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BRAULIO TAVARES: RITMO E POESIA Exibir próxima mensagem
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Luiz Alberto Machado



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MensagemEnviada: Qua Ago 10, 2005 10:35 am Responder com CitaçãoVoltar ao Topo

Ritmo e Poesia (9.6.2005)
Braulio Tavares

A primeira vez em que vi a palavra norte-americana “rap” ser usada para descrever uma canção da MPB foi quando Caetano Veloso lançou “Língua”: “Gosto de sentir minha língua roçar na língua de Luís de Camões...” Foi uma música de alto impacto, não só por ser (sob qualquer ótica) uma canção poderosamente poética, mas porque a imprensa nacional pôde registrar com alacridade o desembarque triunfal de mais um modismo americano em solo pátrio. Todas as vezes que um brasileiro consegue fazer com um mínimo de competência alguma coisa que os americanos criaram e lançaram, vemos nisto um sinal de maturidade estética e independência cultural. Paciência; há coisas piores.

Coisa pior, por exemplo, é quando os americanos começam a fazer algo que já fazíamos há séculos, e nós por aqui ficamos de queixo caído com a inventividade deles. É o caso do “rap”, sigla que já diz tudo: “Rhythm And Poetry”. Este estilo de cantar consta basicamente em criar uma base rítmica qualquer e fazer fluir por cima dela um discurso verbal que segue a sua cadência, mas com flexibilidade bastante para adiantar, retardar, fazer saltos e síncopes, parar aqui e pular para encaixar mais adiante. É uma demonstração de habilidade musical e verbal, porque mesmo que o teor harmônico e melódico seja deste tamanhinho (geralmente é), é a “levada” produzida pelos instrumentos (ou bases eletrônicas, ou palmas-e-estalos-de-dedos) que impõe a moldura rítmica onde as frases têm que se encaixar.

Nossos emboladores de coco fazem isto há pelo menos um século, com os pandeiros ou os ganzás fornecendo a base rítmica, e a Poesia Barroca Ibérica fornecendo os modelos básicos (quadra, décima, verso setissílabo) em cima dos quais eles criam variações. Tanto o Coco quanto o Rap podem servir para cantar versos decorados ou para improvisar versos na hora. A principal distinção a se fazer entre os dois é que existe mais música, mais melodia do Coco do que no Rap, assim como existe no Coco mais rigor métrico, pois o Rap em muitos momentos vira uma mera prosa ritmada, sem a presença de “cortes” regulares que correspondam às linhas de uma estrofe.

Generalizações assim são perigosas, porque cada artista traz um pequeno desvio em relação a qualquer regra que um teórica venha a identificar. A própria canção de Caetano citada acima tem um formato muito mais criativo, ritmicamente mais solto, do que a maioria dos Raps brasileiros, que em geral se limitam a um “patatí-tatí-tatá”. Há muitas canções com momentos de “Ritmo e Poesia” na MPB, no sentido de que contêm trechos puramente falados mas que não se afastam da base rítmica. Entre elas, “Ouro de Tolo”, de Raul Seixas; “Nem vem que não tem” com Wilson Simonal; “Avohai” de Zé Ramalho, “O Calhambeque”, com Roberto Carlos; “Deixa isso pra lá” e “Zig-Zag” com Jair Rodrigues; “Sá Marica Parteira” e a longa introdução de “Respeita Januário” com Luiz Gonzaga.

* ARTIGO publicado na coluna diária do autor no “Jornal da Paraíba”, que pode ser lido online no endereço: http://jornaldaparaiba.globo.com/braulio.htm .
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Luiz Alberto Machado



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MensagemEnviada: Sex Out 21, 2005 4:13 pm Responder com CitaçãoVoltar ao Topo

“The Waste Land” (20.8.2005)
Braulio Tavares

Ele já foi chamado “o maior poema do século 20”, e embora eu seja inimigo declarado de conceitos como “o maior, o melhor, o mais importante” não se pode negar que é um texto utilíssimo para entender o sentimento apocalíptico e sombrio da civilização ocidental na década de 1920. “The Waste Land”, de T. S. Eliot (título que Paulo Leminski, brilhantemente, sugeriu traduzir por “Devastolândia”) é um poema que fala de ruína, vazio espiritual. Algumas de suas expressões viraram citações recorrentes: “Abril é o mais cruel dos meses”, “Beladonna, Lady of the Rocks”, “ó doce Tâmisa, flui devagar, até que eu encerre minha canção...” É um belo poema, embora crivado demais de citações poliglotas para meu gosto. Fico pensando como seria a tal versão original que, reza a lenda, Eliot mostrou a Ezra Pound, e na qual Pound meteu a caneta, reduzindo o poema à metade e dando-lhe sua forma atual.

Mas quem sou eu para gostar ou não gostar? Textos assim dão à literatura algo do mundo alucinatório das artes plásticas, onde quadros famosos (pense Da Vinci, Van Gogh, Picasso) são objeto de análises químicas, raios-X, tomografias computadorizadas. Recentemente, um professor de literatura chamado Lawrence Rainey decidiu reconstituir o processo de escritura de “The Waste Land”. Em 1971, foi localizado um maço de páginas do manuscrito original, e Rainey decidiu compará-las com outros documentos escritos por Eliot no mesmo período. Ele recorreu ao FBI, que lhe repassou técnicas de identificação de máquinas de escrever. Usou micrômetros para medir e comparar a espessura de cada folha do manuscrito, agrupando-as. Visitou 22 bibliotecas e coleções de documentos sobre Eliot durante dois anos. Examinou um total de 1.200 páginas originais, incluindo 638 páginas de cartas escritas por Eliot entre 1912 e 1922.

A conclusão final de Rainey é de que Eliot escreveu “The Waste Land” entre janeiro de 1921 e janeiro de 1922, e não escreveu seguindo um plano, mas improvisando fragmentos que depois foram cuidadosamente encaixados uns aos outros. (E cá pra nós, é justamente a impressão que o poema dá) Com isto, ele contesta a interpretação dos críticos da época de Eliot, de que o poema era fruto de um meticuloso planejamento.

O livro de Rainey, “Revisiting The Waste Land” saiu pela Yale University Press, e mostra o quanto o valor de uma obra literária se mede pela reação que desperta nos que a lêem. Borges dizia que um clássico é um texto que se lê “com prévio fervor e misteriosa lealdade”. Não vejo melhor exemplo disto do que empreitadas como a do Prof. Rainey, que tem algo do detalhismo de um Sherlock Holmes misturado à obstinação de um Champollion e ao irracional amor (perdoem o pleonasmo) desses fãs dos Beatles como Mark Lewisohn, capazes de ouvir e anotar milhares de quilômetros de fita magnética para reconstituir todos os “takes” não usados em cada canção de cada disco.
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MensagemEnviada: Dom Out 23, 2005 7:28 am Responder com CitaçãoVoltar ao Topo

TRUPIZUPE, O RAIO DA SILIBRINA



Compositor e escritor paraibano Bráulio Tavares

concederá entrevista, aberta e gratuita ao público,

dentro do programa Nomes do Nordeste



Entrevista será precedida por apresentação

cênico-musical da Banda Cabaçal dos Irmãos Aniceto,

que lança segundo CD e caixa de xilogravuras



FORTALEZA, 21.10.2005 – O compositor, poeta, letrista e escritor paraibano Bráulio Tavares concederá entrevista – aberta e gratuita ao público – dentro do programa Nomes do Nordeste, do Centro Cultural Banco do Nordeste (rua Floriano Peixoto, 941 – Centro – fone: (85) 3464.3108), na próxima terça-feira, 25, às 19 horas, em Fortaleza. Bráulio Tavares será entrevistado pelo ator e músico cearense Orlângelo Leal e pela platéia presente ao teatro do Centro Cultural BNB, contando sua história de vida e trajetória artística.

Antes da entrevista, às 18 horas, a Banda Cabaçal dos Irmãos Aniceto fará apresentação cênico-musical e lançará seu segundo CD, intitulado “Forró no Cariri”, e uma caixa de xilogravuras produzidas por João Pedro do Juazeiro, contendo 16 cartões postais alusivos à Banda, impressa com apoio do Banco do Nordeste e da Casa da Memória Equatorial, dirigida por Calé Alencar. A apresentação dos Irmãos Aniceto acontecerá no saguão do andar térreo do CCBNB.

Na segunda-feira, 24, Bráulio Tavares lançará duas antologias de sua autoria – “Páginas de sombra – contos fantásticos brasileiros” (2003) e “Contos fantásticos no labirinto de Borges” (2005) – no Mercado dos Pinhões, dentro do projeto “Conversando com o leitor”, da Fundação de Cultura, Esporte e Turismo (FUNCET), da Prefeitura de Fortaleza. As duas obras foram publicadas pela editora carioca Casa da Palavra.



Trajetória múltipla como artista

Nascido em Campina Grande (PB) em 1950, Bráulio Tavares vive no Rio de Janeiro. Há 26 anos faz recitais onde mistura canções, poemas, histórias, manifestos improvisados, anedotas, mentiras inofensivas e verdades contundentes.

Como autor de letras de música, tem mais de quarenta canções gravadas por parceiros e intérpretes como Elba Ramalho (“Nordeste independente”, “Caldeirão dos mitos”, “Temporal”, “A volta dos trovões”, “A roda do tempo”, “Miragem do porto” e “Amanheceu”, Lenine (“O dia em que faremos contato”, “Na pressão”, “Umbigo”, “O marco marciano”, “Tuareg e nagô”, “Acredite ou não”, “Eu sou meu guia”, “Sonhei”, “Mais além” e “O que é bonito”), Maria Rita (“Lavadeira do rio”), Jorge Vercilo (“Olhos de nunca mais”), Antônio Nóbrega (“Lunário Perpétuo”, “Carrossel do destino”, “Estrela Dalva”, “Meu foguete brasileiro”, “O rei e o palhaço” e “A viagem maravilhosa”), Mestre Ambrósio (“Sêmen”), Mônica Salmaso (“Tuareg e nagô”), Ney Matogrosso (“Mais além”), Zé Ramalho (“Temporal”), MPB-4 (“Virou areia”), Tim Maia & Os Cariocas (“O amigo do rei”) e até a cantora norte-americana Dionne Warwick (“Virou areia”), entre outros.

Teve vários livros de poesia e ficção científica editados, entre eles “A espinha dorsal da memória”, Prêmio Caminho de Ficção Científica (Lisboa, Portugal, 1989), a coletânea de poemas “O homem artificial” (editora Sette Letras, Rio de Janeiro, 1999), “O que é ficção científica”, “Cabeça elétrica coração acústico” e “Casa das crianças” (1981).

Escreveu várias peças teatrais, entre elas “Brincante”, Prêmio Shell de Melhor Autor (1993), “Folias Guanabaras”, espetáculo com forte influência da literatura de cordel, dirigido por Ivaldo Bertazzo com o Corpo de Dança da Maré e a participação especial da atriz Rosi Campos e do cantor e compositor Seu Jorge (ex-Farofa Carioca).

Em 1988, participou do projeto “O escritor na cidade”, pelo Departamento Nacional do Livro da Biblioteca Nacional, que percorreu 14 estados e 85 cidades, durante dois anos, fazendo shows, palestras e lançamentos de seus livros e discos, ao lado do também escritor e músico Tharcísio Rocha.



Currículo musical

Em 1980, Elba Ramalho gravou, de sua autoria, "Caldeirão dos signos", no LP "Capim do vale". Em 1983, Tadeu Mathias interpretou, também de sua autoria, "Anotações para um adeus" e ainda "Última estação" – esta, parceria de ambos. Em 1988, compôs com Lenine o samba-enredo "Pirâmide", para o bloco carnavalesco Suvaco de Cristo.
Em 1990, sua composição "Meu nome é Trupizupe" venceu o tradicional festival VIII FAMPOP, realizado em Avaré (SP). No mesmo festival, o parceiro Lenine classificou-se em terceiro lugar com a música "Virou areia", parceria de ambos. Neste mesmo ano, foi lançando o disco homônimo do evento, no qual interpretou a composição vencedora e Lenine cantou "Virou areia".
Em 1993, Lenine participou do disco do grupo Batacotô, no qual interpretou "Virou areia", parceria dos dois. No ano seguinte, Dionne Warwick interpretou "Virou areia", desta vez com a letra vertida para o inglês pela própria cantora. Ainda em 1994, Lenine interpretou várias parcerias de ambos, entre elas "Acredite ou não", "Miragem do porto", "O que é bonito", "Caribenha nação", "Tuareg e nagô" e "Mais além", esta última parceria de Bráulio Tavares, Lenine, Lula Queiroga e Ivan Santos, todas gravadas no CD "Olho de peixe", de Lenine e Marcos Suzano, lançado pela gravadora Velas.

No ano seguinte, em 1995, Fátima Guedes gravou "O dia em que faremos contato" (parceria com Lenine) no CD "Grande tempo". Dois anos depois, Lenine lançou o CD "O dia em que faremos contato", no qual, além da faixa-título, incluiu "Bundalelê" e "O marco marciano", todas parcerias com Bráulio Tavares.

Nesse mesmo ano, Virginia Rosa, no CD "Batuque", incluiu duas composições suas em parcerias com Lenine: "Miragem do porto" e "Rita". Em 1996, Elba Ramalho incluiu "Lavadeira do rio", parceria com Lenine, no disco "Flor da Paraíba".
Em 1999, sua composição "Na pressão", parceria com Lenine e Sérgio Natureza, deu título ao disco de Lenine. Ainda nesse disco foi incluída "Eu sou meu guia" (com Lenine). Em 2001, sua canção "Miragem do porto" (com Lenine) foi incluída na trilha sonora do filme "Caramuru - a invenção do Brasil", de Guel Arraes.
Em 2002, pela gravadora BMG, Lenine lançou o CD "Falange canibal", disco no qual interpretou "Sonhei" (Lenine, Ivan Santos e Bráulio Tavares), "Umbigo" (Lenine e Bráulio Tavares), faixa que contou com as participações da cantora americana Ani Di Franco e do pianista Eumir Deodato. Neste disco também foi incluída a música "Lavadeira do rio", interpretada pelo grupo Skank, Velha Guarda da Mangueira e Lenine. Ainda neste ano, Jorge Vercilo, no disco "Elo", incluiu "Olhos de nunca mais", esta só de autoria de Bráulio Tavares.
Em 2004, Lenine apresentou-se no projeto Carte Blanche, na casa de show Cité de La Musique, em Paris, França. O show foi todo gravado e gerou o primeiro CD ao vivo de Lenine, assim como o primeiro DVD. Nos dois, foram incluídas composições inéditas e releitura de outras músicas de vários discos anteriores, entre elas "Caribenha nação", "Tuareg e nagô", "O marco marciano" e "Virou areia", todas parceria de Lenine e Bráulio Tavares.

Sua composição "Miragem do porto" (com Lenine) fez parte da trilha sonora do filme "Caramuru - a invenção do Brasil", de Guel Arraes. Em 2005, Zé Ramalho regravou "Meu nome é Trupizupe".

ENTREVISTAS E INFORMAÇÕES ADICIONAIS:

· Bráulio Tavares – (21) 8152.4047 / (85) 4006.4800 (Hotel Confort Fortaleza – de sábado, 22, até quarta-feira, 26) / (21) 2557.1267 – btavares13@terra.com.br

· Orlângelo Leal (entrevistador) – (85) 9972.2871 – orlangeloleal@yahoo.com.br

· Calé Alencar (produtor da Banda Cabaçal Irmãos Aniceto) – (85) 9987.2365 / 3253.1317 – equatorialc@terra.com.br

· Tibico Brasil (gerente do Centro Cultural Banco do Nordeste-Fortaleza) – (85) 9987.8734 / 3464.3111 – tibico@bnb.gov.br

· Luciano Sá (assessoria de imprensa do Centro Cultural BNB) – (85) 9117.1234 / 3464.3196 – lucianoms@bnb.gov.br
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Luiz Alberto Machado



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MensagemEnviada: Qui Nov 10, 2005 1:47 pm Responder com CitaçãoVoltar ao Topo

“Contando histórias em versos” (21.9.2005)
Braulio Tavares

Hoje às 17:00 deverei estar lançando em João Pessoa, como parte do Congresso Internacional de Literatura de Cordel, meu livro “Contando Histórias em Versos: Poesia e Romanceiro Popular no Brasil” (Editora 34, São Paulo). É um estudo destinado a professores e alunos do 1o. e 2o. grau, resultado de uma oficina literária que realizei em São Paulo nos anos de 2001 e 2002, no Teatro Brincante, num curso organizado por Antonio Nóbrega e Rosane Almeida.

O livro tem três partes. Na primeira, “A poesia”, discuto o que é poesia, o que constitui a linguagem poética, e forneço noções básicas de métrica, rima e estrofe. Na segunda, “A poesia narrativa” examino os poemas que contam histórias, para saber as diversas maneiras de contar uma história. E na terceira, “A poesia narrativa do Romanceiro”, falo sobre o Romanceiro Popular Nordestino, desde os velhos romances ibéricos cantados ou recitados, como o “Romance da Bela Infanta” ou o “Romance da Donzela Guerreira”, até os nossos folhetos de cordel; e analiso um folheto de Delarme Monteiro e outro de Manuel Camilo dos Santos.

A arte da Poesia é uma coisa. A arte da Narrativa é outra. Esta última, por exemplo, pode estar presente no teatro, no cinema, nas histórias em quadrinhos; e na poesia também. Quando juntamos poesia e narrativa temos a possibilidade de contar uma história usando recursos diferentes dos que usamos quando contamos essa história em prosa – na forma de um conto, por exemplo. Podemos usar os recursos da poesia tradicional: as estrofes de forma fixa, a métrica, a rima. Estas três coisas, contudo, não bastam (segundo os críticos mais exigentes) para caracterizar a poesia. Se empregamos uma linguagem frouxa, banal, sem brilho, fica difícil considerar aquilo poesia, mesmo que métrica, rima e estrofe estejam presentes. Os críticos chamam a isto “prosa metrificada e rimada”, e têm uma dose de razão.

Ezra Pound dizia que a poesia é uma linguagem mais concentrada do que as outras, e que os seus principais recursos são a idéia, a imagem e a música verbal. (Ele chama a estes três, respectivamente, de “logopéia”, “fanopéia” e “melopéia”) A poesia lida com idéias, com a evocação de imagens sensoriais (visuais, auditivas, táteis, etc.) e com a musicalidade das palavras (é neste setor que métrica e rima têm um papel importante).

Nossa literatura de cordel é uma região para onde todas estas coisas convergem. Nem todo folheto é narrativo, mas grande parte o é; nem todos são poeticamente bem escritos, mas muitos são. Os chamados “romances” de 32 páginas, gênero em que se destacaram poetas como Leandro Gomes de Barros, João Martins de Athayde, Joaquim Batista de Sena, Delarme Monteiro e muitos outros, são para mim a nata das narrativas cordelescas, pegando histórias que há séculos sofrem metamorfoses em nossa cultura (como analisou Câmara Cascudo em “Cinco Livros do Povo”) ou criando histórias próprias.
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MensagemEnviada: Qui Nov 10, 2005 1:48 pm Responder com CitaçãoVoltar ao Topo

Um software para o cordel (22.9.2005)
Braulio Tavares

O pessoal de Campina é muito contador-de-vantagem. Eu que o diga, especialista que sou em “versos de goga e jactância”. Aproveitando a realização do Congresso Internacional de Literatura de Cordel, aqui na Paraíba, tenho uma idéia para sugerir aos coleguinhas criadores de software. Por que não criar um programa que auto-formate um folheto, para que à medida que as estrofes sejam digitadas elas já sejam inseridas automaticamente num lay-out adequado à impressão?

Suponhamos um cordel de 8 páginas. Este tipo de cordel é impresso numa única folha tamanho ofício, dobrada duas vezes sobre si mesma (a capa é outra coisa). Numa face fica o conteúdo de quatro páginas; na outra, as quatro restantes. Este texto é disposto em posições diferentes, com umas páginas aparecendo (na folha aberta) de cabeça para baixo em relação às outras, mas de tal modo que, depois da folha dobrada, elas vêm todas na ordem certa e na posição certa.

Se desdobrarmos essa folha onde está impresso o cordel, veremos que o texto está numa face da página (dividida em 4 partes) assim: na parte de cima, a página 5 e a 4, ambas de cabeça para baixo; na parte de baixo, a página 8 e a 1, posição normal. Virando a folha, como quem folheia um livro, temos na parte de cima as páginas 3 e 6 respectivamente (ambas invertidas), e na de baixo as páginas 2 e 7, em posição normal. Dobramos esta face no sentido horizontal, trazendo a 3 para perto da 2, e a 6 para perto da 7. Temos diante de nós então as páginas 4 e 5; dobramos o papel no sentido vertical, fechando-o, e aí está o folheto pronto.

Minha sugestão é que sejam criados softwares bem simples de formatação e lay-out, em três formatos básicos: para folhetos de 8, 16 e 32 páginas. O software deve ser compatível com os processadores de texto comuns (Word, etc.). O trabalho do programa será apenas o de determinar em que posição deverão ficar as páginas, seguindo a numeração. É difícil? Não creio. Dêem um pulo neste saite: http://www.pocketmod.com/. Os caras oferecem pequenos programas de lay-out para fazer calendários, bloquinhos de notas, etc. O saite mostra como é feito o posicionamento das páginas, e fornece até um filmezinho bem didático mostrando como se dobrar e cortar com a tesoura a página resultante, até o bloquinho ficar pronto.

Quando a gente faz um cordel no computador precisa digitar o texto normalmente, depois imprimir, e depois cortar de tesoura o número de sextilhas necessárias para preencher cada uma das páginas. Fico imaginando como seria bom poder digitar o texto inteiro de um folheto, clicar “Imprimir”, e depois pegar as páginas resultantes (aparentemente caóticas), dobrá-las, cortá-las e pregá-las (com grampeador ou cola) na ordem certa. Se em Campina o pessoal transforma revólver Taurus em Smith & Wesson, será que não tem um “caba” com competência pra criar um programa tão besta, ainda mais com um “caba” mais besta ainda dando a idéia de graça?
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MensagemEnviada: Qui Nov 10, 2005 1:48 pm Responder com CitaçãoVoltar ao Topo

Ler e escrever (25.9.2005)
Braulio Tavares

Sempre tive a sensação de que ler era conversar com um Mestre que mora longe, não me conhece, mas está disposto a me ensinar tudo que sabe. Às vezes o sujeito já morreu há duzentos anos mas as lições dele estão todas ali, à minha espera. O único inconveniente era o fato de ser um monólogo, não um diálogo; ele tinha muito a me dizer mas não poderia me ouvir. Uma comunicação de mão-única, por certo, mas sempre achei que era melhor uma comunicação de mão-única com Dostoiévski ou com Machado de Assis do que horas de blá-blá-blá improfícuo com certos contemporâneos.

Ler era um exercício de humildade, era o momento de me sentar em posição de lótus diante do mestre e, mergulhado num silêncio respeitoso, absorver suas lições da melhor maneira possível. Ler era conversar com os mortos, com os distantes, com sujeitos importantes que se me encontrassem pessoalmente mal dariam atenção àquele adolescente cabeludo e mal vestido, mas que, graças ao milagre do papel impresso, me faziam companhia durante as madrugadas, na mesa da cozinha onde eu me sentava com o livro aberto à minha frente, tendo ao lado o caderno-espiral, um bule de café e uma pãozeira cheia de bolachas sete-capas. Quando a gente lê, vira discípulo, aprende a ficar calado e escutar, aprende a aprender.

Escrever, por outro lado, era aquele momento em que o discípulo zen dá um salto acrobático no ar e cai de pé transformado num mestre do karatê em posição de batalha. Escrever era a hora de mandar às favas as lições alheias e fazer ouvir minha própria voz. Quando eu empurrava o livro para um lado e a ponta da caneta Bic fazia contato com a superfície mágica do caderno, desencadeava-se um Shazam cósmico qualquer, Billy Batson virava o Capitão Marvel, e pelos poderes de Grayskull eu me transformava nos meus super-heróis imbatíveis, Pessoa de pince-nez, Rosa de gravatinha borboleta, Dylan de óculos rayban.

Arrufos da juventude, por certo. Porque hoje, amiguinhos, a sensação que tenho depois de todos estes dias em Pequim é que estas duas situações se inverteram. Resta pouco tempo, restam poucos anos. Ler a esta altura é luxo, é egoísmo, é amealhar ainda mais moedas num cofre já abarrotado, é pedir o adiamento do jogo para continuar treinando. Ler está virando uma atividade egoísta, o derradeiro dos prazeres solitários.

E escrever é agora a verdadeira lição de humildade: ter que mostrar todo dia que o que aprendi foi só isto. É pouco, mas é o que tenho para exibir, para oferecer. Você tem o direito de aprender na primeira metade da vida, mas fica com a obrigação de ensinar na segunda. Não importa se você sempre acha que se preparou mal, que aprendeu pouco, que o que sabe é inadequado ou já-era. O que aprendemos é um empréstimo que o mundo nos fez, e precisa ser pago. Escrever é passar adiante aquilo que, bem ou mal, restou em nosso juízo depois de tantas madrugadas. O Mundo é o que você aprende, mas Você é o que você ensina.
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MensagemEnviada: Qua Jan 04, 2006 5:36 pm Responder com CitaçãoVoltar ao Topo

“Dossiê H” e a poesia homérica (26.11.2005)
Braulio Tavares

Para os que se interessam pela Literatura Oral e pela cultura popular, recomendo o saboroso livro de Ismail Kadaré, “Dossiê H” (Companhia das Letras, 2001, traduzido do albanês por Bernardo Joffily). Kadaré escreveu, entre outras obras, o romance em que se baseou o filme “Abril Despedaçado”, de Walter Salles. Em “Dossiê H”, ele mostra dois folcloristas irlandeses que partem para a Albânia para registrar os longos poemas épicos que os rapsodos de regiões montanhosas passam de geração em geração, por transmissão oral. Os dois folcloristas estão interessados em reconstituir como a poesia oral da Grécia dos tempos homéricos acabou se aglutinando na forma da “Ilíada” e da “Odisséia”, e descobrem que a Albânia é o único país onde existe um fenômeno cultural semelhante.

É um romance curto (166 páginas), com algumas subtramas engraçadas que lhe dão sabor; o que mais me ficou na memória foi a descrição das regiões montanhosas da Albânia, que décadas de comunismo e burocracia estatal conseguiram manter cuidadosamente preservadas de qualquer tipo de progresso ou influência cultural externa. (Está aí um bom argumento, talvez o único, em favor das ditaduras e das oligarquias: elas imobilizam o Tempo em seu próprio país, o qual logo se transforma num museu de coisas que já desapareceram no resto do mundo.)

Max Roth e Willy Norton, os folcloristas, começam a encontrar rapsodos ambulantes nas estalagens das montanhas e a gravar seus enormes poemas. Eles se perguntam: “Quantos versos um rapsodo consegue saber de cor? Alguns falam em seis mil, outros em oito mil e até doze mil versos”. Existe um componente étnico muito forte nessa tradição; os sérvios (que são de raça eslava) competem ferozmente com os albaneses. “Durante mais de mil anos, albaneses e eslavos haviam se entrematado interminavelmente naquelas terras. Batiam-se por qualquer coisa: terras, fronteiras, pastagens, água; não seria de espantar se combatessem pelas estrelas do céu. E como se isso não bastasse, disputavam também a antiga epopéia, que, para completar a tragédia, florescia nas duas línguas, albanês e servo-croata. Cada povo teimava em se proclamar o criador da epopéia, reduzindo o outro à condição de ladrão, ou, na melhor das hipóteses, imitador”.

Parece o Nordeste, hem? Parece mais ainda na cena em que eles gravam sua primeira cantoria e o tocador de “lahute” (espécie de alaúde) bota o dedo no ouvido ao começar a cantar: “a necessidade de tapar um ouvido durante a apresentação se liga à transformação da voz do rapsodo, de ‘voz do peito’ em ‘voz da cabeça’, e à necessidade de manter o equilíbrio em face da vertigem que a cantiga provoca”. Parece com nossos velhos aboiadores nas vaquejadas, tapando o ouvido e largando o vozeirão mundo afora. Vozes que ressoam aqui e na Albânia, e em tantos lugares que ainda mantêm uma ligação telepática com a Grécia de Homero.
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MensagemEnviada: Qua Jan 04, 2006 5:38 pm Responder com CitaçãoVoltar ao Topo

O Estudante de Praga (3.12.2005)
Braulio Tavares

A antologia “João Martins de Athayde” (Editora Hedra, São Paulo, 2000; Coleção “Biblioteca de Cordel”) traz um precioso material sobre o grande cordelista. Além do texto completo de oito folhetos, temos uma introdução escrita por Mário Souto Maior, a transcrição de um depoimento de Waldemar Valente, datado de 1976, e uma longa e esclarecedora entrevista com a viúva do poeta, D. Sofia Cavalcanti de Athayde, concedida em 1980.

Na introdução, Mário Souto Maior lembra que a principal distração do poeta era ir ao cinema, o que é confirmado pela viúva. Diz ela: “Ele gostava muito de cinema. Ele tinha uma mania de toda noite ir ao cinema, sozinho (...) Cinema Glória, Ideal, São José. Mas o que ele mais frequentava era o Ideal.” Ela não lembra nenhum folheto do marido inspirado em filmes, e em sua introdução Mário Souto Maior comenta: “Interessante é o fato de o poeta, pelo que me consta, nunca haver escrito um folheto baseado em algum filme.”

Há pelo menos um folheto de Athayde diretamente inspirado no cinema. Trata-se do romance (32 páginas) “O estudante que se vendeu ao diabo”. A edição que consultei é de 1949, podendo haver outras mais antigas. O folheto é claramente inspirado no filme “O Estudante de Praga”, um clássico do Expressionismo Alemão, que teve pelo menos três versões: a de Stellan Rye em 1913, a de Henrik Galeen em 1926, e a de Arthur Robison em 1935. Em uma destas duas últimas Athayde provavelmente se baseou para criar seu folheto.

O herói do folheto chama-se Balduíno (como o herói das três versões cinematográficas). É um estudante e hábil espadachim que vende a alma ao diabo para enriquecer e poder casar-se com Olga, uma moça rica, noiva de um barão. Um homem misterioso vai a sua casa, dá-lhe uma bolsa cheia de ouro inesgotável, e leva consigo o reflexo do estudante no espelho. Ele fica rico, mas passa a evitar os ambientes onde haja espelhos, para que ninguém perceba que ele não tem imagem. Um dia, o barão, com ciúmes de Olga, o desafia para um duelo. Ele decide não ir, mas depois descobre que seu “reflexo” compareceu ao duelo e matou o barão. Ele arrepende-se, e no final desfere um tiro contra o próprio peito: a bala espatifa o espelho e ele ao voltar a si percebe que os cacos de vidro novamente o refletem.

O argumento do folheto coincide em muitos pontos com o dos filmes (que aliás se baseavam todos num conto de H. Heinz Ewers). A narrativa de Athayde, rica e fluente como sempre, reconstitui a narrativa cinematográfica com bastante senso da imagem, como na cena em que o Diabo entra no quarto do estudante: “Balduíno entrou em casa / sentou-se e pôs-se a cismar / quando olhando para a porta / viu o velho atravessar / a porta mesmo fechada / ficou de cara espantada / vendo o homem assim passar”. As trucagens do cinema mudo são descritas no cordel com o tom exato de ingenuidade, deslumbramento e tosca magia, como se os dois tivessem sido feitos um para o outro.
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Luiz Alberto Machado



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MensagemEnviada: Sex Jan 27, 2006 9:57 am Responder com CitaçãoVoltar ao Topo

Resoluções de Ano Novo (1.1.2006)
Braulio Tavares

Escrever aquele conto cuja idéia estou amadurecendo há dez anos. Comprar menos besteiras só porque custam pouco. Reler pelo menos o primeiro volume do “Rocambole” ou de “Os Pardaillans”. Aprender a cozinhar um prato. Fazer exame de vista, encomendar óculos. Começar a fazer check-up de seis em seis meses. Assistir menos futebol ao vivo. Reler Kafka, agora nas traduções de Modesto Carone. Prestar mais atenção em quem estou votando. Me desfazer de um terço dos meus livros e CDs. Não deixar passar nada duvidoso sem uma boa conversa. Terminar de escrever aqueles quatro livros incompletos. Gravar um CD.

Inventar uma palavra nova e colocá-la na boca do povo. Antes de dormir, escolher o que vou sonhar. Encadernar aqueles livros raros que estão se esbagaçando. Ligar para um amigo e pedir dinheiro emprestado só pra ver a reação. Tentar decorar qual o garçon que está me servindo. Ouvir aquele monte de CDs que ainda estão no celofane. Esvaziar gavetas, pastas, apagar programas desnecessários do HD. Aprender novos acordes no violão. Estudar um tutorial do Photoshop. Assistir menos VTs de jogos tipo “Coritiba x Fortaleza”. Passar todas as minhas fitas de Cantoria para CD. Comprar um terno (posso precisar um dia, quem sabe). Beber menos cerveja e mais mineral com gás. Trocar as obturações mais antigas. Ler pelo menos um livro da “Divina Comédia”.

Escrever uma peça sem que ninguém me peça. Desenhar mais (com finalidades terapêuticas, não artísticas). Prestar mais atenção nas outras pessoas. Responder emails na hora em que leio. Fazer todo dia uma coisa que nunca fiz antes. Enviar textos prontos para ver se alguma revista publica. Aprender a servir e a ser servido. Organizar meus papéis como se estivesse com uma doença terminal. Inventar uma nova explicação para o Universo. Visitar um amigo de vez em quando, sem ser assunto de trabalho. Assistir menos mesas-redondas de futebol na TV. Ensinar a outra pessoa uma coisa que só eu sei. Elogiar sem envaidecer, criticar sem abater. Instalar um programa de som e criar meu próprio arquivo de loops e samples. Fazer meu websaite. Escrever um cordel novo. Dar presentes sem pretexto. Comprar um scanner, uma impressora colorida, e fazer uma capa de livro. Ir a uma cidade pela primeira vez e passar um pente fino até conhecê-la.

Fazer uma longa entrevista com alguém com mais de 80 anos. Ir atrás daquela grana que ficaram de me pagar e ficou por isso mesmo. Conhecer lugares do Rio onde sempre passo na frente e nunca entrei. Tirar meia hora por dia para improvisar sextilhas mentalmente. Estudar um pouco de biologia. Estudar um pouco de italiano. Fazer uma lista de idéias erradas e arrasá-las uma a uma. Andar à toa pelos bairros de Campina. Conhecer o Amazonas e o Centro-Oeste, não importa o pretexto. Traduzir um livro só por amor à arte. Fazer exercício. Tomar juízo. Continuar sendo o que sou.
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Luiz Alberto Machado



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MensagemEnviada: Qui Fev 16, 2006 4:50 am Responder com CitaçãoVoltar ao Topo

O verso de embolada (18.1.2006)
Braulio Tavares

Todo brasileiro já ouviu muito esse tipo de verso; se for nordestino, já ouviu o dobro. Eu o chamo de “verso de embolada” porque para mim é no coco de embolada que ele tem sua origem histórica, mas ele se impregnou de tal forma em nosso inconsciente métrico que acabou abrindo franquias na Música Popular Brasileira, no Rock-BR e na poesia erudita.

“Vou lhe falar / meu amigo e camarada / eu aqui nessa calçada / canto até o sol raiar! // Eu sou poeta / sou artista brasileiro / na batida do pandeiro / na pancada do ganzá!” Todo mundo já ouviu algo assim, confere? À primeira vista parecem quadrinhas, estrofes de quatro versos setissílabos que herdamos de Portugal. O único detalhe que os diferencia é esse primeiro verso, curiosamente quebrado em relação aos demais. Em alguns casos (como no exemplo acima) o primeiro verso vem com quatro sílabas, mas às vezes são três, ou duas, ou cinco, depende do caso.

Já escrevi uma peça de teatro chamada “Trupizupe, o Raio da Silibrina” (ou “O Casamento de Trupizupe com a Filha do Rei”) em que o personagem-título era um embolador-de-coco. Ele se apresentava com uma embolada cujo refrão dizia: “Canta canta sabiá / no galho da bananeira / que a pedra da balieira / vem voando pelo ar!” Como tudo que eu faço, tinha um erro idiota (“Bananeira não tem galho”, diziam meus amigos naturebas, “tem folha”), e um grave defeito métrico. Na hora do palco, eu não conseguia cantar o refrão (que, como se vê acima, eram quatro versos setissílabos) duas vezes emendadas: era muito rápido e eu ficava sem fôlego. Solução: “dei uma comida” no primeiro verso, e o refrão ficou assim: “Oi canta sabiá / no galho da laranjeira”, etc. e tal.

Tecnicamente, o que caracteriza o verso-de-embolada é essa primeira linha quebrada, para que o recitante ou cantador (porque é verso oral, falado, boca-pra-fora) tenha tempo de respirar. Nesse rápido “buraco” métrico a gente enche o pulmão com ar suficiente para cantar os quatro versos seguintes. Uma quebra dessa natureza jamais ocorreria a quem escreve com caneta e papel. É fruto da poesia oral, “a plenos pulmões” como dizia Maiakóvski.

Essa peculiaridade técnica sobrevive em muitas letras da MPB. Não citarei exemplos de Gonzagão e Jackson porque seria covardia; mas os há de Catulo da Paixão Cearense (“Oh que saudade / do luar da minha terra / lá na serra branquejando / folhas secas pelo chão”; de Juca Chaves: “O tempo passa / só não passa este tormento / que corrói meu pensamento / de viver pensando em vão” (“O Tempo Passa”); de Chico Buarque: “O homem da rua / fica só por teimosia / não encontra companhia / mas pra casa não vai não” (“A Televisão”); de Renato Russo: “Não tinha medo / o tal João de Santo Cristo / era o que todos diziam / quando ele se perdeu” (“Faroeste Caboclo”); de Gilberto Gil: “Abacateiro / acataremos teu ato / nós também somos do mato / como o pato e o leão” (“Refazenda”)... Um verso 100% oral e 90% brasileiro.
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Ernani Padilha



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MensagemEnviada: Qua Jul 26, 2006 2:26 pm Responder com CitaçãoVoltar ao Topo

Luiz Alberto Machado escreveu:
Um software para o cordel (22.9.2005)
Braulio Tavares
Quando a gente faz um cordel no computador precisa digitar o texto normalmente, depois imprimir, e depois cortar de tesoura o número de sextilhas necessárias para preencher cada uma das páginas. Fico imaginando como seria bom poder digitar o texto inteiro de um folheto, clicar “Imprimir”, e depois pegar as páginas resultantes (aparentemente caóticas), dobrá-las, cortá-las e pregá-las (com grampeador ou cola) na ordem certa. Se em Campina o pessoal transforma revólver Taurus em Smith & Wesson, será que não tem um “caba” com competência pra criar um programa tão besta, ainda mais com um “caba” mais besta ainda dando a idéia de graça?


Uma forma um pouco melhor, mas ainda com procedimentos trabalhosos, é possível com recursos já existentes no próprio Windows. Primeiro: numerar as estrofes de quatro em quatro. Segundo: deixar o texto em tamanho que caibam exatamente as quatro estrofes em cada página (centralizadas). Ex.: estrofes na letra Courier New no tamanho 20. Terceiro: colocar as estrofes na ordem em que vão ser impressas. Ex.: para um cordel de 16 páginas ( 64 estrofes ) a ordem é esta: 16-1-14-3-2-15-4-13-12-5-6-11-10-7-8-9 . Esta é a parte mais trabalhosa e é aqui que um programador precisa criar um sistema de ordenamento de estrofes nas páginas. É preciso reduzir as letras para melhor visualizar o texto, copiar, deletar, colar, etc. até que as estrofes fiquem na ordem certa. Depois o texto volta ao formato já mencionado. Quarto: clicar em "imprimir". Clicar em "propriedades". Clicar em "borda longa". Clicar em "4 acima". Clicar em "OK" duas vezes e está pronto!
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Luiz Alberto Machado



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MensagemEnviada: Qui Set 07, 2006 6:54 pm Responder com CitaçãoVoltar ao Topo

Meus caros poetas (10.8.2006)
Braulio Tavares

Sou um consumidor compulsivo de poesia, em forma de livros, revistas, suplementos literários, saites na Web, sem contar com o material que recebo à minha própria revelia pelo Correio. Como já falei aqui, a maioria não me toca de modo especial, nem no intelecto, nem nas emoções. Ler um poema alheio é como ver a foto de uma família alheia: “Esta foto é de minha mulher e meus dois filhos. Que tal? Você acha que minha família é boa? Gostou? ” O que podemos dizer, caros poetas? Eu prefiro dizer que gostei, afinal de contas, é a família do cara. É o poema do cara. Custa nada dizer que gostou?

Às vezes, contudo, a gente gosta. Tem poemas que parecem despregar-se do autor e pertencer a um patamar diferente deste onde vivemos nós: o patamar da Linguagem. Isto não quer dizer que a Linguagem seja superior à vida real, mas que ela está num nível um pouco mais abstrato do que este onde existimos, e é nesse nível dela que os produtos dela precisam ser avaliados.

Às vezes cai na mão da gente, por exemplo, um livro de correspondências. Lemos a carta que um desconhecido do século 19 escreveu para alguém. Pode ser uma carta comum, cuja leitura nos deixe indiferente e nos faça dar de ombros. Mas pode ser uma carta que tenha algo diferente, e aí não importa quem é ou quem foi o autor, ou o destinatário. É uma carta escrita em 1820 por um cara que não existe mais, mas tem algo nela que continua existindo. Este algo é a linguagem, e não estou me referindo a ser “bem escrita”, com vocabulário rico e com exibições de estilo. Pode até ser uma carta feita com dificuldade, cheia de erros de português, mas é bem escrita porque diz coisas importantes. As tais coisas importantes que a Literatura nos traz parecem sê-lo pelo seu conteúdo, mas, se a gente prestar atenção, vai ver que esse conteúdo foi tornado mais vívido pelo modo de dizer.

Quando Carlos Drummond diz: “Mundo, mundo, vasto mundo, mais vasto é o meu coração”, ele parece estar nos revelando algo pela primeira vez. Há mil maneiras de dizer essa mesma idéia, mas ele escolheu talvez a melhor. Poderia ter dito: “Oh, mundo! Como és imenso! Mas mais imenso do que o teu tamanho, companheiro mundo, é o tamanho do coração deste pobre poeta que vos fala!” É a mesma idéia, não é? Mas não é a mesma coisa.

O problema da grande maioria dos poemas que rola por aí (os meus inclusive) é que não passam de tentativas de reproduzir poemas que nos disseram algo de interessante; ou tentativas de desabafar no papel as nossas hesitações existenciais, nossos conflitos afetivos, nossa indignação cívica. Em geral, esses conteúdos resultam numa poesia que só diz alguma coisa ao sujeito que a escreveu. A gente percebe como ele estava se sentindo ao escrever: melancólico, ou eufórico, ou contemplativo. Mas percebe indiretamente. O poema vira um problema quando é um mero registro de uma emoção mas a linguagem em que foi expresso não gera emoção em ninguém que não seja o autor.
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Luiz Alberto Machado



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MensagemEnviada: Sex Set 15, 2006 7:11 pm Responder com CitaçãoVoltar ao Topo

1072) O declínio do improviso? (23.8.2006)
Braulio Tavares

Durante vários anos, quando morava em Campina Grande, trabalhei no Congresso Nacional de Violeiros, realizado pela Associação de Repentistas e Poetas Nordestinos, com o apoio do Museu de Arte da então Universidade Regional do Nordeste (atual UEPB). Um congresso de violeiros é um festival em que duplas de cantadores sobem ao palco, durante meia hora cada uma, para improvisar versos sobre assuntos sorteados na hora. Uma comissão julgadora atribui notas, as duplas classificadas nas eliminatórias retornam na noite final, quando as mais bem classificadas ganham prêmios.

A tarefa da comissão julgadora é difícil e ingrata. Mas não o é menos a da Comissão de Seleção, da qual eu geralmente fazia parte. Cabe a ela selecionar os assuntos e os motes que serão sorteados. Assuntos e motes bem escolhidos podem ajudar os poetas. Não é fácil subir num palco, de viola ao pescoço, cumprimentar a platéia e o locutor, e em seguida ouvir este dizer: “Agora vamos à apresentação desta dupla, John Lennon e Paul MacCartney. Primeiramente, eles cantarão sete minutos em sextilhas sobre o tema... (abre um envelope pardo, pede a um dos cantadores que escolha ao acaso lá dentro, entre dezenas de outros, um envelope menor, lacrado, tira dali um papelzinho datilografado, lê)... ONDE ESTARÁ OSAMA BIN LADEN?... Palmas para a dupla!” Aí eles se postam junto aos microfones, ponteiam as violas durante um minuto, e começam a improvisar.

Essa é a raiz da Grande Arte nordestina. O cara ser capaz de fazer versos sobre um assunto proposto na hora. Ou glosar um mote. O locutor diz: “E vamos anunciar o mote em decassílabo a ser glosado pelos poetas. O mote é: (pega e lê): O TEU CORPO ENCANTOU O MEU OLHAR / TUA ALMA ALEGROU MEU CORAÇÃO”. E os caras começam. Não podem trazer o verso decorado de casa. Os envelopes estão todos misturados, e a única maneira de escolher o que vai cair é a coisa ser desonesta. Quando eu trabalhava com isto, os motes eram escolhidos pelos membros da comissão, datilografados, envelopados, e colocados no tal envelope pardo que durante as 72 horas seguintes ficava embaixo do meu braço, porque eu não queria correr riscos. Já cheguei a dormir com o envelope embaixo do travesseiro. E é claro que quando caía um assunto que a dupla achava desagradável, diziam logo que era perseguição, que aquele tema ou aquele mote tinha ido para eles de propósito, etc. e tal.

Nos últimos anos, ouço falar em Festivais de Violeiros onde os temas e motes são informados com dias de antecedência, para que os poetas tenham tempo de preparar material. Estou considerando seriamente a possibilidade de me tornar cantador. Escrevendo e decorando, meu amigo, eu não abro nem pra Otacílio Batista ou Pinto do Monteiro! Quero ver é fazer na hora, como esses dois faziam, e como fazem tantos outros dos dias de hoje – aos quais cabe manter viva a Grande Arte, ou ajudar a transformá-la num simples apêndice menor da MPB.
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MensagemEnviada: Sex Set 15, 2006 7:12 pm Responder com CitaçãoVoltar ao Topo

1075) Duplas de cantadores (26.8.2006)
Braulio Tavares

Um dos aspectos que sempre distinguiram os cantadores de viola nordestinos dos cantores de música sertaneja foi o modo como esses artistas se organizam em duplas. Na música sertaneja de São Paulo, Minas, Goiás, as duplas são praticamente fixas. Tonico só canta com Tinoco, Chitãozinho só canta com Xororó, e assim por diante. Na cantoria de viola nordestina, os cantadores são soltos. Embora nada os impeça de ficar semanas ou meses cantando com o mesmo parceiro, parte-se do princípio de que o cantador, mesmo trabalhando sempre em dupla (cantador não canta sozinho) é um profissional independente. Como já me disse um cantador, “Os sertanejos são casados. A gente não, sai com quem quiser”.

Certas duplas se consagraram pelas grandes cantorias que fizeram juntas: Lourival Batista e Pinto do Monteiro é um exemplo que todo mundo se lembra. Mas Lourival cantava com todo mundo, não apenas com Pinto; e vice-versa. Eu vi Lourival cantar dezenas de vezes, e nunca com Pinto. Muitas vezes alguém quer chamar uma dupla de cantadores para se apresentar em sua casa, aí liga para o cantador Fulano: “Fulano, quero que você venha cantar aqui em casa. Você está cantando com quem atualmente?” “Com Beltrano”, “Ótimo, então venham os dois”. Se não interessar, o cara propõe: “Eu gostaria que você viesse cantar aqui, mas não com Beltrano, e sim com Sicrano. Pode ser?” Aí depende – se os dois ainda se dão bem, as agendas combinam, etc. Mas a dupla não é fixa.

Ouço falar que agora as duplas tendem a se manter estáveis. A só canta com B, C só canta com D. Dizem os cantadores (e eu concordo) que isso proporciona um entrosamento maior, que trabalhando sempre juntos os dois poetas desenvolvem um arquivo mais variado de assuntos (e de decorebas, que ninguém é de ferro). Ou seja: é a “cantoria de resultados”, seguindo o princípio capitalista do máximo de produtividade, o máximo de rendimento. Cantar com um desconhecido, ou com alguém com quem o poeta não desenvolveu essa afinidade, começa a parecer um risco, não importa que os cantadores tenham feito isto durante 150 anos.

Este aspecto sempre me pareceu intimamente ligado a outro que distingue os dois grupos: os cantores sertanejos cantam canções decoradas, os repentistas nordestinos improvisam. E isto, sim, é a distinção crucial entre os dois. Eu nada tenho contra um sujeito escrever versos, decorá-los e passar a vida a repeti-los. Tenho feito isto, aliás, nos últimos trinta anos. Mas a Arte da Cantoria é outra coisa, meus camaradas. A Arte da Cantoria consiste em ser capaz de improvisar. Levar verso decorado, lembrar verso antigo, encaixar de vez em quando um mesmo verso num lugar onde ele cabe... tudo isso faz parte do ofício, mas não é nisso que consiste a Grande Arte. E quando a dupla se torna fixa, o risco de cantar somente verso decorado cresce na mesma proporção. A dupla fixa pode ser (tomara que não seja, vou batalhar para que não seja) o começo do fim do Improviso.
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MensagemEnviada: Ter Set 26, 2006 3:50 pm Responder com CitaçãoVoltar ao Topo

Eu não li tudo o que escreveu, mas é só para dizer que conheço varios "RAP's" que são poesia propriamente dita.

Psicofonia

Prestem culto ao som que vos incuto como um sopro, transcomunicação, qual é o lado morto?
Rostos despidos de pena e moralidade, é o vínculo...entre os mortos e os fracos de espírito
Alegar consciência é um sarcasmo putrefacto, o mal é como arsénico, procura o viciado
Cemitério vivo onde lápides são faces, onde almas como espelhos procuram identidades
...a ignorância é a fantasmagoria, esbarram-se na escuridão material da vida
Gravo gritos frios em composições sombrias, como o diário de uma assombração perdida
Será que és vítima ou carrasco da tua vida, ressuscita...arrasta a pedra tumular, respira...
Vivo horrorizado como um toxicómano, o ser humano é sádico mas eu sou transumano
Encruzilhada nunca passes Às 12 badaladas, andam à caça de mentes fragilizadas
Como o diabo a tentar puxar-te pra baixo...é o inferno da hipocrisia explícita
Extrema unção, sacramento moribundo aos povos em colisão nas trevas deste mundo
A mente é o aluquete para a caixa de Pandora...a sanidade desvanece até à última gota.

Refrão:
Evocação, chamamento à elevação de espírito
Juntem as mãos, respirem fundo
Comunica comigo, sai do escuro, abre o corpo
Descobre se tás morto ou vivo

Sessão de espiritismo entre a minha voz e o ritmo, exumação de pensamentos, é verídico
É o mundo dos mortos vivos, estripadores de espíritos, desmembrados de intelecto...é sinistro
É o almicídio entre corpos em delito, almas que procuram abrigo para fugir ao frio
Neste mundo maldito...não enxergam um palmo à frente do espírito, mas o meu caminho alumio
Sacudo o pó do que resta do meu tempo com versos como arrepios causados pelo vento
É eterno, o homem é sucumbido pelo medo...auto-maldição 12 meses de inverno
Iluminado a inteligência é o habitáculo, abrigado da luz negra que voa sob a presa
Tenho medo dos filhos deste canibalismo aceso
Que interrompem o meu sono quando eu me sinto vivo
O vosso castigo é a cópula com o luxo, não sou bruxo, a razão nasce por dentro como um quisto
O último riso é o mais mórbido, lembrem-se disto, apareço depois de Cristo, já havia dito...
Acorda ou tens morte espontânea, faz a autópsia, rezo o último verso como um encanto junto à cova
A fundir consciências como o ferro, a sapiência é um pêndulo magnético entre a vida e o tempo...

Refrão:
Evocação, chamamento à elevação de espírito
Juntem as mãos, respirem fundo
Comunica comigo, sai do escuro, abre o corpo
Descobre se tás morto ou vivo

e....

Sinfonia Tóxica

Esta é a altura em que tudo muda...
És raptado...acorda...o massacre dura
Na ambição ou na dor violinos tocam ódio
Caminho até ao topo como um poeta missionário
Rimo sentado em cima de um telhado cinzento
Com a alma mais negra do que escravos nos velhos tempos
Decapitação de mentes fracas
Escrituras lapidadas com espadas afiadas
Escrevos cânticos,
Não prego a santos,
Amante da lua
Eu forço o pôr do sol com uma grua
Grande caçador de pensamentos,
Poeta em fuga na procura
Dou chapadas no silêncio...
Protestante no meu próprio culto oculto
Estou de luto pela morte do nosso futuro
Prevejo um cataclismo lento
O pior animal é o Homem e a Terra não nos deixa testamento
Queimo livros de advocacia e política
Para aquecer a minha esperança nesta vida fria
Sinto o sangue por dentro da carne, já fervilha
Raios de luz rasgam-me a pele com poesia
A minha salvação psíquica...
Reencarno em partituras, assedio com obras brutas
Entre o amargo e o doce, o vazio e o escuro
Fusão, o meu dogma é pontiagudo...
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