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FLORBELA ESPANCA. Em forma de diário. Exibir próxima mensagem
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bbrian



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MensagemEnviada: Qua Mai 26, 2010 11:25 am Responder com CitaçãoVoltar ao Topo

Anseios


Meu doido coração aonde vais,
No teu imenso anseio de liberdade?
Toma cautela com a realidade;
Meu pobre coração olha que cais!


Deixa-te estar quietinho! Não amais
A doce quietação da soledade?
Tuas lindas quirneras irreais,
Não valem o prazer duma saudade!


Tu chamas ao meu seio, negra prisão!
Ai, vê lá bem, ó doido coração,
Não te deslumbres o brilho do luar!...


Não 'stendas tuas asas para o longe..
Deixa-te estar quietinho, triste monge,
Na paz da tua cela,a soluçar...
FLORBELA ESPANCA


VÔO DA ALMA

Anseio viver
Até que o coração sossegue
A voz cale
Os pulsos cerrem

Imensas asas abertas
Pousem serenas
Em outro lugar.

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bbrian



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MensagemEnviada: Qua Mai 26, 2010 2:51 pm Responder com CitaçãoVoltar ao Topo

Eu ...


Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho,e desta sorte
Sou a crucificada ... a dolorida ...


Sombra de névoa tênue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida!...


Sou aquela que passa e ninguém vê...
Sou a que chamam triste sem o ser...
Sou a que chora sem saber porquê...


Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver,
E que nunca na vida me encontrou!
FLORBELA ESPANCA


DONZELA, MÃE E ANCIÃ

Procuro-me na imensidão do universo
Sob a inspiração de Gaia,
Sou estrela
Arco-íris
Ou Cometas

Baldado encontro
Nebuloso intervalo, entre o céu e a terra
Sou pequeno grão de areia

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bbrian



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MensagemEnviada: Sex Mai 28, 2010 2:03 pm Responder com CitaçãoVoltar ao Topo

Desejos vãos


Eu queria ser o Mar de altivo porte
Que ri e canta, a vastidão imensa!
Eu queria ser a Pedra que não pensa,
A pedra do caminho, rude e forte!


Eu queria ser o sol, a luz intensa
O bem do que é humilde e não tem sorte!
Eu queria ser a árvore tosca e densa
Que ri do mundo vão é ate da morte!


Mas o mar também chora de tristeza...
As árvores também, como quem reza,
Abrem, aos céus, os braços, como um crente!


E o sol altivo e forte, ao fim de um dia,
Tem lágrimas de sangue na agonia!
E as pedras... essas... pisá-as toda a gente!...
Florbela Espanca - Fanatismo


Minh’alma, de sonhar-te, anda perdida
Meus olhos andam cegos de te ver!
Não es sequer razão do meu viver,
Pois que tu es já toda a minha vida!


Não vejo nada assim enlouquecida...
Passo no mundo , meu Amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida!


"Tudo no mundo é frágil, tudo passa..."
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim!


E, olhos postos em ti, digo de rastros:
"Ah! Podem voar mundos, morrer astros,
Que tu es como Deus: Princípio e Fim!..." FLORBELA ESPANCA


DESAMOR
Ante a dor imposta à face
Coração sangrando, hemorrágico
Enxugastes o rosto no sudário branco

Homens cruéis
Carrascos certos
Coberto véu, ateus infantes.

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MensagemEnviada: Qua Jun 02, 2010 10:27 pm Responder com CitaçãoVoltar ao Topo

O meu impossível


Minh'alma ardente é uma fogueira acesa,
É um brasido enorme a crepitar!
Ânsia de procurar sem encontrar
A chama onde queimar uma incerteza!


Tudo é vago e incompleto! E o que mais pesa
É nada ser perfeito. É deslumbrar
A noite tormentosa até cegar,
E tudo ser em vão! Deus, que tristeza!...


Aos meus irmãos na dor já disse tudo
E não me compreenderam!... Vão e mudo
Foi tudo o que entendi e o que pressinto...


Mas se eu pudesse a mágoa que em mim chora
Contar, não a chorava como agora,
Irmãos, não a sentia como a sinto!...FLORBELA ESPANCA


IMPOSSÍVEL

Nada que nao passe
Ultrapasse

Nada ilegível
Indecifrável,

Tudo é real, subentendido.

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bbrian



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MensagemEnviada: Qua Jun 02, 2010 10:58 pm Responder com CitaçãoVoltar ao Topo

Mais alto


Mais alto, sim! mais alto, mais além
Do sonho, onde morar a dor da vida,
Até sair de mim! Ser a Perdida,
A que se não encontra! Aquela a quem


O mundo não conhece por Alguém!
Ser orgulho, ser àguia na subida,
Até chegar a ser, entontecida,
Aquela que sonhou o meu desdém!


Mais alto, sim! Mais alto! A intangível!
Turris Ebúrnea erguida nos espaços,
À rutilante luz dum impossível!


Mais alto, sim! Mais alto! Onde couber
mal da vida dentro dos meus braços,
Dos meus divinos braços de Mulher! FLORBELA ESPANCA


RESÍDUO

No fosso
Ardendo em chamas
Penso
Cremar meus versos

Da cinza, memoriar
As feridas abertas.

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Francisco Coimbra



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MensagemEnviada: Qui Jun 03, 2010 10:21 am Responder com CitaçãoVoltar ao Topo

bbrian escreveu:
Anseios

Meu doido coração aonde vais,
No teu imenso anseio de liberdade?
Toma cautela com a realidade;
Meu pobre coração olha que cais!

Deixa-te estar quietinho! Não amais
A doce quietação da soledade?
Tuas lindas quirneras irreais,
Não valem o prazer duma saudade!

Tu chamas ao meu seio, negra prisão!
Ai, vê lá bem, ó doido coração,
Não te deslumbres o brilho do luar!...

Não 'stendas tuas asas para o longe..
Deixa-te estar quietinho, triste monge,
Na paz da tua cela,a soluçar...
FLORBELA ESPANCA


VÔO DA ALMA


Anseio viver
Até que o coração sossegue
A voz cale
Os pulsos cerrem

Imensas asas abertas
Pousem serenas
Em outro lugar.


Nota prévia já com atraso:

Jaqueline Murta está disponível para dialogar com quem esteja interessada/o em Florbela Espanca, procurando autores que tenham procurado a abordagem poética da poetisa.

«Meu contato é murta828@hotmail.com
Sou Licenciada em Letras e Literatura Portuguesa e Brasileira - Brasil
Pós-Graduada em Língua Portuguesa e Administração e Gestão Escolar - Brasil - Portugal
Mestra em Línguas, Literatura e Culturas - Portugal
Mestra em Psicologia Social - Espanha
Doutoranda em Psicologia Social - Espanha

obs.: Claro que autorizo que divulgue nosso intercâmbio, afinal minha pesquisa é para deixar como fonte inspiradora para que outros admiradores e pesquisadores possam valorar essa extraordinária mulher que foi Florbela Espanca.

Um Abraço Fraternal
Jaqueline Murta»

TEMA PARA QUE TE QUERO?

I
anseios cansei-os eu ontem ou hoje?
talvez o que digo seja para amanhã
dedicando-me agora ao que me foge
debaixo de letras pesadas como lã

pois sobre sua protecção aconchego
um frio na alma talvez duma tristeza
de onde se não me acerco não chego
ao centro dorido do que é ter beleza?

poetisas realizais tudo que sensível
e se esconde no coração do Homem
onde ele em nós* faz elos no visível

deixa às crianças Futuro que somem
e o que é sentimento só será credível
relendo em versos que não do(r)mem!

II
para que quero eu os versos
se os escrevo assim de repente
como se fossem controversos
para o que em mim é permanente

passagem do ar onde eu respiro
o poiso das aves quando voam
para logo aterrar onde me retiro
deixando palavras que já soam

os voos pesados dum silêncio
tão espesso como Lua ausente
onde recordo amor ainda o cio

duma memória a contas consigo
onde sou estranho e nada assente
quando não imagino ter-te comigo

III
pronto, quero ser o que imagino,
mas imagino nada imaginar ao ler
directamente o som dentro do sino
saindo para o ar parado o meu dizer

pendurado no silêncio do badalo
abandonado interior à campânula
para cavalgar olhando um cavalo
ou virar santo com esta Fé nula!

pronto, quero imaginar apenas ser,
mas sem nada mais a precisar sentir
para lá desse isso que o deixa fazer

quando me faz cócegas nos pés
a vontade de viajar para aí evadir
donde estou, onde não chegam fés

IV
o que mais gosto é de saber
que só sabendo tudo se pode
ignorar ou deixar até de ler
esperando nos chegue a fome

paro de escrever e acabou-se
desejo apenas chegue doce!

um bom anseio é como o seio
que nos deixa mamíferos, ma(i)s...
quero crer para quê e o quê?
* nós, voz, eles, elas, vozes, nozes...
e frutos frescos como [...]

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http://www.recantodasletras.com.br/autores/Francisco
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bbrian



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MensagemEnviada: Qui Jun 03, 2010 7:35 pm Responder com CitaçãoVoltar ao Topo

Francisco, seria maravilhoso um tópico entre Você e Jaqueline, coisa de gente grande. Por favor disponibilizem para podermos apreciar.Beijos no coraçao!

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MensagemEnviada: Qui Jun 03, 2010 7:38 pm Responder com CitaçãoVoltar ao Topo

Tédio


Passo pálida e triste. Oiço dizer
"Que branca que ela é! Parece morta!"
E eu que vou sonhando, vaga, absorta,
Não tenho um gesto, ou um olhar sequer...


Que diga o mundo e a gente o que quiser!
-O que é que isso me faz?... o que me importa?...
O frio que trago dentro gela e corta
Tudo que é sonho e graça na mulher!



O que é que isso me importa?! Essa tristeza
É menos dor intensa que frieza,
É um tédio profundo de viver!


E é tudo sempre o mesmo,eternamente...
O mesmo lago plácido,dormente dias,
E os dias,sempre os mesmos,a correr...FLORBELA ESPANCA


DIAS QUE ME SINTO ASSIM

Cristal quebrado, condizente ao humor fugaz
Estilhaçada bruscamente ao chão
Forro o soalho de lâminas navalhadas

Ou sobre o móvel, enigma escultural,
Bem-dizer professo, peça leiloada

Conchas secretas me apalparão prudentes
De agudas farpas, isentarão minha alma.

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MensagemEnviada: Qui Jun 03, 2010 8:40 pm Responder com CitaçãoVoltar ao Topo

Poetas


Ai as almas dos poetas
Não as entende ninguém;
São almas de violetas
Que são poetas também.


Andam perdidas na vida,
Como as estrelas no ar;
Sentem o vento gemer
Ouvem as rosas chorar!


Só quem embala no peito
Dores amargas e secretas
É que em noites de luar
Pode entender os poetas


E eu que arrasto amarguras
Que nunca arrastou ninguém
Tenho alma pra sentir
A dos poetas também! FLORBELA ESPANCA


ARPOADORA

Arremesso dardos,
Mais leves que o vento brando
Penugens das aves brancas
Preâmbulo de boa sorte.

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MensagemEnviada: Ter Mar 06, 2012 8:50 am Responder com CitaçãoVoltar ao Topo

Hoje trago NERUDA:

Pablo Neruda

Perto de cinqüenta anos
caminhando
contigo, Poesia.
A princípio
me emaranhavas os pés
e eu caía de bruços
sobre a terra escura
ou enterrava os olhos
na poça
para ver as estrelas.
Mais tarde te apertaste
a mim com os dois braços da amante
e subiste
pelo meu sangue
como uma trepadeira.
E logo
te transformaste em taça.
Maravilhoso
foi
ir derramando-te sem que te consumisses,
ir entregando tua água inesgotável,
ir vendo que uma gota
caia sobre um coração queimado
que de suas cinzas revivia.
Mas
ainda não me bastou.
Andei tanto contigo
que te perdi o respeito.
Deixei de ver-te como
náiade vaporosa,
te pus a trabalhar de lavadeira,
a vender pão nas padarias,
a tecer com as simples tecedoras,
a malhar ferros na metalurgia.
E seguiste comigo
andando pelo mundo,
contudo já não eras
a florida
estátua de minha infância.
Falavas
agora
com voz de ferro.
Tuas mãos
foram duras como pedras.
Teu coração
foi um abundante
manancial de sinos,
produziste pão a mãos cheias,
me ajudaste
a não cair de bruços,
me deste companhia,
não uma mulher,
não um homem,
mas milhares, milhões.
Juntos, Poesia,
fomos
ao combate, à greve,
ao desfile, aos portos,
à mina
e me ri quando saíste
com a fronte tisnada de carvão
ou coroada de serragem cheirosa
das serrarias.
Já não dormíamos nos caminhos.
Esperavam-nos grupos
de operários com camisas
recém-lavadas e bandeiras rubras.

E tu, Poesia,
antes tão desventuradamente tímida,
foste
na frente
e todos
se acostumaram ao teu traje
de estrela cotidiana,
porque mesmo se algum relâmpago delatou tua família,
cumpriste tua tarefa,
teu passo entre os passos dos homens.
Eu te pedi que fosses
utilitária e útil,
como metal ou farinha,
disposta a ser arada,
ferramenta,
pão e vinho,
disposta, Poesia,
a lutar corpo-a-corpo
e cair ensangüentada.

E agora,
Poesia,
obrigado, esposa,
irmã ou mãe
ou noiva,
obrigado, onda marinha,
jasmim e bandeira,
motor de música,
longa pétala de ouro,
campana submarina,
celeiro
inextinguível,
obrigado
terra de cada um
de meus dias,
vapor celeste e sangue
de meus anos,
porque me acompanhaste
desde a mais diáfana altura
até a simples mesa
dos pobres,
porque puseste em minha alma
sabor ferruginoso
e fogo frio,
porque me levantaste
até a altura insigne
dos homens comuns,
Poesia,
porque contigo,
enquanto me fui gastando,
tu continuaste
desabrochando tua frescura firme,
teu ímpeto cristalino,
como se o tempo
que pouco a pouco me converte em terra
fosse deixar correndo eternamente
as águas de meu canto.

Fonte: br.geocities.com

E meu canto deixará a lira
Num suspiro escuro,
Mênades furiosas.

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MensagemEnviada: Qua Mar 07, 2012 10:35 pm Responder com CitaçãoVoltar ao Topo

Hoje trago Cora Coralina

Todas as Vidas

Vive dentro de mim
uma cabocla velha
de mau-olhado,
acocorada ao pé
do borralho,
olhando para o fogo.
Benze quebranto.
Bota feitiço…
Ogum. Orixá.
Macumba, terreiro.
Ogã, pai-de-santo…
Vive dentro de mim
a lavadeira
do Rio Vermelho.
Seu cheiro gostoso
d’água e sabão.
Rodilha de pano.
Trouxa de roupa,
pedra de anil.
Sua coroa verde
de São-caetano.
Vive dentro de mim
a mulher cozinheira.
Pimenta e cebola.
Quitute bem feito.
Panela de barro.
Taipa de lenha.
Cozinha antiga
toda pretinha.
Bem cacheada de picumã.
Pedra pontuda.
Cumbuco de coco.
Pisando alho-sal.
Vive dentro de mim
a mulher do povo.
Bem proletária.
Bem linguaruda,
desabusada,
sem preconceitos,
de casca-grossa,
de chinelinha,
e filharada.
Vive dentro de mim
a mulher roceira.
-Enxerto de terra,
Trabalhadeira.
Madrugadeira.
Analfabeta.
De pé no chão.
Bem parideira.
Bem criadeira.
Seus doze filhos,
Seus vinte netos.
Vive dentro de mim
a mulher da vida.
Minha irmãzinha…
tão desprezada,
tão murmurada…
Fingindo ser alegre
seu triste fado.
Todas as vidas
dentro de mim:
Na minha vida -
a vida mera
das obscuras!

( Cora Coralina )


Vive dentro de mim a poesia
Faces de mil mulheres.

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MensagemEnviada: Sex Mar 09, 2012 11:55 pm Responder com CitaçãoVoltar ao Topo

Hoje trago Drummond

Satânico é meu pensamento a teu respeito, e ardente é o meu desejo de apertar-te em minha mão, numa sede de vingança incontestável pelo que me fizeste ontem. A noite era quente e calma, e eu estava em minha cama, quando, sorrateiramente, te aproximaste. Encostaste o teu corpo sem roupa no meu corpo nu, sem o mínimo pudor! Percebendo minha aparente indiferença,aconchegaste-te a mim e mordeste-me sem escrúpulos.
Até nos mais íntimos lugares. Eu adormeci.
Hoje quando acordei, procurei-te numa ânsia ardente, mas em vão.
Deixaste em meu corpo e no lençol provas irrefutáveis do que entre nós ocorreu durante a noite.
Esta noite recolho-me mais cedo, para na mesma cama, te esperar. Quando chegares, quero te agarrar com avidez e força. Quero te apertar com todas as forças de minhas mãos. Só descansarei quando vir sair o sangue quente do seu corpo.
Só assim, livrar-me-ei de ti, pernilongo Filho da Puta!!!!
Carlos Drummond de Andrade

Rir é a melhor piada.

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MensagemEnviada: Dom Abr 01, 2012 9:26 am Responder com CitaçãoVoltar ao Topo

CORA CORALINA, QUEM É VOCÊ?

Sou mulher como outra qualquer.
Venho do século passado
e trago comigo todas as idades.

Nasci numa rebaixa de serra
Entre serras e morros.
“Longe de todos os lugares”.
Numa cidade de onde levaram
o ouro e deixaram as pedras.

Junto a estas decorreram
a minha infância e adolescência.

Aos meus anseios respondiam
as escarpas agrestes.
E eu fechada dentro
da imensa serrania
que se azulava na distância
longínqua.

Numa ânsia de vida eu abria
O vôo nas asas impossíveis
do sonho.

Venho do século passado.
Pertenço a uma geração
ponte, entre a libertação
dos escravos e o trabalhador livre.
Entre a monarquia caída e a república
que se instalava.

Todo o ranço do passado era presente.
A brutalidade, a incompreensão, a ignorância, o carrancismo.
Os castigos corporais.
Nas casas. Nas escolas.
Nos quartéis e nas roças.
A criança não tinha vez,
Os adultos eram sádicos
aplicavam castigos humilhantes.

Tive uma velha mestra que já
havia ensinado uma geração
antes da minha.
Os métodos de ensino eram
antiquados e aprendi as letras
em livros superados de que
ninguém mais fala.

Nunca os algarismos me
entraram no entendimento.
De certo pela pobreza que marcaria
Para sempre minha vida.
Precisei pouco dos números.

Sendo eu mais doméstica do
que intelectual,
não escrevo jamais de forma
consciente e racionada, e sim
impelida por um impulso incontrolável.
Sendo assim, tenho a
consciência de ser autêntica.

Nasci para escrever, mas, o meio,
o tempo, as criaturas e fatores
outros, contra-marcaram minha vida.

Sou mais doceira e cozinheira
Do que escritora, sendo a culinária
a mais nobre de todas as Artes:
objetiva, concreta, jamais abstrata
a que está ligada à vida e
à saúde humana.

Nunca recebi estímulos familiares para ser literata.
Sempre houve na família, senão uma
hostilidade, pelo menos uma reserva determinada
a essa minha tendência inata.
Talvez, por tudo isso e muito mais,
sinta dentro de mim, no fundo dos meus
reservatórios secretos, um vago desejo de analfabetismo.
Sobrevivi, me recompondo aos
bocados, à dura compreensão dos
rígidos preconceitos do passado.

Preconceitos de classe.
Preconceitos de cor e de família.
Preconceitos econômicos.
Férreos preconceitos sociais.

A escola da vida me suplementou
as deficiências da escola primária
que outras o destino não me deu.

Foi assim que cheguei a este livro
Sem referências a mencionar.

Nenhum primeiro prêmio.
Nenhum segundo lugar.

Nem Menção Honrosa.
Nenhuma Láurea.

Apenas a autenticidade da minha
poesia arrancada aos pedaços
do fundo da minha sensibilidade,
e este anseio:
procuro superar todos os dias
Minha própria personalidade
renovada,
despedaçando dentro de mim
tudo que é velho e morto.

Luta, a palavra vibrante
que levanta os fracos
e determina os fortes.

Quem sentirá a Vida
destas páginas...
Gerações que hão de vir
de gerações que vão nascer.

(Meu Livro de Cordel, p.73 -76, 8°ed, 1998)

Índice
CORA CORALINA



MULHER

Na força interior
Vibros solos poéticos
Apogeu íntimo de natureza feminina.

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