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CLOTILDE TAVARES: O HÁBITO DA LEITURA Exibir próxima mensagem
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Luiz Alberto Machado



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MensagemEnviada: Qui Out 27, 2005 3:47 am Responder com CitaçãoVoltar ao Topo

A Livraria Pedrosa

Em Campina Grande havia uma livraria, a Livraria Pedrosa, pela qual meu pai sempre passava para dar uma olhada nos livros e conversar com Pedrosa, o proprietário, seu amigo. Desde menina, e como andava muito com papai, habituei-me a ficar mexendo nos livros enquanto eles batiam bapo, abrindo um aqui e outro ali, ao sabor da minha curiosidade. Como em casa também tínhamos muitos livros, por todos os cômodos da casa, desde muito cedo aprendi a amar os livros e a leitura.

Quando me tornei adolescente, recebia mesada e gastava esse dinheiro com as bobagens que todas as garotas gostam: cinema, lanches, maquilagem e… livros. Nesse último artigo eu diferia um pouco das minhas amigas porque nunca deixei de passar pela Livraria Pedrosa algumas vezes por semana, já que o hábito tinha sido formado desde criança. Muitas vezes, porém, o dinheiro não dava, e eu ficava horas com um livro na mão, olhando, lendo trechos, até que Pedrosa – o dono – se aproximava e dizia: “ – Gostou do livro? Pois leve. Depois eu falo com seu pai, ponho na conta dele.” Como papai nunca falava nada sobre essas minhas compras, eu acho que Pedrosa apenas me presenteava com o livro, jamais tendo cobrado dele qualquer quantia. As manhãs de sábado passadas na Livraria Pedrosa, mexendo em suas velhas estantes de madeiras, são uma das mais fortes lembranças dos meus primeiros vinte anos em Campina Grande.

Pois é, meu caro leitor. Tive sorte. Fui criada numa casa cheia de livros, por gente que gostava de ler, e aprendi a ver os livros não como um bem supérfluo mas como artigo de primeira necessidade. Líamos em casa, sozinhos e uns para os outros e não havia televisão.

Hoje, muitos pais querem saber o que fazer para que seus filhos adquiram o hábito da leitura. Penso que só há um caminho: dar o exemplo. Não adianta comprar livros para as crianças e querer que elas leiam se no tempo livre o pai e a mãe ficam vendo novela ou futebol na TV. Os meus pais ensinaram-me a gostar dos livros pelo seu único e espontâneo exemplo, e sempre me estimularam a ter bem perto esses indispensáveis companheiros que nos ensinam, emocionam, estimulam e nos conduzem a milhares de mundo diferentes através de suas páginas. Até hoje eles me acompanham e já são quase três mil volumes com os quais eu tenho uma relação de profundo amor.

A Livraria Pedrosa, a livraria da minha infância, tinha um slogan que se tornou para mim verdade e ensinamento: “Faça do livro o seu melhor amigo”. Venho fazendo isso a minha vida inteira, e nunca me arrependi.

Clotilde Tavares
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Walter Medeiros



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Localização: Natal - RN

MensagemEnviada: Sex Nov 18, 2005 7:14 am Responder com CitaçãoVoltar ao Topo

Tenho três mil livros vizinho a mim; sou vizinho de Clotilde. Tenho mais, aliás; tenho Clotilde vizinha. E gosto também de ler, desde menino. Meu irmão era jornalista e tinha livros de tudo: de Frits Kahn a Logosofia, além das seletas literárias. E era eu quem comprava jornal e buscava revista para ele nas bancas (naquele tempo não se assinava revistas como hoje). Nessa busca, ficava curioso e muitas vezes lia mesmo antes dele as revistas, os jornais e os livros. A inesquecível edição nº 1 da Veja, aquela edição especial de Realidade sobre a chegada do homem à lua, aquele jornal em off set que substituiu o outro cheio de clichês borrados. Trabalhei com tipos manuais, compus em linotype, arranquei notícias daqueles terminais burros das agências de notícias - os teletipos, evoluí para o telex - quantos diálogos no escuro, depois veio o fax, que maravilha!, e hoje estamos aqui no micro, feito um personagem de ficção. Clotilde tem razão e competência para liderar e influir nessa cruzada pela leitura. Vamos ler!

_________________
Visite Poemas de CORDEL: http://www.rnsites.com.br/cordeis.htm
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Luiz Alberto Machado



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MensagemEnviada: Qui Mai 04, 2006 2:16 pm Responder com CitaçãoVoltar ao Topo

Coluna de Clotilde Tavares
03 de maio de 2006

A prática da leitura

Às vésperas de um dos mais significativos eventos literário do ano, que será a Bienal Nacional do Livro da Paraíba, a ocorrer no Espaço Cultural de 20 a 28 deste mês de maio, é oportuna uma reflexão entre o hábito (ou não-hábito) da leitura entre os jovens. Oportuna sim, porque muitos de nós ainda partilhamos daquele conceito meio renascentista de que a leitura é um processo contemplativo, solitário, intelectual.

Ora, minha gente! Além dessa forma, existem outras formas de leitura, que passam por instâncias que não a dos livros em si. É a leitura de jornais, revistas, quadrinhos, e de todos os outros signos espalhados pelo cotidiano das grandes cidades. Isso sem contar o imenso mundo virtual que está à disposição desses novos leitores nas telas dos computadores, com a mediação da Internet, criando um tipo de leitor ágil, sempre em movimento, cujo maior problema não é o acesso à informação, mas sim a seleção de qual informação é importante para ele.

Os adolescentes estão cada vez mais passando das páginas dos livros para as telas dos computadores e qualquer garoto de treze anos é mais bem informado sobre o mundo que o cerca de que um sábio renascentista. Por outro lado, a rapidez e a superficialidade dessa prática faz com que o mundo chegue até ele de forma fragmentada e o contato com pensamentos e idéias seja fugaz e episódico. Mas, de alguma forma, ele está lendo. O caso é que os pais só acham que o menino está lendo se ele estiver sentado, quieto, lendo Machado de Assis.

O ideal seria que se pudesse ter várias práticas de leitura. Um primeiro momento em que pudéssemos nos recolher em solidão, com um bom livro, sem pressa, complementando o mundo evocado com nossa imaginação. Outro momento em que saíssemos do isolamento e olhássemos para o mundo através de jornais, revistas, fanzines, manifestos, mapas, cartazes, camisetas. E um terceiro momento para a leitura virtual, acessando em saltos hipertextuais todo o conhecimento à nossa disposição pelas ondas das redes telemáticas. A leitura, em qualquer dessas instâncias, é fundamental para o ser humano. E a Bienal oferece um bom espaço para o contato com o livro, instância que está faltando na vida da maioria dos jovens.

Com o livro, nos afastamos da solidão, viajamos sem gastar dinheiro e conseguimos nos entender melhor, e melhor entender os outros. Finalmente, se eu tiver que escolher, escolho o livro, sempre o livro. Passo sem computador, sem Internet, sem jornal e sem TV. Mas sem livros, não me atrevo sequer a pensar.
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Luiz Alberto Machado



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MensagemEnviada: Sáb Ago 04, 2007 11:53 am Responder com CitaçãoVoltar ao Topo

ESQUISITICES DE ESCRITORES

Goethe escrevia em pé. Ele mantinha em sua casa uma escrivaninha alta. Hemingway também colocava a máquina de escrever numa prateleira da estante.

Pedro Nava aparafusava os móveis de sua casa a fim que ninguém os tirasse do lugar.

Nilo Tavares (meu pai) colava os pés da mesa no chão com Araldite, pelo mesmo motivo.

Gilberto Freyre não sabia ligar sequer uma televisão. Todas as obras foram escritas a bico-de-pena, como o mais extenso de seus livros, Ordem e Progresso, de 703 páginas.

Aluísio de Azevedo, antes de escrever seus romances, desenhava e pintava, sobre papelão, as personagens principais, mantendo-as em sua mesa de trabalho, enquanto escrevia.

Carlos Drummond de Andrade imitava com perfeição a assinatura dos outros. Falsificou a do chefe durante anos para lhe poupar trabalho. Ninguém nunca notou.

Érico Veríssimo era quase tão taciturno quanto o filho Luís Fernando, também escritor. Numa viagem de trem a Cruz Alta, Érico fez uma pergunta que o filho respondeu quatro horas depois, quando chegavam à estação final.

Monteiro Lobato adorava café com farinha de milho, rapadura e içá torrado (a bolinha traseira da formiga tanajura), além de Biotônico Fontoura. "Para ele, era licor", diverte-se Joyce, a neta do escritor.

Manuel Bandeira sempre se gabou de um encontro com Machado de Assis, aos dez anos, numa viagem de trem. Puxou conversa: "O senhor gosta de Camões?" Bandeira recitou uma oitava de Os Lusíadas que o mestre não lembrava. Na velhice, confessou: era mentira. Tinha inventado a história para impressionar os amigos.

Mário de Andrade provocava ciúmes no antropólogo Lévi-Strauss porque era muito amigo da mulher dele, Dina. Só depois da morte de Mário, o francês descobriu que se preocupava em vão. O escritor era homossexual.

Jorge Amado para autorizar a adaptação de Gabriela para a tevê, impôs que o papel principal fosse dado a Sônia Braga. "Por quê?", perguntavam os jornalistas, Jorge respondeu: "O motivo é simples: nós somos amantes." Ficou todo mundo de boca aberta. O clima ficou mais pesado quando Sônia apareceu. Mas ele se levantou e, muito formal disse: "Muito prazer, encantado." Era piada. Os dois nem se conheciam até então.

Achei isso em http://br.geocities.com/dariognjr69/resumo/curiosidades.html
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Luiz Alberto Machado



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MensagemEnviada: Sáb Ago 04, 2007 11:55 am Responder com CitaçãoVoltar ao Topo

CIDADE DO BARULHO

O barulho que impera nas noites da cidade tem sido um dos temas mais freqüentes na coluna de Rubens Nóbrega, no Correio da Paraíba, de onde tirei emprestado o título para este tópico. Ele fala de um casal que veio morar na Paraíba em busca de tranqüilidade e que, depois de quatro anos morando no Bessa, não agüentou e está de malas arrumadas para deixar o estado.

Na minha vizinhança tem um camarada que quando resolve fazer uma farra, a vizinhança inteira tem que compartilhar. Ele mora numa rua atrás de vários edifícios, incluindo o meu. Devem ser cerca de 150 apartamentos (só no meu prédio são 4Cool incomodados a noite inteira pelo barulho representado não somente pelo som nas alturas, mas também pelos berros dos convidados, que ficam na calçada tentando conversar acima do som ensurdecedor.

Uma noite dessas um outro, chateado provavelmente por um fora da namorada, estacionou um carro na esquina e ligou o equipamento de som que tocou durante duas horas a mesma música, onde ele pedia insistentemente à amada para voltar.

No meu prédio, no sábado e domingo, as famílias descem à piscina com suas crianças, ou são os adolescentes que encontram suas turmas, com a presença indispensável do famigerado equipamento de som.

Todos os 48 apartamentos compartilham as músicas, que sugerem freqüentar o cabaré, mamar nos peitos da cabritinha, pegar na bochechinha e outras amenidades, além de instruções sobre como aumentar o volume do som.

Abaixo, uma amostra de algumas letras:

"...É hoje que eu chego em casa liso
Eu vou sair com os meus amigos pra raparigar
É hoje que a vaca vai pro brejo
Vou gastar tudo que tenho na mesa de um bar
É hoje que eu pego uma fuleira
Boto em cima da mesa e mando ela dançar
E tiro, tiro a calcinha da boneca
Faço ela de peteca,
Jogo ela pra lá e pra cá...

"... É rapariga, é cabaré, é bagaceira
muita mulher, de terceira qualidade
depois da meia noite eu pego
o que vier...

"... E o no meu carro tem um som que é famoso o pancadão
Quando aumenta o volume o nego sente a pressão
Abre a mala e solta o som pra galera se animar
A moçada se agita e começa a balançar
A mulherada pede pra aumentar
Bota o forró pra remexer
Bota esse som pra abalar
E pra aumentar tem que testar
Teste o grave...
Teste o médio...
E o agudo...
Abre a mala solta o som...

"... Aumenta o som do carro
Prepare o subwoofer
Regule os agudos
Bote o grave pra torar
Corneta tá falando
Tá tudo equalizado...

"...Deixe o motor ligado pra não descarregar
Cheguei, tô na área com 10 litros de whisky
Vem logo juntando uma carrada de mulher
Aumenta o som do grave pra sentir a bateria
No som do meu batera eu vou dizer como é que é...
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Luiz Alberto Machado



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MensagemEnviada: Qua Jan 23, 2008 10:11 am Responder com CitaçãoVoltar ao Topo

Sirva-se você mesmo
por Clotilde Tavares
Publicada na Tibuna do Norte em dezembro de 2006.

Volta e meia estou aqui de novo falando sobre as palavras, porque elas são para mim a coisa mais preciosa que existe. As palavras são meu ganha-pão, minha diversão, meu roçado, meu video-game, minha glória e a minha agonia. Tudo que faço, faço em torno delas e, para mim, seria o caos se eu não pudesse mais lidar com elas, de uma forma ou de outra. Sempre serei feliz se puder ler; se não puder ler, se não tiver livros, um lápis e um papel para escrever preencherão todos os meus desejos. E sem nem isso me for dado, tenho o juízo para inventar histórias e escrevê-las mentalmente, como o faziam e fazem os poetas populares da minha terra nordestina. E, finalmente, posso recitar mentalmente tudo que sei decorado, por horas e horas, para me distrair, como meu pai fazia depois que a velhice destruiu toda sua capacidade de ler e escrever.

Pois bem: sobre palavras, muitas vezes vejo coisas curiosas sobre a forma das pessoas se expressarem, principalmente aqueles que não fazem parte dessa nossa cultura letrada, aqueles que vivem e trabalham na área da oralidade. Num mundo oral, de comunicações não-escritas, quando se precisa escrever alguma coisa vemos coisas engraçadas e curiosas, mas também profundamente tocantes e enternecedoras.

“Sfeel serfe 5,00 reais, com direito a 2 pedaço de carne outro pedaço 0,80”; “Ceja bemvindo e esprimente a lingüiça”; “Fexe o portão”, são frases que eu entendo, você entende e qualquer um entende mas que não se adequam à norma culta adotada e aceita pela cultura oficial. São pessoas comuns, pessoas do povo, tentando se incluir num meio onde o boca-a-boca não funciona mais e é preciso avisar à clientela os detalhes do negócio. Antes não precisava de cartaz, não precisava de nada disso. O camarada chegava na bodega da esquina, onde, conversa vai, conversa vem, se falava que lá em Maria de seu Zé de Quinca tinha uma galinha torrada de dar água na boca. E era cada prato de comida que dava pra comer três pessoas. O freguês ia, pedia, Dona Maria trazia a galinha com todos os acompanhamentos e o trabalho era somente deliciar-se a iguaria.

Mas os temos mudaram e veio a comida no peso, o auto-atendimento, o famoso “self-self”, como já vi escrito também em outro lugar. E as pessoas precisam se incluir nesse mundo mágico e misterioso dos letreiros e cartazes, complicado pelas palavras em língua estrangeira que permeiam nosso cotidiano. O cara que anuncia no balcão da lanchonete “We speak inglish” está se adaptando aos novos tempos, à penetração cada vez maior do turismo, e provavelmente fala inglês mesmo, e bem, e consegue se comunicar com os estrangeiros apesar de não dominar a língua escrita.

Fazer o quê? É isso mesmo. Devagarinho, devagarinho, as coisas se equilibram, uns aprendem a escrever em inglês, outros colocam um anúncio “Sirva-se você mesmo”, que é uma tradução tão brasileira quanto adequada do “self-service”. Outros anunciam “almoço no peso”. E se for mesmo dona Maria quem estiver pilotando o fogão, o prazer gastronômico é garantido porque talento não tem idioma nem nacionalidade.
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Luiz Alberto Machado



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MensagemEnviada: Qua Jan 30, 2008 3:54 am Responder com CitaçãoVoltar ao Topo

UNIVERSIDADE, ARTE E BUROCRACIA
por Clotilde Tavares
Publicada na Tribuna do Norte em 1999.

O meu caro leitor não imagina como é gratificante receber em forma de telefonemas, e-mails ou pessoalmente o retorno destas simples e desataviadas crônicas com as quais tento amenizar o tédio do seu domingo. Tenho me preocupado em oferecer a vocês um cardápio variado de assuntos, misturado com um pouco de humor e fantasia, para agradar a todo mundo, porque sou vaidosa e gosto de elogios. Quando escrevo sobre um tema polêmico numa semana, na outra já procuro aliviar a barra e escrever sobre algo leve, até porque não gosto de fazer o gênero irado, reclamando sempre. Então, já que na semana passada andei por aqui reclamando, hoje era dia de abordar assuntos mais amenos. Mas não deu.

A culpa não é minha, caro leitor. A culpa é da UFRN, da burocracia irracional do serviço público. Estava eu sossegadamente planejando minhas aulas, que começam amanhã, quando o telefone toca e um suave e solícito mancebo do Setor de Pessoal me fez uma pergunta no mínimo instigante:

“- Professora, quero que a senhora me explique como, sendo médica, ensina no Departamento de Artes.”

E eu, como boa paraibana, respondi logo:

“- Não explico, meu filho. Eu simplesmente vou lá e dou as aulas.”

Ele insistiu. Falou que era uma auditoria do tribunal fulano de tal e quis saber quais eram os títulos ou os diplomas que eu tinha na área de Artes. Como todo mundo sabe, eu não tenho nenhum curso na área de Artes. Nasci assim, artista e arteira, fazedora de coisas, com os deuses me soprando as idéias o tempo todo nos ouvidos. Essas coisas não se aprendem em cursos. Se me formei em Medicina é porque no meu tempo todo mundo tinha que se formar em Medicina, Engenharia ou Direito. Mas depois desguiei para a Arte, e todo mundo sabe disso, inclusive meus ex-professores, que respeitam e admiram meu trabalho de artista.

Foi isso que eu respondi ao jovem. Mas ele continuou, implacável.

“- Professora, a senhora precisa me dar uma explicação.”

Imagine, caro leitor, a minha situação. Explicar as coisas da Arte para a Burocracia. Explicar à Escuridão de que jeito é a Luz. Explicar a poesia a um funcionário. Foi assim que eu fiquei. Sem saber como. Não adiantou dizer a ele que não sou autônoma, e se estou em algum lugar da Universidade desempenhando alguma função devo ter sido submetida a uma avaliação, a um concurso, a uma apreciação. Era à Universidade, ou ao Departamento, que ele devia perguntar isto, e não a mim.

Outros colegas do Departamento de Artes, artistas também, estão na mesma situação. O violinista Ricardo Cracium, primeiro violino da Orquestra Sinfônica do Rio Grande do Norte, formado em Odontologia; a artista plástica Selma Sá, formada em Letras; o músico e pesquisador Márcio Tassino, formado em Medicina como eu; o bailarino, coreógrafo e diretor da Gaia Companhia de Dança Edson Claro, formado em Educação Física; o desenhista Juarez Alves Torres, formado em Engenharia.

Nenhum tem curso de Arte e estamos todos juntos pagando esse mico de termos que nos explicar junto aos burocratas. Não basta todo final de ano o desprazer de ver nossas produções artísticas não serem reconhecidas para a contagem de pontos que nos garante alguns reais a mais no salário, agora somos submetidos a mais esse vexame.

Nessa Universidade não ensinariam Leonardo da Vinci, nem William Shakespeare, pois não tinham deploma. Machado de Assis também não, nem Jorge Amado. Tchaikowski talvez não pudesse ensinar música, e Stanislavksi com certeza não ensinaria teatro. Van Gogh, louco e drogado, seria enxotado para fora e entregue à segurança do Campus e Homero, cego e trôpego, seria aposentado por invalidez.

Enquanto os burocratas caçam os artistas e dão à sociedade a impressão de que estão pondo ordem na casa, os cupins da inteligência continuam trabalhando em silêncio, escavando suas galerias de burrice por dentro da estrutura universitária.
Somente Jesus Cristo, que com certeza seria recusado para ensinar no Departamento de Filosofia ou no de Comunicação, poderá perdoar tamanha sandice. Eu sou paraibana, e não perdôo mesmo.

Nota: na semana seguinte à publicação deste artigo, o chefe do Departamento pediu que eu escrevesse uma exposição de motivos, justiicando como uma médica estava ensinando Teatro, para que ele encaminhasse o documento aos burocratas fiscalizadores. Eu me recusei, e disse a ele, ao chefe, que podia me devolver para o meu Departamento de Medicina, de onde eu havia vindo hã dois anos. Não sei o que fizeram, mas como eu ministrava três disciplinas no Departamento de Artes e fazia o meu trabalho direito, não me devolveram. Continuei no Departamento de Artes, até 2002, quando me aposentei.
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Luiz Alberto Machado



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MensagemEnviada: Sex Fev 01, 2008 9:43 am Responder com CitaçãoVoltar ao Topo

Injustiça cromossômica
por Clotilde Tavares
Publicada em maio de 2005 na Tribuna do Norte.

É vivendo e aprendendo meu caro leitor. Depois de anos procedendo errado, marcando bobeira, é muito legal quando a gente descobre o próprio engano e – melhor ainda – tem tempo para corrigi-lo.

O caso é que de uns anos para cá eu comecei a ter problemas com o peso. Quando subo na balança, sinto que estou fora da normalidade, situação essa que vem se agravando com a meia-idade. Aliás, essa coisa de meia-idade é muito engraçada porque se estou na meia-idade, e tenho cinqüenta e sete anos, significa que vou viver cento e catorze anos, o que me deixa muito animada e cheia de planos.

Mas voltando à questão do peso, tenho lutado sistematicamente durante os últimos anos para que o peso não aumente e me deixe fora dos parâmetros indicados pelas tabelas. Vivo numa eterna privação sensorial das coisas que gosto de comer, uma carência afetiva-gástrica, uma saudade culinária que muitas vezes me deixa à beira da loucura. Já sei que os psicólogos de plantão que estão lendo estas linhas – porque eu acredito firmemente que entre meus leitores terei também alguns desses profissionais – devem estar pensando e concluindo que eu devo estar com carência de outras coisas bem diferentes de mousses e milk-shakes. E eu não quero discutir com eles, nem quero entrar no perigoso e controvertido terreno dessas necessidades mais profundas, que não podem ser reveladas e que terminam sendo susbtituidas por outras mais aceitáveis socialmente, como a vontade de comer doce, por exemplo.

Voltando então à questão inicial, e antes que me disperse de vez e não consiga concluir o asssunto, quero finalmente revelar ao meu caro leitor que o meu problema não é, nem nunca foi, de peso. Não tenho nenhum quilo a mais, nenhum excesso, como quiseram me fazer acreditar durante todo esse tempo, iludida que fui pelas tabelas e gráficos, que interpretei erroneamente. Tenho exatos 65 quilos e o meu problema é tão somente de altura. São os centímetros que me faltam, e não os quilos que me sobram. Se eu tivesse um metro e setenta e cinco de altura, não haveria nenhum problema comigo. E consultando as revistas, vi que há várias estrelas de Tv e modelos famosas que têm os mesmos sessenta e cinco quilos que eu tenho.

Então, por que dizem que eu tenho excesso de peso quando na verdade sofro é de falta de altura, com o meu metro e cinqüenta, medida tão avara que me foi destinada pela genética? Cruel injustiça cromossômica, meu caro leitor, traição abjeta do meu DNA, efeito desumano que, não sei ainda como, preciso reverter antes que seja tarde. Quando eu era menina, diziam que era preciso comer bastante para crescer. Acho que não comi o suficiente. Então, vou abandonar essas dietas malucas de ricota e alface e de hoje em diante vou me dedicar a uma alimentação adequada que, provavelmente, e segundo esse meu espetacular raciocínio, me fará espichar os centímetros que me faltam. Quem viver, verá.
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