.”

Um dos meus pensadores preferidos, Colin Wilson, afirma (citando as teorias filosóficas de Husserl) que a consciência é um ato intencional. Ele a compara ao jato de uma mangueira dágua dirigido sobre os objetos. Quando estamos frouxos, esvaziados, deprimidos, olhamos para as coisas e elas não nos despertam nenhuma emoção, nenhuma idéia. Por que? Porque não são elas que têm de vir até nós. “Que tristes são a coisas” , dizia Drummond, “consideradas sem ênfase”. Somos nós que temos de dirigir para as coisas o nosso jato de vontade, de ênfase, de entusiasmo pensador e criador, embebê-las com toda a carga emocional de nossa memória e de nossa imaginação, encharcá-las com nossas emoções. Eu diria que o gesto artístico não depende de inspiração, e sim de “expiração”: ele é o sopro criador que dirigimos sobre as coisas inertes do mundo, transmitindo-lhes a vida que existe em nós, e somente em nós.

* publicado nos artigos diários do "Jornal da Paraíba", que podem ser lidos diariamente em: http://jornaldaparaiba.globo.com/braulio.html.
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Pupila



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MensagemEnviada: Ter Jul 26, 2005 9:44 pm Responder com CitaçãoVoltar ao Topo

Mais um show de Bráulio!
É a pergunta mais constante aos escritores e poetas...adorei a Teoria!
beijso poéticos

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Luiz Alberto Machado



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MensagemEnviada: Qui Jan 12, 2006 7:11 pm Responder com CitaçãoVoltar ao Topo

A técnica e o sentimento (18.12.2005)
Bráulio Tavares

Numa oficina literária, quando o orientador propôs aos alunos um exercício para desenvolver uma técnica qualquer, um deles repondeu: “Eu não quero fazer exercícios técnicos. O excesso de técnica está matando a poesia. Poesia não é técnica, é sentimento. Pode-se fazer poesia sem técnica, mas não se faz poesia sem emoção”.

Temos aí um ótimo exemplo de verdades e equívocos tão misturados quanto uma xícara de café com leite. Vamos tentar separá-los de volta. Peguemos a primeira frase, para mim a mais sincera de todas: “Eu não quero fazer exercícios técnicos”. Isto, sim, é uma verdade límpida e indiscutível. Um neófito geralmente não gosta desse tipo de coisa. Garotos em geral detestam exercícios de matemática, exercícios físicos, qualquer coisa que exija ao mesmo tempo esforço e disciplina.

“O excesso de técnica está matando a poesia”. Concordo. Folheando antologias poéticas a gente se depara muitas vezes com poemas e mais poemas numa técnica impecável e que não dizem absolutamente nada, pelo menos a este leitor que vos fala. Um dos problemas da técnica é que quando pensamos tê-la dominado acabamos sendo dominados por ela. Ela toma conta de nossa mente, invade tudo que queremos escrever. Viramos uma máquina repetitiva, como aqueles guitarristas que improvisam super bem mas são incapazes de acompanhar uma música (e incapazes de deixar que os companheiros também improvisem).

“Poesia não é técnica, é sentimento”. Errado. Poesia (qualquer arte) é um máximo de tensão possível entre sentimento e técnica. A técnica serve para compactar o sentimento, torná-lo útil, dar-lhe sentido. Pense num automóvel. O automóvel tem dois sistemas: um de propulsão (motor) e um de deslocamento (pneus). Poeta que acha que poesia é só emoção é como um motorista que acha que um automóvel é apenas um motor acelerando e quatro pneus rodando. Mas a propulsão é controlada pela caixa-de-marchas, e os pneus são controlados pelo volante e a transmissão. A técnica não serve para matar a emoção, mas para recebê-la, comprimi-la, multiplicar sua força propulsora, projetá-la numa direção em que ela se desperdice o menos possível e chegue aonde quer chegar. Emoção com técnica é ar comprimido: tem poder. Emoção sem técnica é ar boiando no ar.

“Pode-se fazer poesia sem técnica, mas não sem emoção”. Discordo da primeira parte, concordo com a segunda. Ninguém faz poesia sem técnica. Juntar um B com um A para dizer BA é técnica, assim como todo o resto que daí decorre. Poeta que não gosta de técnica é como jogador de futebol que não gosta de lidar com a bola, quer apenas entrar em campo e ser visto pela torcida. Quanto à emoção, acho que quem quer ser poeta parte de uma emoção inicial: amor pela poesia, amor pela palavra, amor pela frase, amor pelas infinitas possibilidades da fala e da escrita. Se você não ama essas coisas, caro colega, vá ser cineasta, pintor, artista plástico, qualquer coisa cuja técnica lhe emocione.
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MensagemEnviada: Qua Jan 25, 2006 9:45 pm Responder com CitaçãoVoltar ao Topo

os dois textos muito bons, o segundo chamou minha atenção...porque uma boa parte de quem escreve nega a técnica e só diz ter emoção.
Eu não possuo regras ao escrever, mas tenho plena consciência que uso metáforas, a maior parte de versos não rimam, mas possuem melodia e o melhor, erro, volto ao poema e conserto. Existem inúmeros poemas que mudaram de foco e outros tantos que ainda precisam de revisão.O envolvimento da técnica mais as sensações são cúmplices no poema e na vida do poeta.
beijos poéticos

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MensagemEnviada: Sex Jan 27, 2006 9:56 am Responder com CitaçãoVoltar ao Topo

Osman Lins e o fragmento (11.1.2006)
Braulio Tavares

Osman Lins diz em algum livro seu que (os termos não são bem estes, mas vá lá) não existe produto literário mais reles do que o Fragmento. Sempre tenho um pouco de remorso quando discordo de meus autores preferidos. Por mais que os respeite, nunca me passa pela cabeça que eles possam estar certos e eu errado, mas discordar deles me constrange tanto quanto me constrangia contradizer meu pai em público (coisa que nunca fiz, embora às vezes a língua coçasse que era uma beleza, pelos despautérios que de vez em quando ele dizia).

Eu entendo a idéia de mestre Osman. Ele era um desses indivíduos que têm um vislumbre do Universo e permanecem fiéis a essa idéia de grandeza, à missão de reproduzir o que entreviram dessa enorme Máquina de Idéias. As imagens recorrentes no discurso de Osman são imagens de estruturas monumentais (a Catedral, a Cidade) ou complexas (o Relógio, a Tapeçaria, o Labirinto). Quem desenha ponte-pênsil desdenha quem faz ponta de lápis.

É natural que um arquiteto assim tenha um leve menosprezo pelo fragmento literário, pelo rabisco bem-intencionado que não chegou a se concretizar em obra, por esse embrião de idéia cuja evolução foi sustada pela indolência ou pela inépcia de quem o concebeu. Quando o fragmento de texto é medíocre, e sua existência parece sobrecarregar o mundo, não é grande problema, basta descartá-lo e esquecê-lo. Mas o fragmento de texto brilhante nos incomoda porque deixa entrever o talento que o produziu e as alturas a que este talento teria podido chegar, se tivesse tido coragem para encarar a Guerra da Criação.

Osman Lins sempre exigiu o máximo de si e dos outros. Não deve ter sido um sujeito de convivência fácil, porque seus parâmetros estéticos eram muito altos. Os parâmetros éticos também, como vemos em seus demolidores ensaios sobre literatura e mercado editorial (“Guerra sem Testemunhas”) e sobre o sistema educacional e a indústria cultural no Brasil (“Problemas Inculturais Brasileiros”, “Evangelho na Taba”). Não admira que ao tratar a criação literária ele fosse impiedoso com o pedacinho, o trechinho, o rascunho, o esboço, a coisa deixada pela metade, o quase-texto.

Se existem muitas obras prontas no mundo, maior ainda deve ser a quantidade das obras abortadas no meio do caminho. Sinfonias inacabadas, capítulos iniciais de romances inconclusos, primeiros-atos de peças que nunca viram o palco, músicas sem letra, letras sem música, filmes encalhados para sempre no copião. Em muitos desses fragmentos vemos o relampejar do gênio, e esta é uma razão a mais para lamentarmos a perda da Obra. Artistas que nos deixam mais fragmentos do que obras nos fazem pensar naquilo que Manuel Bandeira descrevia como “a vida inteira que poderia ter sido e não foi”, ou lamentar, com Augusto dos Anjos, “a dor da Força desaproveitada, o cantochão dos dínamos profundos, que podendo mover milhões de mundos jazem ainda na estática do Nada!”.
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MensagemEnviada: Sex Set 01, 2006 11:22 am Responder com CitaçãoVoltar ao Topo

Arte inflável (29.7.2006)
Braulio Tavares

Maurice Agis é um artista britânico que desde 1970 trabalha em instalações interativas, espaços onde o público penetra e entra em contato com experiências sensoriais de vários tipos. Há poucos anos ele inaugurou uma obra chamada “Dreamspace”, uma enorme construção com cinco metros de altura e 2.500 metros quadrados de área, composta de mais de cem “aposentos” (células de plástico inflável ligadas por corredores). À entrada o público tira os sapatos, veste batas coloridas, e pode ficar lá dentro o tempo que quiser. Em cada aposento há efeitos de luzes coloridas, música “new age”, etc.

Disse o artista sobre o Dreamspace: “O espaço não é algo que você contempla: é algo que se experimenta. E o tempo não é algo que se experimenta: é algo que se contempla”. (Eu acho exatamente o contrário, mas afinal, Arte consiste muitas vezes em inverter o óbvio.) Maurice Agis diz: “A presença humana em meu trabalho é fundamental para que ele faça sentido”. A obra não é um objeto para ser admirado de fora: é um ambiente onde se deve entrar, circular, demorar-se, interagir.

Os frequentadores, quando saem, deixam num livro de visitas seus testemunhos: “Uma explosão maravilhosa de cores, uma experiência psicodélica... – Ver crianças saltando e homens adultos rodopiando me fez chorar, não sei se as lágrimas eram por um mundo já esquecido ou por um mundo recordado e trazido de novo à vida... – Inacreditável, único, cheio de paz – se existe um Céu, esta obra de arte não está longe dele”.

Pois bem: dias atrás, o Dreamspace, que estava montado num parque em Durhan, desprendeu-se das cordas que o mantinham ancorado ao chão e elevou-se verticalmente, cheio de gente no seu interior. A enorme estrutura tinha um engenhoso sistema de ventilação interna, controlando as correntes de ar em seu interior e evitando que elas a impulsionassem para cima. Algo deu errado. O Dreamspace partiu as amarras, elevou-se como um balão desgovernado, e foi arrastado pelo vento até a extremidade do parque, só não prosseguindo rumo ao rio porque ficou providencialmente enganchado em alguns postes e árvores. Mesmo assim, a imensa estrutura pendeu, tombou, derramando gente lá de cima como se fossem caroços de feijão. Duas mulheres morreram. Uma criança está em estado grave. Há dezenas de feridos.

Muito cruel, especialmente se considerarmos que a polícia trabalha com a hipótese de sabotagem: alguém poderia ter afrouxado uma das cordas de sustentação, o que aumentou a pressão sobre as outras. É irônico e trágico que uma obra voltada para a paz, o alto astral, o relaxamento das tensões, acabe se revelando tão vulnerável. Maurice Agis (que segundo a imprensa estava presente ao local, e ficou arrasado com o que aconteceu) afirmou certa vez: “Minha obra é uma ação na qual os cidadãos podem se encontrar e interagir para criar uma consciência maior da realidade”. De certa forma, e uma forma muito dolorosa, foi exatamente o que aconteceu.
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Luiz Alberto Machado



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MensagemEnviada: Sex Set 01, 2006 11:22 am Responder com CitaçãoVoltar ao Topo

) Nós e vós (30.7.2006)
Braulio Tavares

Vós que me ledes, caros leitores, deveis saber que um sujeito na minha posição recebe uma quantidade enorme de poemas. São livros, revistas, emails, o escambau. Uma tendência que tenho observado nos poetas de hoje é o uso dos pronomes “tu” e “vós”, geralmente de maneira equivocada. A segunda pessoal do plural é uma área pronominal em franco desuso e decadência, só chamada a intervir quando se trata de discursos parlamentares, ofícios burocráticos ou romances históricos. Aí pergunto: por que motivo, caros colegas, insistis em usar esses pronomes, quando torna-se evidente que não tendes a menor familiaridade com eles?

Acho que a principal razão para que lanceis mão de um tratamento tão obsoleto é o afã de conferir ao vosso discurso um tom de nobreza, de pompa, um vocativo formal e hierático capaz de evocar ao leitor um tempo ido, um mundo passado onde as fórmulas de respeito não eram mero clichê retórico. Procurais assemelhar-vos (mesmo que estilisticamente) aos protagonistas dessa era remota, porque percebeis (e repelis) o tom escrachado e frívolo dos tratamentos de hoje, com sua galhofa impudente, sua fingida intimidade entre interlocutores. Entendo e aceito, mas advirto: examinai bem vossas Gramáticas empoeiradas, recorrei ao Google quando necessário, insisti junto aos mestres, mas tende piedade dos leitores mais sensíveis.

Dias atrás li um poema que dizia assim: “Ide, poeta! Consintais que a vida te procure!” Meu caro e anônimo autor! Estás tão dividido e dilacerado quanto aquela dupla de irmãos siameses indo ao Fla-Flu no Maracanã. Ou bem te diriges ao poeta com a intimidade propiciada pelo “tu” ou com o distanciamento e respeito implícito no “vós”. E olha que ainda estamos apenas no plano da intenção inicial, porque a forma usada no teu verbo, “consintais”, salta da frase como o bigode da Mona Lisa de Marcel Duchamp. Estuda! Treina os verbos mais traiçoeiros. Inventa para ti próprio um exerciciozinho como este, destinado a flexionar teus neurônios gramaticais. Tu os tens, e não são poucos. Precisam apenas de algo que só tu lhes podes fornecer: exercício. Mas não vás adiante de ti mesmo. Usa apenas o que sabes usar. O poema não é o território adequado para tentares pela primeira vez um tipo de elocução ao qual não te acostumaste. Consola-te pensando que todo mundo erra, eu primeiro que todos.

Vou mais além. Vós todos, Brasil afora, que vos acostumastes à estreita gama de tratamentos da linguagem coloquial da indústria-de-massas, devíeis freqüentar de quando em vez um “spa” com o nome de “Seminário de Português Aplicado”, do qual só sairíeis quando soubésseis conjugar, na ponta da língua, os verbos mais abstrusos. Mas se achais (como bem podeis) que tudo isto não vale a pena, basta continuardes empregando o feijão-com-arroz do você e do vocês. Não são anti-poéticos. Qualquer coisa pode ser poética, se souberdes usá-la com beleza, propriedade, criatividade, e, acima de tudo, bom-senso.
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MensagemEnviada: Qui Set 07, 2006 6:57 pm Responder com CitaçãoVoltar ao Topo

Palavras que comprometem (16.8.2006)
Braulio Tavares

Há um episódio, muito recontado, sobre Graciliano Ramos, que estava revisando um número da revista “Cultura Política” e deparou-se com um texto que dizia algo como: “Precisamos destacar, outrossim, a importância de tal e tal coisa...” Graciliano parou, releu, mordeu a ponta do lápis, aí riscou a palavra, dizendo: “Outrossim é a p. que p.” Estava coberto de razão. “Outrossim” é horroroso. Eu só não digo que tenho ojeriza a esta palavra porque detesto, com a mesma intensidade, a palavra “ojeriza”. Por que? Não sei, e admito que é mero preconceito, e recorro a equivalentes aproximados como “fobia”, “antipatia”, “aversão”.

Certas palavras são antipáticas porque são pretensiosas e vazias. “Ufanar-se”, no sentido de orgulhar-se: “Ufano-me do meu país, porque é o melhor país do mundo...” Palavras assim eu risco de pincel-atômico. “Exprobrar” é outra: “Estamos aqui para exprobrar este comportamento inaceitável...” Diga-se “condenar”, “reprovar”, qualquer coisa, menos isso. Outra que não suporto é “consentâneo”: “Um cidadão precisa ter um comportamento consentâneo com as normas morais e éticas...” Diga-se “de acordo com”, diga-se “em harmonia com”, “adequado a”, qualquer coisa, meus amigos. Menos isso.

O linguajar jurídico (desculpem, caros advogados) está cheio dessas palavras pomposas, que funcionam, no interior da classe, como sinalizadores de prestígio intelectual. Usá-las dá prestígio, porque dá a falsa impressão de que o cara é inteligente. Nada tenho contra o jargão técnico de uma profissão (palavras únicas, específicas, insubstituíveis); minha birra é com o palavreado oco e cheio de pose com que os redatores e oradores ficam se pavoneando diante uns dos outros, fingindo uma cultura verbal que na verdade não possuem, porque estão se limitando a repassar os clichês que os pavões da geração anterior lhes repassaram.

Recue, amigo, diante de quem usa o tempo inteiro palavras como “aviltar”, “conspurcar”. É um moralista cheio de retórica, e Deus me livre de abrir a tampa da alma de um desses sujeitos e olhar lá dentro. Já aprendi que quanto mais grandiloqüentemente moralista é o discurso de um cara, mais coisas ele está tentando varrer para baixo desse florido tapete.

Quem diz palavras desse tipo procura fazer com que elas funcionem como senhas. O sujeito as diz para ser tido como honesto e ser admitido neste seletíssimo clube (tão seleto que vive às moscas). São palavras que, na economia do vernáculo, custam os olhos da cara para adquirir. Nossa memória racial as associa a tribunos inconspurcáveis como Rui Barbosa ou Joaquim Nabuco. Lançado mão do vocabulário desses ilustres figurões, que Deus os tenha, o sacripanta de hoje tenta, por mimetismo verbal, assemelhar-se a eles, esconder-se à sua sombra, pegar carona nas suas imunidades parlamentares e oratórias. Desconfiem dos Gôngoras da tribuna, porque como regra geral não passam de Tartufos nos bastidores.
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MensagemEnviada: Sáb Dez 02, 2006 9:41 am Responder com CitaçãoVoltar ao Topo

A Razão Deslocada (4.10.2006)
Braulio Tavares

Chamo de “razão deslocada” aqueles comportamentos que parecem racionais e lógicos, mas são inadequados àquela aplicação específica. Para algumas pessoas, basta que um comportamento tenha uma razão de ser (uma única razão de ser) para estar justificado, e ninguém ter que dar explicações. Visto à distância, contudo, este comportamento racional torna-se absurdo, no contexto maior de todos os fatos envolvidos. É aquele célebre exemplo de Bertolt Brecht: “Isto equivale a pintar a parede do camarote de um navio que está indo a pique”.

Uma vez alguém me perguntou por que motivo eu não arrumava os livros da minha estante por ordem alfabética. Expliquei que prefiro arrumar por assunto. Ficção científica nesta prateleira aqui, Arsène Lupin e assuntos nordestinos ali embaixo, cantoria-de-viola e cinema de terror ali à direita... Pode não ter muita lógica, mas tudo que eu procuro eu acho em poucos segundos, é um sistema mais eficaz do que o Google.

Jorge Luís Borges usou certa vez o termo “a desordem alfabética”, que é de uma lucidez cristalina. A ordem alfabética é uma desordem, se considerada, por exemplo, do ponto de vista da cronologia ou da nacionalidade. Todas as vezes que impomos o crivo de um critério, explodimos todos os outros. Um dos casos mais curiosos de coincidência (que de vez em quando me acontece) é ver, numa bibliografia, dois livros sobre o mesmo assunto aparecendo lado a lado porque os seus autores se chamam Hoffmann e Hoffmannstahl, por exemplo.

Razão Deslocada é o caso daquelas pessoas que têm uma inflamaçãozinha de garganta e se entopem de antibióticos, pouco ligando para os efeitos colaterais. É o caso do sujeito que trabalha 15 horas por dia, mas, como está gastando mais do que ganha, resolve fazer hora-extra para equilibrar o orçamento (em vez de gastar menos). É o caso de um sistema de Previdência que, ao perceber milhares de contas fantasmas criadas por seus próprios funcionários, exige que todos os velhinhos do país compareçam pessoalmente ao guichê para provar que existem. É o caso do rei que, ao ouvir falar que nasceu um Messias, manda degolar todos os bebês do reino para preservar o trono.

Qualquer ação pode ser racionalmente justificada, principalmente hoje em dia, quando o uso compulsivo e obrigatório da Razão foi capaz de deslocá-la na direção que mais convém a forças que lhe são opostas, inclusive o Absurdo. Desenvolveram-se em nosso mundo centenas de discursos racionais paralelos, todos auto-justificáveis, e quase todos incompatíveis entre si. Governos, exércitos, corporações e diretorias de clubes de futebol são os exemplos mais notórios do emprego da Razão Deslocada, porque cada um tem sua agenda secreta, cada um tem seus propósitos que não podem ser declarados em público, mas cada um dispõe de equipes teorizadoras e de porta-vozes capazes de justificar, com lógica e racionalidade, qualquer coisa. E estou dizendo Qualquer Coisa, mesmo.
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MensagemEnviada: Sáb Dez 02, 2006 9:42 am Responder com CitaçãoVoltar ao Topo

O Som do Concretismo (18.10.2006)
Braulio Tavares

A poesia concreta deu uma ênfase excessiva ao visualismo, tornando-se com isto o ponto mais alto da poesia escrita, da poesia que só existe no espaço visual, na página. Ao mesmo, tempo, entretanto, ela promoveu o desmembramento da palavra em unidades menores autônomas: a sílaba, a própria letra. E com isto trabalhou as sonoridades, as aliterações, as paronomásias, os jogos de palavras que sempre levam a Poesia de volta ao terreno da fala e do canto. Parece que o grande alvo, o grande adversário do Concretismo não era tanto a Fala e sim a Discursividade, o blá-blá-blá retórico de uma poesia que falava muito e dizia pouco, ou que tentava dizer muito recorrendo a conteúdos mas mostrando um enorme desleixo quanto à forma. Aquilo que Leminski chamou “uma poesia porosa”.

O Concretismo explodiu essa discursividade profusa, confusa, prolixa. Compactou a sintaxe, erodiu todo o supérfluo, redefiniu as relações entre as palavras usando novos conceitos geométricos e espaciais, numa tentativa de quebrar a fluência beletrista da “poesia de bacharéis” capaz de encher com texto descartável léguas e mais léguas de papel indefeso.

O Concretismo tentou reduzir a poesia ao essencial, baseado naquela velha equação (Dichten = condensare) em que o termo alemão para “poesia”, “Dichtung”, mostra suas raízes no verbo “condensar” e termos correlatos (denso, densidade, etc.) Poesia é linguagem concentrada, compactada, o máximo de sentido no mínimo de palavras.

Sem o Concretismo o caminho poético de Gilberto Gil e Caetano Veloso seria outro, como seria outro o de artistas posteriores como Arnaldo Antunes e Chico César. Todos estes são poetas (poetas da música, é claro, mas para efeito da presente análise não se distinguem dos poetas de livro) que se beneficiaram do que o Concretismo descobriu ao explodir o supérfluo e voltar ao essencial. Mas, ao defender a bandeira do Visual, os poetas paulistanos trouxeram de volta à luz o que a poesia tinha de auditivo, redescobrindo a importância do som das palavras, e o prazer lúdico cuja origem está na Oralidade.

Os poetas do grupo Concretista (Augusto e Haroldo de Campos e Décio Pignatari) pagaram caro pelo seu eventual elitismo, pela sua propensão à polêmica, e pelas críticas impiedosas dirigidas à produção poética que lhes era contemporânea – críticas que, mesmo quando esteticamente fundamentadas, encontravam resistência devido ao tom às vezes arrogante ou desdenhoso com que eram formuladas.

Quando tentou cantar embaixo de vaias a música “É Proibido Proibir” num festival de música, Caetano Veloso bradou para a platéia: “Se vocês em política forem como são em estética, estamos feitos!” (ou seja, “estamos lascados”). Se o grupo concretista tivesse tido uma habilidade política e uma flexibilidade diplomática à altura das suas muitas e fundamentais contribuições estéticas, sua influência na poesia brasileira teria sido muito maior e mais benéfica do que efetivamente foi.
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MensagemEnviada: Sex Mar 09, 2007 9:10 am Responder com CitaçãoVoltar ao Topo

Compramos livros (31.12.2006)
Braulio Tavares

Compramos livros (dizem nossos adversários) para impressionar pessoas ingênuas levando-as a presumir que sabemos de tudo que está contido naqueles volumes. Compramos livros (insistem eles) porque temos medo de ficar para trás no incessante rodízio de modas e tendências do mundo intelectual. Compramos livros para esconder atrás dessa barricada a nossa angustiada ignorância. Porque somos metidos-a-besta e inseguros, e os livros talvez possam intimidar interlocutores mais inseguros do que nós. É mais ou menos isto que pensa a “oposição”.

E na verdade não é nada disso. Cada um de nós poderia usar uma T-shirt onde estaria escrito: “Compro porque é vendido. Se fosse doado, eu aceitava”. Compramos livros porque achamos mais elegante e mais poética uma parede forrada de livros do que uma parede com dez Van Goghs. Sentimos, diante de uma sala recoberta de estantes, a paz de um jardineiro contemplando seus canteiros, e o orgulho de um general vendo desfilarem seus exércitos.

Compramos livros porque acreditamos que cada livro é um portal para um universo diferente e único, e multiplicamos assim as nossas chances de mudar o mundo de acordo com nossa veneta. Para um desavisado, as lombadas dos livros não passam de superfícies estreitas de papel com algumas palavras que as identificam. Para nós, a lombada, até mais do que a capa, é o rosto do livro, é o link mágico em que basta tocar com a ponta do dedo para fazer com que ele se desdobre em deslumbramento.

Compramos livros porque esta é a maneira mais simples de levá-los para passar uns dias conosco, descobrindo afinidades mútuas. E quando, na pior das hipóteses, vemos que não era nada do que tínhamos imaginado, ainda assim o livro preterido tem a paciência de deixar-se encostar num recanto, durante meses, sem protestar. Comprar um livro é uma aposta renovada no prazer de ficar sabendo; no possibilidade de que verdades essenciais estejam nos aguardando em silêncio; na economia de tempo e de espaço que concentra em algumas centenas de páginas a sabedoria destilada em muitas centenas de vidas.

E não somos uma espécie em extinção. Na pior das hipóteses somos uma população que se reduz, mas, o que tem isto? Jamais trocaremos o ouro sólido do Aqui-e-Agora pelo cheque pré-datado da Posteridade. Não há prazer maior do que a fidelidade a quem se ama. Abrir um livro é ficar de mãos dadas com ele, conduzi-lo, deixar que nos conduza. Esse afeto madurado nas adegas da memória nos leva a ver os livros não mais como nossos pais e mestres, mas como nossos netos e discípulos. E a imaginarmos um futuro remoto com aposentadoria, paz doméstica, moeda estável, poupança aplicada na montagem de um Sebo. Ali, numa cadeira de balanço junto ao balcão, passaremos tardes tranqüilas, atendendo amigos antigos e fazendo amigos novos, sentados junto à porta onde estará afixado o modesto e orgulhosíssimo letreiro: “Compramos livros”.
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Luiz Alberto Machado



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MensagemEnviada: Sáb Mai 19, 2007 12:20 pm Responder com CitaçãoVoltar ao Topo

1225) A Utopia e o Apocalipse (15.2.2007)
Braulio Tavares

Uma vez vi um comandante de navio explicando a dificuldade de manobrar um daqueles petroleiros que cruzam os oceanos: “Por ser um navio muito pesado, ele responde muito lentamente ao freio, e só pára de fato 10km depois. Portanto, se a gente avistar um iceberg a 9km, não tem mais jeito a dar: já bateu. É só ficar esperando, e rezar”. Não sei se ele falou em rezar; escapou-me agora, no instante da digitação, como nos escapa pelos dedos a maior parte dos clichês que trazemos na mente e que jamais seriam aprovados pela censura estética da nossa consciência. Mas o fato é que em momentos assim, com um iceberg 9 quilômetros à frente, nossos dedos reagem de moto próprio. Indicador e médio cruzam-se dentro do bolso da calça, para que ninguém nos veja regredindo à superstição. Ou então fazemos o sinal-da-cruz, ou batemos na madeira fingindo que estamos tamborilando os dedos, despreocupados. Primeira lição a extrair disso: quer saber o que o Inconsciente de um sujeito está pensando, olhe para o que fazem os seus dedos.

Todo este papo de cerca-lourenço do parágrafo anterior é sintomático do sujeito que sabe que tem uma coisa desagradável para dizer e fica enrolando, falando em redor, com medo de se aproximar do centro. Mas nove quilômetros passam rápido, e aqui chegamos. Todos os leitores devem ter sabido do relatório ambiental divulgado dias atrás por uma equipe internacional de cientistas. O recado que eles nos dão sobre o aquecimento global pode ser resumido mais ou menos assim: aconteceu algo de terrível com o planeta. Não pode mais ser evitado; já aconteceu, e por culpa nossa. Tudo que podemos fazer agora é preparar o mundo para as conseqüências, que só virão, aos poucos, durante as próximas décadas. Ou seja, o navio já bateu, e os pilotos que podiam tê-lo desviado não o fizeram. Coloquem os salva-vidas. Os que ainda não sabem nadar podem se matricular no curso de natação a ser ministrado na piscina do convés.

A consciência de um Apocalipse pode ser estranhamente reveladora para o ser humano. Tem gente que só se mexe quando sabe que aconteceu uma catástrofe. O Apocalipse tem o efeito inverso da Utopia. O escritor Eduardo Galeano afirmou certa vez: “A Utopia está no horizonte. Aproximo-me dois passos, ela afasta-se dois passos. Caminho dez passos e o horizonte afasta-se dez passos. Por muito que caminhe, nunca a alcançarei. Para que serve a Utopia? Para isto: serve para caminhar”. Um Apocalipse anunciado, uma tragédia que se anuncia para o futuro, pode ter um efeito semelhante. Dá tempo para o mundo inteiro se preparar. Ninguém pode se queixar de estar sendo colhido de surpresa. A ficção científica, por exemplo, vem anunciando essas catástrofes ambientais desde os anos 1960. Para que servem o Aquecimento Global, o Degelo dos Polos, a Invasão dos Oceanos, a Submersão das Cidades Litorâneas? Para isto: serve para caminhar. Não precisam preocupar-se com você mesmos; mas preparem seus filhos.
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Luiz Alberto Machado



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MensagemEnviada: Sáb Mai 19, 2007 12:28 pm Responder com CitaçãoVoltar ao Topo

“Os Sertões” (17.3.2007)
Braulio Tavares

Reli, ao longo de cinco noites, o romance-reportagem de Euclides da Cunha, que eu tinha lido por volta dos 25 anos. É outro livro, porque já é outro leitor. Por mais que a gente recorde o desenho geral da obra, os episódios mais vívidos, as frases mais tonitruantes, a releitura é feita agora à luz do que aprendemos no intervalo. As comparações, as associações de idéias, são outras. O Brasil é outro. Quando li “Os Sertões” o país estava sob uma ditadura militar, o Exército era o Inimigo, e podíamos imaginar Canudos como um esboço de Socialismo Sertanejo. Hoje mudou tudo.

Há 110 anos, a cidade, através de suas Forças Armadas, invadiu Canudos. Hoje, Canudos invadiu a cidade: para onde a gente olhe vê a Favela, o casario, as trincheiras, escuta o espoucar dos tiros e sente o silvar das balas perdidas. O tiroteio de Canudos deixou para trás o sertão bruto de Cocorobó e Jeremoabo, pegou ônibus, pegou misto, pegou pau-de-arara, desembarcou no Rio e se instalou na Rocinha, no Alemão, na Providência, no Vidigal. Quando o Exército voltou triunfante, brandindo a cabeça de Antonio Conselheiro como uma garantia de que a República não seria derrubada, esqueceu-se de olhar para trás e ver os milhões de jagunços que o seguiam a pé e de foice em punho.

Estou sendo melodramático, mas é o jeito. Melodrama é tragédia diluída em sentimento. O livro de Euclides é tragédia pura, é a história de uma situação-limite vivida por um País, em vez de por um simples grupo de indivíduos. É de uma verdade e uma intensidade insuportáveis, se nos dedicarmos a pensar sobre ela e conduzir estes pensamentos até as últimas conseqüências – entre as quais está a constatação de que a situação cem anos depois é cem vezes mais grave, e que nem toda a evolução tecnológica do nosso Exército pode fazê-lo ganhar esta segunda batalha que se desenha. Porque, mais uma vez, trata-se de uma guerra que não é guerra, não faz parte das guerras estudadas nos manuais militares.

Os sitiados de Canudos colocavam o olho na frincha da janela e, de lá do seu vale rodeado de colinas, viam a linha implacável dos batalhões que os cercavam, e que nos três últimos meses de campanha vieram “comendo pelas beiras” seu povoado, casebre a casebre, cadáver a cadáver. Hoje somos nós que quando saímos à rua ou vamos à praia olhamos para o alto e vemos os morros cobertos dos casebres que nos invadem. Por enquanto, ainda são nossos. Não se enganem: 95% dos favelados cariocas são tão pacíficos e trabalhadores quanto eu e você, caro leitor. São os 5% restantes que não param de crescer. Há comboios de suprimentos (dinheiro, armas, drogas) que não param de chegar às suas mãos, para fortalecer-lhes o cerco. É um Canudos-Bizarro, uma contrafação, uma caricatura grotesca daquele povoado ingênuo onde os sinos tocavam a Ave-Maria toda tarde, com ou sem bombardeio. É um Canudos do Mal. Tivemos 110 anos para evitar que surgisse, e se não o fizemos não foi por falta de um Livro.
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Luiz Alberto Machado



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MensagemEnviada: Sáb Mai 19, 2007 12:31 pm Responder com CitaçãoVoltar ao Topo

A diluição dionisíaca (28.3.2007)
Braulio Tavares

Os filósofos descreveram estes dois aspectos do ser humano. O lado apolíneo, que vem do deus Apolo, é o lado do equilíbrio, da harmonia, das proporções corretas, da beleza obtida através da razão, do auto-domínio. O lado dionisíaco vem de Dionisos, ou Baco, que é o deus da farra. É o nosso lado exagerado, sensual, contraditório, voltado para a satisfação dos sentidos, das emoções, das paixões primitivas e corporais. O lado apolíneo nos conduz para as regiões mais elevadas da arte, da ciência e da filosofia; o lado dionisíaco nos conduz ao sexo, às drogas e ao rock-and-roll. Todo mundo tem algo de ambos, todo mundo oscila entre o predomínio de um ou do outro. Em alguns tipos humanos um deles prevalece; os nossos clichês e preconceitos nacionais se cristalizam muitas vezes em torno desses aspectos. Aos nossos olhos, um sueco ou um alemão são invariavelmente apolíneos; um jamaicano ou um camaronês têm que ser dionisíacos.

O Brasil é um quebra-cabeças em forma de colcha-de-retalhos, mas quem nos vê de longe, da Europa, digamos, tende a nos achar dionisíacos. Para eles, somos um povo eternamente voltado para a festa, a comemoração ruidosa, o prazer, a sensualidade, o hedonismo. E de fato, basta olhar em volta para ver o quanto isto está presente em nossa vida. E o quanto é justamente este aspecto que irrita e impacienta muitos dos nossos intelectuais, que vêem o povo pulando carnaval ou dançando axé-music na praça e dizem: “Por isso que o Brasil não vai pra frente!”

Esta é uma questão interessante, porque o dionismo (valha a palavra nova) não é bom nem mau, em si, é apenas uma possibilidade do ser, tanto quanto o seu reverso, o apolismo. Se me perguntassem a proporção ideal entre os dois eu diria que precisamos ser 51% apolíneos e 49% dionisíacos. Por que? Porque para mim existe um princípio fundamental na natureza, inclusive a natureza da alma humana, que é o equilíbrio. Sem equilíbrio, a coisa desanda; e o equilíbrio, virtude suprema, é uma característica apolínea.

Para esta questão, vale a lei do mel e da farinha: quando temos muito de um, precisamos equilibrar as coisas adicionando o outro. Quando vivemos num ambiente basicamente apolíneo, a tendência é irmos nos tornando cada vez mais sérios, cada vez mais formais, cada vez mais civilizadamente escandinavos. Aí é preciso que Dionisos entre pela janela para bagunçar as coisas, para instaurar por alguns momentos o Reino da Gréia e da Bagunça. Por outro lado, quando o mundo está bagunçado demais, festivo demais, permissivo e hedonista demais, e principalmente quando tem grupos econômicos fortíssimos impondo esta situação porque extraem dela enormes lucros, é preciso a gente chamar Apolo e a voz da razão. Nem a ditadura, nem o caos. Equilíbrio acima de tudo, para que Apolo e Dionisos possam conviver pacificamente. Festa é bom, mas o ano letivo tem que começar em algum momento.
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MensagemEnviada: Sex Nov 16, 2007 8:08 am Responder com CitaçãoVoltar ao Topo

A dificuldade de escrever (27.9.2005)
Braulio Tavares

“Quais são as principais dificuldades de ser um escritor no Brasil?” Imagino uma cena de filme em que um entrevistado ouve essa pergunta, fica em silêncio durante cinco minutos diante das câmaras, ao vivo, e depois murmura: “São muitas... são muitas... Acho melhor ir ser taxista”. Prefiro focar uma questão básica, que se coloca para muita gente que escreve: 1) Ser um escritor tempo integral, e tentar viver da literatura; 2) Ter outra fonte de renda (um emprego fixo) e escrever nas horas vagas. Cada uma tem vantagens e inconvenientes.

A segunda opção foi adotada pela grande maioria dos nossos grandes autores, que eram funcionários públicos, diplomatas, médicos, professores, jornalistas, etc., e não dependiam da vendagem dos seus livros para sobreviver. Isso dá ao autor uma certa liberdade. Ele escreve exatamente o que quer, e se o livro não vender, o prejuízo é da editora, e a pedra de tempo é do livreiro. O Escritor Nas Horas Vagas é num certo sentido um homem livre, que escreve o que lhe dá na telha; por outro lado, perde um tempo precioso de vida literária útil redigindo ofícios administrativos (como Drummond), demarcando fronteiras no meio da selva (como Guimarães Rosa) ou tratando de doentes (como Moacyr Scliar).

À primeira vista, o ideal seria o escritor viver da literatura e para ela. Já pensou, ter como único ofício o trabalho literário, 24 horas por dia, 365 dias por ano? O problema é quando a vendagem dos livros não cobre as despesas de aluguel, supermercado, contas, colégio das crianças. O escritor começa a folhear os suplementos, olhar a lista dos Mais Vendidos: “Hmmm... Parece que livros sobre os Templários estão tendo boa saída...” E aos poucos ele vai resvalando para a primeira opção de quem vive do ofício: fazer, não o que gostaria de escrever, mas o que o público está gostando de ler.

Como sempre, não é possível juntar o melhor de dois mundos. Já vi alguns autores dizerem que a melhor coisa para um escritor é exercer uma profissão que lhe exija atividade física (piloto de lancha, lenhador, etc.) e escrever nas horas vagas, porque aí a escrita vira um descanso. Para estes, passar o dia dando aulas de literatura (ou ralando numa redação de jornal) e tentar escrever à noite é suicídio.

É difícil viver de literatura no Brasil, portanto a opção de viver de outra coisa é a mais prática e a mais sensata. Para adotá-la, no entanto, é preciso ter disciplina e obrigar-se a escrever com regularidade. Escrever muito, e publicar apenas os 10% que parecerem de melhor qualidade, não importa se são vinte páginas por mês ou por ano. As principais dificuldades de ser escritor não têm nada a ver com o Brasil, ou com a China ou com o Haiti. Os problemas do escritor são parecidos no mundo inteiro e começam todos em casa, ou seja, dentro da cabeça dele. Se um escritor conseguir resolver os problemas que ele próprio se cria, já tem mais de meio caminho andado.
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