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jcm-medeiros
Mensagens: 376
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Enviada:
Ter Mar 16, 2010 9:55 pm |
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Minha barca, minha barca,
Meus sonhos contigo vão,
Vão meus segredos contigo,
Contigo, meu coração.
Nos oceanos vultuosos
Lá vamos nós a vogar,
Teu dorso imerso nas águas,
Firmado ao céu teu olhar.
Não nos afrontam distâncias,
Não nos repelem tufões,
São nossos servos os ventos
Desses profundos grotões.
A grande vela se inflando
Imita o vôo do condor
E deslizamos velozes
Sobre o lençol multicor.
Nem os feitiços de Circe,
Ou mesmo as iras de Hagar,
Empalidecem a face
Desses que reinam no mar.
És minha espada cortante
No seio das amplidões,
Não nos afrontam distâncias,
Não nos repelem tufões,
Minha barca, minha barca,
Meus sonhos contigo vão,
Vão meus segredos contigo,
Contigo, meu coração.
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Saudação a todos os amigos do fórum, que continuo lendo em segredo. Bbrian, Francisco Coimbra, João Dinato, Pupila! Minha sincera reverência. |
_________________ João |
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Francisco Coimbra
Mensagens: 1388
Localização: Ponta Delgada - Açores/PORTUGAL
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Enviada:
Ter Mar 16, 2010 10:21 pm |
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bbrian
Mensagens: 3899
Localização: ES
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Enviada:
Ter Mar 23, 2010 12:45 am |
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Traga sua barca aqui. É sempre maravilhoso ler sua poesia.beiijos no coraçao!
Sempre ajoelho aos seus pés! |
_________________ TODO SOFRIMENTO É UM INSTRUMENTO DE RESGATE! |
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jcm-medeiros
Mensagens: 376
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Enviada:
Dom Abr 04, 2010 12:48 am |
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Francisco, Bbrian, obrigado pela presença!
Aproveito esse tópico para informar que acabei de publicar "Canteiro" em http://recantodasletras.uol.com.br/e-livros/2176032, a versão impressa terá que ainda aguardar pelas últimas revisões. Mas já fica disponível o arquivo para apreciação. Abraços! |
_________________ João |
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bbrian
Mensagens: 3899
Localização: ES
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Enviada:
Dom Abr 04, 2010 9:39 pm |
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| jcm-medeiros escreveu: |
Francisco, Bbrian, obrigado pela presença!
Aproveito esse tópico para informar que acabei de publicar "Canteiro" em http://recantodasletras.uol.com.br/e-livros/2176032, a versão impressa terá que ainda aguardar pelas últimas revisões. Mas já fica disponível o arquivo para apreciação. Abraços! |
Joao, eu nao consegui ler. Nao da para postar aqui?
E hoje seu dia seja o renascimento de toda vida! Beijos no coraçao! |
_________________ TODO SOFRIMENTO É UM INSTRUMENTO DE RESGATE! |
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jcm-medeiros
Mensagens: 376
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Enviada:
Dom Abr 04, 2010 10:36 pm |
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Grande beijo, Bbrian, seu desejo é uma ordem. Acho que imprimir facilita a leitura, são cerca de 60 páginas A4, mas não sei se vale, rs. Boa leitura!
Canteiro
Índice
1. ABISMO
2. ADELAIDE
3. ALQUIMIA
4. APÓS A LEITURA DE ANTIGO CADERNO
5. ARAR, ORAR
6. CANÇÃO AOS NETINHOS
7. CANÇÃO DE AMOR
8. CANÇÃO DO FOGO
9. CAPRICHOS - 6 ESTUDOS
10. CAVALGADA
11. COMUNHÃO
12. CONTEMPLAÇÃO DA NOITE
13. CORÍNTIOS CAP. 13
14. CREPÚSCULO
15. A UMA DAMA CRUEL
16. DEDICATÓRIO A BILAC
17. DESINTELECTO
18. DESPEDIDA
19. ELEGIA DO PRIMEIRO DE MARÇO
20. ÉS TUDO!
21. FALANGES
22. FILOSOFIA
23. FLOR ETERNA
24. FLORBELA
25. FLORESCÊNCIAS
26. O GÊNIO
27. GLOSA A UMA FLOR
28. GOLIAS
29. AO HOMEM
30. HUMANISMO
31. INDOLÊNCIAS
32. LÁGRIMA URBANA
33. A MEU PAI (A DOR DO ALZHEIMER)
34. O MILITANTE
35. MINHA BARCA
36. À MINHA IRMÃ
37. À MINHA MÃE
38. MOCIDADE MORTA
39. MORTUÁRIO
40. NATUREZA
41. NINHOS DE AMOR
42. NOITE SOLITÁRIA
43. OLHOS DE POETA
44. A UNS OLHOS VERDES
45. A PAIXÃO DE CRISTO
46. PÁRIS, HOLOCAUSTO
47. POEMA TIBETANO
48. QUADRAS DE UM VISIONÁRIO
49. REVELAÇÃO
50. A RICHARD WAGNER
51. ROCK!
52. SENHORES DA TERRA
53. SINCORÁ
54. SOLEDADE!
55. VAIDADE
56. VOZES ANGÉLICAS
57. AUTO-ENTREVISTA
PREFÁCIO DO AUTOR
“Canteiro” é um pomar de cantos e flores, mas também rende frutos. Seus frutos dão a polpa do sentimento; medram no solo da vida, adubado pelas lágrimas do poeta. A luz que o aquece é senão o olhar de Deus, na imagem do Sol, distribuindo graças. Estas páginas impressas são o sopro do vento espargindo as sementes e se espalhando na terra. As mãos do lavrador são as vozes d'aqui e além, no lavor suado e constante do crescimento e do aprimoramento. A moral aqui é posta na figura do ribeiro, porque sem ele há só aridez e esterelidade. O objetivo de tudo é o Belo, mas não o simplesmente belo, que se esgarça no espinho das rosas, há o ideal que vem zunindo da Grécia e diz que forma e conteúdo devem servir-se reciprocamente. À parte tudo isso, estas são letras espontâneas, vozes humanas, que falam das coisas da vida e da vida das coisas. Perdoe o leitor que encontrar nelas o traço d'aquilo que não alcançou sua forma plena, compreenderá que sobre tudo paira a figura do homem, do eterno pegureiro na busca do ideal e da perfeição. Perdoará o que soe débil e mesquinho, haurindo também aí a seiva da humanidade de que é parte e reconhecendo que mesmo nas regiões mais obscuras do mar é possível que haja a vida: no caso da poesia, essa quimiossíntese ocorre não do detalhismo extremo que sufoca a inspiração, imitando a natureza, mas dessa mesma natureza, que não reconhece grades nem fronteiras. Assim como o homem a arte é livre, possui direitos inerentes à sua existência. Cabe ao leitor, portanto, deixar-se levar pelo sopro desses ventos marinhos e aproveitar sua viagem da maneira mais agradável possível. Are everybody in?
ABISMO
I
Tardes de Inverno. Olá, melancolias! -
Vou percorrendo a sós a imensa terra
E os lírios choram, chora toda a serra,
O céu magoado a claridade oculta...
Reflito na passagem dos meus dias.
Há sangue em minhas mãos. Procuro em vão
Abrigo ao frio, ouço o feroz tufão
Que impreca, que me ofende, que me insulta.
II
Dor de não ter palavras! Não ter sons
Que definam idéias. A alma vaga
Por vales, vai absorta pela plaga
Do silêncio profundo, embevecida...
Tudo é cinza, blasé, em tristes tons
Entrevejo a folhagem como morta.
Há sangue em minhas mãos. O vento as corta.
Assoma a natureza embrutecida.
III
Há que seguir a marcha a alma do triste,
Neste vale de sombras, neste Inverno;
Há que descer ao breu; e ao próprio Inferno
Suas lamentações render chorando...
Flores caídas, se a tristeza existe
Nas paisagens, sois vós, que sem perfumes
Tombais no solo ingrato, e a um céu sem lumes
Ascendeis como estrelas dardejando...
IV
Guardo em meu coração a grande orquestra
Dos metais e os lamentos mais sentidos.
Bardos da solidão, bardos vencidos,
Aqui tendes um rei, sou vosso rei!
Respeitai este cetro e esta destra;
São minhas lágrimas marfim e bronze,
Rolam eternas deste olhar, que é bronze,
Deste olhar onde - um dia - rolarei!
ADELAIDE
Adelaide... Adelaide...
Gravo-te ao céu em estrelas
O nome - fonte de amor,
Fonte das palavras belas
Que nascem do coração;
Tu és, mulher, sensação
Da universal plenitude:
O amor que nasce e vigora,
O dia a suceder a aurora,
Felicidade, virtude.
Sonho-te, sonho-te tanto,
Tanto te quero e te espero,
Tanto... Tanto... És na noite
O luar que amo e venero!
Ah! quando vou eu a só,
Medito, a calcar o pó
De que sou feito, mas não!
O sentimento é fumaça,
É o aroma que perpassa
Na noite da solidão.
Somos feitos de poeira
Estelar pura e brilhante,
Tu nem sequer és mulher,
Pareces mais diamante,
Adelaide... Escuta: eu te amo!
Em vão nas noites te chamo...
Mas tu virás, tu virás!
Seremos como dois astros
E deixaremos por rastros
As pétalas do lilás...
Transcende este espaço curto
Que os homens chamam de vida!
Eu, eu conheço as galáxias,
Minha Adelaide querida.
O nosso amor está lá,
É como um alvo maná,
Mas feito de luz e sons:
São sensações, harmonias,
Nutrindo-se de energias
Suspensas em megatons.
Toma uma flor! Dá-me um beijo.
Molha meus lábios de mel.
Inunda meu coração,
Grava amor nele em cinzel.
Escreve-me coisas belas,
Fala pra mim das estrelas,
Dos sonhos, das ilusões...
Aqui me tens. Vou contigo.
Aquece-me em teu abrigo.
Escuta-me as confissões.
Depois das longas pelejas,
Dos cercos, da travessia,
Retorno de novo a ti,
Trazendo o amor que trazia.
Sou teu poeta e soldado,
Mas se em tudo estou mudado,
É que estas terras vaguei.
Olha, contudo, em meus olhos,
Sob estes mares de escolhos,
Nossa pérola guardei.
ALQUIMIA
Alma plácida... plácida... serena...
Que estorvo algum ou fere ou envenena;
No veludo das águas adormeces
E em teu leito profundo ouvem-se preces,
Hinos gentis que em coro ali verberam;
Alma das almas deste abismo fundo,
Onde, ao fundo, há clarões que não se alteram,
Que manam vida e luz, gerando o mundo.
Pedra fundamental das existências,
Pedra filosofal das consciências,
Claro mistério oculto do universo;
Deste-me a vida, o passo, o olhar, o peito,
A mente, a busca do teu ser perfeito,
E tudo o que não cabe no meu verso.
Alma das almas destes almos céus,
Disco solar - és, na verdade, Deus.
APÓS A LEITURA DE ANTIGO CADERNO
Como quem lê n’um livro a própria vida,
Antigas páginas reli agora
E relembrei a aurora tempestuosa
Da minha mocidade. Era um vulcão
Que eu tinha em minha boca e a poesia
Dela eclodia como de Stravinsky
O estrépito orquestral, ao libertar-se
De incontido furor e rebeldia.
Quanto tempo passou... Tudo mudou...
Eu hoje estou mais calmo. Vejo o céu
Já como um mar azul, um mar sereno
E saúdo este ar de primavera.
Eu já não sou aquele; hoje, ao lembrar-me
D’aquelas páginas desesperadas,
Vejo como sofri – mas já não sofro...
A dor migrou de mim, como de um pólo,
Restam apenas versos - são pegadas!
ARAR, ORAR
Arar, orar
Duas palavras:
É o quanto basta
Ao que é mais nobre...
Pois Deus me cobre
Se eu esquecê-las
Um dia acaso.
São aquarelas
De amenas telas.
Em seu sentido
Fazem brilhar,
Fazem sonhar
O ser perdido
Cuja esperança
Como a crianças
Mansas que esperam
O alvo maná,
No chão está.
No céu está.
Arar é orar,
É amolecer
Os corações
Sacrificados
E atormentados
Por mil paixões,
Enternecer
Seres sombrios,
Que levam cruzes,
Sem ar, sem luzes,
Pelos vazios,
Na escuridão:
Míseros trapos,
Plantam farrapos
Degradação.
E Deus os ergue
Com fortes braços,
E diz pra eles:
Plantastes dor,
Colhestes fel,
Plantai o amor,
Tereis o mel.
“Que pouco importa?
Minha alma é morta!”
Logo se enfada,
Sem ter razão...
Ele não sabe...
Que a Deus só cabe
Dar vida ou não,
E em vão se oprime...
Seu próprio crime
Nasce-lhe embora
Da própria mão
Mas já não chora...
“Agora, não...
“São uns patetas
“Estes poetas,
“Tudo ilusão”....
Pois vai, então,
Leva contigo,
Querido amigo,
Este meu trigo
Do coração...
Duas palavras,
São só palavras,
Eu bem o sei...
Mas pensa nelas,
Não como sons,
Mas como estrelas
Em megatons.
Arar, orar...
Qual a mais justa?
Qual a mais sábia,
Que apaga o breu?
Arar, orar...
Uma é o mar,
A outra é o céu.
CANÇÃO AOS NETINHOS
Meus sonhos são baleias
Que vão em altomar,
Meus sonhos são baleias
Na crista azul do mar,
Meus sonhos são baleias
Vistas de Gibraltar,
Meus sonhos são baleias
Em gozo a se afundar!
Meus sonhos são tristezas
Que tenho a confessar,
Delitos propagados
Que voltam a assustar.
Meus sonhos são miragens
Nas sombras do luar,
Escuros e impalpáveis
Sonhos de verde mar
Meus sonhos são baleias. [repetir]
CANÇÃO DE AMOR
Eu sei que julgas
Não dar valor
Ao teu amor
Quem te quer bem;
Saiba que chora
Na noite triste
Quem mal existe
Se não te tem!
São as saudades
Nuvens revoltas,
Voando soltas
Em meu olhar...
Meu peito aperta,
Em fundo nó,
E eu, mudo e só,
Fico a cismar!
Minhas lembranças
São coroadas,
Aureoladas,
Porque te amei,
E amo-te tanto
Que nem supunha...
Viraste unha,
Carne virei.
Eu já não posso,
Assim sozinho,
Não ter meu ninho
Pra me aquecer...
Conto os minutos,
Sofridamente,
Por, finalmente,
Poder te ver!
Foram dois dias?
Foram talvez
Dois anos, dez,
Ou mais, bem mais...
Sinto pesar
A eternidade
Sobre a saudade
Que a dor me traz...
Eu sei que julgas
Não dar valor
Ao teu amor
Quem te quer bem,
Saiba que chora
Na noite triste,
Quem mal existe
Se não te tem!
CANÇÃO DO FOGO
Ardei, ardei, fogo feroz,
No estrépito do lenho aceso
Que ardendo estoura,
Crescei, crescei, chamas vorazes,
A combustão de vosso anseio
É o que devora.
A vida brada em vossas mãos,
Purificando-se da dor
No próprio extremo,
Muda-se em cinza e pó o tronco
Das ilusões, faz-se em vapor
No céu supremo.
Nada resiste a sede imensa
Que vos impele e vos acende,
Como água viva
Vos derramais, ramo após ramo,
Nas folhas verdes, nos madeiros,
Intempestiva;
Prende-se ao brilho deslumbrante
De vosso horror, embevecido,
Meu fundo olhar,
Que vai correndo a imensidão
De vossa luz, como se fosse
A de um altar;
Chamas vorazes, que sublimam
A matéria insensível e oca,
Crescei, crescei,
Ardei, ardei, sois a porteira
Do espírito no hall da carne,
Pedra da Lei.
Percam-se em vosso seio ardente
As flores castas e os poemas,
Vós sois a cruz,
Do alto Gólgota, haurindo dores,
Nos transformais, fogo feroz,
De lama em luz.
CAPRICHOS - 6 ESTUDOS
I
Amores,
Senhores,
Senhoras,
São horas
Perdidas,
Vividas
Com tanto
Encanto
E puro
Prazer,
Enfim,
Que eu juro:
Morrer
É assim...
II
Não cabem
Nos versos
Dispersos
Aos ventos,
Não sabem
Os lábios
Dos sábios
Sedentos;
Amores
São sonhos,
Jardins
De flores,
Risonhos
Jasmins.
III
Que belas
Imagens!
Que telas!
Paisagens!
Pinturas
Tão puras!
Tão leves!
Tão breves!
Têm cores
Amenas,
Detalhes,
Pudores
Nas cenas,
Nos talhes.
IV
Amores
E beijos,
Desejos,
Langores,
Penhores,
Carinhos,
Calores,
Pecados
Em ninhos
Sagrados,
Por peitos
Colados,
Desfeitos,
Molhados!
V
Esboço
Que és, bruma!
Pescoço
De escuma!
Olhar
De noite,
Açoite
Do mar...
E bela
E quente
E casta!
Ah, vê-la
Somente
E basta!
VI
Sou brisa
Que vaga,
Desliza
Na chaga
Profunda,
E inunda
De olor
A dor
Dos poetas,
A fome,
As setas
E a flor,
Meu nome
É Amor.
CAVALGADA
Vida, dura vida,
Mais duro sou eu!
Minh'alma partida
De tanta ferida
Foi buscar o céu!
Vida, dura vida,
Vida de passagens,
Minh'alma exaurida
Caminha perdida
Em terras selvagens.
Sou pasto de fera,
Comida de bestas,
A presa que espera
Na escura cratera,
O pão das florestas.
Sempre incompreendido,
Estigmatizado,
Sozinho, esquecido,
Por Deus só querido,
Por Deus só cuidado.
Lancei meu olhar
De ingênua franqueza
Ao redor, a achar
Que a terra era o lar
Do amor, da beleza.
E em resposta a tudo,
Que tive, que tive?
Um tormento mudo,
Meu único escudo,
Na fé que revive.
Calado, calado,
Sofri impropérios,
Lutei contra o fado,
Sufoquei meu brado,
Desafiei mistérios.
Lutei contra a sorte
Que em confusas praças
Me cobrava a morte
E me fiz mais forte
Perante as desgraças.
Meu sangue, meu pranto,
Tudo dei à vida,
Transformei-me em santo
Ao fazer de encanto
Minh'alma partida.
Pesares da dor,
Da fatalidade,
Transmutei no amor,
Fiz vê-los favor
Na minha vontade.
De tantas feridas
Que ao peito estanquei,
Vivi vinte vidas
Em breves partidas
E em todas sangrei.
Execrei, escravo,
Infames coortes,
Fui de agravo a agravo
Me fazendo em bravo,
Me juntando aos fortes.
Pois eis-me de pé!
Que não morro mais
Nem mais perco a fé!
Não direi: Javé,
Javé, onde estais?
Passa o tempo breve,
Corredor veloz,
N'um galope leve,
Sem deixar na neve
Pegadas após.
Abracei meu choro
E disse: eis-me aqui!
Nada mais deploro!
Se o amor imploro,
Todo o mais perdi!
Vida, dura vida,
Mais duro sou eu!
Minh'alma partida
De tanta ferida
Foi buscar o céu!
COMUNHÃO
Descansar nos teus braços, anjo meu,
É descansar no céu, é estar no céu
Cercado de esplendor, doçura, graça;
Nos teus olhos melados de carinhos
Estão os sonhos de dolentes ninhos,
Amores puros que o destino traça!
Assim sorrindo neste eterno sonho
De um céu incólume, infantil, risonho,
Vamos passar na vida, lado a lado;
Tu, a mais bela, a mais doce, e sempre minha;
Hei de chamar-te à noite, assim: Flavinha...
Flavinha... Vem dormir, Sol adorado.
Bem como os anjos que se vão amando,
Voando aos pares pelo céu, em bando,
Daremos nossas mãos em forte laço;
E dos abismos de cruel tormento
Escaparemos na caudal do vento
Ainda unidos pelo mesmo abraço.
É bom amar, é sim! Nada há mais doce!
Lua e Sol, Céu e Mar - amor nos trouxe;
Tudo o que une, conforta e fortalece;
O amor jamais acaba, meu anjinho,
É a flor que medra a custo, sobre o espinho,
E ao mais que sofre ou ri, apenas cresce...
CONTEMPLAÇÃO DA NOITE
Todas a noites ponho-me a cismar
Vendo o lago do céu cheio de estrelas,
Tenho a face banhada de luar
E fico horas inteiras a cismar;
Sou o amante da Lua, em noites belas!
Mil idéias assomam, mas é a sina
Que lhes cabe surgir, mesmo que grandes,
E se perder na poeira cristalina
Do cosmos, dissolvidas na neblina
Da noite imensa que recai nos Andes.
Flutuo entre visões de encantamento,
O vulto branco da beleza passa
Como uma pomba devassando o vento,
Sinto elevar-me aos céus um sentimento
Que é a poesia talvez, talvez a graça!
Fito abismado a imensidão celeste!
Oh, peregrino, mágico fulgor
Que o véu das nuvens atenua e veste!
Deixa, deixa que venha a mim teu Pai celeste,
Deixa falar comigo o teu Senhor!
CORÍNTIOS CAP. 13
Senhor, ainda que eu falasse a língua
Dos anjos, sem amor, nada seria;
Se me faltasse o derradeiro arrimo,
Em Ti, Senhor, eu me sustentaria.
Minha força é a vontade do Teu zelo,
É meu sincero altar o amor ao Filho,
Minha bandeira é a cruz que aos ombros levo,
Banhada em sangue transformado em brilho
Meus olhos tão exaustos, sempre cheios
De fadiga, contemplam as labutas
No teatro da vida, pasmam, fremem,
Trazem as pálpebras jamais enxutas.
Eu calo ante o espetáculo dos crimes,
Mas sei que a embriaguez (tão transitória)
Que é a loucura dos homens, é o caminho
Cheio de espinhos que conduz à Glória.
Mas vejo os pássaros e, absorto, fito
A Lua ao céu, abrindo a imensa boca
E desfechando um gigantesco grito...
"Humanidade! como és cega e louca!"
Ouço o vento noturno pelos galhos
E pelas folhas, invisível, mudo,
Penetrando edifícios, salas, quartos,
Leitos e mentes, devassando tudo!
Senhor... Quando a maldade andar comigo,
Ensina-me a viver com humildade,
Porque o ódio ferindo em nosso peito
É como o ferro lapidando a grade.
Quero estar com os Teus pela ternura,
Pelo brando calor de Teus olhares,
E arrebatar o fel que jaz, poluto,
Como o petróleo enegrecendo os mares.
Tuas mãos são tão doces, nos convidam
À paz deste clarão que acende o dia:
Senhor, ainda que eu falasse a língua
Dos anjos, sem amor, nada seria...
CREPÚSCULO
Aqui, às margens da amplidão sanguínea
E luminosa – em que mudou-se o céu –
Vendo a grande águia como esfera ígnea
Pousar cansada em lutulento véu
E a Lua lentamente apoderar-se,
Com suas aias, as gentis estrelas,
Por mais senhora desses céus mostrar-se,
Dos altos campos, nas sidéreas telas;
Aqui, do precipício onde pranteia
Eterno e lamentoso o oceano,
Sobre a secura deste chão de areia,
Entre os repastos do calor insano;
Aqui, da beira-mar, na estranha plaga,
Ergo o meu canto – menestrel das dores –
Venho abrir como o Sol a minha chaga
Por toda a imensidão de dissabores.
Falo de mim aos pássaros que vejo
Transpondo o vasto anil, rumo aos seus lares,
Estão sempre imantados e em cortejo
Bem como o meu cortejo de pesares.
Canto aos astros e dos ventos sou a voz,
Dos tristes boiadeiros os lamentos,
Sou a voz de infinitos sofrimentos
De míseros sem pão e faraós.
Canto ao meu pai, a Deus, que ora me assiste
Ora me ampara e me permite embora
Levar algum consolo para o triste
E lenitivo ao mal que me devora.
Sou a voz dos aflitos ecoando
Entre soluços, sou a quem compete
Lembrar o fundo tétrico e nefando
Da aparente alegria de um banquete.
Eu sou o filho deste imenso Sol,
Canto a tristeza que há na natureza,
Na beleza sem fim desta grandeza,
Na tela luminosa do arrebol,
Oh, estrelas, ouvi-me: irei juntar-me
A vós, quando vier a noite escura,
Possa um ponto de luz assinalar-me,
Quero uma estrela como sepultura.
A UMA DAMA CRUEL
A crueldade é a seta que disparas da boca,
Poetisa... pensar? quando em meu peito guardo
A sede de teus olhos e em minha alma louca
Sinto a febre queimar e entre desejos ardo!
Não vês que o fogo já tomou-me inteiro?
Que posso apenas vê-lo e respirá-lo agora?
Sem teus raios, sou cego, porque são luzeiro,
Sem teu lábios, sou noite, porque são aurora!
Dizes que vais pensar, mas és musa cruel,
Queres matar o verso ao negar-me a inspiração!
Devolves a ironia a quem te pede o mel.
Teus verdes olhos claros - mais não peço, não!
Dá-los é dar a glória, a coroa, o laurel,
Escondê-los é a fome, é inda furtar-me o pão.
DEDICATÓRIO A BILAC
De melífluas aves, várias vezes,
Ouviste o som sublime concertando,
Em doce verso foste as imitando
E o conseguiste, ao fim de muitos meses.
Escutam-se hoje pássaros cantando
Tuas notórias, doces exegeses;
Mesmo o amargo sabor dos teus reveses
Em melodias vão se derramando.
Sou grato por ouvir do vivo lume
Que incendeia a garganta do poeta,
Uma oração que tanta graça assume;
A natureza imitas, grande esteta,
Mas, se abrandas na dor o que é queixume,
Realças na alegria o que a completa.
DESINTELECTO
Sempre o uso limitante da palavra,
Sempre o reducionismo do vocábulo,
Sempre a busca incessante dos mistérios:
As cambalhotas desses homens sérios
Que não vêem razão senão no incógnito.
Intelectos de gelo! Faces frias!
Sempre algemados por filosofias,
Por contrasensos, pensamentos ocos.
Crendo-se sábios - se fizeram loucos!
Qual o sentido em dar à vida as álgebras
Desta esterelidade tão mesquinha?
Ter a glória de um cego por vontade?
Meu Deus! É vaidade! É vaidade!
Desprezar o mais simples e o mais óbvio?
Não hão de crer que uma mão é uma mão?
Um melão um melão? Leitor, é rir...
Qual há de ser o seguidor de Sísifo?
Cenho cerrado, a roupa sempre escura,
Palavras tão difíceis, tão supérfluas...
Flavinha, sim! Drummond nada sabia
Quando escreveu as Sem Razões do Amor...
Abro a janela pra nascer o dia
E não há nada para se supor!
DESPEDIDA
Lembramo-nos, pobres mortais, perante
O fatalismo extremo da existência,
Quão frágeis são os vínculos da carne,
Quão eternos os sóis da consciência.
Aquele que tombou no solo duro,
Tendo exalado o hálito que anima,
É o mesmo a levantar-se, agora livre
Filho da Eternidade, que o sublima.
Despoja-se do manto agrilhoado
Ao verdadeiro ser, que se descobre,
E eis que a moral de Deus, maior que a nossa,
Fustiga o torpe, mas ampara o nobre.
E é júbilo morrer ao que foi justo,
Pois entre os justos estará agora;
E a noite triste que pesou na vida,
Na morte é brilho de uma nova aurora.
Felizes são então os que eram tristes,
Torna-se em flor a lágrima manada,
Encontra a paz quem semeou a paz,
A alma que amou é, finalmente, amada.
Não haverá pesar ao que foi reto
Nem ao benévolo ranger de dentes,
A terra fofa - que era a vida - araram,
Lançaram nela essenciais sementes.
Serão os doces gestos que engedraram
Cheirosas flores no jardim de Deus,
E por morada encontrarão um Éden,
Que é o claro espelho dos valores seus.
E que sorriso ao deparar-se agora,
Ao ver-se frente a claridade intensa.
E algo nos fala de imortalidade
Mas como um hino, não como sentença.
E quem vivia ainda vive agora,
Mas não é cego como quem ficou,
Que eleva os hinos que a saudade inspira
Nos sentimentos que o amor criou.
Adeus! Acenam nossos lenços brancos!
Adeus, meu pai! A barca, em te levando
Além de insólitos recifes, zarpa,
Mas o oceano é gentil, e o clima é brando.
Ainda, um dia, quando a minha alma
Seguir a tua em direção do ocaso,
Ainda acaso hei de pedir-te a bênção,
Junto ao teu lado eu estarei acaso.
A morte, todavia, não separa
O que a matéria não uniu apenas,
O que o amor uniu jamais se acaba,
O que se acaba são somente as penas.
ELEGIA DO PRIMEIRO DE MARÇO
As coisas vão e não voltam,
Não, as coisas nunca voltam.
Lágrimas, lágrimas rolam
De meu olhar carregado.
O passado inalterável,
Na dor do presente instante.
Continua inabalável.
Ah! Meu pranto! Minhas chagas!
Meus mais soturnos pesares!
Sonho co' uns campos de flores
Abertos ao Sol, à vida:
A relva verde, as manadas
Que correm pela planície -
Os anjos descem do céu;
Só eu que sofro... Que mágoas!
Que mágoas de ver a Terra
Vestida de luto, negra.
Os homens riem-se, e o riso
Corta a alma desses que levam
O estigma santo da cruz.
Vida, vida minha, és cruz
Que aos ombros levo, meu carma.
Saboreio um cigarro:
É o tabaco que queima
Junto de meu coração.
Quanto eu quisera mudar!
As lembranças são o chumbo
Das almas. Oh, peso eterno!
Oh, mágoas que não se acabam!
Pudera de novo dar-te
A pureza agora morta,
Pudera então restaurar-te
Aqueles sorrisos puros,
Aqueles olhos mimosos,
Aquela candura inata.
Mas tudo já se perdeu!
Tua beleza morreu:
Há de talvez renascer
Ainda numa alvorada
Cheia de luz, mais robusta,
Mais forte... Mas eu, eu guardo
A culpa de um assassino,
O remorso, que me mata.
Não sei se posso sorrir,
Eu posso apenas chorar.
Meu tão profundo pesar
Parece nada apagar.
Eu busco de novo o Sol,
De novo o Sol. Ah! o Sol...
ÉS TUDO!
Doces sonhos das horas
Que passo eu ao teu lado...
No meu coração moras,
Sou no teu abrigado,
No teu - vivificado!
Sou catedral, que escoras,
Jardim, por ti regado
Quando junto tu choras.
Teu perfume é de amor...
E é o perfume que exalas
No soluço das falas
Dos teus lábios de flor!
Amo-te, amo-te e és tudo,
És tudo, tudo, tudo!
FALANGES
Nos vales solitários,
Vagam sombrios os heróis lendários
Dos tempos de Homero,
Os lábios mudos, sob o olhar austero,
Dizem de dez mil mortos na batalha
E os corpos flutuando sobre os pegos
E as ondas lhes servindo de mortalha -
Cadáveres de gregos!
A marcha é dura, o coração aflito
Pede apenas os beijos da chegada,
Para uns, este é o retorno da jornada,
Para outros, o infinito.
Quem volveu? Quem ficou? Perguntam elas,
As mães, as noivas, as esposas castas,
Umas, envoltas em lembranças belas,
Outras, tomadas por visões nefastas.
"A guerra, a guerra é o homem" -
Gritam os gênios da sangrenta terra,
E enquanto os mausoléus aos mais consomem,
Eles repicam: "Guerra!"
Escuta Atenas as antigas lendas,
Velhos soldados vêm surgir das tumbas,
Contar seus feitos sobre as catacumbas
Aos moços trêmulos que rendem prendas.
É o bárbaro cruel que avança o ermo,
Vindo encontrar da caminhada o termo
Nos pórticos do aqueu.
O dever chama, é a obrigação que fala:
A flor de Atenas vai rolar na vala,
Enquanto incensa o céu.
Trava-se a luta, a multidão se esbate,
O sangue jorra, borrifando as frontes;
O instinto ordena - diz ao homem: "Mate!"
E vão tombando aos montes.
Depois a pasmaceira, o luto, a mente
Que recorda intranquila o horror das cenas:
O grito, a espada, o desespero ingente,
O desconforto exacerbando as penas.
Longos anos - e então voltar! Sentir
De novo a brisa morna bafejando
À tarde, e o mar imenso a se espargir,
E a vida, o lar, e os filhos farreando.
Mas dessas bocas só lhes sai gemido,
Em seus olhares não se vê vitória,
"A Grécia é nossa!" - Grita o corpo unido,
Mas não descobre glória.
Pobres soldados! Miseráveis bravos!
Cujas vidas resumem-se aos lavores,
Todos lhes deitam as mais belas flores
E são, no entanto, escravos.
Volver... Volver ao lar... Talvez
Achar na esposa o prêmio das fadigas
E se entregar às bigas
Ao sonho, à embriaguez.
Quem sabe se não é da vida o doce
Aroma do banquete
A paz consoladora que Deus trouxe
No dorso de um ginete?
Imagens vão e vêm - sons que se escutam
E recordam estâncias do passado...
São lembranças que lutam
Para viver, no coração chagado.
A morte é a companheira derradeira
Dos pesadelos negros do soldado,
E o acompanha pela vida inteira
Como se andasse ao lado.
Amizades, família, Deus, amor,
Tudo se mancha na chacina infame,
Tétricos quadros de cruel terror
Já não permitem que um soldado ame.
O que mudou? Os anos se passaram...
Mas quem volve jamais será o mesmo.
Felizes são talvez os que ficaram,
Que agora é vagar a esmo.
A Grécia, a Grécia ainda é bela e santa!
Quanta beleza em suas praias virgens,
E em suas virgens belas - quanta! quanta!
Ah! o sonho da volta ao doce lar...
A falange caminha entre vertigens,
Vai vendo a terra, imaginando o mar.
*************************************
Soldados! Soldados!
Nas marchas pesadas
Levais as espadas
Manchadas de horror;
Cuidai, meus amigos,
Que após os cansaços,
Esperam-vos braços
Repletos de amor.
Nas duras pelejas,
Vertestes o pranto,
Banhastes o manto
Com sangue e suor;
Em nome da Pátria
Que assim defendestes,
Saúdam-vos estes
Com glórias e amor.
Os nomes eternos
Serão relembrados,
Jamais profanados
Por vil despudor.
Soldados! Soldados!
Vós sóis, penitentes,
O braço das gentes
Na luta do amor.
Ao sopro da vida
Que levam os anos,
Cruéis desenganos
Transmutam-se em flor;
E as vossas fadigas,
Que pesam na fronte,
Na flor do horizonte
São feitas amor.
*************************************
Se as lutas vos são lembrança,
Lembrai-vos de vosso Pai,
Vós não perdeis a esperança,
Oh, soldados - descansai!
FILOSOFIA
Solitário em meu leito, abrigo cismas
Escondidas em minha mudez grave,
Reflito, a história e o mundo estão em mim,
Reis e profetas dormem ao meu lado;
A humanidade existe, verdadeira
Como nenhuma nuvem esboçou
Jamais ser. Sólido e palpável, vejo
O vulto de Galileu anunciar-me
Verdades nunca ditas. Leonardo,
O grande Leonardo está comigo...
No silêncio dos séculos, a sombra
Da distância desfaz-se, a luz nos une,
A luz que é a vida sob a qual servimos
E para a qual servimos, submissos.
Das refulgências de Órion, falo a vós,
Domésticas, serventes, operários,
A vós que estais aqui e em toda parte,
A vós que sois este universo inteiro
E tendes Shakespeare e Mozart n’alma,
Toda a verdade habita em vosso seio
E a desprezais, como quem vai n'um trem...
Olho ao redor, vejo senão miragens,
Pergunto-me: “De onde as miragens vêm?”
FLOR ETERNA
Lança o reproche, a gargalhada austera!
Infâmia sobre o verso!
Ali medra uma flor, é primavera,
Oh, larva do universo!
Teu riso te sacode,
Vais devorando as pétalas mimosas,
Pensas que a peste pode
Exterminar as rosas.
Elas são muitas, quando matas uma,
Outras mil se revelam vicejantes,
Surgem de toda parte, em meio à bruma,
Em meio à luz - a todos os instantes.
Brota da tua boca apenas pus...
Teu riso é o lodo imundo:
Mas o escárnio das massas e do mundo
Na voz do bardo se transforma em luz!
Nada pode matar a flor perdida,
Orfeu cantando vale mais que Tito,
Um, tendo um trono, não é mais que um grito,
O outro trescala a diapasão e a vida.
Quando fores deitar,
Repara bem o fundo deste abismo,
Revolve a lama ali, é teu cinismo.
Bebe a água deste mar...
Talvez alguém te chame, alguma voz
Dorida, alguma mão a segurar-te...
Perceberás que o teu sarcasmo atroz
Cuspiu n'aquela mão - que era a Arte!
O poeta, o poeta é o som
Da natureza convocando Deus...
O escárnio que se lança em solo bom,
Sobre este, é leve como o azul dos céus.
Mas ai d'aquele que passou no mundo
Junto dos bandos infernais e, rindo,
Foi-se lançando no vazio profundo
E despenhando-se em tormento infindo.
A flor... A flor... Inda ela medra embora!
Não aconteça tê-la em teu caminho,
E, ao ver que a triste chora,
Tentar quebrá-la lhe apertando o espinho.
FLORBELA
Florbela. Lá vem ela. É a flor esvaecente:
Minha flor. Meu amor. Meu poente.
Tem o rosto infantil, cheio de graça,
Mas vem sombria e, mudamente, passa;
Quanta tristeza vai consigo: a dor
Grita em sua mudez e seu palor
Esconde o fogo de cruéis tormentos;
Junto com ela, lá se vão, detentos,
Remoendo-se, o remorso e o desespero
Que nasce no imo d’alma. E eu, que espero
Em vão ela volver o olhar na esquina,
Fico a cismar na minha própria sina,
Porque também como ela eu sofro e peno,
Trago o mesmo fel, bebo igual veneno.
Será que, como duas solidões
Anulam-se, dois tristes corações
Podem juntos achar uma alegria
E rir do que antes lhes chorar faria?
Não sei... Ela se foi, fiquei sozinho,
A minha flor partiu, deixou o espinho...
FLORESCÊNCIAS
A estrofe cristalina, o verso d'ouro
Que é flor ao Sol d'Abril, ao céu contente
Das tardes amorosas,
A rima feita em par de brincos - louro
De todos os poetas, na torrente
Dos lírios e das rosas;
Esses cantos de infante, em fresco outono,
Como um convite ao parque, as folhas secas
Da estação amarela,
E mesmo o inverno, o sopro do abandono,
O fogão contra o frio, e as enxaquecas,
E a neve na janela;
As cantigas singelas, os afagos
Ao calor das palavras, a ternura -
Já tudo se perdeu?
Se nesses mesmos horizontes vagos
Estão as notas de uma partitura,
O canto não é o céu!?
Negar a sombra escassa da palmeira?
Mas se é tão bela, tão altiva e nobre!
Fechar a vista ao mar?
E ter vagado pela terra inteira
Para morrer assim, inda tão pobre,
Sem nem saber amar?
Dá-me ilusão, Poesia, dá-me beleza!
Dá-me d'aqueles sentimentos puros
Que embalam as crianças!
E tu, dá-me o repasto, oh, Natureza,
Para que eu seja nestes vals escuros
Um farol de esperanças!
O GÊNIO
Na fronte larga
Que o gênio estampa,
Abre-se a campa
Das ilusões;
E a vida amarga
Que o gênio leva
Acende a treva
Dos corações.
Se a voz alteia
Em meio às praças,
Quedam-se as graças
Do imenso céu,
Se a voz baqueia
Em choro triste,
O céu lhe assiste:
É Prometeu!
À sela escura
Destas prisões
Leva orações,
Leva o manjar;
Toda amargura
É um rio aflito:
A dor é o grito,
O gênio é o mar!
Nos grandes vales,
No altivo cume,
Só leva lume,
Só leva pão.
Clareia os males,
Consola o crime,
N'alma sublime
Vive a Razão.
E sempre vaga
Na crosta espessa,
Sem que se esqueça
Aonde vai:
De plaga em plaga,
Calcando escolhos,
Eleva os olhos
Ao grande Pai.
E o gênio segue,
Caminha só,
Sublima o pó,
Revela a luz.
Na fonte bebe
Do amor de Deus,
Fitando os céus,
Pregado à cruz.
As grandes massas
Lhe vão seguindo
E ele subindo
Segue o vapor;
Nas nuvens baças
Fita o mistério,
O grande Império
Do Deus de amor.
E um dia ainda,
Em noites belas,
Junto às estrelas
Nos vem fitar;
A face linda
Pousa na terra
E amaina a guerra
E abranda o mar.
Um sopro ingente
Que vem dos montes
Abre horizontes
Entre arrebóis,
E pasma a gente
Ao ver nas trevas
Surgirem levas
De ardentes sóis.
No globo extenso
Envolto em pranto,
O gênio é o manto
Do puro amor:
Lança o incenso,
Acende a pira,
Pega da lira,
Encanta a flor.
Tudo viceja
À sua volta,
Toda revolta
Encontra a paz;
A terra o beija,
O vento o abraça,
O mundo passa
E vai-lhe atrás.
"É o desgraçado!
É o cão maldito!
Vilão! Proscrito!" -
O povo diz,
E o gênio alado
Segue pairando,
Segue cantando,
Segue feliz.
GLOSA A UMA FLOR
Sou Cyrano, madame (acentuação em francês). Igualo-o na grandeza e na aparência! De bela só tenho minha alma, nem riquezas possuo, apenas a de fitar a graça de teu rosto, que é uma linda coroa engastada de dois maravilhosos jades. Ah! Cansei. És bela, poetisa, mas a cada minuto o fogo me consome e me reduz a cinzas. De que vale o pudor, senão para obscurecer o brilho que eu quisera estar contemplando? Cada minuto que passa é um minuto jogado no lixo. Bastava-me apenas um carinhoso olhar e eu sentiria os êxtases mais supremos de um artista. Se não os quer, não posso senão oferecer-te uma coroa de sonetos, com toda humildade e sarcasmo.
****************
Teus olhos são puro céu,
Teus olhos de claro âmbar,
São a luz que se perdeu
Pelas sombras desse mar!
Teus olhos, que a fé nos deu,
Teus olhos, sempre a brilhar,
São o consolo de Orfeu
Na areia da beira-mar!
Glória de quem os cultua,
Teus olhos, apenas eles
Serão faróis da verdade
Clareando a carne nua,
E como então me repeles,
Hás de cumprir-me a vontade!
******************
I
Teus olhos são puro céu,
Fascínio n'alma despertam,
São olhos de Jubileu
Que enquanto cantam, nos flertam;
Tomaram-me inteiro, e ao meu
Peito mais o nó apertam,
Teus olhos, teu olhar, teu
Doce olhar, quanto me acertam.
És verdadeira e bela,
Palpável como os meus sonhos
Que falam à mocidade,
Flor, Flor... melhor fora Estrela,
Brilho desses céus risonhos,
Infinita claridade!
II
Teus olhos de claro âmbar,
Teus olhos... Teus olhos, sim.
Os não podes revelar?
Queres matar-me, por fim?
Silêncio é morte, é lançar
Ao ostracismo um sozinho,
É uma sentença a pesar
Mais que a aridez do caminho.
Meu bem! Meu bem! Oh, menina
Tola que crês com malícia
No fogo da própria sina,
No leito de uma delícia,
Por que te fazes mofina?
Dá-me o que quero, odalisca!
III
São a luz que se perdeu
Na correnteza dos anos
Teus olhos verdes ufanos,
Que, novamente, se acendeu.
Meu peito, ao vê-los, bateu
Bem mais veloz que os humanos,
Teus olhos de - outros planos,
Teus olhos de - verde céu.
Será preciso roubá-los?
Não posso assim alcançá-los
Quem sabe ao preço de um canto?
Com que graças te contemplo!
Se és mulher, pra mim és templo!
És taça em que verto o pranto!
IV
Pelas sombras desse mar
Posso apenas viajar
Solitário, só e só,
Se me visses, tinhas dó,
Sou um nauta a delirar
Uma igreja, sem altar,
Fumaça, fumaça e pó,
Se me visses, tinhas dó.
Quero amar-te, sim, eu grito!
Meu peito, meu peito aflito
Quer amar-te - só o que quer...
Minhas palavras: tristezas
Sem fim, prantos, asperezas...
Por que me negas, mulher?
V
Teus olhos, que a fé nos deu,
A fé de crer no que é a arte,
São raios, dão luz ao breu
Como tudo que hei de dar-te!
Teus olhos, pequena parte
De um todo, que se perdeu;
Não posso é certo provar-te,
Mas inda assim eu sou teu.
Amo-te pelos teus olhos,
Toda a verdade revelo,
São o que há de mais belo.
Amo-te pelos teus olhos,
Será talvez um pecado?
Mas como é doce um pecado!
VI
Teus olhos, sempre a brilhar,
Teus olhos, sempre a cantar,
Teus olhos, sempre a sonhar,
Teus olhos, sempre a ferir!
Teus olhos, sempre a gemer,
Teus olhos, sempre a sofrer,
Teus olhos, sempre o prazer,
Teus olhos, sempre a nutrir!
Sempre a brilhar e cantar,
Sempre a sonhar e ferir,
Sempre a gemer e sofrer,
Sempre a nutrir o prazer,
Sempre a sofrer e cantar,
Sempre a cantar e ganir!
VII
São o consolo de Orfeu,
Escuta, mulher: do escuso
Vate que o amor perdeu
Teus verdes raios difusos!
São teus olhares sapecas,
Verdes como pererecas,
Que me encantam e fascinam,
Me amam e me recriminam.
Deusa celeste do Olimpo,
Teus olhos são campos limpos,
Majestosos mas mortais,
Se a morte um dia lhes leve,
Possam deitar-se na neve,
Não apodrecer jamais!
VIII
Na areia da beira-mar
Vi meu amor soluçar,
Na areia da beira-mar,
Vi meu amor clarear,
Na areia da beira-mar,
Já muitos cantos cantei,
Na areia da beira-mar,
Um dia, me deitarei...
Na areia da beira-mar,
Mulher, às noites sonhei
Sem ter um ombro ao meu lado...
Na areia da beira-mar,
Fiz-me areia, olhei o mar,
Sonhando a vida acordado.
IX
Glória de quem os cultua -
Teus olhos não são estrelas,
São como a grama na Lua,
São como a grama na telas;
Ah, pedirei a Monet
Que desvende toda a cor
De teus olhos, toda a flor
Que ali no fundo se vê;
Glória, glória, glória, sim,
Teus olhos são meu festim,
Oh, não os negues a mim!
A mim, que estou a teus pés,
Eu contarei até dez,
E quero vê-los ao fim.
X
Teus olhos, apenas eles,
Apenas eles... Cantá-los
E repetitivamente
Incendiá-los com rimas!
E mesmo quando faltem,
O coração falará,
Já nem sei se terei versos,
Mas teu olhar bastará.
Contemplação infinita,
Contemplação dos teus olhos!
Enlouqueci? Talvez sim!
Talvez não... Talvez que apenas
Possa viver de teus olhos,
Sem nada ter mais pra mim.
XI
Serão faróis da verdade
A iluminar-me o caminho,
Todo o mais será mesquinho,
Menos sua claridade
E sua cumplicidade,
Estas serão meus faróis,
Terei comigo dois sóis,
Duas luas, duas grades.
Olhos cheios de lascívia
Há no teu rosto dourado...
De Messalina, de Lívia,
São os teus gestos tarados,
Apetitosa, divina,
Alguma coisa me ensina.
XII
Clareando a carne nua,
Quero tê-la toda aos braços,
Despi-la no altar da Lua,
Desposá-la nos espaços!
Unidos pelos abraços,
Minha carne será tua,
Tua carne será minha
Quando vier a noitinha!
Um dia, perguntarão
Que grandes graças que tinha
Todo essa ardente paixão.
"Mais uma mulher!" - dirão,
"De que família ela vinha?"
Direi: dos Anjos - perdão!
XIII
E como então me repeles,
Sonho que possas um dia
Perder o medo das peles,
Unir as horas do dia!
Creio que juntos, podemos
Tirar do sonho a magia,
E juntos tudo faremos
E tudo será magia.
Eu posso vê-la ao meu lado,
É a semi-deusa do mar,
Guarda consigo venenos
E doces, queijos e mel,
Guarda o frescor dos pequenos,
Talvez o amargo do fel.
XIV
Hás de cumprir-me a vontade,
Quando eu vier te chamar,
Eu te trarei um colar
E um anel verde de Jade,
Iremos juntos ao mar,
Usarás este colar
E a grande pedra preciosa.
E me abrirás tua rosa
Ao som das árias, que entôo.
Serei um pássaro em vôo
E tu serás Primavera,
Poeta e poetisa, lado a lado,
Um - o amante - o outro - o amado,
Meu Deus! O que ainda esperas?
GOLIAS
Davi, deixa viver Golias, é um coitado
Subordinado ao teu poder de rei tão grande.
Perdoa o bruto, é bruto apenas, não malvado,
E um criado há de fazer o quanto o rei lhe mande.
Sê bondoso, Davi, àquele que insultou-te,
Que mentiu, perjurou e blasfemou, feroz,
Que para o teu poder tomar desafiou-te,
E fez-se a ti, meu rei, tolo ao invés de algoz.
Fita esta sombra, escuta os seus gemidos roucos,
Foi vil entre os mais vis, foi louco entre os mais loucos,
Quando ele ousava rir de teu bendito nome:
Um miserável cego, um desgraçado vulto
É o quanto logrou ser, na dor de seu insulto;
Viver sem ti, meu rei, é como passar fome!
AO HOMEM
Oh, homem, vagas perdido
Deserto, campo e cidade,
Teu destino é um sopro incerto
Lançado à eternidade.
Aonde vais, forasteiro?
Não tens rumo? Não tens lar?
A sina tua é penosa,
Bem o vês, é caminhar!
E uma mulher, que console
Tão imensa solidão,
Não tens, miserável pobre,
Não tens mesmo um coração?
Contigo mil dissabores
De cor na memória levas!
Sempre coberto de luto,
Envolto sempre de trevas!
E Deus... descrês!? Por que acusas
Então o acaso, a miséria,
Dizendo que a vida é chiste,
Acre e dorida pilhéria!?
Não há saída - asseveras -
Deste fundo labirinto:
Pujante corcel alado,
Tu morres, no chão, faminto!
Não vês que além do espinheiro
Onde em dores te debates,
Mais extenso do que o Tigris,
Mais vasto do que o Eufrates,
Tens o céu só para ti!
Morada que Deus te deu!
Mas queres a lama infame
E zombas do mestre hebreu!
Até onde? Oh, desventurado,
Até onde tamanho mal?
Até quando tanta insânia?
Até quanto isto, afinal?
Não queres da vida o doce,
O sumo melífluo, o aroma
Da flor que cresce distante
Da terra suja de Roma?
Vai, encontra o teu caminho!
A sorte guie teus passos,
Que és peregrino na terra!
Mas morador dos espaços!
HUMANISMO
No céu, o fresco orvalho cai em gotas,
Umedecendo a terra - feita em lama -
Conforta a natureza a amena chama
Do Sol, vertida em luz, saudada em notas,
Há paz na arribação e paz nas grotas,
O verde da folhagem se derrama
Nos tapetes do chão, e em meio à grama
Irrompem flores – pálidas gaivotas.
Ouve-se o som dum trino – é o som da graça,
Nas ermas solidões, um homem passa,
Calado pegureiro do destino;
Leva consigo, no seu porte ufano,
A glória universal de ser humano
E o milagre imortal de ser divino.
INDOLÊNCIAS
Mole sono que à noite
Me leva, me leva...
Suave, suave açoite
Na macia treva...
Dormir, dormir: leitos
De lã a aquecer,
Cálidos e estreitos
Como uma mulher.
Doces, doces sonhos,
Que ao céu me levais,
Algodões risonhos,
Amplos milharais.
Deixa um poetinha
Sem lar, sem mansão,
Dormir nessa vinha,
Beber ilusão.
Sonhar e sonhar:
Assim eu passei,
Grande como um mar,
Curto como um rei.
Oh, benzinho amado,
Vou dormir... Dormir...
Dormir acordado,
Acordar... Sorrir...
Deixa a vida lá,
Que mal vai fazer?
Que mal haverá
Maior que morrer?
E entanto a sonhar,
Teu colo é o meu leito,
Lá posso pousar
Das ânsias no peito.
Teus cachos dourados
São feitos de mel,
Trigais cacheados
Que imitam o anel.
Na noite em que brilhas,
Dormir é morrer,
Nas tuas presilhas,
Sonhar e esquecer.
Nem sei mais que falo,
O sono me leva,
Me leva na treva...
E eu durmo e me calo...
Doces, doces sonhos,
Que ao céu me levais,
Algodões risonhos,
Amplos milharais.
Que eu possa dormir,
Dormir é morrer,
No teu cashemere,
Sonhar e esquecer.
LÁGRIMA URBANA
Caminho, meu olhar recai em tantas coisas!
Contemplo o mar de prédios como um mar de loisas,
A terra um grande cemitério... Fumo e pó!
Os objetos e seres, que se multiplicam,
Nesta mesma ilusão, eternamente, ficam,
Enquanto, eternamente, perambulo só!
Ah, minhas pisadas erradias, duras,
Calcam o falso chão, coberto de amarguras,
Como sangue a lavar a estrada do infinito...
Tantos olhares se interpõem a mim. Eu, mudo,
Percebo que sou parte e que pertenço a tudo
E que há talvez em tudo do meu próprio grito.
Nos cafés, na estação, no céu já tão distante,
No sombrio vapor, no chapéu mendicante,
Sorvo este mesmo ar e o pestilento aroma...
Sinto que sou a infâmia e a elevação do crente...
Estou na solidão, embora, juntamente,
Esteja a fervilhar no Coliseu em Roma.
Que posso eu senão dar de mim mesmo a esta dor
Que se adere na pele, como um frio suor,
E está no desespero do meu ser mais grave?...
Desenterro do fundo de minha alma triste,
A lágrima secreta que sob tudo existe,
Pra que me purifique e do meu mal me lave...
Desce por minha face fria e macilenta
Como gota de orvalho a despenhar-se em lenta
Queda da altura de uma folha... Expurga crimes,
Culpas, pútridos gérmens de ódio e sofrimento,
Que acalantei, incauto, em meu cruel tormento,
E a libertar-se agora entre canções sublimes...
Mesmo que eu venha a mil países percorrer,
Conheça tudo o quanto sob o céu houver,
Nos extremos da Terra, ou onde quer que assomem
Outros mortais... Não haverá – seja o fulgor
Da prata, a pátria, a carne, a arte, ou o que for –
Nada que valha como - a lágrima de um homem.
A MEU PAI (A DOR DO ALZHEIMER)
As lágrimas lhe correm pela face
E ele soluça em convulsivo pranto,
O olhar cai pelo chão, preso a um canto,
Qual se, timidamente, se ocultasse;
Pede-me que o ajude, que o abrace,
Sente profundo, agudo desencanto,
Foi longo o dia, já choramos tanto,
É como se este pranto não secasse.
Tomo-lhe pelo braço e o oriento,
Trago na minha a sua mão envolta,
Fito-o, ele sorri ao meu calor...
A vida é um carrossel de sofrimento
Onde aprendemos mais a cada volta
A divina lição do puro amor.
O MILITANTE
Pode apenas o Pai em ti viver
Quando auscultas os sopros da Verdade...
A anulação do Eu, o ser sem ser,
Que é respirar amor e liberdade...
Caminha sobre as águas, caminheiro
Que percorreste os vales da aflição,
Envolvam mar e céu e o mundo inteiro
Tua misericórdia e compaixão.
As gazes do conforto são mentiras,
Nos sonhos que o tormento faz brotar,
Estão acesas desses céus as piras,
Olha pro céu, é o céu que vais galgar.
Toda a vida é ilusão, é passageira,
Efêmera: bendiz tua desgraça!
Hás de lançar aqui a sementeira,
Mas vale o quanto fica, o resto passa.
Não importam as dores, os queixumes,
Arroubos, convulsões, prantos, misérias,
Ficam na cova as crises e os ciúmes,
É bem amargo o riso das pilhérias.
Levanta a fronte, bravo! Enxerga, cego!
Luta, fraco! Liberta-te, enjaulado!
Mendigo, a púrpura! Tirano, o pego!
Em frente, em frente! que não há passado!
A espada é a carne, o espírito a armadura,
O corcel a galope, bem percebes,
Ele não pára, nesta estrada dura,
Teu próprio sangue é tudo o quanto bebes.
Na areia do deserto não se contam
Os cadáv’res que tombam pelo chão,
A guerra é a vida, que os heróis afrontam!
Morrer, porém - jamais morrer em vão!
Quando caíres e as espadas frias
Penetrarem teu ventre furiosas,
Olha ainda pro céu, revê teus dias,
Verás do imenso azul choverem rosas.
É belo ser soldado! É bela a morte!
O olhar aceso à boca do canhão!
A dor do fraco é glória para o forte!
A morte na batalha é redenção!
Medita agora, se não vês o fronte,
Percebe a vida n’um instante amargo,
Verás o mouro defendendo a ponte,
E além da ponte, um oceano largo!
Agora vai! Arroja a carne, o punho!
Nada tens a perder nesse combate!
São mil contra um, neste verão de Junho,
Neste dia imortal nada te falte!
De pé, escravo! Estás cansado, estás?
Tombaram todos sob o ferro teu?
Não resta um sátrapa da corja audaz!?
Podes morrer... Encontrarás o céu!
MINHA BARCA
Minha barca, minha barca,
Meus sonhos contigo vão,
Vão meus segredos contigo,
Contigo, meu coração.
Nos oceanos vultuosos
Lá vamos nós a vogar,
Teu dorso imerso nas águas,
Firmado ao céu teu olhar.
Não nos afrontam distâncias,
Não nos repelem tufões,
São nossos servos os ventos
Desses profundos grotões.
A grande vela se inflando
Imita o vôo do condor
E deslizamos velozes
Sobre o lençol multicor.
Nem os feitiços de Circe,
Ou mesmo as iras de Hagar,
Empalidecem a face
Desses que reinam no mar.
És minha espada cortante
No seio das amplidões,
Não nos afrontam distâncias,
Não nos repelem tufões.
Minha barca, minha barca,
Meus sonhos contigo vão,
Vão meus segredos contigo,
Contigo, meu coração.
À MINHA IRMÃ
Agradeço a Jesus toda flor que banhei,
Todo pranto vertido que a sós derramei;
Se eu em lágrimas fico, a perdir-te perdão,
Oh, querida irmãzinha do meu coração,
Das ofensas cruéis que em teu rosto lancei,
Quero agora chorar, se antes eu não chorei.
Estarei ao teu lado na escura jornada,
Serás minha irmã, e também minha fada;
Todo o amor que te dou seja feito de luz,
Estarei ao teu lado, e ao meu lado Jesus.
Na escalada sombria da horrenda sentença,
Acharás alegria na minha presença;
Eu te dou minha vida, querida irmãzinha,
E jamais deixarei que tu fiques sozinha.
Se é pesada esta cruz, dá-me um pouco do peso,
Se não podes co'a voz, deixa que eu mesmo rezo;
Teu irmão mais rebelde, teu irmão avesso,
Este estará contigo, e eu contigo padeço.
Não chores, oh, não mais! Toma esta flor azul!
O vento que vem do Norte espanta o que vem do Sul.
A vida é assim sentida e cheia de durezas,
Austeras comoções, miúdas singelezas,
Vamos ser passarinhos, voar pelos céus,
Imitar os seus ninhos, e os ninhos de Deus.
Vá contigo a doçura d'uma alma de irmão,
Moninha, minha irmã, lembra-te de João.
À MINHA MÃE
Mãezinha, mãezinha, prepara-me um leito
No cálido abrigo em que mora a saudade
E o filho rebelde, que embalas no peito,
Aquece, mãezinha, na tua bondade.
Por noites de Inverno, por frias geadas,
Vaguei nas campanhas da guerra sangrenta:
Teu pranto salvou-me do ardor das espadas,
Mãezinha querida que à noite me esquenta.
Retorno chorando aos abraços sentidos,
Aos mimos que outrora cruel desprezei;
As lágrimas falam dos sonhos perdidos,
Mãezinha querida, que bom que voltei!
[Das flores que medram no velho jardim
Estendo-te aquela mais bela e mimosa,
É o sangue do sangue – vertido em cetim –
Aceita, mãezinha, o condão de uma rosa!]
MOCIDADE MORTA
Quando éramos jovens, o embalo e o calor da maré envolviam nossos corpos flébeis e nos faziam avançar em direção ao recife de pedras que nos aguardava à frente: a vida adulta.
Ei-la que chega como um carrasco arrastando pesadas correntes com que pretende nos prender. E nós, fracos e miseráveis, ante o impositivo da força do tempo, apenas pudemos nos curvar, humildes e avassalados.
A rebeldia de nossa juventude era a força propulsora de nosso enraizado antagonismo. Agora, o que resta?
No embalo das ondas, na praia, todos os castelos de areia foram desmantelados. A água cobriu todos os vestígios de nossas pegadas.
Boiando na maré agitada das noites de Lua Cheia, restou apenas a vazia garrafa de plástico, vencedora dos séculos, anunciando que alguma vez nós passamos aqui. E só.
A verdade é que todos os sonhos mentiram. E, unicamente, aquele por todos execrado, o sonho da vida nua e crua, que nos chamava com lutulentos sinos para as preces de finados, era a certeza que vinha nos dizer que desta terra restaria apenas o pó e o fumo de nossos ilusões.
Enquanto isto, a nossas almas ninguém jamais deu atenção. Perderam-se no silencioso turbilhão que as envolvia e se afundaram no abismo escuro do mar, qual se estivessem mortas.
Jovens, nós demos adeus aos sonhos que falavam de felicidade e de vida. Foi uma onda que nos levou e – jovens – respousamos agora sob o mar. A mocidade é morta. Um hino calou-se. Foi uma ave que emudeceu.
Na suave claridade do amanhecer, que banha a terra orvalhada e volatiza o pranto das flores, a noite, a escura noite desceu...
A nossos amigos, que nos vêem partir e choram na distância do porto, lançamos nosso grito de adeus e vamos percorrer o infinito do mar, como uma pomba a se lançar no abismo.
A saudade é o maior sentimento da juventude que se esfacela no espinheiro de seus próprios sonhos.
Nossos anos foram anos de flores, de jardins suspensos nos campos abstratos da idéia. A morte foi nossa amante, quando erguemos nosso coro à vida e demos em alto e bom som o grito da mocidade morta à mocidade viva.
O amor será o quadro de todas as lembranças, de todos os gemidos, de todos os sentidos que nos falam do que passou e que não voltará... Não, o tempo não voltará.
E agora, o que fica? A memória não pode ser apagada, não pode ser banida. É inexorável que a marcha prossiga, que caminhemos sobre os rastos de sangue, que são os corpos dos que tombaram pelo caminho. Há uma única senda pela qual podemos percorrer - esta senda é a vida.
Ah! Quando a noite descer no céu e o luar vier banhar com sua luz de prata a face dos namorados; deixa-me ainda lembrar dos anos que ficaram para trás. Deixa-me sonhar e viver a ilusão de um romance, de um beijo longo e molhado, que fale à juventude.
Depois, flutuando nas esteiras galácticas, rodeado dos fluidos luminosos, hei de perder-me na vastidão do espaço. Serei cometa varando a noite sem fim, a procura de Deus, a procura de mim... E talvez ainda eu possa me encontrar entregue aos braços do meu amor, entre carinhos que são dedos percorrendo as ondas dos meus cabelos, que são beijos, que são sonhos compartilhados na mudez dos lençóis estendidos na relva.
Mocidade, mocidade,
Oh, sonhos do que ficou!
Oh, asas de liberdade
D'uma ave que além voou!
Mocidade, mocidade,
Oh, sonhos do que passou!
Uma perpétua saudade
Apenas n'alma restou!
Quantas lembranças ficaram:
Vozes de amor que calaram
Sob o martelo dos réus;
Mocidade, mocidade...
Tento cingir-te uma grade
E tu despontas nos céus!
MORTUÁRIO
Poema dramático - Encena o quadro da morte prematura do poeta. Ouvem-se cantos fúnebres. Cenário de melancolia.
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O POETA
Seis horas da manhã.
Dia do meu enterro.
Na Praça do Desterro,
Minha mãe, minha irmã.
Que frio mais cortante
Aos ventos de Janeiro!
Perdoa-me, oh, coveiro,
Perdoa-me, ajudante.
O céu é tão azul!
Tão límpido, tão claro!
Sinto um perfume raro
Soprando pelo Sul.
Caminho ao cemitério
Ao lado de um amigo,
Encontro o meu jazigo
Envolto de mistério.
O corpo está gelado,
Mais alvo que o arminho,
Meu terno é todo linho,
Vai todo abotoado.
Oh, minha irmã querida,
Não chores teu irmão,
Não vertas a um caixão
Tua alma assim ferida.
A flor que me lançaste,
O lírio que me deste,
À sombra do cipreste
Mantém-se em sua haste.
Oh, mãe, estás de luto,
Teus olhos - anegrados,
Cavados, lacerados
De lágrimas, que escuto.
A dor de ver partir
Teu filho tão amado,
Deixar-te no passado
Os sonhos de porvir.
Seis horas da manhã,
Os sinos anunciam.
Nas ruas, balbuciam
As bocas sem afã.
O sono em toda a parte,
Bocejos de bons-dias!
Brancas fisionomias
Sem ânimo e sem arte.
Tudo é feito miragens:
O padre da família,
As preces da vigília,
Lembranças, homenagens...
O AMIGO
"Partiu! Partiu!
Aos céus voou!
Adeus, amigo,
Adeus te dou!"
O PAI
"Vá, filho, em paz,
Ao nosso Deus,
Do pai na terra
Ao Pai dos Céus!"
A MÃE
"Filho querido,
Filho sagrado,
Tua mãezinha,
Meu filho amado!"
A IRMÃ
"Irmão, irmão!
Alma que eu tinha
No coração
Tão junto à minha!"
O PADRE
"Pobre menino
Já naufragado,
Pelo destino
Assim levado!"
O POETA
Nem sei que triste encanto
Tomou minha alma inteira,
Nas folhas da nogueira
Fui enxugar meu pranto.
As horas se passavam...
O relógio corria...
Só saudades sentia,
Só saudades ficavam...
O CORO
Não há verso que explique o sentimento
De perder a esperança, de perder
O porvir, de perder-se no passado
Que era amanhã, o sonho de amanhã.
Ver a rosa murchar... O amargo, acre
Perfume da ironia mais acerba,
O ápice que é seguido da dantesca
Ruína do fracasso... A dor profunda,
Inconsolável de empunhar algemas
Que são o eterno anseio insatisfeito
E inalcançável... Dor de não ter as mãos
Necessárias do auxílio... Não ter nada
Além do próprio pranto n'alma aflita...
Morrer quando a manhã do amor surgia
Por um campo de flores, pelas tardes,
Quando os beijos mais doces, mais amantes,
Eram tragos de néctar no infinito
De nossos corpos - tons da eternidade.
Deixar não só lembranças como dores
Do que fora preciso consagrar,
Lançar à lama as pérolas da vida,
Os cálices da graça em mar de lodo!
(DIRIGINDO-SE AO CADÁVER)
Aqui, o odre da vida e da esperança -
Podeis tocar, sentir, sorver, sonhar...
Mas depois tendes que quebrá-lo ao chão
E reduzi-lo a cacos! Não, não, esta
Não é a vida ou a morte, um mero extremo,
Um arroubo infantil, um sopro ingente
Que se infla e se desfaz no mesmo instante,
Este é o tormento cuja única fuga
É o calor trepidante de uma lágrima.
O ÊXODO
Das profundezas
Erguem-se cantos,
Vozes em prantos
Voam ao céu!
Sons de tristezas
Profundas e acres
Quebram os lacres
Do leito teu!
Morta a ternura,
Morta a delícia,
Resta a malícia
Do teu algoz;
A terra dura
Vela teus restos,
Mudos protestos
De todos nós!
Das profundezas
Teu ser suspira,
A doce lira
Inda a cantar!
Quantas belezas
Mortas agora -
Cinzas de aurora,
Cinzas ao mar!
O POETA
Meu nome é João, não esquecereis!
Entre estrelas na noite, ali, me vereis!
NATUREZA
I
Alegres tardes de amor
Desenham-se no porvir,
São pessegueiros em flor,
Campos de paz a florir;
Vou lá curtir a sombrinha,
A fresca brisa sentir,
Deitar-me livre à tardinha
Na relva verde sem fim,
Cantar alguma modinha
Só pra rimar o jasmim
E ouvindo o cair das águas,
Hei de esquecer-me das mágoas
E me entregar ao festim.
II
Sons da floresta!
Canto das aves!
Sertões em festa!
Brisas suaves!
Nos céus de anil
Estão meus sonhos!
É o meu Brasil
Dos céus risonhos!
Árvores crescem!
Campos florescem!
Rios escorrem!
E os vals propagam:
Nem sóis se apagam!
Nem sonhos morrem!
NINHOS DE AMOR
O amor constrói alicerces
Que nada pode destruir,
É feito de luz e glórias,
De sonhos e de porvir;
A graça de um beijo doce
É o Paraíso na terra,
Um abraço é como um ninho
Que mil cuidados encerra;
De amores é feita a vida,
Que as mãos de Deus abençoa,
Uma onda que o mar rebate,
Uma ave que ao céu revoa;
Amores, tão belos sois,
Iluminais o caminho
Com o facho de um Sol dourado,
Que é ternura, que é carinho.
Deus, meu Deus, que a vida dais
Aos homens, dai-lhes ao peito
A delícia desse afago,
A quentura desse leito.
Quando o futuro sorrir,
Será cheio de esperanças,
Os homens serão estrelas
E os sonhos serão crianças.
Amores, que transformais
Em flor a dor do sozinho,
Sois o pão de cada dia,
O calor de todo ninho!
NOITE SOLITÁRIA
Solta-se o verbo na soturna noite
Como a flor desabrocha em meio à lama...
Ah! fria noite... fria... solitária...
A solidão me chama...
Quero dizer, e não posso, que te amo!
Que estou só, que estou pálido e gelado...
Estarei morto? Morri eu, o poeta,
Só por ti mesma amado!?
Que coisas são essas que sinto em mim?
Que calafrios esses, que miragens?
É um pássaro que canta em meio à noite,
Perdido entre as ramagens?
Minha boca... Minhas mãos... O que são elas?
O que elas são? Querem tocar-te, eu sei...
Mas se não podem... Oh, se sofro a ausência,
Na ausência, o que farei?
Mártir do meu amor, co' imensa dor
Percorro os vales da sombria terra,
Vou lançar-me nos ermos, pôr-me a sós,
Perambular na serra.
Sozinho, sem você, você! meu bem...
É preciso dizer teu nome? Importa?
Que valem estas regras, estas normas:
A natureza é morta...
Nenhum suspiro pode consolar-me
Agora, nesse instante... Estás ausente,
Quando o que sinto nem dizer-te posso,
Porque é amor somente.
Anjo... Flor... Dadivosa, milagrosa
Estrela que resplende nesses céus,
Oh, pedirei, eu perdirei, gritando,
A tua mão a Deus!
E calo-me: "A tristeza é momentânea" -
Alguém me diz... "Abranda o teu gemido" -
E eu, eu só penso o dia em que estarei
A ti, a ti unido.
OLHOS DE POETA
A natureza invoca a alma do bardo
E o convida ao dever: no céu, nas árvores,
Ele percebe estrelas – é o poema
Divino que se entreabre na visão
Abençoada do artista. É a alma das coisas
Que se desperta, que se mostra aos olhos
D’aquele que vê. É Deus talvez
Que, dando um toque em cada forma, a anima,
E faz cantar as aves e as borrascas
Avolumarem-se como lã negra.
De tudo nasce o ensinamento, o ser
Que percorre o caminho da existência
Bebe em tudo o saber, em tudo o exemplo
Das coisas e da vida. O vento mudo
Que lhe beija o suor é o invisível
Verdadeiro que tudo envolve e embala
As folhas e semeia a terra; as pedras
São os obstáculos da vida, a prova
Do desconforto; e ele tem sandálias,
Que são fé, religião, alívio, bálsamo;
Mas que ele busca? Sim! Que a vida é a busca
Da água viva do amor, na fonte eterna!
Ele vai buscar água, vem trazer
Aos seus irmãos sedentos o maná
Que Jesus Cristo trouxe aos homens: Salve!
Salve àquele que busca na esperança
A fé e a caridade! O amor é a vida.
A UNS OLHOS VERDES
Poesia, doce poesia,
Teus olhos verdes de Jade,
São mares de fantasia,
Lampejos, eternidade.
Fitando-os, fito dois mundos:
Mistérios verdes de um lago,
Leitos de rios profundos,
Teu olhar, em que naufrago.
Verdes, tão verdes que são,
Banharam o mar e a relva,
De verde se fez a selva
E encheu-se meu coração,
Fez-se de verde a verdade
Que a alma inteira inebria;
Um verde de poesia,
Teus olhos verdes de Jade!
A PAIXÃO DE CRISTO
Meio dia. No altar dos céus, a claridade
É a lâmina da espada atravessando o mundo.
Preso à cruz está Cristo: é toda a humanidade
Que ali pranteia e brada sob o céu profundo.
Nas sombras do Calvário inscreve-se o mistério.
Um soldado sorri ao término do turno.
No olhar desse soldado – a verdade do Império;
No império da Verdade – o Cristo taciturno.
Ao redor, pelo vale, um eco não responde
Aos gemidos de dor que se elevam nos ares.
“Teu Deus” – diz um pagão a rir – “Onde se esconde?” –
Diz o judeu: “Por que não faz abrir os mares?”
Aos pés da cruz, Maria, a Madalena, chora,
Toda a flor da mulher em seus olhos resume,
Afronta os guardas, luta e, sem render-se, implora,
É o cálice da rosa a irromper do estrume.
Cristo ao vê-la sorri: como é bela sua ira!
Nuvem que vem dos céus a lhe banhar com pranto.
E eleva a fronte altiva e os horizontes mira:
“Este mundo é pequeno para o seu encanto!”
“Meu rebanho, cadê?” – A um canto, Pedro medita,
João, o filho amado, mal o pode ver,
Tiago guarda a dor austera do eremita
E Judas pela sombra em sombra a se perder.
No vasto promontório, a tarde pousa amena,
A brisa vem beijar o seu suor sangrento,
Suaviza-lhe o penar para aumentar-lhe a pena;
“Perdoa-lhes, meu Pai!” – Ele responde ao vento.
Nas raias celestiais, em flocos de algodão,
Passam bandos de nuvens na amplidão azul,
A Cristo está voltado o olhar da imensidão,
Contempla-se este instante desde Norte a Sul.
Seus olhos guardam lágrimas, que são carícias
Em toda a humanidade eterna e sofredora.
Ei-la a paixão de Cristo – o lago das delícias,
O pranto da saudade, a derradeira hora.
Ao céu se eleva um grito – que é o perdão supremo –
Lavando cada alma, ungindo cada crime:
“Meu Pai! Porque me abandonaste!?” – é o grito extremo
Subindo a Deus, descendo ao homem, 'm dor sublime.
A chuva vem caindo fresca como o orvalho,
Serena como a voz das bênçãos de Jesus,
Escuta-se um trovão – é findo o seu trabalho –
Na paz do promontório, só se vê a cruz.
PÁRIS, HOLOCAUSTO
Holocausto de sonhos tormentosos,
Tribulação suprema! Oh, dor! Oh, dor!
Caldeirão dos meus olhos lacrimosos,
Algidez dos espinhos venenosos,
Gargalhadas - terror!
Onde ela está? Onde ela está? Que escura
Parede é esta que separa a vida?
Dai-me a bigorna mais pesada e dura
Para eu quebrá-la, ou dai-me a sepultura!
Que encontrarei guarida!
O peito! O peito aberto é o meu canhão!
Fosso de lava e de ideais ferozes,
Possa eu tombar inda empunhando à mão
O escudo do meu próprio coração
E a flor contra os algozes!
Se o esgar furioso e macilento
Do aqueu a mim se volta, em ira tanta,
Possam os deuses aplacar o vento,
Fechar estradas, lhe abrandar o intento,
Porque esta guerra é santa!
Não fecharei meus olhos nas batalhas,
Hei de morrer em Tróia, ou tarde ou cedo;
De minha fé levantarei muralhas,
De minhas vestes tecerei mortalhas
E lutarei sem medo.
Pousem as mãos dos imortais nas minhas,
Seu espírito ao meu, na luta ingente;
Deus quem protege nossas naus marinhas,
Nossas tropas valentes e escarninhas
E nossa humilde gente.
Helena - em vosso nome hão de tombar
Heróis! E, se preciso, o Império, a História,
Em vosso nome há de enxugar-se o mar!
E a terra há de curvar-se ao teu olhar!
Morrer por ti é glória!! |
_________________ João |
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jcm-medeiros
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Enviada:
Dom Abr 04, 2010 10:45 pm |
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POEMA TIBETANO
Estou cheio de paz. Meus olhos pousam
Plácidos e serenos sobre as coisas.
O torvelinho humano, em que me perco,
Uma parede insólita separa-o.
Nenhum grito estridente alterca e altera
A amenidade rígida que guardo.
Os vendavais mundanos vão e passam,
Permaneço qual velho monge em sábia
E ereta observação. Apenas fito
O choque dos elétrons, que se matam.
Já não sou feito de átomo. A laranja
Da Terra gira e permaneço fora;
À órbita das galáxias não pertenço.
Estou cheio de paz e eternidade.
Hoje, ontem, amanhã - nada me importa,
Transito pelo tempo, marcho e canto.
Sou um soldado. Já nem temo a morte.
Na morte está a vida e em toda parte.
Sou um homem. Mas não me sinto um homem.
Os homens vão e vêm. Eu permaneço.
Estou cheio de paz. O férreo guante
Da humanidade bruta e feiticeira
Não sinto em minha carne se enterrando.
Amo e não quero. Amo e não peço. Apenas
Observo, apenas ouço, apenas vivo,
E a vida, que me leva, não me leva,
Eu permaneço. Estou cheio de paz.
Sou uno e indivisível na geometria
Do ponto, superei todas as formas,
E as equações não falam de quem sou,
Apenas aonde vou, ou onde estou,
Mas não me penetram, nem revelam
A intimidade do meu ser profundo.
Sou apenas um ponto. Estou cheio de paz.
Estou cheio de vida nos meus olhos,
Nos meus ouvidos, no meu vivo olfato.
Não sou feito de sal, mas permaneço
Um tibetano: ateio fogo às vestes
E não gemo, talvez possa sorrir
E acenar ao fotógrafo ao meu lado.
Sou um monge de calva larga e austera.
Nos meus lábios deslizam os sorrisos
Vagabundos dos néscios e dos coitados.
"Morte, Juízo, Inferno ou Paraíso" -
Eu permaneço à parte, já não minto.
Da sacada do prédio, meus binóculos
Voltam-se à sala, lançam-se à distância,
Aquém e além, e fitam a eternidade.
Não serei réu nem vítima nem juri,
Apenas testemunha dos meus atos.
[...]
QUADRAS DE UM VISIONÁRIO
São largas avenidas
Os vales que contemplo,
Lagos, que são feridas,
Montes formando um templo.
A eternidade é o grito
Que ecoa pelos céus
Deste reino infinito,
Onde o amor é um deus;
Amo-te, liberdade!
Amo-te, imensidão!
Que amplos campos invade
Tua infinda extensão!
Oh, aves peregrinas,
Que tudo percorreis,
São asas vossas sinas,
São nuvens vossas leis.
Sou o herdeiro de Jó,
A terra é o meu palácio,
Minha ermida de pó
São as grutas do Trácio.
E tu, flor do cerrado
Que rego com meu pranto,
Este imenso reinado
Eu te ofereço num canto!
Tu, flor, serás rainha,
Anjo, serás o céu,
Estrela, serás minha,
Só minha - e eu só teu.
Nos vastos descampados
Livres nos amaremos,
Juntos, ao chão deitados,
Esses céus fitaremos!
É a claridade do Sol
Que te darei nest’hora,
Um imenso farol,
A beleza da aurora,
Te darei o fulgor,
O sorriso, a leveza,
Todo um favo de amor,
Eternidade e certeza.
Por extensas estradas,
Te trarei ao meu ninho,
E iremos, as mãos dadas,
Ao altar no caminho!
Correrá nessas águas
O frescor dos momentos,
Levará nossas mágoas
O remédio dos ventos;
Apenas a alegria
Brindará o amanhã,
E o amor, como o dia,
Surgirá na manhã!
Que esperas, meu amor?
Eu te mando buscar!
Tenho um reino a depor
Aos teus pés, para dar!
REVELAÇÃO
De meu silêncio emergem fantasias
Que não sei decifrar, são naus perdidas
Nos extremos do fumo e do concreto,
Talvez sejam imagens de outras vidas,
Banhadas pelo laivo das quimeras,
Reflexos de outros mundos, de outras eras,
No espelho vivo do meu coração...
Miragens!? Pois há quem o ouse dizer?
Não são miragens, não são sonhos, não!
São os abismos do meu próprio ser!
A RICHARD WAGNER
Não há mais tom, ritmo que embale o som
Pesado com que tanjo a velha lira,
A pobre ranje, lanço-a fora, com
Desprezo, é lenha para a minha pira!
Eu quero fogo, já não quero versos!
As mãos em chama, que colhiam flores,
Farão arder os mundos e universos,
Queimar escravos, torturar senhores!
Hão de ouvir, hão de ouvir as cataclismas
Da crispação insana desta ardência!
A loucura dos loucos, a explosão
Dos gemidos calados dessas cismas,
De meus lábios queimados de existência,
De meu peito lançado sobre o chão!
ROCK!
A tormenta nos céus e o riso n’alma,
Incêndio pelos poros!
Sinto os deslumbramentos
Desses corcéis sonoros
A sacudir os ventos!
Há muito tempo que perdi a calma...
Rock! minh’alma grita, e o fogo sobe
Como a surgir da terra
E junto deste fogo, o sangue sobe!
É a guerra contra a guerra!
Vendavais a lutar com vendavais!
Pais contra filhos, filhos contra pais!
Rock! a sede aumenta, faz-se intensa.
É sede de combate!
Saio nas ruas, pela noite extensa:
Um cão apenas solitário late,
A Lua por altar...
Medito: a Lua é Deus, a Terra é o mar.
Rock! as almas acordam para o sono
Da derradeira estrada;
Ficam atrás carcaças no abandono!
Aos pés da vida – a morte ajoelhada!
Repicam as baladas do canhão...
A vida é a noite e sou somente um cão.
SENHORES DA TERRA
PRIMEIRO CANTO
Folhas secas de outono são os grandes
Que reinaram na terra, estrondo e pó
De um raio que se apaga n’um segundo,
De um trovão que ribomba, na metralha
Da noite, dizimando os infelizes
Que se arrastam no solo lamacento;
Lobos e algozes, sobre a dupla estrela
Da Sorte, eles traçaram suas penas.
Viram homens morrerem sob a sina
E o galope infernal de seu cavalos;
Nada os pode deter na sede imensa,
Mensageiros da morte, hauriram sangue,
Erguendo a espada a quem pedia o mel!
Suas histórias, que hoje são mistérios,
Estão escritas sob os cemitérios,
Na laje fria do soldado morto,
No olhar da noiva que inda ao mar implora
À noite fria que neblina o porto,
No desespero de uma mãe que chora.
Quem são? Quem são esses sombrios vultos
Por trás do olhar de um Frederico ocultos,
Demônios a incitar os pesadelos
Que assombram as campinas e os castelos
E as mulheres que choram seus maridos,
No leito da matança adormecidos,
Sob o riso sarcástico dos reis?
Quem são estes que vão nas orvalhadas,
Caravana das almas torturadas,
Vibrando o malho, destruindo as leis?
Mas não... do alto cimo da montanha,
Deus, com infinita ternura os fita e vê,
São os filhos rebeldes da Alemanha,
O pobre cego que da luz descrê.
Quem são? Para onde vão estes coitados,
Por suas próprias culpas desgraçados,
Sem sonhos, sem amor para os guiar?
A fé que enleva não lhes vibra ao peito,
Não têm o pão da vida, o amor perfeito,
Não bebem da água doce deste mar!
O que será não ver brilhar na linha
De um horizonte em fogo uma esperança?
Fugir à idéia que jamais descansa
Como à verdade que jamais definha?
Na estrada luminosa do infinito,
Ouve-se erguer o vosso grito aflito,
Não divisais toda a beleza além!
E os campos verdes, e os jardins de rosas,
Oh, vós não vedes, legiões sequiosas,
O que é ser grande e não saber o Bem!?
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SEGUNDO CANTO
“Infantaria, formar!” –
O grito ecoa nos cerros:
“Infantaria, avançar!”
Ouve-se o atrito dos ferros;
Os lábios fremem, sem cor,
Sentem-se os cheiros do Averno
Plutão saúda o terror:
Foi libertado o Inferno!
Soltas ao céu, como garras,
Três negras hidras revoam
Lançando redes e amarras
Sobre as cabeças que voam.
Acomodado em seu manto,
A tudo César assiste,
Dão-lhe sangue, dão-lhe pranto,
Para que o mundo conquiste.
A glória de Roma cresce,
O sonho de amor fenece,
Banha-se em sangue cálido o capim
Verde da terra, é o sangue de Caim
Derramado, sem dó, pelos senhores
Que ordenam que se abra o odre dos horrores,
Pela glória e loucura de seus párias.
Pequeninos senhores, são espinhos
Que crêem ferir Deus, com seus mesquinhos
Anseios, fruto de ilusões primárias!
Pobre moço de Ajaccio, que encontraste
A redenção talvez em Santa Helena!
E, tu que de Braunau levaste a guerra
E a intolerância aos míseros de Israel,
Piedade a Deus te peço, que não sofras
O que fizeste teus irmãos sofrer!
Que é a grandeza na vida, esta miragem
Efêmera a que o bêbado se apega?
Que são os louros e a ovação das massas,
Glória de cegos que, igualmente, cega!?
Quando a morte desponta no infinito
E os membros lassos dizem não à vida,
Extenuados pelo imenso atrito,
Qual há de ser o pouso de quem deita
O próprio coração num mar de vagas?
Sente na pele o sal abrindo chagas,
A mente falha, enlouquecida e oca...
Toda a grandeza é, na verdade, pouca,
Enquanto falsa e estranha ao coração.
Tendes tesouros fartos pela terra,
Miséria e mesquinhez na imensidão!
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TERCEIRO CANTO (ÊXODO)
Oh, flores mimosas, canteiros de rosas,
Cheirosos jasmins!
Aos rogos sentidos dos homens vencidos
Exponde os jardins!
Mostrai as belezas
Da vida singela,
Que a vida é mais bela
Sem falsas grandezas;
E as flores são anjos que cuidam dos olhos,
Que exalam perfume, crescidas no amor!
Não faltam riquezas às pobres choupanas,
É rico quem guarda n'um vaso uma flor.
Um homem é sábio se troca um Império,
Poderes e glórias em prol de uma flor,
Mais vale a ternura, mais vale a pureza,
Mais vale o amor!
As crenças fatais
Que embalam o mundo,
Do abismo profundo
Não voltam jamais!
O riso da vida não pode no crime:
Quem queira sorrir,
Que deixe a ilusão ao perdão que redime,
Na luz do porvir!
SINCORÁ
Amo os extremos da vida,
Os cumes do Sincorá,
De lá baixadas contemplo,
Contemplo a terra de lá.
São tão pequenos os homens,
Pequeno também sou lá,
Amo os extremos da vida,
Os cumes do Sincorá.
Sou uma estrela na noite
E a noite maior será
Pelas cortinas vermelhas
Que se abrem do Sincorá.
Meu coração fervescente
A terra consumirá,
Terá por sono - o infinito,
Nas ondas do Sincorá.
A vastidão das planícies
Desprezarei eu de lá,
Amo os extremos da vida,
Os cumes do Sincorá!
SOLEDADE!
Que nó é este que prendeste
No meu peito? Sinto o aperto
Da saudade que me invade,
Rolam águas como mágoas
Em concerto -
Soledade!
A chaga funda se inunda
Com meu pranto, acende o canto
Da saudade que me invade,
Oh, tristeza, pobre presa
Deste encanto -
Soledade!
Meu ser grita, n'alma aflita
Tem desejo, sente o beijo
Da saudade que me invade,
Chora e geme, o mundo treme
Neste ensejo -
Soledade!
Sou deserto, vento incerto
Que suspira, sou a pira
Da saudade que me invade,
Lembro-me dela... É ela! É ela
Que me inspira -
Soledade!
VAIDADE
Vaidade! como és tola! e traiçoeiramente tola!
Eterna e sempre vã, nunca ousas lograr nada,
Buscas o engano e já te crês afortunada,
Sempre voltas, porém, vencida à mesma escola.
A vida não tolera teu pueril delírio
E seres tão mimada, sendo assim tão pobre;
Não vês que o meu desprezo é o teu maior martírio!?
Que apenas meu escárnio é o riso que te cobre!?
Tu és Dalila - o falso e desleal carinho
Que desordena o justo e que alucina o forte!
É sábio discernir que é claustro este teu ninho,
Ver no horizonte que bem mais que vida há a morte,
Que o barro vil que tomba é o teu troféu mesquinho,
Cadáver de ilusão, que se desfaz n’um corte.
VOZES ANGÉLICAS
Voais, meus anjinhos,
Nas ondas dos céus,
Com asas abertas,
Em trinos a Deus.
E às noites plainando,
E aos dias sorrindo,
Voais, meus anjinhos,
Num sonho tão lindo.
Será que as correntes
Dos ventos brutais
Vos podem bater?
Fazer-vos mortais?
As horas alegres
Se perdem no amor,
Nas nuvens branquinhas
Té nasce uma flor.
Alminhas felizes,
Nos céus que tomais,
O azul do infinito
Mudou-se em lilás.
Nos doces bafejos
Dos ventos de Deus,
Voais, meus anjinhos,
Nas ondas dos céus.
E tudo, sorrindo
Aos hinos de amor,
Vos fala da alma
Do Pai Criador;
Será que as tristezas
Vos podem levar?
São rios de angústia
E vós sois um mar.
Alminhas, alminhas,
Alminhas de Deus,
Que sobem nas ondas
Lançadas aos céus.
Os cânticos doces
De graça e louvor,
São doces bafejos,
São ventos de amor.
A glória da vida
Descobre-se aí...
Sorri o universo,
É Deus quem sorri.
AUTO-ENTREVISTA
Como o senhor interpreta o estado atual das artes beletristas no país?
Olha, minha filha. Eu acredito que há um grande descaso. Primeiro, por culpa dos próprios artistas; segundo, por culpa da própria arte. Veja só: é uma sina danada ter que arrastar toda essa papelada comigo a toda parte. Não se obtém um tostão. Dão-lhe no máximo o aplauso. E as meninas se riem quando ouvem algum menino dizer: “Que fazes?” – Sou poeta. Não se obtém nada, nada em troca, mas é por isso mesmo que vale. Penso que é isso, não dá para fugir à regra: até Camões, o grande Camões, pedia pão, não tinha nada, viveu sozinho e ninguém o amou. Ironia tudo o que se vê... Ainda hoje, dirão: Oh, Camões está no vestibular, vamos comprar os livros para os meninos, eu também os li quando era jovem, mas hoje cresci.” Eu me pergunto: “o que são estes homens, qual é o preço da glória?” Eles não sabem que só as lágrimas que valem. E a literatura, como o ouro mais caro, encerra um tesouro por si própria. É talvez um fascínio? Me diga você.
Como o senhor busca expressar seu ideal estético em sua obra?
É uma pergunta inteligente que não saberia responder. Pergunto-me apenas como poderia cingir-lhe uma estética sendo já ideal? Na poesia não se busca um molde exatamente, apesar de ser preciso uma fôrma, mas nada disso tem a ver com o meu ideal, o meu ideal é a busca de um pedacinho de queijo que foge continuamente ao rato na roleta. É um fluido que se exala no ar, uma gota de água que nos cai do teto, a visão da mobília, a garrafa de vinho anunciando que a noite foi longa, um cansaço na tez, evidências de palidez, amarelo nas mãos, as maçãs rosadas e um cinzeiro bem cheio. Mas nem isso é meu ideal. Acho que falo em metáforas. Quero dizer-te apenas que o meu ideal é o que sinto.
Como o senhor julga o futuro da poesia como meio de comunicação? E o que isso interefe no que o senhor faz?
Não interfere em nada. Faço o que faço, está feito, é dito. Faço aquilo em que acredito. Só presto contas a Deus. As pessoas que me criticam, que se critiquem a si mesmas, porque é isto o que eu faço: eu me critico a mim mesmo. Agora quanto ao futuro, ele é escrito agora. O que poderia dizer?
Para encerrar nossa breve entrevista, o que o senhor diria a um jovem escritor, que se interessasse por poesia e que sonhasse poder se intitular poeta, o que você diria a ele?
Diria que não se intitulasse de nada. Diria que quando perguntassem a ele o que ele é ou o que ele faz, por uma ocasião qualquer, num hotel, que ele diga: “eu sou extraditário”. Ninguém mais lhe perguntará sobre sua profissão. E se acaso alguém insistir em saber o que é ser extraditário, diga: eu trabalho com extradições. Irão pensar que o senhor é um misto de burocrata e espião, um tipo do governo, esquisito, e ninguém mexerá com o senhor. "Ele caça estrangeiros ilegais. Mas no Brasil? Que coisa mais estranha!" – dirão. Não se importe com eles, eles devem pensar o que bem lhes aprouver, são como um fado inevitável a qualquer um que carregue esta sina. Você verá de um lado seus grandes heróis, do outro o paredão dos invencíveis: os homens da terra. E eles serão maus, impiedosos, pode contar com isto! Mais um conselho: à noite, procure fitar as estrelas, encontrará alívio. |
_________________ João |
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João Dinato Ferreira
Mensagens: 635
Localização: Minas Gerais
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Enviada:
Seg Abr 05, 2010 12:47 pm |
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João, Canteiro é minha leitura mais urgente, estou por aqui copiando, e já vou passar para meu MP4. Depois venho deixar minhas impressões. Você é um leitor muito caro, escrever virou uma grande responsabilidade depois dessa revelação. Abraço! |
_________________ Ao encontro da arte, no verso... |
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Francisco Coimbra
Mensagens: 1388
Localização: Ponta Delgada - Açores/PORTUGAL
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Enviada:
Seg Abr 05, 2010 4:00 pm |
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jcm-medeiros
Mensagens: 376
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Enviada:
Seg Abr 05, 2010 5:45 pm |
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Olá, meus amigos, como posso agradecer essa atenção? Muito obrigado. Há um prazer muito similar ao de escrever, que é o de ler, mas quando escrevemos, temos também o prazer de sermos lidos. Fico muito feliz de tê-los na mesma divisão de interesses. Hoje, quando releio os versos de Canteiro, é como se já nem fossem meus, desfruto a leitura, espero que possa lhes causar esta mesma impressão, e não me tornar poeticamente enfadonho. A poesia é uma arte pública, e acho que pertence a todos, deixem-me oferecer então a todos vocês esta coletânea de versos. Já faz alguns anos que frequento este fórum e vejo que a maior parte dos que estavam antes estão hoje. Francisco, fico lisonjeado por sua prosa. A todos, um grande abraço! |
_________________ João |
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bbrian
Mensagens: 3899
Localização: ES
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Enviada:
Seg Abr 05, 2010 6:10 pm |
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João, a mocidade nao morre, acumula. Imagino sua velhice, será um aglomerado de poesia. Nada mais jovial e moderno. Leio você com orgulho e esperança de um Brasil melhor, da humanidade aperfeiçoada. Ajoelho sempre aos seus pés, jovem poeta porto da salvaçao! Meus aplausos sempre! |
_________________ TODO SOFRIMENTO É UM INSTRUMENTO DE RESGATE! |
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Francisco Coimbra
Mensagens: 1388
Localização: Ponta Delgada - Açores/PORTUGAL
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Enviada:
Seg Abr 12, 2010 8:39 pm |
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| jcm-medeiros escreveu: |
| Olá, meus amigos, como posso agradecer essa atenção? Muito obrigado. Há um prazer muito similar ao de escrever, que é o de ler, mas quando escrevemos, temos também o prazer de sermos lidos. Fico muito feliz de tê-los na mesma divisão de interesses. Hoje, quando releio os versos de Canteiro, é como se já nem fossem meus, desfruto a leitura, espero que possa lhes causar esta mesma impressão, e não me tornar poeticamente enfadonho. A poesia é uma arte pública, e acho que pertence a todos, deixem-me oferecer então a todos vocês esta coletânea de versos. Já faz alguns anos que frequento este fórum e vejo que a maior parte dos que estavam antes estão hoje. Francisco, fico lisonjeado por sua prosa. A todos, um grande abraço! |
Não quero deixar passar de hoje tentar escrever, mesmo sendo breves palavras, sobre "CANTEIRO".
Considerei e considero um livro pessoal, com várias vertentes nesta "pessoalidade":
a) pessoal porque é poesia onde o "eu" não é descurado;
b) pessoal porque original, com marcas pessoais;
c) pessoal porque não se dá de forma impessoal.
Consequência destas premissas, na procura da lógica apontada:
1) a presença do "eu" é a marca da poesia lírica, a mais pura, a mais própria, a mais pessoal…
«4[numerei seguindo a ordem apresentada] APÓS A LEITURA DE ANTIGO CADERNO// Como quem lê n’um livro a própria vida,» vejo este livro como (o) livro procurado como nos mostra este primeiro verso!
Tão vasta a gama de argumentos, fico-me por "um";
2) "marcas pessoais", depois de ver a foto do autor, onde o nariz proporcionado não deixa de marcar presença no rosto, lembro a comparação do poeta «27 GLOSA A UMA FLOR// Sou Cyrano, madame (acentuação em francês). Igualo-o na grandeza e na aparência!»
Continuo a procurar apenas "um" argumento para cada tópico;
3) Depois de 1 e 2, este 3, deve ser lido como a contagem 1, 2 e 3 para começar a leitura em profundidade onde cada "um" é, deve ser, o leitor necessário à leitura!
Além do que mencionei, chama-me a atenção o teatro, a encenação, o diálogo com o leitor: todas as personagens que julgo tenham sido convocadas e imaginadas para a leitura (participação) na obra.
Mais uma vez, vou-me ficar por um, agora sem aspas, exemplo: «2 ADELAIDE//Adelaide... Adelaide.../Gravo-te ao céu em estrelas/O nome - fonte de amor».
O leitor só tem de descobrir qual o poema que lhe é dedicado, ou melhor..., aquele que melhor o convoca: história, religião, arte da palavra… Um enorme leque de interesses se abrem e dão à leitura, receba ela a leitora/o leitor, cada um de nós!
Um abraço para o escritor, abraço para [a/o] leitora ou leitor. |
_________________ http://www.recantodasletras.com.br/autores/Francisco |
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jcm-medeiros
Mensagens: 376
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Enviada:
Ter Abr 13, 2010 2:06 am |
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| jcm-medeiros escreveu: |
| breves palavras, sobre "CANTEIRO". "marcas pessoais", depois de ver a foto do autor, onde o nariz proporcionado não deixa de marcar presença no rosto, lembro a comparação do poeta «27 GLOSA A UMA FLOR// Sou Cyrano, madame (acentuação em francês). Igualo-o na grandeza e na aparência!» |
Hahaha! Pensei que ninguém entenderia! Francisco, obrigado pela tua exposição, fico lisonjeado por te roubar a atenção nesta leitura e envaidecido por teus comentários.
João Dinato, é uma honra para mim ser citado em um de seus poemas, uma verdadeira honra.
Grande abraço a todos! |
_________________ João |
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Pupila
Mensagens: 4057
Localização: São Paulo
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Enviada:
Dom Abr 18, 2010 7:37 pm |
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jcm - medeiros
teus poemas são
diamantes para o olhar...
Parabéns!
beijos poéticos |
_________________ *ADESÃO AO POST ÚNICO - EM ASSUNTO: POEMAS DE...; DEPOIS use só o RESPONDER para novas postagens. *"INTERAJA com outros Membros";menos postagens e mais qualidade em comentários.
MAÍSA CRISTINA *Pupila
Membro Moderador do Fórum do Guia de Poesias. |
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João Dinato Ferreira
Mensagens: 635
Localização: Minas Gerais
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Enviada:
Sex Mai 07, 2010 12:46 pm |
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João, O CORO, ELEGIA DO PRIMEIRO DE MARÇO e CAVALGADA foram os que eu mais gostei. Abraço! |
_________________ Ao encontro da arte, no verso... |
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