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BRAULIO TAVARES & OS NOVOS POETAS Exibir próxima mensagem
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Luiz Alberto Machado



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MensagemEnviada: Qui Mai 11, 2006 2:29 pm Responder com CitaçãoVoltar ao Topo

Os novos poetas (18.4.2006)
Braulio Tavares

Toda semana recebo um email, ou uma carta, ou um pesado envelope pardo cheio de poemas, e um apelo: “Prezado Senhor: Sou um jovem poeta, e não consigo publicar meus poemas. O sr. pode me ajudar?” Claro que posso.

Comece a escrever bem cedo, e comece a publicar bem tarde. Com dezesseis anos eu já escrevia sonetos alexandrinos, poemas surrealistas, epigramas satíricos. Graças a Deus nunca os publiquei, mas o fato de todo dia estar escrevendo uma coisa nova me dava a sensação de estar jantando num restaurante imenso, cheio de gente famosa. Ninguém tomava conhecimento de minha existência, mas eu me sentia ocupando o mesmo espaço que eles. Publiquei meu primeiro livro (um folheto de cordel) aos 28 anos. Ainda acho que foi um pouco prematuro; mas eu já estava impaciente. Resumindo: escreva muito, e publique pouco.

Não pense nas grandes editoras. Grandes editoras só publicam poetas consagrados, poetas premiados, ou amigos dos amigos. Se você não é nenhuma dessas coisas, publique-se a si mesmo. Foi assim que surgiram o Modernismo, a Literatura de Cordel, a Geração Mimeógrafo, a Poesia Marginal, e assim por diante. Auto-publicação. Publicar por uma grande editora é o mesmo que chegar à Seleção Brasileira. Aquilo não é um começo de carreira, é uma conquista. Só chega lá quem já mostrou serviço. Não é para novatos. A menos (repito) que você seja parente ou amigo de alguém “importante”, e a publicação de seu livro envolva uma barganha-de-favores qualquer.

A obra do poeta é o poema, e não o livro-de-poemas. Divulgue seus poemas isoladamente, e deixe para pensar nessa história de livro a longo prazo. Copie o poema, distribua com os amigos, pregue na parede, recite-o (se for o caso) nos lugares e momentos propícios. Se você tiver, daí a alguns anos, meia-dúzia de poemas “na boca do povo”, vai ficar muito mais fácil fazer um livro, em vez de ficar tirando cópias e mais cópias. E (curiosamente) os que já têm cópia serão os primeiros a comprar o livro. É uma lei da Natureza.

Use a Internet. É o lugar ideal para publicar suas coisas a custo zero, e para ler a custo zero as coisas alheias. Mande seus poemas para todo mundo. Eu recebo dezenas de poemas por semana. Leio alguns, deleto quase tudo, raramente guardo um. Quando leio um poema de que gosto (1% do total), presto atenção ao nome do autor. Se eu vir esse nome numa revista, numa antologia, vou lá conferir, pra ver se presta de novo. É assim que os nomes (Drummond, Cabral, Bandeira) se formam.

Não pense que as editoras, ou os governos, têm a obrigação de publicar seus poemas. Não têm. Você é que tem de convencer as pessoas (inclusive editoras e governos) de que o que você escreve tem valor coletivo, desperta a atenção de centenas ou milhares de pessoas, serve como referencial de discussão, é citado por gente que não conhece o autor mas que admira as idéias. Em suma: faça sucesso primeiro, e alguém vai querer publicar suas coisas.

Publicado no “Jornal da Paraíba”, em: http://jornaldaparaiba.globo.com/braulio.html.
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Luiz Alberto Machado



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MensagemEnviada: Sáb Dez 02, 2006 9:45 am Responder com CitaçãoVoltar ao Topo

Literatura regional (1.11.2006)
Braulio Tavares

Uma vez defendi num debate a idéia de que Machado de Assis era um autor regional, pois descrevia apenas a vida das pessoas de sua região, ou seja, da cidade do Rio de Janeiro. De fato: com exceção de alguns contos fantasiosos situados num Oriente exótico, e de “O Alienista” que transcorre em Itaguaí, a obra de Machado se debruça sobre essa região muito específica. Só então eu percebi o quanto de preconceito as pessoas embutiam no termo “regional”, porque quando eu tento aplicá-lo a Machado a resposta é: “Não. Machado não é regional. Ele é universal”. Até concordo – mas então por que motivo Graciliano, Zé Lins, Rachel de Queiroz e outros não podem, pela mesma ótica, ser considerados também universais?

Por que usa-se “regional” como antônimo de “universal”? Porque confunde-se “regionalismo” com uma de suas vertentes, uma literatura que eu chamaria de “Ficção Etnográfica” pelo seu esforço (que é elogiável, sob muitos pontos de vista) de registrar aspectos históricos e geográficos da região abordada. Registram-se os modos de produção característicos (agrícolas e pecuários), os usos e costumes, o linguajar, a cultura, as crenças, e aquilo que o socialista Lukács preconizada como “personagens típicos vivendo situações típicas”. Registram-se a flora e a fauna, o artesanato, o folclore. Cada romance é um “vasto painel” onde aquela comunidade pode, inesgotavelmente, inventariar a si própria.

Nem sempre essa literatura tem grande valor literário, mas isto não significa ausência total de valor. Em outro país ou numa época futura, um romance assim será um documento precioso da cultura de um povo. O escritor que se limita a isto, contudo, vai perdendo o foco da universalidade. Preocupado em retratar situações e personagens típicos, ele refreia a própria imaginação e produz apenas personagens e situações indistintos, medianos, meras cópias desbotadas do já-visto e já-sabido.

Para atingir o universal é preciso ir mais fundo, na medula da vida, um núcleo doloroso e feroz que nos é comum a todos. É preciso lidar com personagens que sejam pontos de tensão e de mutação no desenrolar da narrativa, que encarnem um feixe de possibilidades simultâneas, em vez de apenas seguirem o caminho-de-roçado aberto pelos personagens de autores que vieram antes.

O foco exclusivo no detalhismo etnográfico, por mais méritos que tenha, acarreta a perda do Universalismo – o qual, paradoxalmente, só brota das situações raras e dos personagens excepcionais. Preocupado em cobrir a maior extensão possível de terreno temático, o “regionalista” deixa de mergulhar mais fundo e de tocar as jazidas mais universais de significado. E a associação entre regionalismo e ficção rural se dá, sem dúvida, pela deformação profissional de críticos que, só conhecendo o ponto de vista urbano, consideram que a cidade é o epicentro de tudo, e que o resto do mundo se compõe de “regiões” pouco nítidas.
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MensagemEnviada: Sáb Dez 02, 2006 9:46 am Responder com CitaçãoVoltar ao Topo

“Fretana” (8.11.2006)
Braulio Tavares

Visitando os sótãos empoeirados da literatura paraibana, achei este romance de Carlos Dias Fernandes, escritor cuja fama fugaz se evaporou na Modernidade. O livro, de 1936, teve uma reedição recente pela Secretaria de Educação do Estado e Edigraf. Fretana é o apelido de Frederico Pestana, poeta e charadista cuja vida é uma cópia da biografia do autor: o nascimento e a infância em Mamanguape, a adolescência no Recife, os estudos de farmácia, a breve passagem pelo Exército, e depois as longas décadas de atividade no jornalismo, na literatura e na política. O romance semi-autobiográfico é o mais cômodo dos gêneros literários. Possibilita ao autor recorrer à memória quando a imaginação está com pouco gás, e recorrer à imaginação quando a memória lhe falha, ou (o que é mais freqüente) quando ele não resiste à tentação borgiana de modificar o Passado.

Carlos Dias Fernandes foi um dos poetas, hoje esquecidos, que marcaram minha infância. Meu pai costuma recitar nas noitadas boêmias seu poema “Miriam”, a história de uma escrava cristã que tem um caso de amor com Pôncio Pilatos. Quando Pilatos avisa que vai casar, por conveniência política, com uma dama, ela se desespera: “Pilatos, meu amor, por onde quer que os destinos / te levem, seguir-te-ão meus olhos peregrinos / como dois cães fiéis... Toda minh’alma é tua. / Todo este coração, que em ânsias tumultua / é teu, vive por ti, por ti se despedaça...” Pilatos explica para ela, na maior cara de pau, que vai ter que deixá-la porque não pode perder aquela chance de ascensão profissional. Miriam, humilde, pergunta-lhe: “E essa mulher, que te despreza – é linda?” E ele: “Linda? Que dizes tu? Divinamente bela! / Tão pulcra, Miriam, que te desprezo por ela, / por minha Cláudia, a flor das patrícias romanas...” Miriam retruca: “Basta! Por Jeová! Que palavras tiranas! / Mas sofrendo-as por ti, deleita-me sofrê-las...”

Perdoem-me os possíveis erros de transcrição; nunca li o livro, e estou citando de memória. Carlos Dias Fernandes era um escritor preciosista, à moda de Coelho Neto. Cada frase sua era ornada com a exuberância de um capitel coríntio. Foi amigo de Cruz e Souza (episódio reconstituído em “Fretana”). Redigiu epigramas e poemas satíricos, as cantigas-de-escárnio-e-maldizer tão cultivadas pelos poetas de cem anos atrás, quando os literatos viviam com um pé na política. O capítulo XX do livro é um pequeno “roman à clef”, previsivelmente partidário, sobre a Revolução de 1930 na Paraíba (chamada de “Microlândia”), onde “Protásio e Jayme Villoa” são respectivamente Epitácio e João Pessoa, o “Coronel Júlio Cerejeira” é José Pereira, “Sotero Veiga” é João Dantas, e assim por diante. “Fretana”, ainda legível sem esforço, é um livro em que o preciosismo do estilo não dilui a observação vívida do ambiente social, nem o retrato de pequenos personagens secundários que, extraídos da memória, têm ao mesmo tempo o colorido da imaginação e o cheiro da verdade.
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MensagemEnviada: Sáb Mai 19, 2007 12:25 pm Responder com CitaçãoVoltar ao Topo

Coloquialismo ou erro de português? (1.3.2007)
Braulio Tavares

Volta e meia a gente está lendo algo num jornal ou revista e encontra um aparente erro de português. Comenta com outra pessoa, e ela diz: “Mas isto não é um erro, é um modo de falar. Eu também digo assim”. Esta é uma questão curiosa, saber onde as autoridades da Língua traçam o limite entre o coloquialismo aceitável em tais ou tais circunstâncias, e o erro propriamente dito, que tem de ser corrigido e ponto final. Publiquei num livro meu um poema onde havia uma linha assim: “Com Rimbaud aprendi ser afinado”. Alguns amigos vieram questionar esta regência direta do verbo, opinando que o certo deveria ser “Com Rimbaud aprendi a ser afinado”. Meu argumento de defesa foi típico dos sujeitos que se alfabetizaram no universo da Cultura Oral: “Oxente, pois Jackson do Pandeiro diz: Bodocongó, Alto Branco, Zé Pinheiro / aprendi tocar pandeiro nos forrós de lá”. Se ele diz “aprendi tocar”, eu posso dizer “aprendi ser”. Um desses amigos coçou gravemente a cabeça grisalha e disse: “Com todo respeito, mas Jackson do Pandeiro não é uma boa referência para abonações do vernáculo”. E ponto final.

O Tempo trata a Língua Portuguesa de modo surpreendente. Quando a gente menos espera, uma regra desmorona e as exceções se apossam das ruínas, com o entusiasmo de bárbaros invadindo os portões de Roma. O formal se dilui no coloquial, e meu exemplo preferido desse processo é o fato de que o pomposo tratamento “Vossa Mercê” foi se deformando em “vossemecê”, daí saltou para o sintético “vosmecê” (tão freqüente em Machado de Assis), no século 20 chegou a “você”, que hoje é a forma preferencial dos gramáticos, embora os paulistas do interior defendam o “ocê” e Caetano Veloso esteja doido para se tornar a principal abonação vernácula do “cê”.

Não é apenas a História que é escrita pelos vencedores, a Gramática também. Se fizermos um cotejo histórico de nossos dicionários, desde o de Morais no século 19 até o Houaiss ou o Aurélio de hoje, veremos que não é apenas o vocabulário científico e técnico que se renova. Também ocorre a consagração de formas impostas pelo uso popular, o qual cria suas próprias jurisprudências lingüísticas e acaba explodindo as regras que não mais comportam as direções tomadas pela prática social. Isto é de lamentar? Na vida do idioma, a única coisa que lamento é que certas palavras sonoras e expressivas acabem apodrecendo e caindo por falta de uso. A oficialização de termos antes tidos como plebeus, no entanto, é uma boa coisa, desde que eles surjam como uma opção a mais, e não como uma forma única, obrigatória. Quando vejo um desses big-brothers dizendo “no meu modo de vista”, acho que é um uso errado, tanto no meu modo de ver quanto do meu ponto de vista. Mas o povo cria suas alternativas de expressão, e “povo”, aí, inclui todo mundo. Se o cara aprendeu falar assim, quem sou eu pra dizer que tenho direito e ele não?
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MensagemEnviada: Sáb Mai 19, 2007 12:29 pm Responder com CitaçãoVoltar ao Topo

É proibido proibir (24.3.2007)
Braulio Tavares

Entre as pichações de paredes de maio de 1968, no movimento estudantil-operário que botou Paris de pernas para o ar, uma das mais famosas é: “É proibido proibir”. Ela deu origem a uma canção de Caetano Veloso (“A mãe da virgem diz que não... e o anúncio da televisão...”) que levou uma tremenda vaia num festival de TV, não por causa da música em si, mas porque Caetano inventou de interpretá-la no palco vestindo roupas de plástico e acompanhado pelas guitarras elétricas que na época estavam provocando uma polêmica interminável na MPB. Reza a lenda que foi Guilherme Araújo, espertíssimo farejador de modismos (que faleceu dias atrás), quem praticamente obrigou Caetano a compor uma música usando este slogan, que, ele previa, ia pegar mais do que chiclete em cadeira de cinema.

Já vi muita gente questionando esta frase. Um professor de Lógica Formal tentou me demonstrar o quanto ela é absurda, visto ser uma frase que nega a si mesma num “loop” recursivo, equivalente ao de “Esta frase é uma mentira”. Ariano Suassuna se insurgiu, em mais de uma aula-espetáculo, contra a permissividade moral que ela implica: “Então quer dizer que se um sujeito quiser estuprar e matar uma criança nós não podemos proibi-lo? Eu, hein!” Um amigo meu, com vocação para professor de Melancolia, afirmou: “Dizem isto porque têm vinte anos e são radicais. Quando tiverem quarenta, dirão que É Coibido Coibir”.

Eu vejo a frase de um modo diferente. Levá-la ao pé da letra, claro, nem pensar. O verdadeiro libertário é contra as proibições, mas sabe que alguma coisa pode ser proibida. O que a frase significava para os rapazes e moças daquele tempo era “Você não pode me proibir todas essas coisas que vive me proibindo”. O “você” em alguns casos eram os pais, em outros casos o governo, e por extensão quem quer que tentasse nos impor uma proibição que sabíamos injusta. Não só injusta como eticamente comprometida. Pais que enchiam diariamente a cara de uísque proibiam os filhos de beber ou de experimentar maconha. A frase tinha então como subtexto: “Você não pode me proibir uma coisa que permite a si mesmo”. Claro que mesmo assim o pai poderia ter seus argumentos para justificar a proibição, mas naquele tempo a maioria dos pais não argumentava com os filhos. “Tá proibido e tamos conversados”. Se o filho recalcitrasse, tome bofete. Por isto, haja barricada nos bulevares, haja carro incendiado e paralelepípedo na testa dos gendarmes.

“É proibido proibir” é uma dessas frases que não exprimem uma verdade lógica. Exprime o dilaceramento emocional de quem experimenta uma situação-limite da qual só consegue se evadir pela ruptura de conceitos, pelo estilhaçamento da razão, pela violentação da lógica, pela afirmação paradoxal e contraditória de uma coisa impossível. Uma afirmação que traz em si uma crispação emocional de revolta e inconformismo, imediatamente reconhecível a quem já tenha se sentido vítima de uma injustiça.
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MensagemEnviada: Sáb Mai 19, 2007 12:30 pm Responder com CitaçãoVoltar ao Topo

Resistência Cultural (25.3.2007)
Braulio Tavares

Às vezes me acontece estar numa mesa-redonda ou coisa parecida e alguém me apresentar assim: “E agora vamos passar a palavra a Braulio Tavares, escritor, compositor, um batalhador da resistência cultural nordestina”. Sei que é um elogio, e que se aplica a mim, até certo ponto; mas gostaria de ir agora um pouco além deste “certo ponto”.

“Resistência” lembra a Resistência Francesa, do tempo da ocupação da França pelos nazistas, na II Guerra Mundial. Indivíduos heróicos, agindo na clandestinidade, lutando contra um ocupante poderoso e bem armado, mas conseguindo atingi-lo de vez em quando por meio de táticas de guerrilha. Lembra também a luta atual de alguns grupos de iraquianos contra a presença do exército americano no país. (Nem todos, é claro. Grande parte não passa de gangues religiosas aproveitando o caos da guerra para liquidar os membros das gangues rivais.) A “resistência” é um movimento que cerra fileiras em torno de um território qualquer que está sendo invadido, e tentar rechaçar esta invasão.

Até aí, tudo bem. Se o nosso time está sendo atacado, precisamos de uma zaga eficiente. A questão é que, quando se trata de cultura nordestina, precisamos de muito mais do que meia-dúzia de zagueiros e volantes rebatendo bolas para a lateral. Precisamos de um meio-de-campo que receba essas bolas e as repasse para um ataque. Ou seja: não basta resistir ao lixo cultural que vem de fora, precisamos exportar o nosso Não-Lixo cultural, invadir os espaços alheios, proclamar a alta qualidade do que fazemos. A melhor defesa é o ataque.

Caetano Veloso, numa canção famosa, disse: “Sejamos imperialistas!” Como tudo que o baiano diz, tem uma ambigüidade crítica muito útil. Criticamos o imperialismo cultural que quer invadir nossa cultura, mas precisamos reconhecer que, se tivéssemos o mesmo poderio econômico deles, faríamos a mesma coisa. Então, tentemos fazê-la mesmo sem ter esse poderio. Sejamos imperialistas. Vamos fazer os filmes de Vladimir Carvalho passarem nos shoppings da Califórnia, vamos promover tributos a Jackson do Pandeiro em Paris, vamos obrigar “The New Yorker” a dar matéria de capa sobre Augusto dos Anjos. Como? Não sei, mas se a Bahia e Pernambuco fazem isso com seus figurões, então não é impossível fazê-lo.

Monteiro Lobato também afirmou: "Nada de imitar seja lá quem for. Temos de ser nós mesmos. Ser núcleo de cometa, não cauda. Puxar fila, não seguir". Lembro isto porque falar apenas de “resistência” acaba tendo uma conotação imobilista, conservadora. Temos que resistir às mudanças impostas de fora, e nesse impulso acabamos resistindo a qualquer mudança, acabamos imobilizando e fossilizando nossa própria cultura. Mas se somos um exército que invade o território alheio não podemos ficar imóveis, temos que nos expor ao imprevisível, ao imponderável, temos que nos adaptar, nos modificar, se quisermos sobreviver. A melhor maneira de resistir à expansão alheia é expandir-se.
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MensagemEnviada: Sáb Mai 19, 2007 12:33 pm Responder com CitaçãoVoltar ao Topo

Literatura e grafismo (1.5.2007)
Braulio Tavares

As experiências de misturar literatura com grafismo são menos freqüentes na prosa do que na poesia, onde temos desde os “caligramas” de Guillaume Apollinaire até as variadas experiências da Poesia Concreta e do Poema Processo. Romances ilustrados eram uma tradição no século 19, mas no século 20, ao que parece, impôs-se um consenso de que livros adultos e sérios deveriam prescindir de “ter figuras”, o que foi relegado para a literatura infantil e outros gêneros considerados menores. Quantos autores contemporâneos, digam-me por favor, têm lançado romances com ilustrações, no Brasil e fora dele?

Na literatura brasileira são poucos os escritores que não apenas escrevem o texto, mas procuram dar-lhe uma ilustração gráfica. Trabalhar em dois canais, por assim dizer. As pseudo-xilogravuras de Ariano Suassuna para “A Pedra do Reino” são o exemplo que tenho mais à mão. O que lhe chega mais próximo é Guimarães Rosa, e o modo como trabalhava em conjunto com seus ilustradores, principalmente em livros como “Primeiras Estórias”. Há também Osman Lins, um autor de perfil peculiar, que chegou a fazer experiências como as de atribuir a um personagem um pequeno símbolo gráfico em vez de nome próprio (“Avalovara”) ou então para indicar com um símbolo abstrato, no início de uma frase, se quem estava falando era o primeiro interlocutor, o segundo ou os dois (em “Nove, Novena”).

Dos mais recentes eu lembro o personalíssimo trabalho de Valêncio Xavier, de Curitiba, e seus livros alternando texto e ilustrações pirateadas. Estas incluíam fotogramas de filmes mudos, anúncios de revista e de almanaque, desenhos, reproduções de pinturas, etc. Além da criatividade dos textos em si, os livros de Xavier (“Minha mãe morrendo” e “Crimes à moda antiga” são os que tenho à mão) são exemplos notáveis de Literatura com uma dimensão a mais.

Fora do Brasil, o mesmo pode ser dito de boa parte da obra de Júlio Cortázar, aquilo que ele chamava de seus “almanaques”. Infelizmente não foram traduzidas integralmente no Brasil (com o projeto gráfico original) obras magníficas como “La vuelta al dia em ochenta mundos” e “Último Round”, onde ele utiliza colagens, cartuns, ilustrações encomendadas, gravuras antigas, fotos, etc., criando um fluxo constante de comentário visual aos textos. O que temos no Brasil é o (também magnífico) “Prosa do Observatório”, um longo poema em prosa com fotos das ruínas de um observatório astronômico na Índia. Alguém pode lembrar “Os Autonautas da Cosmopista”, história de uma viagem de Cortázar com sua mulher Carol Dunlop; mas no caso trata-se (a meu ver) de um livro de viagens com as fotos correspondentes, e não de um texto criativo por si.

Algo de diz que daqui a 50 anos os leitores ficarão perplexos com nossa literatura. “Tentavam dizer tudo usando apenas palavras,” comentarão os jovens. “Que caras limitados! Que caras obcecados! Que caras heróicos!”
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MensagemEnviada: Sáb Ago 04, 2007 11:02 am Responder com CitaçãoVoltar ao Topo

Os fantasmas escritores (18.7.2007)
Braulio Tavares

A revista “Piauí” de junho tem uma matéria de Chico Mattoso, “À Sombra dos Ectoplasmas em Flor”, sobre a literatura mediúnica no Brasil. Este assunto despertou minha curiosidade na infância, quando descobri o “Parnaso de Além Túmulo” com poesias de Olavo Bilac, Augusto dos Anjos e dezenas de outros. Eu, ainda muito pequeno, custava a entender como esse pessoal morria e continuava esvaziando tinteiros. Acreditar no Céu e da Vida Eterna eu conseguia, mas como era possível conciliar essas estratosferas metafísicas e a obrigatoriedade de contar dodecassílabos?

Segundo a “Piauí”, o Brasil tem cerca de 200 editoras de livros espíritas, que vendem 6 milhões de exemplares por ano. A grande maioria são livros atribuídos a espíritos famosos ou a espíritos que se identificam com nomes genéricos como “Emanuel”, etc. Para os mais melindrosos vou logo avisando que minha mãe era espírita e dezenas de parentes meus (tios e tias, primos e primas por quem tenho respeito e afeto) compartilham das crenças kardecistas. Todos já estão acostumados com minha maneira cética de tratar esses assuntos. Não acredito – mas não mango, não menosprezo, e acima de tudo não tenho certeza de que estou certo. Apenas não acredito que alguém continue existindo depois que morre, quanto mais que escreva sonetos!

Chico Xavier (informa a revista) publicou mais de 400 títulos e vendeu mais de 25 milhões de exemplares. A atual líder do mercado é Zíbia Gasparetto, cuja gráfica imprime 500 mil exemplares por mês – nem todos de livros espíritas, pois a empresa também imprime livros por encomenda para outras editoras. Mas não se pode negar que é um mercado em crescimento constante, ainda mais lançando obras de autores que vão de Luigi Pirandello (psicografado por Elifas Alves) até Edgar Allan Poe, Cego Aderaldo e Florbela Espanca (psicografados por Jorge Rizzini).

O episódio mais sintomático é a questão judicial movida em 1944 pela viúva de Humberto de Campos, a quem se atribuíam numerosas obras espíritas psicografadas por Chico Xavier. Esta senhora argumentou, com razão, que se de fato os livros eram escritos pelo falecido esposo então os direitos autorais cabiam a ela, e não ao copista mediúnico. O juiz do caso saiu pela tangente decretando que a propriedade intelectual se encerra com a morte do autor, mesmo que este continue a produzir no Mais Além.

Confesso minha perplexidade em saber que autores estrangeiros são psicografados em português, num processo de tradução simultânea que em muitos casos não me parece sem ruídos, porque até agora não vi nenhuma obra psicografada que me parecesse à altura das obras escritas em vida pelo autor. Será preconceito? Pelo contrário. Quem me dera que autores como Guimarães Rosa, James Joyce, Raymond Queneau ou Jorge Luís Borges pudessem vir matar as saudades deste humilde leitor, com textos à altura dos que escreveram quando assinavam ponto neste vale de lágrimas!
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MensagemEnviada: Sex Nov 16, 2007 8:07 am Responder com CitaçãoVoltar ao Topo

A rima em ão (23.9.2007)
Braulio Tavares

Escrevi dias atrás, que a rima em “ão” só deve ser utilizada em casos extremos. Um dos muitos critérios pelos quais medimos a qualidade poética de um texto é sua dificuldade de execução. Um poeta, como qualquer outro artista, é um cara que cria problemas para si próprio, e os resolve, quase que num único gesto. Pintar um quadro, tocar uma música, contar uma história, tudo isto envolve problemas de “o que fazer” e de “como fazer”. Muitos destes problemas preexistem à obra, mas alguns são criados pelo próprio autor: “Vou escrever um romance sobre jagunços em que só no final fica-se sabendo que um deles é uma mulher”.

Quando um artista escolhe invariavelmente o caminho mais fácil, menos problemático, mais comodista, sentimos um desprezozinho por ele e pela obra. Temos a sensação de que lhe faltaram ousadia, coragem, capacidade técnica; enfim, faltou-lhe talento. “Talento” pode ser descrito como uma fração ordinária onde o denominador são os problemas a resolver e o numerador as soluções que o artista encontra.

A rima em “ão” é uma das mais freqüentes e mais banais da língua portuguesa, e talvez só seja superada pelas rimas dos verbos no infinitivo (andar, beber, sorrir, compor) ou por sufixos de uso constante (-dade, -mente, etc.). Isto ocorre porque esse som, “ão”, que só existe no português, é um som no qual desagüam palavras com várias terminações diferentes. Do espanhol, por exemplo, vêm as palavras terminados em “ano” (hermano/irmão), “ón” (león/leão), “án” (alemán/alemão), etc.

O fato é que “ão” é uma peculiaridade de nossa língua, mas uma peculiaridade abundante. A rima em “ão” é vista pelos artesãos mais sutis como uma rima primitiva, banal, rima invariavelmente pobre e que denota um poeta de poucos recursos. Há um poema muito curioso de Manuel Bandeira, “Cantadores do Nordeste”, em que ele diz: “Anteontem, minha gente / fui juiz numa função / de violeiros do Nordeste / cantando em competição. / Vi cantar Dimas Batista / e Otacílio, seu irmão...” E por aí vai. São 38 linhas, e dezenove delas (as linhas pares) rimam em “ão”.

Ora, Manuel Bandeira foi talvez o poeta brasileiro mais consciente das sutilezas métricas e sonoras de nossa língua (leiam “Itinerário de Pasárgada”, e tirem-lhe o chapéu). Ao tentar reproduzir as cadências e sonoridades da poesia dos cantadores, ele adotou um tom artificialmente primitivo e num certo sentido preconceituoso, como se achasse que repentistas só usam rimas pobres. Posso estar sendo injusto com Manuel, que afinal estava apenas produzindo um poemazinho casual, verso de circunstância; mas a impressão que me dá seu “samba de uma rima só” é de que ele via o “ão” como um sinônimo de primitivismo.

Nos tempos da revista “Garatuja”, o poeta Antonio Cardoso tinha um texto onde falava de um padre estrangeiro que se encantava com o “ão” e o “inho”, sons que só existem no português. São sons raríssimos, e belos. Não devemos desvalorizá-los pelo excesso de uso.
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MensagemEnviada: Sex Nov 23, 2007 7:14 pm Responder com CitaçãoVoltar ao Topo

O Ministério da Poesia (13.10.2007)
Braulio Tavares

Suponhamos que o Brasil evolua, cresça, enriqueça, se desenvolva, a tal ponto que um dia tenhamos cerca de 100 ou 200 ministérios para administrar uma sociedade tão rica e complexa. Talvez o Governo julgue de bom alvitre criar o Ministério da Poesia, a quem caberá definir e executar as políticas públicas de fomento à atividade poética no país. Uma das primeiras coisas que o Ministério fará será regulamentar a profissão, com a exigência de diploma universitário. Um poeta terá que ser formado nesses cursos, que não brotarão do nada: serão cursos de graduação desmembrados a partir dos cursos já existentes.

Se esse fato se desse hoje, provavelmente os cursos de Bacharelado e Licenciatura Poética brotariam das nossas faculdades de Letras. Mas como isto não deverá ocorrer nem hoje nem num futuro imediato, não é impossível que venham a surgir no seio dos cursos de Comunicação e Marketing, direção em que a poesia atual vem se encaminhando de forma consistente nas últimas décadas.

Um convênio com o Ministério do Trabalho deverá regulamentar o exercício da profissão, estabelecendo a famosa “tabela de remuneração mínima”, como existe hoje para os músicos, que têm um piso de cachê para show ao vivo e para hora de estúdio. Digamos que a preço de hoje o poeta tenha garantido o pagamento de um real por linha, no ato da aceitação do poema pela revista ou pela editora. Nada mau. Uma mera revista de ficção científica, como a “Asimov’s”, paga aos poetas de FC um dólar por linha, mas estabelece um máximo de 40 linhas (se não, o cara mandava um troço do tamanho dos “Lusíadas” e ficava rico).

Aí vai começar uma questão delicada. Grupos de trabalho interministeriais, ou comissões mistas, reunir-se-ão em torno de imensas mesas de mogno, abastecidos por suprimentos incessantes de cafezinho, adoçante e água gelada, para definir o que é poesia. A tarefa parece titânica e inalcançável, mas não subestimemos, amigos, os poderes de uma Comissão Federal. Comissões federais bem podem repetir o famoso verso de Torquato Neto: “Eu posso, eu quero, eu quis, eu fiz”. Se a existência de Deus ou o tamanho do Universo não estão comprovados até hoje, foi porque não ocorreu a ninguém a criação de uma comissão mista para fazê-lo.

Problemas surgirão; é a lei da vida. Os não-poetas se sentirão compreensivelmente marginalizados ao ser-lhes proibido o exercício não-regulamentado dessa atividade. Surgirá talvez um movimento reivindicando cotas, e aí em cada livro de poesias 10% das páginas serão reservadas para a inclusão de poemas redigidos por operários, campônios, médicos, engenheiros ou (mais provavelmente) concunhados e primos em terceiro grau dos membros da comissão ministerial, “para que a vivência e os benefícios morais da atividade poética sejam democraticamente estendidos a todos os setores representativos da nossa diversidade étnica e social”.
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MensagemEnviada: Sáb Dez 15, 2007 9:58 am Responder com CitaçãoVoltar ao Topo

Referências literárias (27.10.2007)
Braulio Tavares

“Quais as referências literárias da sua escrita?” A resposta que damos a esta pergunta revela mais sobre nossas fantasias do que sobre nossa prática. Vejo muitos poetas jovens sendo entrevistados, mercê da publicação de seu primeiro livro, e quando lhes perguntam suas referências literárias, ou os autores que os influenciaram, abrem um leque impressionante: “Fui muito influenciado por Dante, Homero, Camões, Garcia Lorca, Pablo Neruda, Rimbaud, Baudelaire, Manuel Bandeira, Carlos Drummond, João Cabral e Mário Quintana”. Eu tenho vontade de cair ajoelhado no chão e gritar: “Caramuru! Caramuru!”

Será possível que um único poeta consiga ter influência simultânea de tanta gente, e de gente tão diferente entre si? Duvido muito. Quando o jovem poeta confessa que leu esse pessoal está afirmando que sentiu-se emocionado e transformado pelo que leu, e que ao escrever tem a ambição íntima de causar nos seus futuros leitores o mesmo tipo de emoção e de transformação. É a isto que ele chama “influência” – o fato de que a leitura daqueles autores o modificou pra sempre.

A palavra influência nos induz a pensar em ascendência, poder. É a pressão de uma personalidade mais forte sobre uma mais fraca, dizendo-lhe o que dizer, e como. Mesmo ausente, mesmo manifestando-se apenas através da obra, a personalidade mais forte encontra pouca resistência naquele espírito geralmente jovem, ávido de experiências, ansioso para dizer algo mas sem saber o quê e como. O jovem leitor de Baudelaire torna-se um psicógrafo de Baudelaire, mesmo que o que há de Baudelaire em seus escritos seja imperceptível, ou seja redundante. O jovem cineasta defende-se das críticas com veemência: “Claro que a câmara está tremendo, e com a luz estourada! É Glauber!”

Não é Baudelaire e não é Glauber, mas não é esse o problema. O problema é que na obra também não se percebe o Fulano que fez aquilo. As influências estilísticas são as mais difíceis de domesticar, porque nos autores de origem aqueles recursos exprimiam uma visão das coisas, e na obra dos influenciados exprimem apenas a ausência de uma visão qualquer.

Quando admiramos algum aspecto técnico da obra de um artista, deveríamos nos dedicar a copiá-lo, a reproduzi-lo, até sermos capazes de dominá-lo. Mozart era capaz de imitar e parodiar qualquer compositor de sua época. Hunter Thompson decorava e datilografava textos inteiros de Hemingway, para absorver seu ritmo. A obra dos Beatles é um vasto panorama de técnicas alheias copiadas tintim por tintim. Uma influência é como um cavalo selvagem, que joga você no chão cada vez que você tentar obrigá-lo a ir para onde você quer. Mas ela pode ser domesticada, pode ser transformada em técnica, recurso, instrumento que utilizamos quando precisamos de uma voz narrativa específica, de um timbre sonoro, de um colorido, um tema. Deveríamos poder dizer algo como: “Dez por cento do que faço eu peço emprestado a Baudelaire, a Fellini, a Portinari”.
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MensagemEnviada: Qua Jan 30, 2008 3:49 am Responder com CitaçãoVoltar ao Topo

Alberto Cunha Melo (9.1.2008)
Braulio Tavares

O ano de 2007 levou consigo muita gente no mundo das artes – talvez Ingmar Bergman e Michelangelo Antonioni tenham sido os nomes de maior repercussão internacional. Uma perda que me tocou de perto foi a do poeta Alberto Cunha Melo, que não sei se tenho o direito de chamar de amigo, porque nos encontramos apenas uma meia dúzia de vezes nos anos 1980, quando ele era (com Jaci Bezerra) um dos capitães das Edições Pirata, de Recife, onde publiquei meu primeiro livro de poemas em 1980. Nascido em Jaboatão em 1942, Alberto viveu a vida inteira (creio) no Recife. Era um grande admirador da poesia popular, e tenho aqui comigo seus fininhos mas preciosos livros sobre Job Patriota e Lourival Batista.

Como diz ele no poema “Alguma Pressa na Calçada”, “as pessoas se descobrem / muito tarde: / só se vêem / e se falam / (mesmo) / quando já passaram”. Mais peso do que as amizades pessoais tem, às vezes, a leitura calada e constante do que é escrito por alguém que apenas cumprimentamos à distância. Seu livro “Noticiário” (1979) me fez companhia em muitas viagens e mudanças, e não acho que seja pretensão de minha parte perceber sua influência sobre a dicção de numerosos textos de meu segundo livro (“Sai do meio que lá vem o filósofo”, 1982). Alberto fazia uma poesia madura e corajosa que olhava o Brasil como ele é. “Mas, às vezes, despertamos / para salvar / aqueles que se afogam / nas águas do nosso despertar” (“Nos Escombros da Comunidade”).

Os poemas curtos desse livro têm uma ternura e uma crueldade que lembram os melhores poemas de Brecht: “É assim que um homem / começa a sobrar na terra. / Justamente quando começa / a dispersar em suspiros / sua grande explosão” (“Neo-Romantismo à Nordestina”). São poemas que vão de cinco ou seis linhas até quinze ou vinte, sem forma fixa, mantendo um ritmo coloquial, coeso, que não exclui uma surpresa verbal a cada verso, uma imagem insólita, uma comparação dolorosa e verdadeira. Como quando ele diz (em “Operação Fênix: Relatório”) que “as crianças sempre encontram / muita coisa para brincar / depois dos bombardeios”. Ou quando, em “Aos Poetas Patriotas”, ironiza o trabalho burocrata dizendo: “estive sempre em salas / onde o tempo e as mãos / eram mais vigiados / do que o céu pelos camponeses”. Ou quando diz em “Help aos Periféricos”: “Londres pedia socorro / aos que nela buscavam / refugiar-se”.

Alberto morreu em outubro passado, de complicações surgidas após um transplante de fígado. Muito material seu pode ser encontrado em seu saite: http://www.albertocmelo.com/. Dele guardo os versos de “Oração Pelo Poema – XXVI”: ““A cem quilômetros por hora, / solto a direção do automóvel / para escrever alguma coisa / mais urgente que minha vida. / (...) Ó meu Deus, eu quero escrever / a minha vida, não teu Céu. / Eu estou só e enlouquecido / como as ovelhas mais longínquas. / Dá pelo menos a esperança / de terminar o doloroso / poema. Dá isso a teu filho, / caído, e coberto de sal”.
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MensagemEnviada: Sex Fev 29, 2008 10:05 am Responder com CitaçãoVoltar ao Topo

Definições de poesia (8.2.2008)
Bráulio Tavares

Qualquer livro sobre poesia se vê na obrigação de fornecer uma definição, o que é virtualmente impossível, porque a poesia foi e é praticada em contextos culturais muito diferentes, que valorizam diferentes aspectos dela. Em vez de definições (que são, também por definição, uma fórmula universalista capaz de se adaptar com justeza a qualquer espécimen considerado) o que temos são descrições, que registram nosso contato com um espécimen, mas talvez não valham para espécimens diferentes (ou seja: definições partem do geral para o particular, descrições fazem o caminho inverso).

Minha descrição de poesia (prática, utilitária, para uso doméstico, sem pretensões científicas)
é: “Forma de criação literária em que se busca uma linguagem auto-referencial, mais condensada do que a da prosa, sujeita a mais nuances de interpretação, e na qual o ritmo, as repetições e os aspectos sensoriais e visuais do texto têm maior importância”. Acho que isto cobre uma área muito grande da poesia, tendo a vantagem de reconhecer a importância do ritmo e das repetições, mas sem receitar a métrica e a rima como elementos obrigatórios.

A palavra “poesia” vem do grego “poiesis” que, se não me engano, exprime conotações de artesanato, coisa feita com capricho, criação que é fruto da habilidade técnica. A interferência transformadora da ação humana sobre a massa informe da realidade – no caso, a massa informe das palavras, que quando “em estado de dicionário” são rasas de significado, mas que têm esse significado potencializado ao infinito pela articulação poética.

Robert Frost dizia que “Poesia é aquilo que se perde na tradução”. Ou seja: poesia é algo que não está no texto, mas na tessitura dos subtextos, das conotações, das associação indiretas de idéias que se acumulam por baixo daquelas palavras. Traduzir as palavras é perder essa rede de nuances, e, na melhor das hipóteses, substituí-la por outra que não estava nos planos do autor do texto original. Esta incapacidade de transpor nuances de uma língua para a outra lembra a frase de (creio) Goethe, segundo a qual “traduzir poesia é como empalhar raios de sol”. E o tradutor Paulo Rónai perguntava: “E por acaso escrever poesia não será exatamente a mesma coisa?”

Frost também dizia que ninguém deve dizer “eu sou um poeta”, porque “poeta” é uma palavra de louvor, de aclamação. A condição do poeta não é algo que pode ser definido pelo Ego, é algo que o Ego torna manifesto. É percebido “de fora”, mas não pode ser controlado “de dentro”. É uma honraria social, um sinal de que as coisas que aquele indivíduo diz têm significado especial para o seu grupo. O cara pode não ser poeta no grupo e na época em que vive, mas, mil anos depois, talvez seus versos sejam encontrados e relidos de outra forma. Ou seja, a posteridade pode criar nuances de sentido que não ocorreram aos contemporâneos do poeta. É um dos sonhos que nos servem de consolo nos momentos mais difíceis.
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MensagemEnviada: Sex Mai 23, 2008 2:08 pm Responder com CitaçãoVoltar ao Topo

A arte do acróstico (3.5.2008)
Braulio Tavares

Um acróstico é um texto, geralmente em verso, em que certas letras em posições especiais devem ser lidas em seqüência, formando uma ou mais palavras. O acróstico é uma variante da técnica a que chamamos “acrônimo”, que utiliza este mesmo processo para a formação de siglas. No caso do acróstico, o uso mais freqüente se dá com as letras iniciais dos versos de um poema. Lidas verticalmente (muitas vezes elas vêm destacadas em itálico ou negrito, para forçar essa leitura), formam um texto qualquer.

Muitas vezes se usa como homenagem explícita ou disfarçada. Edgar Allan Poe, que gostava de criptografias, tem um poema (“Valentine”) dedicado a Fanny Osgood, uma dama a quem fez a corte durante algum tempo. Como seu nome completo era Frances Sargent Osgood, ele compôs um poema de vinte linhas, em que o nome da namorada podia ser lido verticalmente juntando-se a primeira letra da primeira linha, a segunda da segunda linha, a terceira da terceira e assim por diante. Não sei se ele fazia isso para se divertir ou porque a sua musa era casada (apesar de já separada do marido nessa época).

Os acrósticos comuns têm a vantagem de usarem apenas a primeira letra de cada linha, e assim ficam mais fáceis de ser lidos verticalmente. São assim os acrósticos usados na literatura de cordel como assinatura disfarçada. Na última estrofe, o autor insere um acróstico de seu próprio nome como carimbo de autoria. Assim é que “O Castelo do Diabo” de João José Silva termina com a estrofe: “Juntaram-se em matrimônio / O Gino foi vencedor / Sua existência floriu / Indo ser governador / Levando seu anjo amado / Vendo sorrindo a seu lado / A rosa do seu amor”, o que dá JOSILVA. O “Romance do Escravo Grego” de João Martins de Athayde finda com a estrofe: “Assim Eli a orgulhosa / Teve de ser abatida / A rainha de Navarra / Insensível, presumida / Deu seu amor a um escravo / E veja o que é a vida”, ou seja, ATAIDE.

O compositor John Cage, outro que gosta de jogos verbais, criou a partir do acróstico o conceito de “mesóstico”: um nome ou uma frase são escritos verticalmente, e o poema se desenrola de modo a incluir aquelas letras. Cada letra do nome-chave determina uma linha do poema, mas em vez de aparecer no começo aparece em qualquer trecho, desde que a palavra possa ser lida verticalmente.

Pode parecer bobagem, mas os exemplos de Poe, dos cordelistas e de Cage mostram que é possível encriptar um texto sem muita dificuldade, e de maneira imperceptível a uma leitura casual, ou mesmo a uma procura atenta. Os acrósticos do cordel deixaram de ser úteis quando todo mundo tomou conhecimento deles – quando alguém pretendia republicar o texto como seu, bastava-lhe alterar ou suprimir o acróstico final. Mas se o acróstico vier sob outra forma de camuflagem (como as sugeridas por Poe ou Cage) dificilmente um plagiador ou pirata saberá onde mexer para eliminar a assinatura que o verdadeiro autor deixou ali encriptada.
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MensagemEnviada: Sex Jul 11, 2008 8:05 am Responder com CitaçãoVoltar ao Topo

Ficção interativa via Web (14.6.2008)
Braulio Tavares

No tempo em que eu ainda usava máquina de escrever, e nunca tinha nem chegado perto de um computador, escrevi um conto de ficção científica (“Paperback Writer”) em que num futuro remoto as pessoas se reuniam num teatro para assistir um concerto de literatura. O concertista subia ao palco, sentava ao teclado, e começava a escrever; o texto aparecia num telão ao fundo do palco, sendo lido por toda a platéia. Em momentos-chave da história, o escritor parava e pedia sugestões à platéia sobre o que deveria acontecer em seguida. No braço de cada poltrona havia um teclado com um “menu” de opções, e cada espectador votava numa delas. Na tela, aparecia a opção escolhida pela maioria; e o concertista recomeçava a escrever, direcionando a história de acordo com a vontade da platéia.

Não era preciso conhecer computadores para saber que eles se prestariam a coisas assim, porque o gérmen disto já existia desde os folhetins europeus do século 19. As telenovelas de hoje pesquisam através do Ibope para colher opiniões sobre o destino preferencial dos personagens – quem morre, quem casa com quem, quem é premiado, quem recebe castigo. E os leitores mais jovens devem conhecer as incontáveis séries de livrinhos do modelo “Escolha sua Aventura”, nos quais, ao fim de cada capítulo, o leitor se depara com opções tipo: “Se você quer que o detetive desça para examinar o porão, vá para o capítulo 25. Se prefere que ele saia e persiga o vulto que avistou no bosque, vá para o 31”.

Uma experiência de literatura interativa foi iniciada no saite da Underland Press (http://www.underlandpress.com/wovel.cfm), onde o escritor Brian Evenson está escrevendo uma história que mistura zumbis e trama policial, e os leitores votam nos momentos cruciais da história. Eles chamam a isto “Wovel” (“web novel”), e aqui vai a descrição fornecida no saite:

“Toda semana, o autor posta um segmento da história. Um segmento tem a duração ideal para leitura online: longo o bastante para manter o interesse, curto o bastante para poder ser lido no escritório, durante o trabalho. No fim de cada segmento, o autor coloca um ponto de bifurcação. Deve a heroína matar seu amante? Os zumbis agarrarão o soldado? A caixa está vazia, ou cheia de insetos? Os leitores decidem. Na 2a-feira, o texto é postado. A votação dos leitores se estende até a 5a. O autor escreve o segmento seguinte na 5a. e 6a. Os editores editam a página na 6a. e sábado. O novo segmento editado vai ao ar na 2a. Parte literatura, parte cadáver-delicado, reunindo o ritmo do jornalismo impresso, a imaginação da ficção, e a centelha da participação dos leitores”.

A referência ao “cadáver-delicado” recorda um jogo dos surrealistas dos anos 1920, com esse nome, em que várias pessoas escreviam um texto coletivo, sem ver o que os demais haviam escrito. O uso da Web pode trazer para a história centenas, talvez milhares de votantes. É um dos muitos caminhos para a ficção atual.
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