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Luiz Alberto Machado



Mensagens: 1379

MensagemEnviada: Sáb Jun 30, 2007 6:45 pm Responder com CitaçãoVoltar ao Topo

Dikson Colombo







O Dikson entrou na minha vida em 1998, quando me tornei uma editora, mas eu entrara na vida dele bem antes, embora sequer o conhecesse. Dikson tinha uma livraria na cidade de Rio do Sul/SC, e era um idealista da Literatura – assim, andava para cima e para baixo com o carro cheio de livros, semeando idéias e sensibilidades pelo Alto Vale do Itajaí e por onde mais passasse, e há muito que meus livros viajavam no seu carro e moravam na sua loja. Mas só soube da sua existência em 1998, quando me soube editora e fez um primeiro contato comigo, quase que o primeiro cliente que tive, afável e aberto a qualquer tipo de negócio que envolvesse a boa Literatura e que pudesse levar Cultura e Sonhos para os outros.

No começo, só nos conhecíamos por telefone – um dia estive na loja dele e fiquei bem encantada com a sua simpatia, seu charme natural e sua bela figura de homem. Penso que tínhamos, mais ou menos, a mesma idade, e nos anos seguintes, estivemos sempre a fazer negócios com livros, e Dikson era daqueles clientes que fazia questão de nunca atrasar um prazo – ao contrário, não podia ver uma promissória sem correr a pagá-la, mesmo que houvesse quase um mês, ainda, para fazê-lo, marca bem sua.

Faz cerca de um ano e meio, creio, quem sabe dois, que estive com o Dikson pela última vez. Sentamo-nos lá na sua livraria, fizemos grandes planos. Ele projetava fazer uma caixa de livros que reunisse o que de melhor houvesse em Literatura, para espalhar pelas minúsculas cidades de Santa Catarina, para as pequenas bibliotecas locais terem acesso ao melhor. Embarquei no sonho dele na hora, virei consultora, prometi-lhe pensar sobre o que não poderia ficar de fora, para que a tal “caixa” tivesse a excelência que o povo merecia. Não importaria a procedência, a editora das obras – importava o conteúdo. Dikson estava bonito e simpático como sempre, o peito aquecido de Sonhos, os olhos faiscantes de Futuro, a visão alongada para tudo o que se poderia fazer.

E voltei para Blumenau, e fiquei a lhe passar correios eletrônicos a cada vez que pensava em coisas insubstituíveis na cultura do nosso povo:

“Dikson, não podemos esquecer os relatos dos viajantes que passaram por Santa Catarina nos séculos XVIII e XIX!”

Noutro dia:

“Dikson, não podemos esquecer de `Memórias de um menino pobre`, do seu Silveira Júnior!”

E assim por diante.

Então, de repente passei a perceber que o nosso projeto não estava andando. Alguma coisa estava errada. Dikson não era de deixar as coisas pela metade. E já era fim de 2006 quando me disseram que ele estava doente.

Viajei, na virada do ano, estive em férias até metade de janeiro, não deu tempo de pensar no Dikson. Voltei a trabalhar no dia 16 de janeiro – e voltei, de repente, ansiosamente angustiada, querendo saber como ele estava. Mal começáramos a trabalhar, naquela tarde, e eu disse a Marcelo, meu secretário, o quanto queria saber do Dikson. E telefonei para a loja dele, uma vez, duas, muitas vezes, e ninguém respondeu. Então disse para o Marcelo que decerto as férias deles eram um pouco mais longas, que reabririam a loja um pouco mais adiante.

E um dia se emendou no outro e continuei pensando no assunto – até que em algum momento acabei falando com alguém da família dele. Foi ainda em janeiro.

- O Dikson? Nós o enterramos na tarde do dia 16.Ainda não conseguimos nos conformar.

Aí entendi porque o telefone da loja não tinha atendido naquela tarde. Não sabia que Dikson era alguém tão próximo do meu coração para eu ter tido aquele tipo de percepção. Pessoas especiais são assim.

Boa viagem, meu amigo Dikson, tão belo e tão jovem, o Sonhador da Cultura! Que aí do outro lado tudo esteja indo bem para você!



Florianópolis, dia 02 de Junho de 2007.





Urda Alice Klueger

Escritora
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Luiz Alberto Machado



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MensagemEnviada: Sáb Jul 14, 2007 6:18 pm Responder com CitaçãoVoltar ao Topo

É O BICHO!





Tem coisas que não dá para entender. Outro dia o MST ocupou uma terra que estava abandonada pelo Exército há 40 anos e a terra estava toda plantada de soja – então, poucas horas depois da ocupação, o Exército foi lá com canhões, tanques e ambulâncias, para expulsar dali as famílias com suas crianças, como se se tratasse de uma verdadeira invasão estrangeira. Na época, escrevi minucioso texto sobre o assunto, querendo saber, principalmente, o que fazia aquela soja ali, pois soja é agricultura de rico, de poderoso – e por que é que ali não se podiam plantar repolhos e outras coisas assim, agricultura de pobre? Alguém do Exército estava ganhando mamadeiras de grandes plantadores, bem cheias de outra coisa que não leite – como é que os tanques não apareceram naquela terra na hora em que a soja estava sendo plantada? Eu estava lá, e vi com estes olhos que a terra há de comer e peguei com as mãos que os bichos também irão devorar aquela soja que era um mistério, e depois interpelei as autoridades, e mandei pessoalmente o meu texto com tal indagação para as caixas postais do Presidente da República e dos ministros competentes – e ninguém me deu a mínima. Soube, no entanto, que o Exército abriu inquérito a respeito da ocupação (não da soja) lá em Curitiba, e mesmo sem ter jurisdição a respeito, está chamando civil daqui de Blumenau, que nada tinha a ver com a soja, para ir a Curitiba depor. Eu, heim?

E por aí está cheio de coisa que a gente não entende. Alguns amigos meus, em Florianópolis, estão passando o bicho por causa de um certo Bicho que se diz que é neto de outro Bicho, mas, tanto quanto sei, o Bicho atual sequer consegue comprovar que é neto do Bicho do passado, e já houve julgamento e condenação dos meus amigos, e sei que quem julgou nem leu o processo e nem o livro condenado – o que será que o juiz em questão tem a ver com o Bicho?

Como a gente está num país (e num mundo) onde quase tudo está muito controverso (tem gente que acredita que nos Estados Unidos existe uma democracia, e também tem gente que acha que a ditadura grega do tempo das ágoras, onde mais ou menos 10% da população – homens adultos, cidadãos livres – mandava e os outros 90% - mulheres, escravos, etc. – obedecia, era o máximo), achei por bem perguntar para o meu advogado se eu podia escrever sobre os dodóis do Bicho sem que o juiz que pôs curativinho neles (curitavão, há que se dizer: indenização por danos morais e livros na fogueira, a própria Santa Inquisição solta por Santa Catarina!) tivesse motivos para me botar em cana ou me pedir, também, indenização por danos morais. (Ah! Se a moda pega, começo a pedir indenizações também!). Sabem o que disse o meu advogado? Que com a justiça não se mexe, esteja ela certa ou errada. E o Lalau, como é que fica? Nunca ninguém poderia cobrar do Lalau, só porque ele é juiz?

Na verdade, estou com uma baita vontade de vomitar. Para piorar a situação, no domingo, espiando o Fantástico, acabei vendo reportagem onde aquele programa de tão diferente naipe se deleitou em malhar a justiça do Paraná, porque se negara a deixar entrar numa audiência trabalhista sem sapatos um pobre desempregado que de calçado só possuía o seu chinelo “de dedo” – não é todo o dia que se pode falar bem do Fantástico, mas naquele dia ele estava certíssimo – tanto quanto se está procurando apurar (já vi diversas coisas correndo na Internet, a respeito), não há lei neste país que obrigue a desempregado ou empregado a possuir lustrosos sapatos para adentrar a um Fórum. Então pergunto: por que o Fantástico pode criticar justiça e juiz para todo o país, e eu não posso escrever uma linhazinha a respeito da (in)justiça que alimenta Bichos no meu Estado? Será porque o Fantástico pertence a uma grande cadeia de televisão repleta de acionistas ricos, e eu sou uma pobre escritora de província, a quem ninguém dá importância, como aconteceu quando pedi para saber sobre aquela soja na terra do Exército? Alguém pode me responder? Heim? Heim?

O caso é que o tal Bicho processou os meus amigos, o escritor Amílcar Neves e o editor Chico Pereira, gente dileta do meu coração, mas poderia ser estranha que daria na mesma, pois injustiça é injustiça, e sem conseguir sequer comprovar que o Bicho do livro era o Bicho seu avô, sentiu-se todo cheio de dodóis e disse um monte de bobagens, e misturou os textos do livro (é uma peça de teatro em diversos atos e com diversos personagens) e disse que a fala tal, que era dirigida a um personagem, e a outra fala, que era dirigida a outro, que tudinho tudinho no livro tinha sido dirigido ao vovozinho que ali no livro era apenas um personagem de teatro, e que acabou quase como ladrão, pois roubou as falas dos outros personagens – não quero falar do Bicho antigo, estou falando do Bicho espertalhão de agora, que conseguiu fazer a salada e botar na boca do seu pretenso avô coisas que nem no livro não está – ou será que de espertalhão o Bicho não tem nada, não sabe, mesmo, é ler direito, e foi na conversa de outros ignorantes e/ou espertalhões, quando bateu às portas da justiça pedindo curativo pros dodóis que sentia , frisson de netinho injuriado?

Eu não arriscaria dizer que o juiz que julgou a causa também não soubesse ler e não tivesse lido o livro, como seria de justiça, para poder agir salomonicamente, pois para ser-se juiz é necessário estudar-se um bocado, embora cada um de nós saiba que, como sempre, em todas as classes de todas universidades, têm aqueles alunos que fazem o curso na flauta, para não dizer coisa pior, e mandam fazer fora seus trabalhinhos universitários, o que também é de conhecimento público, e depois, das universidades, saem engenheiros que constroem pontes que caem e médicos que esquecem tesourinhas dentro da barriga dos pacientes.

Não vou dizer que o tal Dr. Juiz do qual só o Fantástico poderia falar tenha feito tal coisa, mas que julgou sem ler o livro, lá isso julgou! E então os meus amigos agora tem que pagar bem saborosa indenização (para quem gosta de dólar: dá 7.500 dólares, um dinheirão, dá para qualquer Bicho fazer a maior viagem!), além de multas e da incineração do livro – talvez não seja armada fogueira em praça pública, afinal – enfim, aqui é a Santa e Bela Catarina, terra de gente desenvolvida, e ia ficar feio ver um monte de gente fotografando aquele monte de livros queimando, como numa certa Noite dos Cristais, tão a gosto de certos catarinenses, quem sabe até do Bicho – sabe-se lá o que aquele sujeito pensa! – mas vai ter que haver a fogueira, provavelmente no escondidinho, pois fica feio um monte de gente saber que a Santa Inquisição é coisa ativa por aqui, e ainda têm os dodóis do Bicho, que, decerto não há de querer que se saiba que ele confundiu até juiz com os dodóis que sente quando se fala daquele que teria sido seu avô ... Ô Bicho, que coisa mais feia! É de desanimar qualquer cidadão de bem, qualquer escritor que acredita na sua profissão, qualquer historiador decente! Sempre gostei tanto de bichinhos... nunca pensei que um dia a vida virasse o Bicho!



Blumenau, 26 de Junho de 2007.





Urda Alice Klueger

Escritora e historiadora
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Luiz Alberto Machado



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MensagemEnviada: Sex Jul 27, 2007 4:13 pm Responder com CitaçãoVoltar ao Topo

Os campos de Érico Veríssimo



(Para Emília do Nascimento Machado e Marília Klein Pinheiro, do Museu de Érico Veríssimo de Cruz Alta/RS)



Nem sei como começar. Talvez pelo dia, lá na década de 1960, quando descobri, entre 30.000 outros, na Biblioteca Pública da minha cidade, um livro que me levou de roldão no Tempo e no Espaço e que talvez tenha sido o primeiro grande livro que me moldou, que fez com que acabasse tendo a vida que tenho hoje... Lembro daquele dia, sim, nas Missões Jesuíticas, antes de Pedro Missioneiro nascer, e do padre cheio de culpa por um erro acontecido na juventude, lá na longínqua Espanha ... e aquele padre foi quem acabou criando o menino e foi quem deu a ele um punhal muito bonito que tinha ...

Talvez tenha sido Pedro Missioneiro o primeiro grande herói da minha primeira adolescência, e talvez tenha sido com ele que tenha aprendido a primeira palavra em espanhol, quando ele, fatalisticamente, explica a Ana Terra que não há por que fugir, pois ele já viu a sua morte num sonho, “sob um arból”...

E os seios de Ana Terra, que tremiam como se fossem feitos de coalhada, e o susto dela quando viu, pela primeira vez, espelhada na água da sanga a imagem daquele Pedro Missioneiro que geraria toda uma longa linhagem de heróis para a minha quase infância – e que acabariam sendo meus heróis, dentre outros, para toda a vida...

Não cabe, aqui, lembrar tudo, embora as lembranças me venham em turbilhões, como revoadas de pássaros a me envolverem, e nem sei como cabe dentro de mim tanta lembrança... Mas dá para sintetizar dizendo que tudo começou quando encontrei por acaso, dentre 30.000 outros, aquele livro maravilhoso que seria como que um primeiro leme na minha vida e na minha imaginação. Aquele livro era como puxar de lado uma cortina e deixar resplandecer para aquela quase criança as imagens radiosas do futuro que eu passaria a abraçar a partir daquela descoberta, e desde então ele foi e é absolutamente forte na minha vida, e penso agora, neste momento, se algum dia Érico Veríssimo pensou que aconteceria tanta coisa, como ter seus livros traduzidos para o chinês, ou que nas terras de Santa Catarina, que nem eram assim tão distantes, uma menina que ia de bicicleta até a Biblioteca Pública leria algumas dezenas de vezes aquele livro, e passaria a viver em prol da imaginação porque houvera ele, como grande Mestre, a lhe dar a certeza de que tal era possível!

Ah! Érico Veríssimo, meu Mestre querido, como sofri, uma década mais tarde, quando ouvi, no rádio de um carro, numa rodovia distante, que tinhas partido e que eu nunca te conheceria – se bem que então parecia-me impossível conhecer de verdade alguém tão fantástico assim! Choro amargamente agora, lembrando daquela noite, daquela notícia no rádio do carro, da grande perda que estava sofrendo, embora tivessem ficado os livros, e Pedro Missioneiro com o seu chiripá, e Ana Terra com os seios trêmulos como coalhada, e o palco da Imaginação todo iluminado e com as cortinas abertas.

Muito tempo se passou, muito tempo. Na próxima madrugada estará fazendo duas semanas que, enfim, como num sonho, eu fui lá. Viajei de ônibus, e amanhecia quando acordei, e havia ainda uma penumbra difusa sobre tudo, e transparentes nacos de neblina a fazer com que as coisas parecessem um pouco irreais, mas não eram. Eu tinha, afinal, chegado aos campos de Érico Veríssimo.

Aquela emoção que viera com o livro achado entre outros 30.000 não mudara, e ela veio e me sufocou de maravilha, porque, enfim, eu fora lá... E transida de emoção, como neste momento de novo me sinto, fui espiando tudo, e olhando, e entendendo que era ali, sim, que eram aqueles, sim, os campos de Érico Veríssimo! Faltava um bom pedaço para chegar à cidade de Cruz Alta, talvez uns 30 ou 40 quilômetros, e deu para ver muito bem o clareamento do dia, e as palavras desconhecidas para mim que ele usava, como sanga, por exemplo, a desfilarem pela beira da estrada como um rebanho de entes muito queridos que só agora a Geografia me mostrava, e em pleno fascínio eu espiava, pois tinha certeza que, de repente, Ana Terra passaria pelo campo com sua trouxa de roupa para lavar e entraria por dentre um amontoado de árvores, e eu poderia ver o susto dela ao deparar com um índio desacordado...

É tão pouco o espaço de uma crônica para contar como realmente foi! Ali naqueles campos, sem que eu nunca os tivesse visto, começaram a se formar, um dia, as estruturas da minha vida. Só alguém tão grande quanto Érico Veríssimo para ter transposto aqueles campos para o distante Vale onde eu me criei, e tê-lo feito tão bem que bastava olhá-los para os reconhecer. Foi muita emoção. Nem dá para contar mais hoje.



Blumenau, 26 de Junho de 2007.





Urda Alice Klueger

Escritora
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Luiz Alberto Machado



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MensagemEnviada: Sáb Ago 18, 2007 1:47 pm Responder com CitaçãoVoltar ao Topo

PÉROLAS NO CRISTAL

Está um dia escuro, cinzento e frio, em Blumenau. Talvez seja uma fina angústia gerada por este dia plúmbeo que me fez lembrar com tanta nitidez de las Islas del Rosário, as Ilhas do Rosário, no Caribe colombiano, pequenas pérolas de luz e de cor mergulhadas na transparência de cristal daquela mar indizível.
Saíramos pela manhã da cidade de Cartagena das Índias, num barco veloz, tipo voadeira, que em menos de meia hora deixou para trás a imensa baía de Cartagena, ornamentada na sua entrada pelos antigos fortes, aqueles mesmos que a gente vê nos filmes de piratas. Tivemos uma primeira parada na Playa Blanca de Cartagena, outro cenário inesquecível.
Imagino que talvez possa haver no mundo outra praia tão linda quanto aquela, mas, mais bonita, acho impossível. É a famosa praia onde o mar tem dezessete cores: tentamos contá-las para confirmar, sem sucesso. As cores do mar vão desde o mais ardente verde, como o das folhas do milho novo, até o intenso roxo, passando por todas as gradações dos lilazes e outras cores intermediárias. A água, de uma transparência total, como só a água do Caribe é, tinha a leveza e a friagem certas de encontro aos nossos corpos; era como se chupássemos balas de hortelã quando entrávamos nela. E como sair daquela água maravilhosa? Ficamos dentro dela todo o tempo em que o barco ficou ali, nadando entre milhões e milhões de peixinhos que nenhum medo tinham de nós. Quem tinha medo de machucá-los era eu, e fazia movimentos lentos, suaves, pensando na segurança deles.
Já perto do meio dia, tornamos a embarcar. O destino eram as Islas do Rosário, que nós não sabíamos o que era.
Por uns quarenta minutos, o barco veloz singrou em direção ao mar alto, e então pontinhos verde-escuros começaram a aparecer no horizonte. Tivemos que chegar mais perto para crer no que víamos.
As Islas do Rosário fazem parte do Parque Nacional dos Corais da Colômbia. Área de preservação ambiental, quem não preservaria aquela maravilha? Vou tentar contar o que são.
Lá na noite dos tempos, pequenos corais foram se fixando no fundo do mar e formando grandes plataformas. Um dia, tais plataformas foram aflorando a superfície da água. Aflorou um pedacinho aqui, outro ali, e começaram a nascer as ilhas. São dezenas, talvez centenas delas, minúsculas ilhas que, na maioria das vezes, tem apenas o tamanho de uma casa de tamanho médio. Umas poucas são cobertas de luxuriante vegetação: muitas são cobertas por casas, uma casa por ilha, casas que ocupam exatamente toda a ilha. Os milionários da Colômbia descobriram aquele paraíso e lá fizeram suas casas de veraneio. Como as ilhas são de pontas de coral, não tem praias; como por lá a variação da maré dá, no máximo, uns cinco centímetros, não há porque não fazer casas ao rés da água, lindas casas coloridas que se espelham no Caribe colorido como que projetadas de um sonho efêmero. A luminosidade do céu, da água e das ilhas nos deixa como que dentro de uma irrealidade, e a gente navega por entre aquele cenário de sonho como se estivesse sonhando.
Nosso barco atracou numa das ilhas maiores, onde fica um famoso aquário do Instituto Oceanográfico de lá, aquário que tem até tubarões. Eu e minha amiga Lúcia não fomos ver o aquário: totalmente encantadas com a natureza ao redor, resolvemos curtir a ilha. Primeiro, demos uma volta ao redor dela: em dois minutos chegávamos, de novo ao lugar de onde tínhamos partido. Ficamos morcegando por ali, debaixo de árvore tão frondosa e copada que parecia abarcar a ilha toda, observando a transparência da água.
No Brasil, sempre que há um cantinho qualquer, a água do mar fica suja, toldada, cria limo. Estávamos em frente a um atracadouro que tinha tudo para ter formado limo e sujeira, e era impressionante ver como a água sob e ao redor dele continuava totalmente transparente, assim como se milhões e milhões de garrafas de água mineral tivessem sido derramadas ali naquele momento. A água de cristal puro aos nossos pés, poucos metros adiante ficava verde como cristal verde, e depois lilás como perfume de violetas que se vêm nos frascos chiques.
Meia hora depois, partimos. As pérolas que eram as Islas del Rosário ficaram lá, mergulhadas naquele mar de cristal líquido, mas tenho-as nos meus olhos como uma irrealidade vivida. Nunca poderei esquecê-las!
Blumenau, 04 de Maio de 1997.
Urda Alice KLueger
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Luiz Alberto Machado



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MensagemEnviada: Sáb Ago 18, 2007 1:49 pm Responder com CitaçãoVoltar ao Topo

BARTOLOMEU – COMO OUVIR SINOS





(Para Bartolomeu Moreira Monteiro)



Ontem aconteceu uma coisa que para mim foi como ouvir sinos tocando ao cair da tarde: Bartolomeu, meu sobrinhozinho, do alto dos seus sete anos, ficou sócio da Biblioteca Pública Municipal Dr. Fritz Muller!

Que revoadas no tempo que aquela notícia me fez ter; que sabor de delícia me trouxe à boca! Primeiro, por Bartolomeu ser ainda tão novinho: no tempo em que eu era criança precisava-se ter 12 anos para poder se associar à mesma então vetusta biblioteca, que perdeu 30.000 livros em 1983, na Grande Enchente, o que me fez chorar, quando lá cheguei depois da baixa das águas, e vi os livros que tanto amara amontoados, inchados de tanta água, irrecuperáveis, aguardando o caminhão do lixo!

E Bartolomeu, que para mim, no começo, fora apenas uma foto de recém-nascido no sítio da Internet de uma maternidade de São Paulo, de repente já é sócio da primeira ampla biblioteca da minha vida! Como foi que tudo aconteceu tão depressa?

Na sua curta vida, Bartolomeu já viveu em diversos lugares deste Brasil, e eu o conheci em julho de 2001, no centro do Rio de Janeiro, quando tinha pouco mais que dois anos, mas já era um espadaúdo menino de grande docilidade, que absolutamente não se importava de ser transportado no leve e ágil carrinho que a minha sobrinha Anna Paula usava para ter facilidade de locomoção no meio daquele trânsito carioca, e ele era simpático como se já fosse um menino grande, e tão loiro quanto as crianças da Itoupava Rega[1]. Bartolomeu também já era corajoso, naquela época: fomos fazer um lanche na Confeitaria Colombo, e depois dos docinhos deliciosos, ele absolutamente não se negou aos maracujás ácidos, aos pedaços de abacaxi cheios de azedume, aos gomos das laranjas que absolutamente não eram doces! Aquele pequeno menino que já parecia saber tanto ainda não aprendera uma coisa: por mais que se pedisse a ele para sorrir na hora das fotografias, ele ficava muito sério esperando o flash – para só depois soltar o riso! Dava de morder na bochecha, de tão querido que era!

De novo o vi pouco depois, quando a bisavó Minervina fez oitenta anos e todos os descendentes do Brasil vieram. Ele era uma doçura de menino, que muito brincou com a priminha Alice no chão de minha sala. Liberei para eles a caixa onde guardo os enfeites de Natal, e apesar de ser outubro, minha casa quase que virou uma casa natalina. Ah! As fotos, as fotos daqueles dias felizes, tão lindas são!

Houve algumas outras viagens, aí no meio, e um acampamento cheio de Sacis-Pererês no verão passado, e agora faz meio ano que Bartolomeu veio morar em Blumenau, e tenho a sensação de que dentro dele aconteceu uma coisa meio chocante: na nova escola, na nova vida, ele é apenas mais um menino loiro, tantos há por estas bandas para onde os alemães e outros imigrantes europeus vieram dar com os costados no século XIX. Mas isto é suposição minha, não tenho como ter certeza.

E então ontem, sem ter o menor preparo no coração, fico sabendo que Bartolomeu se tornara sócio da Biblioteca Pública Municipal Dr. Fritz Muller, a mesma pela qual um dia eu ansiara tanto!

O meu sonho de consumo de criança era chegar aos 12 anos para poder me associar àquela biblioteca. Já contei tal coisa em dúzias de entrevistas, mas registro aqui também, pois talvez um dia Bartolomeu venha a gostar de saber. Até os 12 anos, eu havia lido tudo o que havia na minha casa, nos meus parentes, nos meus vizinhos e na minha escola – e isto incluía as Enciclopédias Barsa e Delta Larousse inteiras! E nunca que chegava aos 12 anos, para poder, enfim, ter a mágica carteirinha que viria me abrir as páginas de todos e quantos livros eu quisesse!

E então ontem, aos sete anos, Bartolomeu ficou sócio da Biblioteca dos meus sonhos! Meu, aquilo foi muito lindo de saber, saber que agora as crianças podem se associar às bibliotecas tão logo queiram; saber que aquele menininho que um dia brincou em outubro com os enfeites de Natal já está tratando de reservar para si uma grande florada e uma grande colheita de muitas histórias e livros! Ouvir aquilo, para mim, foi como ouvir sinos tocando no silêncio da tarde!

Parabéns, meu loirinho mais querido do mundo! Ah! Se todas as crianças tivessem sua carteira de sócios de biblioteca aos sete anos!





Blumenau, 07 de fevereiro de 2007.





Urda Alice Klueger

Escritora e tia.



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[1] Bairro do interior de Blumenau, que tem como uma das características a quase totalidade de crianças loiras.



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Luiz Alberto Machado



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MensagemEnviada: Qui Set 13, 2007 4:58 pm Responder com CitaçãoVoltar ao Topo

A canseira da elite


(Para Gegê e para Mário, o Cisne Negro)





Embora fraco e bem mal das pernas, anda por aí um movimento das elites que ora toma o nome de “Cansei”, e ora toma a data de 7 de setembro, às 17:00 horas, para que se faça um grande minuto de silêncio nacional (às vezes a sugestão é para que se faça um minuto de barulho) – enfim, bastante fraco e mal das pernas por diversos motivos, e o principal deles é que é um movimento composto de muito pouca gente, tendo em vista o reduzido número de pessoas que forma essa tal de elite, embora há que se convir que é um reduzido número de pessoas, mas que são pessoas dotadas de grande poder, principalmente o financeiro.

Essa gente a que chamo de elite não surgiu do nada assim da noite para o dia, não foi tirada da cartola de um mágico assim como se fosse um coelho, não. A maior parte dessa pouca gente vêm se perpetuando no poder (principalmente o econômico) lá desde os tempos da Capitanias Hereditárias, e foi dona da grande descoberta que foi o açúcar para todo o mundo (para quem não sabe, até que se achasse uma terra chamada Brasil e se passasse a nela produzir açúcar em grande escala, tal produto, antes, era privilégio apenas da nobreza e do clero europeus, e quase sempre se sentia o sabor da doçura lambendo mel de abelha – naqueles idos, muito pobre deve ter sido enforcado porque deu uma lambidinha onde não devia), e depois do ouro de Minas Gerais, e depois do café de São Paulo, e das indústrias, e não há que esquecer que o antepassado de muita gente enriqueceu no abjeto comércio feito pelos navios negreiros – e não quero ofender ninguém dizendo que alguém teve antepassados trapaceiros, mas quem é que tudo sabe sobre o passado?

O fato é que a chamada elite foi se formando e está aí, e domina o país desde os tempos das Capitanias Hereditárias, e cresceu e engordou um bocado conforme chegava mais e mais gente a este país, e a gente sabe que quase sempre, entre um magote de gente nova, vem junto algum vivaldino pronto a vender a mãe para pisar num degrauzinho mais acima na escala do poder – o fato é que a tal elite se formou e está aí, e além de se reproduzir biológicamente, também toma um cuidado danado para manter uma reprodução ideológica, e vive a formar um ou outro pensador bom e muitos pensadores de meia-tigela, que decoram a lição que devem recitar tão bem decoradinha que, muitas vezes, quando os ouço, fico com urticária. E a tal da elite costuma se vestir bem, estudar em bons colégios feitos para gente da sua prole continuar pensando na importância de se ter poder, ter um padrão de vida que seria de grande agrado de muita gente que nunca poderá nem sonhar em chegar lá, mas que tem a cabeça feita por certas novelas e outros programas de televisão, cujas emissoras também são da mesma elite, e que põem na cabeça da grande multidão que já foi chamada de “os descamisados” que se a multidão for bem dócil, e se mantiver bem boazinha, e trabalhar muito sem nunca reivindicar nada, mais tarde a tal multidão ficará igualzinha àquela gente rica e poderosa que existe nas novelas – enfim, a elite existe e está aí, não é segredo para ninguém.

Só que agora a elite está dizendo que cansou, que quer fazer manifestação de protesto no dia 7 de setembro! Estou aqui querendo entender do que é que essa miséria de gente lá do pico da pirâmide cansou – maracutaias ela faz e apoia desde os tempos das Capitanias Hereditárias – qual é a novidade que está acontecendo? Eu fico observando as coisas e vendo como tal gente anda pulando igual macaco quando quer levar chumbo, segundo antigo ditado de cá da minha terra – desde as desonestidades que acontecem nos mais altos círculos do poder – e, convenhamos – os ditos círculos são compostos majoritariamente pela tal elite, que lá está faz séculos! – até quedas de aviões, tudo a tal da elite atribui, neste momento, ao governo federal – preferencialmente ao Presidente da República. E olhem que o Presidente da República anda que é uma tetéia com essa cereja do bolo, todo cheio de agradinhos para com aquela gente poderosa que continua pulando como se quisesse levar chumbo - nem vou enumerar aqui um bocado de agrados que a dita elite vêm recebendo: para quem não é observador muito atento, sugiro que consulte primorosa relação de agrados que a minha amiga e jornalista Elaine Tavares[1] recém publicou, conforme nota mais abaixo.

Daí é que eu estou há tempos a observar essa gente poderosa pulando como se quisesse levar chumbo, e tentando entender o que se passa com ela, e não fica difícil a compreensão. Falei mais para cima na reprodução biológica dessa gente, dos nenenzinhos que nascem lá nos seus berços de ouro e que eles moldam do jeito que lhes fique melhor e mais os orgulhe – e esses nenenzinhos crescem nas maiores mordomias, nos ditos[2] melhores colégios, vão fazer seus doutorados em importantes universidades da Europa – e voltam, em grande parte das vezes, tão incompetentes quanto é possível. Pelo menos, não tem nenhum deles ocupando o cargo de Presidente da República, atualmente. Quem está ocupando o cargo de Presidente da República é um operário, com diploma de torneiro mecânico. E esse operário se elegeu, e se reelegeu, e o pessoal que não se conforma com tal coisa vive mandando fazer pesquisa de opinião, e o operário continua na crista da onda dentre aquele povo que era para ser totalmente subserviente – dá nos nervos, não dá?

Eu nem estou dizendo que o Presidente operário seja alguém de minha grande admiração – os agradinhos e agradões que ele anda fazendo para a elite me dão a maior coceira, quebraram o meu encanto faz tempo – mas o fato é que ele existe, e está lá, e a elite não se conforma com uma tristeza assim tão grande nas suas vidas. Como é que pode ter acontecido uma coisa assim? Cadê os incompetentes filhinhos-de-papai e os seus diplomas da Sorbonne, que deixaram um operário passar-lhes a perna?

Na minha avaliação, ser governada por um operário dá a maior canseira na elite, dá essa vontade toda de ficar pulando como macaco que quer levar chumbo. Penso: como reagirá essa gente no dia em que, ao invés de um operário, for eleito um negro para governar o país? Aí é que eu quero ver! Tem muita coisa, ainda, para acontecer nesta nossa Terra de Santa Cruz! Vale a pena viver para ver!





Blumenau, 30 de agosto de 2007.





Urda Alice Klueger

Escritora



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[1] Elaine Tavares: professora do Curso de Jornalismo da UFSC, jornalista do Observatório Latino-Americano. No texto”A elite é insaciável”, consta a seguinte relação de agrados que a mesma vem recebendo do Presidente da República Brasileira: “Procuro, busco, vasculho e não consigo perceber os motivos que levam a tal da elite brasileira a ter se cansado de Lula. O cara não tem feito outra coisa a não ser governar para ela. Liberou os transgênicos, fomentou o endividamento dos trabalhadores via bancos, aqueceu o comércio, fez uma reforma na previdência para beneficiar os empresários dos fundos de pensão privada, perdoou as dívidas dos latifundiários, mantém em dia os pagamentos da dívida externa, está construindo novos aeroportos, enfim... uma lista interminável de concessões aos graúdos deste país. Além disso, tem apaziguado as lutas trabalhistas através da cooptação de lideranças sindicais e mantido em suspenso o MST.”

[2] Melhor colégio também é tema para se discutir. O que é um melhor colégio?
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Luiz Alberto Machado



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MensagemEnviada: Qui Set 13, 2007 5:00 pm Responder com CitaçãoVoltar ao Topo

Os campos de Érico Veríssimo II



(Para Mara Regina Barbosa de Oliveira e Rossano Viero Cavalari, gente viva da Cruz Alta[1] de hoje.)



Então, naqueles dias, eu estava lá! Lera, antes, sobre a gênese daquela Cruz Alta que vivera dentro do meu peito desde a infância, e lera sobre o longuíssimo desfile de degolados com sofisticação e maldade da sua Revolução Federalista, e lera O tempo e o Vento, daquele, que no meu coração de criança dada a sonhar, fora o primeiro a abrir a porteira de todas as possibilidades! Não precisou muito tempo de contato com aquele lugar, aquela gente, para entender que ali era Santa Fé... E QUE ALI ERA ANTARES! De uma certa forma, o meu coração estava preparado para descobrir que estava chegando em Santa Fé, quando tomei o ônibus para Cruz Alta – mas deparar-me, ao mesmo tempo, com Antares, foi uma coisa magnífica! E Antares me espiou de fora do táxi, e como que me piscou um olho cúmplice quando, antes das oito horas da manhã, vindo da rodoviária para o hotel do centro, vislumbrei a vetusta praça de grandes árvores, linda praça como poucas cidades têm – e lá nela, como que de uma forma encantada, o coreto de Antares, daquela cidade mágica onde os mortos reviveram porque os coveiros, em greve, não quiseram enterrá-los, e se juntaram todos ali naquele coreto, mortos-vivos sem mais nenhuma obrigação para com os mortos ou para com os vivos, a passar num pente fino a população local e a todas as justiças e injustiças que por ali aconteciam! Eu mal podia crer que chegara, também, a Antares, a mágica cidade do Incidente! Foi de vislumbre, de passagem rápida que vi o coreto e entendi tudo, e meu coração deu o maior pulo, porque sempre admirei muito aquela forma que Érico Veríssimo arranjou de fazer crítica política e social em plena ditadura, de botar tudo o que pensava e achava na boca dos mortos de Antares! A lembrança me trouxe o dia em que comecei a ler aquele livro, num ônibus entre Florianópolis e Blumenau, acabado de ganhar de presente do meu então editor, seu Odilon Lunardelli, que também já partiu faz tanto tempo!

Chegara cansada naquela cidade que era Cruz Alta, que era Santa Fé e que era Antares, e fazia um grande frio – era mister descansar um pouco, e não me fiz de rogada quando vi a cama com sua grossa pilha de cobertores de quente lã. Penso que só me acordei umas duas ou três horas depois, e então saí do hotel para conquistar Cruz Alta, para entender um pouco mais ainda os campos de Érico Veríssimo!

A História, ali, era tão forte quanto o frio – mas para mim, que passara décadas imaginando como seria, o mundo da imaginação era ainda mais forte que a História e o frio, e tão agasalhada quanto podia, saí farejando aquele mundo encantado como quando a gente fareja cores e arco-íris! Do hotel se saía para um calçadão, e não foram necessários muitos passos para de novo eu estar... frente a frente com o coreto de Antares!

Havia diversos pontos naquela cidade que me atraíam e que ainda viriam a me atrair, e havia pessoas que eu queria conhecer, e havia a vastidão dos campos mais longe, ao redor, e a lembrança dos tratados de 1750 e 1777 (neste momento me pergunto: qual foi o do uti possidetis? Minhas professoras primárias me ensinaram tão bem – onde foi que esqueci a informação correta?), e tanta coisa, tanta coisa para ver, saber, viver e aprender ali, e os dias eram tão poucos – e eu ia e vinha, e descobria sempre mais coisas sobre aquela cidade que tanto já conhecia através dos livros – e não vou dizer que aquela era a coisa mais forte ali – mas como era forte!

Naquele tão pouco tempo, inúmeras vezes eu andei por ali, encurtando o passo, me demorando, espiando, fotografando – penso que espiava aquele coreto como quando, na adolescência, compramos uma revista pornográfica e a escondemos dentro do casaco para que ninguém a veja, mas tendo a sensação de que todos estão a nos olhar por causa daquilo – o fascínio que aquele coreto exercia sobre mim era uma coisa espantosa! Mirei-o, remirei-o e fotografei-o de tantos ângulos e tantas vezes, que decerto não deixei escapar de ver e sentir nada – mas em nenhum momento tive coragem de nele subir. Na minha imaginação, os mortos que ali tinham “vivido” seu protesto que exigia o direito de serem enterrados, e que ali, aos poucos, foram se decompondo e ficando com os olhos cheios de moscas, decerto que tinham deixado seus resquícios, seus miasmas, seus eflúvios, seus líquidos naquele chão de mármore e naquele ambiente tão bonito! Poderia vir o próprio Érico Veríssimo para me dizer que aquilo não era verdade, que era apenas coisa de livro, que eu não iria acreditar! De jeito nenhum tive coragem de subir naquele coreto uma vezinha que fosse!

E pensar que tem gente em Cruz Alta que não liga muito, não, para toda aquela magia que anda espalhada por lá tudo!



Blumenau, 25 de Agosto de 2007.





Urda Alice Klueger

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[1] Cruz Alta: cidade na Região das Missões, Estado do Rio Grande do Sul, Brasil, onde nasceu o grande escritor Érico Veríssimo.
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Luiz Alberto Machado



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MensagemEnviada: Qui Set 13, 2007 5:02 pm Responder com CitaçãoVoltar ao Topo

FLOR DESFOLHADA E A UTOPIA DA ESTRELA



(Para J.G. B. de O.)



O Príncipe-dos-Campos-de-Verde-Veludo, em dia de alegria e grande ânimo, chegou para Flor Desfolhada, Aquela-que-não-era-nada, e prometeu com grande entusiasmo:

- Olha, dá-me umas horas! Vou buscar para ti a estrela mais bonita, a mais luminosa de todas, aquela colhida lá perto do Pólo Norte! É uma estrela que tudo viu e que tudo sabe sobre o que aconteceu lá, e eu vou buscá-la para ti!

Flor Desfolhada sabia que aquela estrela era muito especial, a mais especial de todas, e por um momento, um tempo que foi se emendando no outro, de repente nem se sentia mais Flor Desfolhada, Aquela-que-não-era-nada, pois se vestiu de raios de Esperança e sentiu-se maravilhosa, como uma camélia colorida, quiçá uma rosa em manhã de Primavera - não estava o Príncipe mais fantástico de todos prometendo-lhe a estrela mais maravilhosa do mundo?

Aos poucos, porém, suas pétalas de rosa e de camélia foram caindo, quando ela viu que não era verdade, que o Príncipe-dos-Campos-de-Veludo-Verde, mais uma vez, prometera-lhe coisa falsa, como já fizera outras vezes. Na verdade, estrelas como aquela que ele prometera havia em grande número, um enorme baú cheio, quem sabe 5.000, quiçá 10.000 – quer dizer, eram estrelas parecidas, parecidíssimas – quem não o soubesse poderia até pensar que eram iguais à estrela do Príncipe, mas Flor Desfolhada sabia que não eram, que a estrela do Príncipe era única e insubstituível, e não quis nenhuma que fosse inferior, pois como a estrela do Príncipe não havia nem haveria nenhuma outra sobre a face da terra. Flor Desfolhada acabou sabendo que o Príncipe passava por dissabores na sua corte, e foi se conformando – decerto que esquecera. Era melhor pensar assim, pensar que eram esquecimentos as promessas falsas, e eram tantas! Ficou a pensar nas muitas outras promessas não cumpridas, na transparência das águas que um dia ele ia lhe mostrar e não o fez; e nas mangueiras de Belém, que ele disse que iria tirar de um alforje para que ela visse, e jogou o alforje fora; e nas audiências prometidas e depois calcadas sob o tacão de cristal da sua bota de Príncipe; e no raminho de urze que ele achou coisa inferior para um Príncipe botar no bolso do casaco para ela ver – e aí ela se lembrou que passeou pelo veludo verde dos campos dele e não teve pejo de colher desde as mais tenras flores até os mais espinhudos espinhos para fazer um arranjo para a sala de sua casa – mas ela era Flor Desfolhada, Aquela-que-não-era-nada, aquela que não significava nada, que não tinha direito a coisas como urzes, ou águas transparentes, ou alforjes contendo relatos – mas como ela queria aquela estrela única, aquela colhida perto do Pólo Norte, aquela que o Príncipe lhe prometera um dia, tão cheio de entusiasmo e felicidade!

Flor Desfolhada nada tinha a fazer a não ser seguir a sua vida sem pétalas, e teve um enorme assombro quando um dia, só de brincadeirinha, ela lembrou ao Príncipe da estrela única prometida, pois na verdade já não esperava por ela, pois, como as outras coisas, a urze, as águas transparentes, os alforjes de histórias, ele acabara esquecendo – e mesmo sendo ela Aquela-que-não-era-nada, que não servia para nada, ficou pasma quando o Príncipe desembainhou a sua espada flamejante e partiu para cima dela com um fardo de não-verdades, como se mentira ela tivesse dito, e ela tentou se defender, e reuniu provas como se tentasse se livrar de um inexorável tribunal como o de Nuremberg, mas ela é apenas Flor Desfolhada, a que não é nada, a que não vale nada, a que nada vale ... e decerto um Príncipe que reina em campos de Verde Veludo não irá se importar que uma Flor Desfolhada seja ceifada de uma vez por todas, para sempre, como se faz com as ervas daninhas: afinal, ela já nem tem pétalas mesmo, e ele é o Grande Príncipe dos tacões de cristal – como é que uma Flor Desfolhada, bagaço de um jardim, pôde um dia pensar de verdade que um Príncipe tão maravilhoso iria mesmo buscar uma estrela única, nascida lá perto do Pólo Norte, para ela se sentir um pouco camélia e um pouco rosa da Primavera, outra vez, por um pouquinho que fosse?

A violência da espada flamejante do Príncipe não permitiu sequer que ela se finasse devagarinho, que fosse decaindo, entortando, morrendo aos poucos, como compete a uma flor que já nada vale, que já não tem pétalas, que já para nada serve... A espada do Príncipe despedaçou sua corola desprovida de pétalas, seu caule que já começava sua degenerescência, picou em pedaços as raízes que, quem sabe, um dia poderiam, ainda, vir a brotar de novo... Não houve sequer a clemência que poderia ter havido num tribunal como o de Nuremberg, caso se analisassem bem as provas – Flor Desfolhada não teve sequer o benefício da dúvida.

Nunca mais haverá Primavera para Flor Desfolhada. A estrela mais bonita e luminosa de todas ficou perdida no espaço, talvez tenha sido engolida por um buraco negro. Pelos caminhos da magia, os tacões de cristal das botas do Príncipe-dos-Campos-de-Verde-Veludo soltam chispas como se fosse dia de trovoada.



Blumenau, 17 de Agosto de 2007.



Urda Alice Klueger

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MensagemEnviada: Dom Set 23, 2007 10:13 am Responder com CitaçãoVoltar ao Topo

A canseira da elite


(Para Gegê e para Mário, o Cisne Negro)





Embora fraco e bem mal das pernas, anda por aí um movimento das elites que ora toma o nome de “Cansei”, e ora toma a data de 7 de setembro, às 17:00 horas, para que se faça um grande minuto de silêncio nacional (às vezes a sugestão é para que se faça um minuto de barulho) – enfim, bastante fraco e mal das pernas por diversos motivos, e o principal deles é que é um movimento composto de muito pouca gente, tendo em vista o reduzido número de pessoas que forma essa tal de elite, embora há que se convir que é um reduzido número de pessoas, mas que são pessoas dotadas de grande poder, principalmente o financeiro.

Essa gente a que chamo de elite não surgiu do nada assim da noite para o dia, não foi tirada da cartola de um mágico assim como se fosse um coelho, não. A maior parte dessa pouca gente vêm se perpetuando no poder (principalmente o econômico) lá desde os tempos da Capitanias Hereditárias, e foi dona da grande descoberta que foi o açúcar para todo o mundo (para quem não sabe, até que se achasse uma terra chamada Brasil e se passasse a nela produzir açúcar em grande escala, tal produto, antes, era privilégio apenas da nobreza e do clero europeus, e quase sempre se sentia o sabor da doçura lambendo mel de abelha – naqueles idos, muito pobre deve ter sido enforcado porque deu uma lambidinha onde não devia), e depois do ouro de Minas Gerais, e depois do café de São Paulo, e das indústrias, e não há que esquecer que o antepassado de muita gente enriqueceu no abjeto comércio feito pelos navios negreiros – e não quero ofender ninguém dizendo que alguém teve antepassados trapaceiros, mas quem é que tudo sabe sobre o passado?

O fato é que a chamada elite foi se formando e está aí, e domina o país desde os tempos das Capitanias Hereditárias, e cresceu e engordou um bocado conforme chegava mais e mais gente a este país, e a gente sabe que quase sempre, entre um magote de gente nova, vem junto algum vivaldino pronto a vender a mãe para pisar num degrauzinho mais acima na escala do poder – o fato é que a tal elite se formou e está aí, e além de se reproduzir biológicamente, também toma um cuidado danado para manter uma reprodução ideológica, e vive a formar um ou outro pensador bom e muitos pensadores de meia-tigela, que decoram a lição que devem recitar tão bem decoradinha que, muitas vezes, quando os ouço, fico com urticária. E a tal da elite costuma se vestir bem, estudar em bons colégios feitos para gente da sua prole continuar pensando na importância de se ter poder, ter um padrão de vida que seria de grande agrado de muita gente que nunca poderá nem sonhar em chegar lá, mas que tem a cabeça feita por certas novelas e outros programas de televisão, cujas emissoras também são da mesma elite, e que põem na cabeça da grande multidão que já foi chamada de “os descamisados” que se a multidão for bem dócil, e se mantiver bem boazinha, e trabalhar muito sem nunca reivindicar nada, mais tarde a tal multidão ficará igualzinha àquela gente rica e poderosa que existe nas novelas – enfim, a elite existe e está aí, não é segredo para ninguém.

Só que agora a elite está dizendo que cansou, que quer fazer manifestação de protesto no dia 7 de setembro! Estou aqui querendo entender do que é que essa miséria de gente lá do pico da pirâmide cansou – maracutaias ela faz e apoia desde os tempos das Capitanias Hereditárias – qual é a novidade que está acontecendo? Eu fico observando as coisas e vendo como tal gente anda pulando igual macaco quando quer levar chumbo, segundo antigo ditado de cá da minha terra – desde as desonestidades que acontecem nos mais altos círculos do poder – e, convenhamos – os ditos círculos são compostos majoritariamente pela tal elite, que lá está faz séculos! – até quedas de aviões, tudo a tal da elite atribui, neste momento, ao governo federal – preferencialmente ao Presidente da República. E olhem que o Presidente da República anda que é uma tetéia com essa cereja do bolo, todo cheio de agradinhos para com aquela gente poderosa que continua pulando como se quisesse levar chumbo - nem vou enumerar aqui um bocado de agrados que a dita elite vêm recebendo: para quem não é observador muito atento, sugiro que consulte primorosa relação de agrados que a minha amiga e jornalista Elaine Tavares[1] recém publicou, conforme nota mais abaixo.

Daí é que eu estou há tempos a observar essa gente poderosa pulando como se quisesse levar chumbo, e tentando entender o que se passa com ela, e não fica difícil a compreensão. Falei mais para cima na reprodução biológica dessa gente, dos nenenzinhos que nascem lá nos seus berços de ouro e que eles moldam do jeito que lhes fique melhor e mais os orgulhe – e esses nenenzinhos crescem nas maiores mordomias, nos ditos[2] melhores colégios, vão fazer seus doutorados em importantes universidades da Europa – e voltam, em grande parte das vezes, tão incompetentes quanto é possível. Pelo menos, não tem nenhum deles ocupando o cargo de Presidente da República, atualmente. Quem está ocupando o cargo de Presidente da República é um operário, com diploma de torneiro mecânico. E esse operário se elegeu, e se reelegeu, e o pessoal que não se conforma com tal coisa vive mandando fazer pesquisa de opinião, e o operário continua na crista da onda dentre aquele povo que era para ser totalmente subserviente – dá nos nervos, não dá?

Eu nem estou dizendo que o Presidente operário seja alguém de minha grande admiração – os agradinhos e agradões que ele anda fazendo para a elite me dão a maior coceira, quebraram o meu encanto faz tempo – mas o fato é que ele existe, e está lá, e a elite não se conforma com uma tristeza assim tão grande nas suas vidas. Como é que pode ter acontecido uma coisa assim? Cadê os incompetentes filhinhos-de-papai e os seus diplomas da Sorbonne, que deixaram um operário passar-lhes a perna?

Na minha avaliação, ser governada por um operário dá a maior canseira na elite, dá essa vontade toda de ficar pulando como macaco que quer levar chumbo. Penso: como reagirá essa gente no dia em que, ao invés de um operário, for eleito um negro para governar o país? Aí é que eu quero ver! Tem muita coisa, ainda, para acontecer nesta nossa Terra de Santa Cruz! Vale a pena viver para ver!





Blumenau, 30 de agosto de 2007.





Urda Alice Klueger

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urda@flynet.com.br



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[1] Elaine Tavares: professora do Curso de Jornalismo da UFSC, jornalista do Observatório Latino-Americano. No texto”A elite é insaciável”, consta a seguinte relação de agrados que a mesma vem recebendo do Presidente da República Brasileira: “Procuro, busco, vasculho e não consigo perceber os motivos que levam a tal da elite brasileira a ter se cansado de Lula. O cara não tem feito outra coisa a não ser governar para ela. Liberou os transgênicos, fomentou o endividamento dos trabalhadores via bancos, aqueceu o comércio, fez uma reforma na previdência para beneficiar os empresários dos fundos de pensão privada, perdoou as dívidas dos latifundiários, mantém em dia os pagamentos da dívida externa, está construindo novos aeroportos, enfim... uma lista interminável de concessões aos graúdos deste país. Além disso, tem apaziguado as lutas trabalhistas através da cooptação de lideranças sindicais e mantido em suspenso o MST.”

[2] Melhor colégio também é tema para se discutir. O que é um melhor colégio?
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Luiz Alberto Machado



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MensagemEnviada: Sex Out 19, 2007 11:21 am Responder com CitaçãoVoltar ao Topo

A FILHA DELE
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O ano, já não sei. Foi no ano em que foi fundado o Jornal Brasil de Fato, e o lançamento do mesmo aconteceu no Auditório Araújo Viana, lá em Porto Alegre, durante o Fórum Social Mundial, e o mesmo estava totalmente lotado, três ou quatro mil pessoas ocupando cada espacinho possível, e o palco iluminado lá na frente, com uma longa mesa repleta de celebridades que, cada uma por sua vez, levantou-se e, de pé, diante de um microfone suspenso, falou da importância daquele jornal estar nascendo e da importância de tantas coisas neste mundo que todos nós acreditávamos que poderia ser melhor. Íamos de emoção em emoção, aplaudindo cada celebridade daquelas, sem estarmos, de fato, preparados, para o que viria abalar com a maior força de todas os nossos corações – e já não lembro quem tudo ali levantou e falou, mas lá estavam Sebastião Salgado, e Eduardo Galeano, e a Madre Hebe de Bonafini, vinda diretamente da sua Plaza de Mayo com a carga dos seus filhos mortos pela ditadura argentina, e todos tinham sua história de lutas e de resistência, e todos da longa mesa falaram o que iriam falar ... até que, lá na mesa, restaram apenas duas pessoas, uma mulher e um homem.

Até hoje não sei quem era aquele homem, pois ele foi o último a falar, e quando o fez, a emoção apaixonada que tomara conta de todas aquelas milhares de pessoas um pouco antes fez com que nenhum de nós prestasse atenção a ele – e não há que se dizer que havia ali tantos milhares de mal-educados, por terem feito tal coisa com aquele homem que ficara para o final, mas já conto o que aconteceu, e penso que não haverá quem não nos absolverá.

A penúltima pessoa a falar, portanto, era uma mulher. Teria cerca de 40 anos, era clara, um pouco loira, muito bonita, com um jeito de doçura e amplidão que a gente costuma imaginar nas mães, um pouco cheinha dentro de um simples vestido florido que lhe dava um jeito de primavera, e como eu, penso que quase a totalidade daquele grande público não fazia idéia de quem ela poderia ser. No seu jeito bonito e seguro, suave e doce, ela caminhou até o microfone suspenso, e com grande simplicidade, falou para todos nós:

- A última vez em que eu vi o meu pai, eu tinha cinco anos...”

Enquanto ela tomava fôlego para continuar a sua fala, um silêncio de pedra caiu no grande auditório, e penso que, como eu, cada um de nós fazia uma rápida conferência das suas memórias, olhando incredulamente para aquela linda mulher e comparando a sua imagem com outras imagens conhecidas, fotos famosas em todo o mundo, de um homem tão lindo por fora quanto por dentro, imortalizado pelas lentes de Alberto Korda e de outros, e penso que, como aconteceu em mim, ao mesmo tempo aconteceu com todo o mundo, e houve aquele instante em que “caiu a ficha”, e antes que a mulher pudesse continuar a sua fala, o silêncio de pedra espocou nos mais vibrantes aplausos que já ouvi em minha vida, como fogos de artifício na beira do mar em noites de Ano Novo, e aquele imenso público foi tomado por tal intensidade de amor por aquela mulher que ficara ali sentada um tempão, incógnita e bonita no seu vestido simples e florido, que já nada mais se ouviu do que ela tentou falar.

Diante de nós, em carne e osso, estava Aleida Guevara, a filha do Che, e penso que muita gente fez o que eu fiz: obedecendo ao coração, sem pensar em mais nada, saí às cegas, descendo as altas arquibancadas em direção ao palco, disparando o flash da minha pobre máquina fotográfica até o fim, tentando fixar de alguma forma aquele momento para sempre.

Havia um fosso de segurança, separando o palco das enormes arquibancadas, e com centenas de outras pessoas, eu encalhei ali, e os guardas que eram encarregados de manter a ordem naquele lugar sorriam-nos com simpatia e nos entendiam, porque também eles estavam encantados e apaixonados, pois um dia houvera um homem que nos dava o direito de sermos todos irmãos, e havia tal fraternidade ali, por conta daquela mulher de vestido florido que nos trazia, muito próxima, a presença do Che, que em nenhum outro momento da minha vida eu me lembro de ter vivido coisa igual.

Foi por conta de Aleida Guevara que não ficamos sabendo quem era o último homem que falou, mas penso que não faz mal – ele deve ter entendido que há forças que são maiores que todas as outras.

Então, o evento acabou, e milhares de pessoas foram saindo dali, mas algumas centenas ficaram, e os guardas não podiam nos liberar para irmos até ela, mas, irmãos como agora éramos, entregávamos a eles nossas máquinas fotográficas para que a fotografassem mais de perto para nós – e então fez ela sinal para que nós nos aproximássemos, e os seguranças ajudaram a nos organizar em fila.

Aleida Guevara, linda, serena e doce, aconchegante como uma mãe dentro do seu vestido colorido, ficou ali naquele lugar até que o último de nós pudesse trocar uma palavra com ela, pegar seu autógrafo, pousar para uma foto ao seu lado. Ela tinha a compreensão das coisas incompreensíveis – ela nos entendia. Foi uma noite para nunca mais esquecer. Tenho a foto daquele dia pendurada na parede da sala da minha casa.

Vi-a, de novo, dois ou três anos depois, em Caracas, no Fórum Social Mundial, e o amor que ela suscitava era o mesmo. Hoje faz 40 anos que assassinaram o seu pai. Não podia deixar de contar esta história.



Blumenau, 09 de Outubro de 2007.





Urda Alice Klueger

Escritora e historiadora
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Luiz Alberto Machado



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MensagemEnviada: Sex Out 19, 2007 11:22 am Responder com CitaçãoVoltar ao Topo

HISTÓRIA DA NORUEGA
- Resenha





FURRE, Berge. História da Noruega. Século XX: da Independência ao Estado de bem-estar social. Trad. Kristin Lie Garrubo. Blumenau: Edifurb, 2006. 512 p.: il. (Norden, 1) ISBN 85-7114-169-X



Tendo como cuidadoso revisor principalmente dos conceitos e fatos políticos daquele país, para que nada se perdesse na tradução do texto de Berge Furre, e também como prefacista, o renomado professor Jorge Gustavo Barbosa de Oliveira, sociólogo, escandinavista e professor de política internacional da Universidade Regional de Blumenau/Brasil, o primoroso Volume 1 da Coleção Norden, que vai nos trazer, basicamente, a Noruega do Século XX, vem recheado de detalhes e surpresas sobre como aquela sociedade agiu para vencer seus desafios e desembocar no novo milênio como uma das sociedades de maior bem-estar social do mundo atual.

Berge Furre, o autor, além de historiador e político, é professor da Universidade de Oslo, e da sua produtiva carreira e impressionante biografia, ressaltamos o fato de pertencer ao Comitê Nobel, o que escolhe o detentor do Prêmio Nobel da Paz.

O texto do professor Berge Fure tem um “prólogo” histórico, que ocupa 25 páginas, que vai nos trazer uma Noruega vinda a partir dos lendários tempos dos vikings e em todo o livro vamos encontrar ilustrações, desde fotos representativas dos mais importantes momentos políticos do país, até de paisagens e de belíssimas obras de arte que desconhecíamos.

Para nós, que habitamos um país novo, de dimensões continentais e de tão grandes desníveis sociais e econômicos, tendo ainda uma imensa percentagem de analfabetos e analfabetos funcionais, observar como uma pequenina Noruega, assolada pelos gelos dos intensos invernos e por longos períodos sem direito a sol pôde ir caminhando decididamente em direção à resolução dos seus problemas internos e externos, é deveras fascinante. Diríamos que, ao longo de um século, o povo norueguês como que elaborou um “contrato social” amplo, que abrangeu toda a sociedade, partindo de acertos e erros em suas muitas movimentações políticas internas e externas. Pensamos que, para tornar mais claro o que pretendemos dizer, é necessário primeiramente situar a Noruega dentro da Geografia deste planeta.

Quase no extremo norte da Europa (além dela só vamos encontrar a Islândia, a Groelândia – pertencente a Dinamarca - e as congeladas planícies que levam ao Pólo Norte), com mais ou menos a metade do seu território já situado dentro do Círculo Polar Ártico, ela tem um formato comprido e estreito, e se limita, na sua parte sul, em grande parte com a Suécia, e tendo ao norte uma pequena área limítrofe em contato com a antiga União Soviética, e possuindo bem mais ao norte, em pleno Oceano Glacial Ártico, a propriedade do arquipélago de Svalbard, além de mais de 55.000 ilhas – o que lhe dá um imenso litoral voltado para o movimentado mar do Norte, onde transitam incontáveis navios pesqueiros e outros, além de submarinos atômicos. O piscoso Mar do Norte foi palco, durante o século XX, de amplas disputas pelo poder das áreas consideradas como de plataformas continentais de outros países, como a Inglaterra e a Dinamarca, por exemplo, tendo-se, em tal período, se chegado a acordos também em tal assunto, tanto quando à divisão das áreas de pesca quanto às rotas livres de passagem de navios e submarinos internacionais.

São inúmeros os fatos políticos e outros relatados nas 512 páginas desse livro, e há que pinçar um ou outro para ilustrar esta que pretende ser uma pequena amostra de tão vasta e ampla obra. Escolhemos lembrar um dos fatos que vai assolar esse país hoje tão próspero no decorrer da Primeira Guerra Mundial: com tamanho litoral, a Noruega possuía uma imensa frota de navios com a capacidade de grande tonelagem, considerando-se o pequeno tamanho do seu território - e foi o país mais atingido de todos proporcionalmente quanto à perda de frota – ao final da guerra, 143 navios seus tinham sido postos a pique, o que significava quase 50% (cinqüenta por cento) da sua tonelagem, a maior perda proporcional que qualquer país teve, na ocasião (pág. 91 a 93).

Outra atitude política curiosa desse pequeno e corajoso país: em abril de 1949, entra ele como membro da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte), e, como tal, passa a sentir-se, diríamos, como um país atlanticista, e não mais europeu – suas lealdades passam a ser dirigidas aos outros componentes de tal organização, em detrimento, diversas vezes de outros países da Europa, como Turquia ou Grécia, devido aqueles países, mesmo sendo do mesmo continente, não participarem da mesma organização. (p. 262)

O que mais chama a atenção no livro, no entanto, é como se vai construindo o já falado “contrato social” que vai transformar a Noruega num Estado de Bem-Estar Social. Acertando e errando, o país vai fazendo suas tentativas, e é impressionante como o Estado, paulatinamente, “vai tomando para si a responsabilidade pela segurança social e financeira dos seus cidadãos”. [1]

Para nós, que vivemos num país onde a população beira os duzentos milhões de habitantes, às vezes dá-nos a sensação de que estamos a observar uma Liliput, durante a leitura de tal obra. Tendo a Noruega hoje uma população de 4,5 milhões de habitantes, achamos no livro afirmações assim: “o crescimento demográfico aumentou durante a guerra”, e, logo em seguida: “Mais de 70.000 crianças nasceram em 1946, um recorde imbatível.” (p. 203) Tais dados levam-nos a reflexões, fazem com que paremos para pensar mais sobre como num país com reduzida população é possível saber-se coisas que nunca sequer imaginamos no nosso país – que no ano tal, por exemplo, havia na Noruega um cômodo para cada 1,5 pessoa viver, e que no ano tal, já havia um cômodo para cada pessoa viver, precisas estatísticas que dão todo um encanto à obra, como o caso de um único sítio que existia em montanha tão inacessível que a ele “só se subia ou descia usando um cabo suspenso ou uma escada que se lançava paredão abaixo” mas que mesmo assim criou-se toda uma preocupação em como fornecer energia elétrica a ele, quando o país passa a usar tal energia maciçamente. (p. 248)

Então, numa terra onde já se havia criado toda uma preocupação para com cada cidadão que lá vivia, de repente ainda se descobre que ela como que está ancorada sobre um mar de petróleo! Os primeiros barris do precioso líquido são extraídos em 1971 (p. 316), e é tão grande a riqueza descoberta, que há como que se redimensionar tudo, e superar crises inesperadas, e repensar uma vida ainda melhor para os cidadãos de um país que há tantas décadas já vinha sempre tentando aprimorar o que seria uma vida ideal para cada morador, mesmo que tenha feito tal coisa com acertos e erros, como já falamos.

Vale a pena ler o livro com a história de um pequeno país que tentou e conseguiu direcionar seus maiores interesses para o bem estar da sua população, e que conseguiu seus objetivos. De fácil e agradável leitura, “História da Noruega” nos leva a outras reflexões: seria possível fazer num país como o nosso, tão diferente daquele em tão diferentes ângulos, chegar-se a um resultado semelhante, se resolvêssemos, também, apostar em como que um “contrato social” de bem estar para a nossa população? Esta reflexão primeira e básica nos leva a outras, e a outras... quiçá muitas pessoas venham a ler tal livro! Talvez, se muitos de nós fizermos as mesmas reflexões, acabemos chegando a conclusões parecidas e possamos começar a mudança de que tanto a nossa gente e o nosso país precisam!



Blumenau, 13 de setembro de 2007.





Urda Alice Klueger

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Luiz Alberto Machado



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MensagemEnviada: Sex Out 19, 2007 11:23 am Responder com CitaçãoVoltar ao Topo

OS CAMPOS DE ÉRICO VERÍSSIMO III

- Rua de Meninos



(Para Loreci Hintz e Eurico Rapachi, da Livraria Ponto do Livro, em Cruz Alta/Brasil)



As ruas de Érico Veríssimo são ruas de meninos! Mesmo antes de aqueles campos serem os campos de Érico Veríssimo, milhares de anos antes, meninos vinham à luz por ali, em grande sintonia com toda a beleza daquela natureza, e pezinhos morenos de pequenos meninos pisavam na relva boa do verão ou na geada da relva dos invernos, mesmo naquele tempo em que ainda não havia ruas, e, quem sabe, sequer havia caminhos ou trilhas!

O tempo correu, e pés descalços e calçados de botas e patas de cavalos e de gado foram abrindo sempre mais caminhos no verdor daquela relva, e lá no começo do outro século, quando Érico Veríssimo nasceu, decerto que já as ruas estavam definidas no lugar onde estão hoje, lá naquela cidade de Cruz Alta que foi o berço daquele menino que, segundo soube lá, tinha como avô um homem que era tão amado que lhe fizeram uma estátua na praça[1], e um pai que ele viria a retratar nos seus livros com o nome de Capitão Rodrigo Cambará, e quem é íntimo do Capitão Rodrigo Cambará não irá estranhar as benfeitorias modernas que ele introduziu na casa antiga onde seu menino viria a nascer. E aquele menino veio à luz numa casa bonita, numa rua que ainda não tinha asfalto mas que já era aquela que agora está lá, e provavelmente foi aquela a primeira rua da qual ele guardou lembrança na vida.

Penso na minha própria vida: eu deveria ter algo como 39 ou 40 meses quando começo a me lembrar de tantas coisas, e como me lembro vividamente das coisas de então, inclusive da rua onde vivia! Penso: que idade teria aquele menino Érico Veríssimo quando, pela primeira vez, deu-se conta que vivia no cruzamento de duas ruas, pois então talvez já existisse o cruzamento? Quando, pela primeira vez, olhou por uma janela, ou pela porta, e deu-se conta de que havia uma rua lá fora, e guardou-a no seu coração para sempre? Pois eu, mesmo tendo saído há décadas da rua que foi a primeira que lembro, quando alguém me pergunta, ainda sempre digo: “Sou da rua Tal”. Será que foi assim com aquele menino que um dia vicejou ali naquela casa tão bonita, e como foi? Estaria ele no colo da mãe, do pai Capitão Rodrigo, quem sabe de um padrinho, ou do avô que era como um santo? Ou, quem sabe, num dia de chuva, ele espiou cuidadosamente o grande mistério da Natureza lá fora, e muito encolhidinho numa beirada de janela, o coração aos saltos, deu-se conta de que ali havia uma rua? Que eu saiba, ele não escreveu a respeito – talvez tenha contado para algum amigo, quando, um dia, em terras distantes ... Talvez tenha lembrado daquela rua quando escrevia textos, assim como eu faço... É provável que aquela seja uma rua importante dos seus romances... Ele partiu tão cedo, já não dá para perguntar, já não dá para saber.

O fato é que aquela foi a rua de Érico Veríssimo, e um dia, como há milhares de anos acontecia, ele andou por ali pisando de leve com pezinhos, que se não eram morenos, assim o ficaram por conta do tanto sol que ilumina aquele lugar, e andando por aquela rua ele carregou sua lousa e foi para a escola, e por ela, mais tarde, ia trabalhar na farmácia que era fronteiriça à casa da namorada Mafalda – um dia, também por aquela rua, ele partiu para ir conquistar o mundo e o meu coração. E andou em outras, por ali, e decerto, como os meninos lá do outro século, caçou de bodoque e funda, e roubou laranja em quintais alheios, pois sempre tem laranjas nos quintais dos seus romances, e não podemos esquecer que Cruz Alta é Santa Fé... Ah! Ruas de Érico Veríssimo, que são ruas de meninos! Cada menino é único, assim como Érico Veríssimo o foi, e neste momento sinto uma aguilhada de dor por pensar que os meninos de Bagdá já não são únicos, pois já não o são...

As ruas de Érico Veríssimo são ruas de meninos. E há ruas próximas, por ali, e praça próxima, onde decerto ele brincou, e onde tantos outros meninos decerto também brincaram. Depois que ele se tinha ido daquelas ruas que eram dele, depois que ele estava lá fora conquistando o mundo, um outro menino que seria como um pássaro emplumado de azul e branco também veio à luz ali numa rua daquelas, e se Érico Veríssimo tinha dentro da alma uma florada incomparável de livros que deixariam o mundo encantado, aquele outro menino tinha um coração todo cheio de estrelas! E, já que aquela terra era cheia de ruas de meninos, também o menino das estrelas no coração pisou por ali com seus pezinhos morenos, como há tantos milênios por ali pisavam outros pezinhos, mesmo quando aqueles campos ainda não eram os campos de Érico Veríssimo! Só que, como já fazia mais de meio século que Érico Veríssimo aprendera um dia a pisar naquelas ruas, elas tinham se tornado as ruas de Érico Veríssimo, e nunca mais isto vai poder mudar – e o menino das estrelas, que também era um menino único, pisou as ruas de Érico Veríssimo que são ruas de meninos, pois onde meninos podem pisar melhor que nas ruas que são de Érico Veríssimo?



Blumenau, 30 de Setembro de 2007.





Urda Alice Klueger - Escritora







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[1] O avô de Érico Veríssimo era médico.
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MensagemEnviada: Sex Out 19, 2007 11:24 am Responder com CitaçãoVoltar ao Topo

DEONÍSIO DA SILVA : CATARINENSE MAIS ILUSTRE, IMPOSSÍVEL!





Você já ouviu falar de Deonísio da Silva? Você já ouviu a expressão "A retirada de Laguna?" O que será que uma coisa tem com a outra? Vamos começar pela segunda: a "A retirada de Laguna" é um livro escrito pelo Visconde de Taunay no século XIX, sobre um episódio da Guerra do Paraguay. Eu li esse livro na adolescência, mas lembro dele pouco mais que a terrível sede que sentiam os soldados brasileiros assolados pelo cólera-morbo, sede essa que só podia ser saciada por umas poucas laranjas existentes. Segundo o Visconde de Taunay, nossas gloriosas tropas retiraram-se de Laguna (uma lá do Paraguay) vitoriosamente.

Mas você já ouviu falar de Deonísio da Silva? Não? Bem feito! É um dos mais ilustres catarinenses que já produzimos, e Santa Catarina nem se lembra que ele existe. E você já ouviu falar no "Prêmio Casa de las Américas"? É, sem dúvida, o maior prêmio concedido nas Américas a um escritor. Tem uma versão em espanhol e uma em português, e jurados de verdade, como Saramago, por exemplo: é prêmio sério, nada tendo a ver com certos prêmios de cartas marcadas que costumamos ver por aí.

O que tem uma coisa a ver com a outra, no entanto? Tem que o Deonísio da Silva é um catarinense, nascido quase nas bocas das minas de Siderópolis e criado quase nas roças de Jacinto Machado, alfabetizado por D. Edite Zanatta e sabendo muito bem o que é poluição de mina de carvão, exclusividade nossa de Santa Catarina. Por sorte, eu tive o prazer de tê-lo conhecido quando ainda tinha 60 cm de cintura, na época em que amávamos aos Beatles e aos Rolling Stones. Como meu espaço aqui é pequeno, vamos logo saber mais coisas: Deonísio começou pelo Seminário de São Ludgero e terminou como Doutor em Letras pela USP - quer dizer, terminou não, porque não há término para alguém como ele. Eu estou toda boba, aqui porque vai sair meu 14º livro, e Deonísio já publicou 30; se fui traduzida para uma linguazinha ou outra, Deonísio já o foi para as mais importantes; se um livro meu quase virou novela das seis da Globo, Deonísio têm às pencas peças de teatro, adaptações para cinema e televisão, e tudo o mais que vocês imaginarem. Onde ele publica toda a semana? Nos mais diversos lugares, que vai desde o Jornal do Brasil até a Revista Caras, aquela que a gente lê quando vai no médico. Podem olhar que até lá o Deonísio está! (Vai ter muita catarinense "chique" adorando tal informação!)

Bem, e o Deonísio papou, bem na frente de todo o Brasil, o "Prêmio Casa de las Américas", em 1992. Pena que ele não transformou o valor do prêmio em dólares, naqueles tempos de inflação, para a gente saber hoje quanto foi que ganhou; mas foi o equivalente ao salário de 36 meses de um médico. O livro? "Avante, soldados, para trás!", vai contar, sob nova ótica, a Retirada de Laguna, aquela do Visconde de Taunay, só que desta vez de uma forma real, não heróica, e quando estive no Paraguay, agora em Janeiro, deitada dentro de uma trincheira de Lomas Valentina, lugar onde houve uma batalha com 100.000 mortos (quase todos brasileiros), como me era forte na lembrança o livro do Deonísio! "Avante, soldados, para trás" saiu em espanhol com o título de "Adelande, soldados, atrasa!", e de cara vendeu 20.000 exemplares. E não podemos esquecer que o júri de tal prêmio, naquele ano, foi presidido nada mais nada menos que por José Saramago. No Brasil, o romance já vendeu sete edições sucessivas e também passou dos 20 000 exemplares. Em Santa Catarina, não sei. Porque quase ninguém em Santa Catarina nem sabe que têm um conterrâneo assim ilustre. Deonísio vem, anda por aí, bebe nos bares, escreve correndo suas colunas para os jornais dos grandes centros num notebook, em qualquer mesa de restaurante, e ninguém dá bola. Estamos todos muito preocupados com os nossos umbigos. Quando é que pode nos passar pela cabeça que um cara que foi "Prêmio Casa de las Américas" , personalidade mundial, pode estar a respirar o mesmo ar que a gente? E olhem que ele é bonitão, mulheres, charmoso! Fiquem de olho! E Santa Catarina não se anima a dar a ele nem o título de Filho Pródigo, o que, com certeza, ele não é.



Blumenau, 09 de Fevereiro de 2004.



Urda Alice Klueger
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MensagemEnviada: Sex Out 19, 2007 11:24 am Responder com CitaçãoVoltar ao Topo

O CÉU DE ÉRICO VERÍSSIMO





(Para Jorge Gustavo Barbosa de Oliveira)



O céu de Érico Veríssimo é um céu de passarinhos! É um céu azul tão azul como só o céu dos trópicos pode ser, embora quando a gente chegue lá, debaixo do pedaço de céu que é o céu de Érico Veríssimo, o Trópico de Capricórnio já esteja muito longe, muito mais que mil quilômetros ao Norte, e aquele lugar seja tão alto que parece que, se a gente subir bem no alto da coxilha mais alta e se esticar bem, na ponta dos pés, talvez se possa tocar com a mão aquele azul que só existe em céus dos trópicos.

A maior parte da gente do mundo pensa uma coisa errada: que as regiões tropicais são quentes. Há regiões tropicais quentes, sim, mas há áreas de regiões tropicais onde o frio grassa como grassa lá sob o céu de Érico Veríssimo, e há tanto frio e geada que os homens usam roupas que penso que talvez sejam únicas no mundo, grossos novelos de lã em forma de poncho com barras de franjas, e folgadas calças enfiadas em botas de cano alto e protetores chapéus que devem, uma vez ou outra, acho, protegê-los até de neves

E o céu de Érico Veríssimo é um céu de passarinhos! Tanto frio, e as árvores por cima da gente são verdes como se não houvesse inverno, e têm folhas, e têm bagas, e tem musgos, e devem ter ninhos – pois se o céu é um céu de passarinhos, como é que não vai haver ninhos? Há ninhos, lá, como não os há em nenhum lugar, ninhos brancos e azuis, ninhos de frisos, e de beirados, e de varandas, e de cercas, e de janelas azuis, ninhos azuis e brancos de gatos nas varandas de ladrilho vermelho, pois céu como aquele não há outro, nem ninhos assim também não os há por aí, porque os passarinhos do céu de Érico Veríssimo são passarinhos encantados, e gostam tanto daquele céu e daqueles ninhos que ficam gostando de azul com branco para o resto da vida, e nem poderia ser de outro jeito!

Lá, quando vem a noite, ela não fica escura como nos outros lugares: a noite do céu de Érico Veríssimo também é encantada como quase tudo naquele lugar, e a noite daquele céu é revestida de estrelas enormes, muito próximas, tão próximas que é possível ver-se o passeio dos satélites e dos asteróides por dentre elas, e então os passarinhos daquele céu ficam tão fascinados por terem um céu assim para viver, e ninhos assim também, que se deitam na grama, braços cruzados atrás da nuca, peito aberto para poderem ver com o coração, e espiam as estrelas, e os satélites, e os asteróides, e sabem que de noite é de veludo negro aquele lugar de pendurar estrelas, aquele que de dia fica daquele inexplicável azul que é o azul do céu de Érico Veríssimo, tão azul que talvez só lá mesmo seja assim!

Ah! Como um céu assim só pode ser um céu de passarinhos! Foi sob aquele céu que Érico Veríssimo nasceu e viveu um bom tempo, e ali também nasceram passarinhos tão únicos no universo quanto ele o foi - mas também, sob um céu como aquele, só poderiam nascer, mesmo, passarinhos únicos!

Eu posso dizer que sou uma pessoa que tem tido muitos privilégios na vida: um dia, escondidinha na penumbra de um Vale, bem quando começava a espiar a vida, uma estrela pulou de dentro de um livro e me iluminou com tamanha calidez e brilho que aquela luz ficou para toda a vida, e aquela estrela me fora mandada por Érico Veríssimo – meia vida depois fui, pessoalmente, lá ver aquele céu! Era o céu de Érico Veríssimo e era um céu de passarinhos! Senti tudo tão de perto, com tamanha força – uns e outros me disseram que Érico Veríssimo partiu para sempre, mas também para sempre aquele lá será o céu dele, e sempre será lá um céu de passarinhos e de ninhos brancos e azuis como em nenhum outro céu não há – e há passarinho daquele céu que pulou para dentro do meu peito, como aquela estrela um dia, e não importa o que faça, nem aonde vá, que sempre estará aqui dentro de mim o céu de Érico Veríssimo, que é um céu de Passarinho!



Blumenau, 04 de setembro de 2007.





Urda Alice Klueger

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MensagemEnviada: Sáb Out 27, 2007 2:30 am Responder com CitaçãoVoltar ao Topo

Russland I – Setembro





(Para Elizabete Tamanini, Cesar Zillig e Juarez Aumond)





Um dia, lá na aurora dos tempos, este planeta Terra se formou todo quente e explodindo em vulcões e derrames de magma; um dia, também, ele esfriou e veio uma primeira glaciação, e depois, uma série delas, e aí nesse entremeio foi surgindo a Vida nas suas mais diversas formas, e ontem à tarde eu caminhei por um pedacinho privilegiado deste planeta, e era tão visível, ali, tantas destas coisas que vêm desde lá dos tempos mais remotos!

Era uma estradinha no lugar que quando eu era criança a gente chamava de Russland – hoje, aquele lugar tão lindo é conhecido como Nova Rússia. Fica em Blumenau/Brasil, e é uma reserva ecológica, que abriga nascentes de bicas, arroios, riachos – e todas essas águas juntas acabam formando um rio, à beira do qual costumo acampar.

E era no finalzinho da tarde, assim já depois que o sol se pusera por detrás dos morros altos, e uma fina camada de névoa azulada pairava sobre tudo e dentre tudo, principalmente dentre as árvores daquele resquício de Floresta Atlântica ali preservada, embora aqui e ali, dentro da floresta nativa, surja um Tannenbaum, ou um eucalipto, ou florescidos antúrios plantados sob a mata, à beira da estradinha – e embora exista por ali algumas casas de campo (eu diria: casas-de-mato), escondidas nos lugares mais inesperados, e umas três ou quatro propriedades rurais onde, em pastos de grama rasteira, vacas holandesas nos olham bondosamente com seus grandes olhos líquidos e mansos, e também alguns campings, e algumas outras curiosidades, como uma roça de cana, alguns jardins e cachorros, pode-se dizer que a preservação ambiental, ali, é boa, e pode-se embarcar nela e viajar para a história do passado deste planeta.

O que sempre me chama a atenção primeiro é a estradinha, quase pendurada na encosta dos morros altos e quase caindo sobre o rio, lá embaixo – como venho muito a este lugar, tenho podido observá-lo nas mais diversas situações e estações do ano, e sei que o único lugar onde ela poderia existir é onde está, que na outra margem do rio é tudo perau tão escarpado, rochas abruptas disfarçadas sob a camada da floresta, que não haveria como se ter criado tal estradinha do lado de lá – assim como vejo hoje, depois de prestar muita atenção, muito gente, nos últimos milênios, também viu onde era a passagem possível, e aquela estradinha, um dia, começou a ser aberta e se tornou um caminho feito a pé de índio. Generalizo a palavra índio por não saber o nome das tantas possíveis nações que um dia por aqui passaram – afinal, desde a última glaciação, quando o mar recuou destes lugares onde estou, quanta gente deve ter passado por aqui?

Faz século e meio, lá por volta de 1860, que um jovem imigrante chamado Julius Bernhard Klüger, que foi o meu bisavô, também passou por aqui uma primeira vez, e foi cultivar a terra da sua primeira colônia lá mais para os confins da Russland, e o caminho já estava aberto. Mais adiante deste camping onde costumo ficar, bem mais adiante, há um pequeno cemitério com muitos parentes meus enterrados, comprovação inequívoca dos tantos meus antepassados que um dia aqui vieram trilhar a estradinha aberta a pé de índio – e que pouca modificação sofreu depois que os engenheiros e os imigrantes deram uma melhorada nela, com tratores e enxadas.

Então, ao pôr do sol de ontem, também eu estava a trilhar a estradinha, o rio espumante e encachoeirado de um lado, lá embaixo, e as rochas partidas pelo resfriamento do planeta, em outros tempos, a formar a base dos morros, do outro – e era-me espantoso observar a quantidade de vida que se agarrava àquelas rochas, musgos, líquenes, samambaias e outras plantas, cada uma tentando fazer o seu trabalho de desmanche daquelas rochas que talvez estejam ali desde um antiquíssimo primeiro derrame de lava aqui nesta região. Talvez aquelas rochas já tenham passado por todo o calor e por tantas glaciações, e sejam testemunhas de todo o tanto de vida que já aconteceu por aqui, desde a das plantas, quanto a dos animais de diversos tipos, sabe-se lá quantos já extintos, e das diversas nações de gente que por aqui desfilaram, inclusive a dos imigrantes, e sabe-se lá em quantas delas havia pessoas do meu passado – e ali estão, portando seus musgos e seus líquenes, e esperando que a próxima glaciação chegue, embora, por enquanto, o mundo ainda esteja a esquentar, desde o último grande Frio... como queria eu poder perguntar tantas coisas àquelas rochas! O quanto poderiam elas me contar, que me escapa a este olhar limitado com que as olho!



Blumenau, 14 de setembro de 2007.





Urda Alice Klueger

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