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Luiz Alberto Machado



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MensagemEnviada: Dom Mar 02, 2008 10:13 am Responder com CitaçãoVoltar ao Topo

Na casa do seu Solón Campos e na casa onde dormiu o Bispo







Acho que Canelinha ainda não era município, quando tirávamos o tempo de lá ir passear, meu pai, minha mãe, nós crianças, semana inteira de passeio, coisas que ficaram indelevelmente gravadas nas memórias da minha vida. Antes de sair de casa a gente dizia que ia “para Tijucas”, e para Tijucas seguíamos num sacolejante ônibus do qual tenho as piores lembranças, pois sempre enjoei muito dentro de qualquer coisa que se mova e que eu não esteja dirigindo, se bem que hoje, em idade adulta, conheça remédios que existem para afastar o terrível fantasma desses enjôos.

Minha mãe havia nascido e se criado na Nova Descoberta, pequeno lugar intermediário entre Tijucas e Canelinha, onde havia a Igreja de Santo Antônio, muitos parentes e incontáveis histórias sobre os tempos em que ela lá viveu, histórias que andam a me alimentar até os dias de hoje, não importa quantos lugares do mundo conheça por aí afora! Pergunto-me neste momento se quando houve a partição dos municípios Nova Descoberta ficou pertencendo a Canelinha ou a Tijucas, se as crianças que hoje nascem ali são crianças de lá ou de cá – qualquer dia destes irei me informar. Naqueles estertores da década de 50 do século passado, no entanto, que é quando eu me lembro, minha mãe era de Nova Descoberta, de Tijucas, de Canelinha, e de um outro lugar muito mágico, que só conheci depois de adulta: Nova Trento. Tudo isto, hoje, é muito perto, poucos minutos de carro por estrada asfaltada, e fica quase incompreensível para a minha imaginação de gente grande pensar que tudo era tão longe e difícil quando eu era criança!

Hoje passo muitas vezes pela BR-101, em direção a Florianópolis, e sempre que há alguém comigo no carro, não deixo de informar, quando estou próxima das pontes gêmeas de Tijucas:

- “Vês aqueles morros azuis lá longe? Foi de lá de dentre eles que veio a minha mãe!” – pois aqueles antigos passeios às terras onde ela se criou estão fortemente acordados dentro de mim, e nunca será possível esquecer.

Eu era pequena demais para lembrar agora a ordem em que as coisas se davam, pois íamos cá e lá, e então vou contar conforme elas estão vindo ao meu coração: em algum momento, um ônibus sacolejante nos deixava numa pequenina cidade chamada Canelinha, onde tínhamos porto seguro, que era a casa do seu Solón e da Dona Patrícia Campos.

Penso que chegava muito mal, depois de tanto enjôo, e não me lembro muito bem como era chegar – mas estar lá era uma coisa fascinante! Um dia o seu Solón Campos tivera uma venda, e então sua casa era muito grande, com partes vazias onde antes funcionara o seu comércio, e havia uma série de quartos e muitas roupas de cama, e dormíamos em amplas camas de colchão de palha de milho, extremamente reconfortantes depois daquele tanto sacolejar do ônibus detestável!

Lembro outras coisas da casa, como ela tinha as altas paredes sem nenhuma pintura, prática comum naquela região naquela época – pelo menos, nas minhas lembranças, quase nenhuma casa agrícola que conheci àquela altura tinha nas paredes nuas mais que as marcas de antigos e novos líquenes! E também não havia eletricidade, pelo menos naquela casa – se bem que pode ser que a mesma faltasse muito, pois na minha cidade também, então, sempre tínhamos cortes de eletricidade – o que me lembro, no entanto, era dos candeeiros a querosene à luz do qual a Dona Patrícia Campos preparava a galinha que matara às pressas para as visitas que tinham chegado, e de como ela usava tamancos de madeira e um chapéu de palha de abas largas, mesmo de noite, para que insetos voadores não pousassem na sua cabeça! Seu Solón sentava-se e conversava e conversava, e ele e meus pais faziam projetos para os dias de passeio, mas a coisa mais impressionante de todas, com certeza, na casa do seu Solón Campos, era uma grande fotografia colorida de Getúlio Vargas, pendurada na sala, que ele, respeitosamente, explicava ser o “Pai dos Pobres”. Foi lá na casa do seu Solón Campos que eu travei meu primeiro contato com Getúlio Vargas e alguns conceitos da política brasileira, com certeza.

Seu Solón e dona Patrícia tinham um filho chamado Taurino, mas como eles já fossem velhos e Taurino já fosse adulto e andasse a tocar a sua vida, eu nunca cheguei a conhecê-lo. O que lembro bastante lá da casa do seu Solón é de um quintal cheio de cheiros verdes, chás para mezinhas, tomates e outras coisas plantadas – e da sua gloriosa carroça puxada por dois cavalos castanhos!

Era em tal carroça que saíamos a passear, naquela animada semana! Minha mãe tinha saudades da cidade de Tijucas, e então, passo a passo, os calmos cavalos puxavam a carroça até lá, e adultos e crianças íamos dentro dela, e na minha lembrança passavam-se muitas, muitas horas até que chegássemos. Tijucas tinha todo um ar diferente, já fora cidade importante, as casas eram pintadas! Não sei bem o que fazíamos na cidade de Tijucas além de matar as saudades da minha mãe – o que lembro com clareza era da imponente casa da Dona Chiquinha Galotti, e da foz do rio, que era nossa parada final. Queria saber se ainda, lá naquela foz, o rio deságua num mar de lama, e queria que alguém me explicasse aquilo! Decerto, quando olhava, era hora de maré enchente, pois ondas de lama entravam rio adentro e aquilo era muito feio e muito ruim de se olhar – depois de adulta, nunca mais fui lá para ver direito como era aquilo e por quê que um mar de lama podia se formar, assim, em algum lugar do mundo! Será que aquele mar ainda está lá do mesmo jeito? Pelo que lembro, aquele lamaçal em forma de ondas foi, provavelmente, a coisa mais feia que vi na minha mais tenra infância.

E era a partir da casa do seu Solón Campos, em Canelinha, que nos dias seguintes fazíamos mais visitas e passeios, e em algum momento nos mudávamos para Nova Descoberta (ou será que íamos lá antes?), e lá nosso abrigo era a casa do tio Adolfo e da tia Bernardinha, que eram tios da minha mãe. Dentre outros descendentes, eles eram pais da Linda e avós da Quinha, e depois de adulta estive lá diversas vezes, e elas ainda moravam na antiga casa do tio Adolfo, que fora construída toda em encaixes, sem pregos, vetusta casa do passado onde, um dia, dormira um bispo! É provável que o bispo tenha dormido lá há uns vinte ou quarenta anos antes, mas que charme ele ainda dava àquela casa! Enquanto ficávamos lá, que fascinante que era para mim dormir, com as minhas irmãs, na ampla cama onde um dia o bispo dormira! A onipresença daquele bispo que talvez até já tivesse morrido dava tal dignidade àquela casa antiga e sem pintura, como as outras casas rurais, que se tornou impossível esquecer tal fato!

E dali da casa do tio Adolfo partíamos para as outras visitas, ali pela redondeza: a comadre Carlota, mãe do Diogo, que ainda vive por lá, as visitas aos muitos Giacomossis, cuja matriarca tivera 17 filhos, e que é avó da Miriam Gilli e de tantos outros, à viúva Bissóli, mãe do Salvador e do Caetano, à Lia e à Tana, às paisagens que a minha mãe trazia escondidas dentro do peito, e que ia rever para não morrer de saudade – e lembro tantas coisas, tantas coisas de cada lugar destes, de cada casa destas, de cada cafezal, e dos pés de ingá, mais altos que os de café, e de como a Lia nos levava a um lugar que deveria ser um brejo, penso – mas que tinha ilhas flutuantes mas firmes, onde podíamos pisar sem afundar, e que ela chamava de “balsas”, e de como ela nos contava que por ali ainda havia jacarés – nunca mais, na minha vida, soube de outro lugar no Estado de Santa Catarina, onde existissem jacarés!

Então, às vezes voltávamos de tais visitas já noite fechada, escura, e era necessário ter muito cuidado para atravessar o pasto do tio Adolfo, para não esbarrar, sem querer, em alguma vaca que estivesse ali parada, a ruminar. Entre o pasto e a casa havia o jardim da Linda e da Quinha, onde, além de rosas-de-Santa-Rita e de tantas outras coisas, elas cultivavam o colorau para a galinha dos almoços de luxo. Nessa altura, o que mais lembro era de chegar, e me enrodilhar na cama onde um dia dormira o bispo, e deixar a imaginação correr à solta, pensando que um dia um bispo estivera mesmo ali...

Numa dessas idas lá, minha mãe trouxe de presente dois castiçais de faiança branca, coisa mais linda, lembrança de família, que já não lembro quem guardara para ela. Faz muitos anos que ela me deu um dos dois castiçais. Ele está em lugar de destaque, na minha casa do século XXI, a atestar que tudo aquilo existiu e aconteceu mesmo. Faz tanto tempo, e foi tão lindo, que se não fosse o castiçal, talvez eu pensasse que tivesse sido apenas um sonho...





Blumenau, 25 de Agosto de 2007.



Urda Alice Klueger

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Luiz Alberto Machado



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MensagemEnviada: Dom Mar 02, 2008 10:15 am Responder com CitaçãoVoltar ao Topo

Rainha da Noite



Afinadíssimo grupo da mais refinada seleção de sambas no bar que ali coroa a noite, e o povo mandando ver no cantar e no bailar, com aquela desenvoltura de quem está à beira da praia, com a possibilidade de qualquer roupa, de qualquer bebida, de ficar sem camisa ou de não beber nada. Era lá pelo sul da Ilha de Santa Catarina; a noite adentrava pela madrugada, e na platéia animadíssima, sem dúvida ela era a Rainha da Noite.

Olhei-a o quanto deu – imaginei-a com pelo menos uns oitenta anos, o pique e a disposição de uma mocinha. Havia quem duvidasse – talvez ainda não tivesse oitenta anos, mas aí veio a reflexão:

- E a Dercy? Já fez cem e ainda parece ter oitenta!

A Rainha da Noite talvez tivesse até mais que oitenta, mas tal não interessa. Interessava era a sua alegria, a sua segurança, a dançar sozinha com mais entusiasmo que qualquer outra pessoa, o corpo deformado pela velhice sem o mínimo pudor de estar perfeitamente modelado por calças compridas justíssimas, por blusinha de verão cheia de dourados também modelando sua velhice, os colares da moda, o comprido brinco de dourados e penas que se usa de novo neste verão, o cabelo loiríssimo e arrumadíssimo como se ela se preparasse a cada dia para uma festa de casamento... Chacoalhava os braceletes nos braços que a idade tornara balofos sem o menor constrangimento, acompanhando a música de Gonzaguinha ou de Adoniran Barbosa com o mesmo entusiasmo; chamava a maior atenção. Então parei a observá-la, e a observar sua gente.

Vinha ela de uma mesa onde havia uma provável filha loira de meia idade, um provável filho (ou neto?) também muito parecido com ela, uma provável nora morena, um decididamente neto deixando a adolescência para trás, na sua bermuda comprida, bonito como só os garotos dessa idade conseguem ser ... e um velhinho, o velhinho dela, e prestei muita atenção nele, que talvez tivesse uns 75 anos, mas todo moderno e bem apanhado, a camiseta da moda, a bermuda branca, um jeito de segurança e de satisfação por estar ali, ouvindo aquela coleção de sambas lindos, com a família ao redor e a sua princesa sendo o sucesso da noite, comodamente sentado na sua cadeira, seguro e tranqüilo, os finos cabelos brancos aparados como os de um garotão... príncipe e princesa, ele e ela, e nem ela estaria lá no meio do povo dançando daquele jeito sem o menos pudor da velhice se não fosse ele, e nem ele estaria ali tranqüilo, sereno, elegante velhinho a dar o tom àquela família se não tivesse a segurança da sua princesa que não estava nem aí para a idade, o corpo deformado, a atenção que chamava – ela era a princesa dele, mas naquela noite estava sendo rainha, a mais fascinante rainha daquela noite, e ele cá na sua calma, e ela lá em contato direto com Clara Nunes e Paulinho da Viola – ai, como o amor é lindo!

Aqueles dois tinham atravessado mais de meio século juntos, e o apoio de um era o apoio do outro, e aquela mulher era a Rainha da Noite porque havia aquele Príncipe, e o príncipe sempre seria príncipe enquanto tivesse a sua princesa... Rainha da Noite, como senti vontade de estar em teu lugar! Fiquei a olhar-te fascinada, e ao teu Príncipe que nunca virou sapo, e com tanta vontade de também poder, de também ser, de também me sentir assim segura, mesmo com as deformações da idade, sem pejo nenhum das roupas justas e dos dourados e das penas deste verão... Falta-me o príncipe, no entanto, e nunca haverá segurança e apoio, e os sambas já não existirão para mim, e nunca chacoalharei meus braceletes porque no coração eles já não chacoalham e a vida já não tem sentido. Ah! Linda Rainha da Noite, com teus dourados cabelos arrumados, como te admirei, eu que navego para um mundo de cabelos opacos e que embranquecerão irremediavelmente e que nunca terei um velhinho de bermuda branca sentado a me dar apoio sem nada precisar dizer – ai, como o amor, também, pode doer!





Blumenau, 14 de janeiro de 2008.





Urda Alice Klueger

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Luiz Alberto Machado



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MensagemEnviada: Dom Mar 02, 2008 10:16 am Responder com CitaçãoVoltar ao Topo

As crianças palestinas estão nascendo em Santa Catarina





Por todos os lados estão as notícias, principalmente nas agências especializadas da Internet, pois a grande imprensa que chega à maioria das casas vem com a maquiagem necessária para que não se dê muita atenção, para que pareça coisa de brincadeirinha, quando a cruel verdade é bem outra: o genocídio palestino vai de vento em popa – a Faixa de Gaza estertora na inanição e na violência – as crianças que seriam o futuro daquele país que sequer existe, segundo os interesses do Capital e do mais revoltante dos sentimentos racistas, estão tendo as vidas ceifadas de muitas formas, para que um dia já não exista o povo palestino, para que um dia aqueles dois pequenos pedaços de terra onde a Palestina ainda sobrevive já não tenha quem os reclame. Acho bom explicar um pouquinho mais: não existindo mais o território palestino, o Estado de Israel poderá dominar aquele espaço encravado lá no meio do rico território árabe, ponta de lança que é do de sempre: os Estados Unidos. O malfadado Grande Irmão do Norte[1] precisa dominar aquele espaço lá, altamente estratégico para as suas cobiças financeiras: o Estado de Israel está como que situado dentre um mar de petróleo e de outras riquezas minerais, e os políticos corruptos dos dois países, mais os homens corruptos que venderam a alma ao diabo em troca do deus Capital, também de ambos os países, tratam de acelerar o genocídio palestino, para mais tarde já não ter que se incomodar com a resistência desse povo que teima e teima em viver.

Penso que devo deixar claro, aqui, que não estou me referindo ao povo judeu como um todo, pois há muita gente muito decente dentro daquele povo. Prova de tal coisa são diversas mensagens que recebi, quando um dos meus textos acabou causando uma polêmica homérica, por conta de má interpretação intencional de gentes envolvidas na causa do genocídio – ao mesmo tempo em que eu era crucificada como a vilã do povo judeu, diversos soldados do exército judeu, de nacionalidade e religião judaicas, na época servindo seu país e tendo que participar do desmonte do que ainda restava da Palestina, escreveram-me apoiando as denúncias que então fiz, fora outras e outras manifestações recebidas.

Mas voltemos à inanição e à violência a que estão sendo submetidos os palestinos ainda sobreviventes, e talvez pensemos: já não há o que fazer; que podemos nós, sem as poderosas armas e sem os bilhões de dólares dos poderosos que destroem um povo, provavelmente ate à última pessoa? É possível que desanimemos diante de tão cruel realidade, que pensemos que a “solução final”[2], acabou, mesmo, chegando (e não para o povo judeu) - mas daí chegam notícias tão fascinantes, mas tão fascinantes, que até nos volta a esperança! As crianças palestinas já não estão nascendo na Palestina! Nem todas, é claro, mas muitas e muitas crianças palestinas estão nascendo por aí, pelo mundo todo, e nesta semana eu soube que nasceu mais uma, assim bem perto de mim, uma pequenina menina de cabelos escuros chamada Laura, e ela já nem é a primeira criança daquela família: a esperá-la já havia o irmãozinho Iudi, um descendente de beduínos e de profetas que também já havia nascido aqui nas terras do sul do Brasil, crianças tão americanas e brasileiras quanto palestinas, pois se aqui nasceram foi por contingência do destino, foi porque seus antepassados até a cidadania palestina acabaram perdendo – mais um pouco e perdiam a vida.

Ante meu entusiasmo com o nascimento de Laura (Iudi eu já conheci crescidinho), alguém me disse:

- Mas não se trata de uma criança palestina – ela é tão brasileira quanto tu! – e eu pensei no meu avô, que já nascera brasileiro também, e nas tantas etnias que se mesclam por este meu imenso país, mas pensei, também, na Injustiça que se perpetra contra todo um povo, e nas crianças do povo judeu que nasceram em tantos lugares também, e que um dia voltaram àquela terra a que se sente ligado aquele povo, e pensei que a pequenina Laura e seu irmãozinho Iudi vão acabar crescendo conscientes do que aconteceu com a sua família e a sua pátria, e terão, possivelmente, um sentido de identidade tão próprio, tão deles, tão forte...

O fato é que a roda da História gira, e pequenas Lauras, e pequenos Iudis, estão nascendo por todo o mundo, enquanto seus parentes morrem de inanição ou por massacre numa Palestina destinada ao sumiço.

Bem-vinda a este mundo, Laura! Que as fadas te sejam boas e que o teu fardo não seja tão pesado. Trazes em ti a herança dos beduínos e dos profetas – vais saber achar o caminho que será melhor para ti. O que mais me emociona ao saber que chegaste, é que nem o Grande Irmão do Norte e nem os políticos corruptos de Israel estão fazendo a conta das tantas Lauras, tuas priminhas, estão nascendo ao redor do planeta!



Blumenau, 27 de janeiro de 2008.





Urda Alice Klueger

Escritora



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[1] Experimente ler um livro chamada “1984”, de George Orwell.

[2] Solução final: expressão usada pelo nazismo hitleriano, que signifcava a extirpação por morte de todos os judeus da Europa.
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Luiz Alberto Machado



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MensagemEnviada: Sáb Mar 08, 2008 6:00 pm Responder com CitaçãoVoltar ao Topo

A história de John Smith







Nesta semana, numa reunião onde estava, surgiu uma discussão sobre a pobreza ou não da África, e quando vi estava quase me pegando de pau com Napoleão, um colega que admiro muito. Como tantos outros historiadores que eu conheço, ele defendia a idéia de que na África até pode haver um cantinho sem estar cheio de pobres e de moscas (é esta a súmula de tal pensamento), mas que era mais ou menos inadmissível que o resto do continente não fosse uma pobreza só, pura guerra, doença e tristeza. É exatamente a imagem que fazem do Brasil lá fora: favelas, tiroteios matando inocentes, massacres de menores, seca no nordeste. Lá na África têm mais de 50 países, e uns 50 estão em paz, construindo alguma coisa de bom há décadas – tem coisa bonita demais para se ver lá – já andei por lá e vi. Como no Brasil. Se eu perguntar para vocês se Blumenau é uma cidade rica ou pobre, o que vocês vão dizer? Claro que o centro de Blumenau é uma cidade rica – por detrás dos morros, porém, há cada favela (eu conheço algumas) onde a fome é a grande realidade, e se a gente conhecer Blumenau daquele ângulo, vai dizer que Blumenau é uma cidade tão pobre quanto os lugares pobres da África. Na discussão com o colega, nesta semana, disse-lhe: “E os Estados Unidos? Tu pensas que lá também não está cheio de pobre?” Espero que ele não tenha ficado chateado comigo, mas a discussão me levou a pensar: e os pobres dos Estados Unidos? E aquele rapaz chamado John Smith (disseram-me que seria o equivalente ao João da Silva brasileiro), que cresceu numa favela estadunidense, sobreviveu no meio da criminalidade que havia no seu colégio, e acabou ficando um adulto desempregado? Digamos que agora ele está com 18 ou 20 anos, e neca de emprego – que fazer com a sua vida, com a sua força alimentada a hambúrguers, com a sua viçosa saúde como os jovens têm, e que anda a procura de dar um jeito de perpetuar a espécie? Como alimentar seus filhinhos, caso eles vierem? Como conseguir sobreviver sem emprego num país em recessão?

Ah! Tem um jeito, sim! Para não perder a popularidade, o tal Mister Cachorro Louco, mais conhecido como Bush II, resolveu tornar-se popular arranjando emprego para toda a rapaziada desempregada: a guerra.(É bom lembrar que o serviço militar não é obrigatório lá nos EUA, como aqui.). E então John Smith acabou indo para o exército, para não morrer de fome. Ele nem sabia muito bem em que ponto cardeal ficava este tal de terceiro mundo, quando embarcou para brigar num totalmente desconhecido país chamado Iraque. (A história é igual se considerarmos o Afeganistão.) E um dia ele desembarcou lá, todo paramentado de farda nova e armas impressionantes, e disseram para ele mais ou menos assim: quem se mexer é inimigo. E o primeiro que se mexeu na escuridão de uma trincheira, na sua primeira noite de soldado assustado e cheio de medo, ele atirou com sua mira sofisticada e viu o cara cair. Nem parecia que alguém tinha morrido: era tão fácil, tão incruento e tão indolor! E John Smith acostumou-se a cumprir as ordens e a salvar a pele, para garantir o salário e a ração, e está lá no Iraque matando gente conforme lhe mandam, ou conforme o medo lhe aconselha. Não sabe muito bem quem são os iraquianos, mas sabe por que está lá: porque não há outro emprego para ele. O único que o governo lhe assegura é o de matador. Esqueçam desta coisa de que ele tem uma ideologia.

Mas então as gentes do Iraque se encheram de serem mortos sem reagir, e fizeram bem aquilo que nós faríamos se tivéssemos o nosso país invadido: passaram a reagir à invasão, e não têm mais dia sem que uma porção de Johns Smiths sejam atacados e mortos em emboscadas, eles que tinham aprendido que não se morria, só se matava. E agora o medo aumentou, e John Smith dispara a sua arma com muito mais freqüência, o que faz com que as emboscadas e os atentados também aumentem de freqüência. Neste momento em que escrevo ele ainda está vivo e talvez ainda mate alguns desconhecidos iraquianos nesta noite – amanhã, porém, não se sabe como estará. E tudo o que ele queria era um emprego, por mais simples que fosse, e um lugarzinho onde pudesse morar com a sua Mary para poderem perpetuar a espécie em paz. Agora, ao contrário, está a dizimar a espécie. É o que acontece com os pobres de certos países. Você não sabia que os pobres existiam lá no outro lado da América, sabia?





Blumenau, 09 de Novembro de 2003.





Urda Alice Klueger.
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Luiz Alberto Machado



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MensagemEnviada: Sáb Mar 15, 2008 2:28 pm Responder com CitaçãoVoltar ao Topo

CENTELHAS DE VIDA


Era uma vez, lá no Paraíso Terrestre, quando Deus criou Adão e Eva e todos os animais, criou Ele, também, um casal de cachorrinhos. Viviam todos, lá, muito felizes, e se não fosse a preocupação de Eva e Adão de provarem dos frutos da Árvore do Bem e do Mal, a festa lá ainda não teria acabado, e ninguém passaria nenhum tipo de privação neste mundo.

Bem, o fato é que lá, junto com Adão e Eva, havia um casal de cachorrinhos, e que enquanto Eva era tentada pela Serpente, os cachorrinhos, muito naturalmente, tiveram seus primeiros filhotes, que tiveram outros filhotes, que tiveram outros filhotes, até que um dia, milhares de anos depois, nasceram os dois cachorrinhos que vivem na rua do lado da minha casa.

Eu comecei a vê-los no começo deste inverno que está tão frio: dois cachorrinhos amarelos, dos mais legítimos vira-latas, a saírem para a entrada da rua, bem na minha esquina, para ficarem ao sol que chega antes na esquina do que na casa deles. Pequenas centelhas de vida explodindo de inteligência e alegria, eles sabem exatamente a hora em que o sol chega a um pedaço quadrado de asfalto na saída da rua, e lá vêm, lépidos e alegres, a balançarem seus rabinhos na efusão gratuita de viver, para aproveitarem o calor fraco do sol e se aquecerem.

Como se divertem os dois bichinhos! Eles ainda são cachorrinhos muito novos, mal e mal deixaram de ser bebês, e a idade adulta deve vir só lá pelo verão. Estão naquela fase em que os cachorrinhos gostam de roer os chinelos das pessoas, e onde a alegria é infinita dentro dos corpinhos peludos e inquietos de tanta vida. Naquele quadrado de sol da esquina da minha rua, eles se aquecem com os focinhos erguidos, e brincam, alternadamente, brincam um com o outro tendo a certeza de que a coisa mais importante deste mundo é brincar. Eles conhecem todas as crianças da redondeza, e todas as crianças os conhecem – quando elas passam, cedinho, em direção da escola, eles interrompem suas brincadeiras para fazerem festa às crianças, e acompanham-nas um bom estirão pelas calçadas, até lembrarem-se que têm seu quadrado de sol no mundo, e voltarem à minha esquina.

Conhecem gente grande também: recentemente, quis saber mais sobre eles. Minha amiga Margarida contou-me que se chamam Toco e Bilú, e Margarida é uma mulher séria, tesoureira de um banco, o tipo de pessoa que a gente não pensa que sabe o nome de dois cachorrinhos de nada, duas centelhazinhas de vida que surgiram no começo do inverno num quadrado de sol. Depois que Margarida contou-me até o nome deles é que vi o quanto estão populares em toda a vizinhança.

Sabedora, agora, dos seus nomes, ontem de manhã fui lá falar com eles. O dia estava nublado, e o pedaço de sol não tinha aparecido na esquina. Os cachorrinhos, porém, sabiam perfeitamente onde ele iria surgir, se surgisse, estavam lá sentados,com cara de aborrecidos pela falta daquele amigo Sol que os tem aquecido desde que se lembram, na sua curta vida. Eles ainda não me conheciam – sempre os observo de longe, de dentro da garagem – e se mostraram indiferentes até que chamei:

– Toco!

Na hora descobri quem era Toco, pois ele veio pular em mim arrebentando de alegria, e foi só chamar “Bilú”, para que Bilú também entrasse num paroxismo de prazer e de pulos, ambos inteiramente cônscios da sua identidade neste mundo. Nasceram faz pouco tempo: da vida só conhecem o quadrado de sol e as crianças que passam, mas sabem muito bem como cada um se chama, e como ficam gratuitamente felizes quando um adulto se digna dar-lhe o pequeno nome que é quase tudo o que possuem!

Eles pularam e me lamberam até que eu tive de ir-me. Pelo retrovisor do carro, fiquei vendo como, depois da alegria de terem sido reconhecidos por um adulto, esqueceram-se de que o quadrado de sol não tinha vindo, naquele dia, e passaram a brincar com a mesma alegria de quando se sentiam aquecidos!

Se Adão e Eva não tivessem acabado comendo do fruto da Árvore do Bem e do Mal, cachorrinhos como Toco e Bilú nunca sentiriam frio, e nunca precisariam ficar brincando num quadrado de sol na esquina de uma rua, e não haveria na minha vida a luz das suas pequenas centelhas de vida. Até que Adão e Eva não erraram de todo!



Blumenau, 04 de agosto de 1996.

Urda Alice Klueger
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Luiz Alberto Machado



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MensagemEnviada: Qui Mar 20, 2008 4:00 pm Responder com CitaçãoVoltar ao Topo

LUZES VERDES QUE SÃO VERMELHAS





Nossa mente é capaz de associações tais que a gente quase não acredita. Lendo, aqui, o livro “ Era dos extremos”, do grande historiador e grande intelectual Erich Hobsbawm, encontro, já à página 14: “Para este autor, o dia 30 de janeiro de 1933 não é simplesmente a data (...) em que Hitler se tornou chanceler na Alemanha, mas também uma tarde de inverno em Berlim, quando um jovem de quinze anos e sua irmã mais nova voltavam para casa(...) de sua escola(...) e em algum ponto do trajeto viram a manchete. Ainda posso vê-la, como num sonho.”

Hobsbawm, que hoje beira os 90 anos, escreveu isso sessenta anos depois do ocorrido.

Eu não sei como funciona a mente dos meus caros leitores – sei que a minha faz associações parecidas. Nunca esqueço que estava numa lanchonete de um shopping-center, em Belo Horizonte, em maio de 1991 (ou foi 92? Maio eu garanto!), quando foi anunciada na televisão a queda da Ministra Zélia Cardoso de Melo (arrrrgh!!!). Para quem é jovem demais para lembrar dela, esclareço que Zélia Cardoso de Melo foi a ministra da Fazenda do governo Collor (ARRRRGHHHH!!!!!!), aquela que prendeu a poupança de todo o mundo, e deixou ricos e pobres iguaizinhos, com 50.000 cruzados no banco cada um – foi uma coisa engraçada: pobre estava acostumado a não ter dinheiro, mesmo, mas para os ricos a coisa pesou: tínhamos uns vizinhos ricos que até comida em casa tiveram que começar a fazer, legítimo arroz com feijão, já que não tinham mais o dinheiro para os restaurantes finos. E para a turma que não sabe, 50.000 cruzados era uma mixaria, não dava para quase nada.

Jamais esqueço aquela lanchonete de Belo Horizonte, com todos os seus cheiros, suas cores, o som da televisão, e os sorrisos de satisfação das pessoas que estavam lá, quando penso que aquela ministra acabou caindo (arrrrgh!!!)..

Eu sou uma pessoa pródiga em amigos, maravilhosos amigos que povoam e encantam a minha vida, mas um deles sempre me foi muito especial: o grande poeta Marcos Konder Reis, que sempre trouxe aninhado no peito como se ele fosse um pombo num ninho. Fiquei amiga do Marcos quando era uma adolescente; privei da sua maravilhosa amizade até o ano passado, quando ele partiu para outras plagas, deixou este mundo. Em todos os verões da minha vida, desde que eu era uma mocinha, houve noites e noites de papo e poesia com Marcos Konder Reis em bares de Armação do Itapocoroy.

Lembro que no verão de 1991 tivemos uma única noite juntos, lá no velho Bar do Arão, em Armação, eu a tomar cuba-libres, ele a tomar conhaque de macieira. Foi uma noite inesquecível, onde ficamos até de madrugada discutindo poesia e tentando resolver problemas que escritores têm, como o de não se repetir. Após uma certa quantidade de cuba-libres e conhaques, passamos a recitar poesias – foi daquelas noites que nunca acontecem de novo.

Voltei a Blumenau na madrugada – e no outro dia fico sabendo que enquanto curtia poesia junto com Marcos Konder Reis, havia iniciado uma guerra! Era a Guerra do Golfo, a chamada guerra cirúrgica, que o mundo assistiu pela televisão como se fosse um videogame, achando bonitas as bombas explodirem em luzes verdes, incruenta guerra que escondeu os mortos e feridos e a cor vermelha do sangue. Ela durou pouco, rapidamente terminou, depois que as bombas de luz verde destroçaram o que queriam. Na minha cabeça ela ficou para sempre associada, porém, a uma noite de poesia com aquele terno anjo que se chamava Marcos Konder Reis. Eu acho que pude resistir à amargura dela porque tinha aquela lembrança da poesia a atenuá-la.

Como será agora, se a guerra voltar? Já não tenho o apoio do Marcos para sustentar as minhas emoções. E eu acho que a guerra está chegando. E hoje sabemos muito bem que as enganadoras luzes verdes das bombas são bem vermelhas.



Blumenau, 04 de Março de 2003.





Urda Alice Klueger
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