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Mensagem |
Luiz Alberto Machado
Mensagens: 1345
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Enviada:
Sex Jul 27, 2007 4:50 pm |
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eternidade
geraldo carneiro
para os estóicos o tempo não era
a mera caravana dos sucessos,
essa aventura quase sempre sem sentido
no rumo da anti-Canaã,
a terra onde não há qualquer Moisés
extravagando no Deserto dos Sinais
existe assim um outro tempo, imóvel,
no qual paira a palavra impronunciada,
o mito, sendo tudo e nada,
e idéias como flores ainda à espera
de outra Era ou só da primavera
e da decifração posterior
em suma, se os estóicos não criaram
um sistema solar irresistível
capaz de orientar a órbita dos astros
e as caravelas do conquistador,
em troca talvez tenham inventado
a melhor metáfora do amor
in Lira dos Cinqüent'anos, Relume-Dumará, 2000.
PS: não deixe de ver a entrevista que Geraldo Carneiro concedeu ao Guia de Poesia. |
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Luiz Alberto Machado
Mensagens: 1345
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Enviada:
Sex Jul 27, 2007 6:13 pm |
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ABAIXO A REALIDADE
Tema: Santo (1)
Quase todo santo vive a experiência do êxtase, a exaltação mística, uma espécie de pas-de-deux com o absoluto. Aliás, a idéia do êxtase é anterior ao próprio conceito de santidade: os gregos já davam esse nome ao estado daquele que se transporta para fora de si, criando assim um vazio a ser ocupado por Apolo e pelas Musas, se você é um poeta, ou por Dionisos, se você é um ator ou um pé de cana.
Não é preciso ser santo para experimentar pelo menos em parte a sensação do êxtase. Todos tivemos momentos semelhantes, alcançados sob a influência do vinho, ou durante os instantes de grande alegria. Ou no encantamento provocado pelo amor. Como se pode conferir neste poema, que se chama Iluminação e que diz:
Depois de outro verão em teus países
/baixos
Onde bailei funâmbulo e feliz
Enquanto as almas conversavam lá no alto
No cordame de Notre Dâme de L’Espoir,
A nau dos insensatos corações,
Me vi no céu sob um dossel de estrelas
Num carrossel de colombinas querubinas
E outros desses seres lá do Empíreo
E pensei: de duas, uma:
Ou os deuses te puseram por engano
À mercê de minhas maquinações
Ou sou um místico ainda irrevelado,
Um novo São João da Cruz,
E você é o meu Êxtase,
O resto são as drogas da estação.
Texto escrito para o programa Comentário Geral, da TVE, exibido às quintas e sábados.
Iluminação in Lira dos Cinqüent'anos, Relume-Dumará, 2000 |
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Luiz Alberto Machado
Mensagens: 1345
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Enviada:
Seg Ago 13, 2007 4:06 pm |
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o não-decifrador
geraldo carneiro
tudo que escrevo foi talvez escrito
ou sonhado por outro antes de mim.
minhas metáforas não me pertencem.
a língua me sugere seus enigmas,
o que me cabe é apenas recifrá-los
como um decifrador a quem não fosse
revelada a chave do código.
a desrazão me inspira
e ao meu redor
vou inventando o mundo em que me amparo.
me falta o credo para chamr de alma
aquilo que me anima os meus amares.
no entanto sei que há vozes aqui dentro,
sou tão médíocre quanto qualquer ser
que habite nesta esfera.
sei que o ar é raro rarefeito
feito de um sopro cuja cor me escapa
embora a flor se ofereça no meu sonho
(in Balada do Impostor, 2006, Garamond) |
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Luiz Alberto Machado
Mensagens: 1345
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Enviada:
Sáb Ago 18, 2007 3:11 pm |
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metafísica no botequim
para John Neschling
já naufraguei no pântano do nada
mas me salvei puxando meus próprios
/cabelos
como o Barão de Münchausen
e inventando a vida antes que ela se
precipitasse
no caos
ou se deixasse abater como ave
na aventura-vôo de viver
(e por favor não venha me falar
em Nietzsche
senão vai constranger a minha amada,
porque ela já pensou que Schopenhauer
era uma marca de cerveja)
(11.08.07) |
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Luiz Alberto Machado
Mensagens: 1345
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Enviada:
Dom Set 16, 2007 11:04 am |
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à maneira do Pessoa
eu não sei nada.
não sei, por exemplo, onde fica a Abissínia,
a Bessarábia, nem o Sri Lanka
(minto, o Sri Lanka, sim, suponho
seja a porção ao sul do Mar das Índias,
antigo Ceilão, cuja capital,
em minha geografia improvável,
deveria se chamar Sei Lá)
não sei em que descaminhos da História
perdi o Congo Belga e Madagascar.
só conheço as províncias da ficção
essas, felizmente, imutáveis:
Shangri-lá, Pandemônio, Xanadu
e outros eldorados da imaginação.
desconheço os mistérios da semântica,
misturo alhos e bugalhos,
nenúfares e putifares;
não sei por que torções a linguagem
se empavona ou se desempluma;
em suma, só admiro as palavras
como o selvagem admira um helicóptero.
a despeito dessa imensa ignorância
às vezes por acaso me deparo
com uma cena, um gesto, uma palavra
cujo esplendor desperta um mar de ressonâncias.
e de repente a insolência do sol
ilumina as minhas trevas
e eu sou como um deus parindo o mundo.
in Lira dos Cinquent'anos, Editora Relume-Dumará, 2002 |
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Luiz Alberto Machado
Mensagens: 1345
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Enviada:
Sex Out 19, 2007 3:22 pm |
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bazar de espantos
eu não tenho palavras, exceto duas
ou três que me acompanham desde sempre
desde que me desentendo por gente,
nas priscas eras em que era eu mesmo.
agora sou uma espécie de arremedo,
despido das minhas divinaturas.
já não me atrevo ao ego sum qui sum.
guardo no entanto em meu bazar de espantos
a palavra esplendor, a palavra fúria,
às vezes até me arrisco à palavra amor,
mesmo sabendo por trás de suas plumas
a improvável semântica das brumas
o rastro irremediável de outro verso
ou quem sabe a sintaxe do universo
(in Balada do Impostor, Garamond, 2006)
álbum de retratos
tinha uma coisa abstrata
chamada amor
e tinha a flor na sua encarnação
mais encarnada.
fui ver as outras flores na CEASA
e num jardim suspenso sobre o mundo
onde presenciei a reinvenção da rosa.
S.P., 23/09/2007
Nice-Rio de Janeiro, 1975
já naveguei ao largo de Noronha
num navio que se chamava Augustus.
depois ele partiu, foi recolher-se
aos estaleiros para nunca mais.
foi a viagem derradeira dele
e foi o meu princípio.
alguma coisa sempre chega ao fim
quando outra, inesperada, principia.
(poema inédito)
à flor da língua
uma palavra não é uma flor
uma flor é seu perfume e seu emblema
o signo convertido em coisa-imã
imanência em flor: inflorescência
uma flor é uma flor é uma flor
(de onde talvez decorra
o prestígio poético das flores
com seus latins latifoliados
na boca do botânico amador)
a palavra, não: é só florilégio
ficção pura, crime contra a natura
por exemplo, a palavra amor
in Folias Metafísicas, Editora Relume-Dumará, 1995
à maneira do Pessoa
eu não sei nada.
não sei, por exemplo, onde fica a Abissínia,
a Bessarábia, nem o Sri Lanka
(minto, o Sri Lanka, sim, suponho
seja a porção ao sul do Mar das Índias,
antigo Ceilão, cuja capital,
em minha geografia improvável,
deveria se chamar Sei Lá)
não sei em que descaminhos da História
perdi o Congo Belga e Madagascar.
só conheço as províncias da ficção
essas, felizmente, imutáveis:
Shangri-lá, Pandemônio, Xanadu
e outros eldorados da imaginação.
desconheço os mistérios da semântica,
misturo alhos e bugalhos,
nenúfares e putifares;
não sei por que torções a linguagem
se empavona ou se desempluma;
em suma, só admiro as palavras
como o selvagem admira um helicóptero.
a despeito dessa imensa ignorância
às vezes por acaso me deparo
com uma cena, um gesto, uma palavra
cujo esplendor desperta um mar de ressonâncias.
e de repente a insolência do sol
ilumina as minhas trevas
e eu sou como um deus parindo o mundo.
in Lira dos Cinquent'anos, Editora Relume-Dumará, 2002
estrela da manhã
(para A.P.P)
tomara que um dia
o incerto se torne certo
os poemas indizíveis
sejam dizíveis
e os poemas dizíveis
sejam indizíveis
-*-
o mar da vida
o mar da minha vida
é feito de desejos destronados
o ar o arabesco a arquitetura
tudo que sonho sempre me ultrapassa
e fica essa memória que não passa
daquilo que, vivendo, não vivi.
meu coração inventa seus navios,
sou corsário no rumo do poente
entre as antilhas que me descobri.
vou singrando as avenidas da noite
alastrado de estrelas e relâmpagos
com meu lastro de sol e de alegria.
um dia chegarei ao mar-oceano,
serei senhor dessa fragata-vida
-*-
metafísica no botequim
para John Neschling
já naufraguei no pântano do nada
mas me salvei puxando meus próprios
/cabelos
como o Barão de Münchausen
e inventando a vida antes que ela se
precipitasse
no caos
ou se deixasse abater como ave
na aventura-vôo de viver
(e por favor não venha me falar
em Nietzsche
senão vai constranger a minha amada,
porque ela já pensou que Schopenhauer
era uma marca de cerveja)
(11.08.07) |
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Iremar Marinho de Barros
Mensagens: 143
Localização: Maceió - AL
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Enviada:
Sex Out 19, 2007 9:03 pm |
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Caro Editor Luiz Alberto Machado,
Parabéns por nos trazer a belíssima poesia de Geraldo Carneiro, na Lira dos Cinquent'anos. Como se vê é uma vertente moderníssima (sem modismos) da poesia brasileira, que ainda enriquece a nossa música popular.
Queremos mais.
Abraços,
Iremar Marinho |
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Luiz Alberto Machado
Mensagens: 1345
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Enviada:
Sáb Out 27, 2007 2:27 am |
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exílio
(para Ana Paula Pedro, minha namorada)
se um dia eu for banido para o Sul
farei da beira-mar o meu castelo
não Inverness ou any Lake com Lock
Ness
mas no meu reino será sempre verão
e todas as coisas-não
serão expatriadas para o Norte
que é onde mora a morte,
aqui, mesmo quem sonha em ser suicida,
terá de celebrar somente a vida
(publicado em 26.10.07)
Agenda à beira-mar
Na quinta, 30, às 18:30. GC dá entrevista a Marcus Vinicius Quiroga, na abertura do Festival Carioca de Poesia, no Teatro Gláucio Gil.
Na sexta, 31, GC faz sarau de poesia e prosa em homenagem a Francis Hime, a convite de Ricardo Cravo Albin, no Largo da Mãe do Bispo. |
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Pupila
Mensagens: 3692
Localização: São Paulo
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Enviada:
Sáb Out 27, 2007 9:29 pm |
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| Luiz Alberto Machado escreveu: |
exílio
(para Ana Paula Pedro, minha namorada)
se um dia eu for banido para o Sul
farei da beira-mar o meu castelo
não Inverness ou any Lake com Lock
Ness
mas no meu reino será sempre verão
e todas as coisas-não
serão expatriadas para o Norte
que é onde mora a morte,
aqui, mesmo quem sonha em ser suicida,
terá de celebrar somente a vida
(publicado em 26.10.07)
Agenda à beira-mar
Na quinta, 30, às 18:30. GC dá entrevista a Marcus Vinicius Quiroga, na abertura do Festival Carioca de Poesia, no Teatro Gláucio Gil.
Na sexta, 31, GC faz sarau de poesia e prosa em homenagem a Francis Hime, a convite de Ricardo Cravo Albin, no Largo da Mãe do Bispo. |
Maravilha!
Geraldo C
celebrando a poesia e a vida!
beijos poéticos |
_________________ *ADESÃO AO POST ÚNICO - EM ASSUNTO: POEMAS DE...; DEPOIS use só o RESPONDER para novas postagens. *"INTERAJA com outros Membros";menos postagens e mais qualidade em comentários.
MAÍSA CRISTINA *Pupila
Membro Moderador do Fórum do Guia de Poesias. |
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Luiz Alberto Machado
Mensagens: 1345
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Enviada:
Sáb Nov 10, 2007 10:02 am |
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física e metafísica
confundo os dias fastos e nefastos.
sou sempre o mesmo, mesmo não querendo.
vário, talvez, mas conhecendo o estilo
com que desfilo, os filamentos que se
esgarçam
as graças de que desfruto
o usufruto desta vida cheia de bem
e de mal
tenho por céu o que não me pertence,
o que paira no ar sem que eu perceba.
por inferno? talvez esta estrutura
em que me confino, sempre à revelia.
um dia hei de ser múltiplo de mim
do fim até o princípio
deixarei de ser esse mercado persa
minha alma enfim se encontrará comigo
ou vice-versa
Geraldo Carneiro
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Luiz Alberto Machado
Mensagens: 1345
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Enviada:
Sáb Nov 17, 2007 11:05 am |
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insurreição
sou um animal em surto de poesia
devoto das revoltas do lirismo,
essa loucura que nos foi legada
por clandestinação e patrimônio.
não sei quem sou exposto assim em postas
nas imposturas por mim mesmo impostas
ou por outorga de algum deus insano,
ateu ou fariseu ou muçulmano.
tenho como destino o finismundo,
os precipícios dessa primavera
que já se fez verão, é quase outono.
espero um mínimo de lucidez
na dança dos meus ventos invernais,
embora isso pareça-me improvável,
por falta de navio, âncora e cais.
Geraldo Carneiro
(extraído de Balada do Impostor, Garamond, 2006) |
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