|
|
|
|
|
 |
|
|
|
|
Regina Igel é professora titular de Literaturas e Culturas em Língua Portuguesa no Departamento de Espanhol e Português da Universidade de Maryland.
|
|
Luiz -
A senhora tem conseguido encontrar
novos escritores que possam estar renovando a Literatura Brasileira?
|
|
Regina
- Ah, claro que sim! – O que mais faço, na seção de "Romances brasileiros" da publicação da Biblioteca do Congresso, que mencionei atrás, é dar as boas-vindas a novos escritores. Claro que isto não implica numa aceitação tácita de tudo o que aparece rotulado de ‘novo’. Mas fico muito feliz, pessoalmente e como crítica literária, ao perceber uma atmosfera nova,
renovadora e independente, no momento atual da nossa literatura. Por exemplo, só para citar o que me occore no momento em que estou respondendo à sua pergunta: o romance policial é uma novidade que recém-desabrocha entre nós. O mesmo com o romance esportivo, com tramas versando o futebol, as manipulações atrás dos jogos, o diálogo jogadores-público, e assim por diante. E o romance urbano-social, cujos temas tratam da miséria, da desigualdade social, das injustiças, da indiferença das classes dirigentes; e, ultimamente, o ressurgimento do romance histórico que, aliás, nunca desapareceu do nosso cenário cultural, mas voltou com uma roupagem nova junto às celebrações dos 500 anos, com saudáveis provocações a uma auto-análise crítica, construtiva e não-aderente ao coro de ‘Parabéns a você". São inovações temáticas como essas que trazem nossa literatura e nossos escritores para um reconhecimento interno e externo, de sua força criativa.
|
|
Luiz -
A senhora destaca alguma tendência de relevo no processo de desenvolvimento atual da Literatura Brasileira?
|
|
Regina
- Destaco duas coisas: uma, negativa: uma atitude de negligência em relação à prática da língua portuguesa. Aqui não me refiro às influências estrangeiras nem a qualquer aspecto mimético do falar popular – estas e outras ocorrências são parte integrante da narrativa, de acordo com as precisões dos quadros ficcionais. Refiro-me ao descaso que alguns escritores têm com a voz narrativa, com sua representação no decorrer do romance, do conto. Essa tendência de menosprezar a estética do nosso idioma em favor de umas caricaturas que se propõem como inovações, me entristece. Vejo que a beleza da língua portuguesa como praticada no Brasil vai ficar enterrada sob uma camada de contorções que se dizem modernas, mas que não passam de um atestado de ignorância. Lembro-me de um escritor que escreveu (e isto passou despercebido pelo editor) "eminente" quando ele queria dizer ‘iminente’. Tratava-se de um perigo iminente, que estava para se materializar a qualquer instante; em vez disto, virou um perigo excelente, importante, sublime... Pensei que fosse erro digital, ou coisa que o valha, mas apareceu mais duas vezes no decorrer do texto. Aí percebi que o escritor não sabia escrever sua própria língua. Uma pena. Mas, do lado positivo, percebo uma tendência muito boa, a de se tentar criar uma maneira nova de dizer as coisas. Pois as histórias contadas são iguais, o que difere é a maneira de contar, de escrever, de narrar. Quem não sabe das injustiças sociais no Brasil e em quase todo o mundo? Pois não haveria nenhuma novidade em contar isto. Mas é o modo de contar que faz a diferença, é o que mostra criatividade, originalidade, até genialidade. – Quem está em contato com a literatura sabe que ciúmes, traição, amores sublimes e espúrios, e demais tragédias são temas desenvolvidos em qualquer literatura. Mas quem leu os contos e casos de reconhecimento universal como os de Machado de Assis, Guimarães Rosa, Clarice Lispector, Tabajara Ruas, Rui Tapioca, Antonio Assis Brasil, sabe que somente eles poderiam contar suas histórias do jeito que contam ou contaram. Há uma definição inerente ao grande escritor: ele ou ela não só escreve bem, como narra bem. E o que define este ‘bem’? Eu diria que este é definido por um sexto sentido, apurado pelo sensibilidade e pelo reconhecimento de que o que se tem à frente dos olhos é nobreza verbal.
|
|
Luiz -
Como a senhora vê a influência da cultura de massa na Literatura Brasileira atual?
|
|
Regina
- Socorro, que estamos nos afogando na cultura de massa... nossa bóia de salvação, no meu entender, seria o cultivo da cultura popular. Se nos agarrarmos na cultura popular, fazendo dela nosso apanágio,
nossa brasilidade, sem patriotadas, mas com a conscientização das nossas tradições, então poderemos nos salvar da cultura de massa. A massificação cultural é um amortecimento da sensibilidade, do conhecimento, é paralizante. Daí nosso espanto, os que ainda não se afogaram, com programas na TV que parece terem sido retirados de casas messalinas, com a ascensão de autonomeados escritores em academias antes freqüentadas pelos olímpicos literários... uma banalização sufocante e assustadora, afogando o que temos de culturalmente genuíno e, por isto, de foro universal. Não digo que vamos nos livrar da indústria cultural, como também denominam a massificação da cultura, pois a força da enchente é avassaladora – mas podemos conviver com ela, ‘protegidos’ pela nossa cultura popular. Acho até que, felizmente, uma boa parte da nossa população, pelo instinto ou por um receio bem infundado, está se refugiando no folclore, na nossa vida caipira, em certos hábitos tradicionais, para enfrentar este arrombamento de comportas como parece ser a intrusão da cultura de massa. A literatura só tem a perder quando embarca por este rio sem margens e sem fundo, que a massificação cultural. Quero distinguir aqui, dentro dos limites de uma resposta breve, que, do meu ponto de vista, a cultura de massa é uma forma de ópio, um entorpecimento da sensibilidade; e que a cultura popular é a parte sadia, viva, atuante, genuína da nossa cultura, é o povo – com mamulengos ou ‘bota aqui o seu pezinho’, com as cavalhadas e os bois de Parintins, com os festejos em Alagoas e em Alter do Chão, com o teatro de rua, com os corais escolares – esta cultura, popular e arraigada na nossa história, corre o perigo de ser afogada pelas enxurradas diárias da cultura de massa – esse rolo, esse trator da industrializaçao, da banalização, que nos afasta das nossas raízes e das nossa dimensões criativas.
|
|
Luiz -
Em sua avaliação, como a senhora avalia a Literatura portuguesa e a
espanhola?
|
Regina
- Gosto muitíssimo da literatura portuguesa
moderna, mas não conheço tanto assim a espanhola para
poder formular uma opinião. Dos meus autores prediletos, lembro aqui o Saramago. Quando o li pela primeira vez, há muito tempo, fiquei perplexa com a habilidade que ele tem em contar coisas – de modo diferente. Pensei até, como será que ele está sendo recebido em Portugal? Logo vi que não estava sendo nada recebido, antes bem rejeitado... principalmente por uma parte da população que estava sendo guiada... Bom, depois que ele recebeu o Nobel, ficar comentando o Saramago é redundante...
|
|
Luiz -
O que a senhora diria aos nossos escritores que estão começando agora?
|
| Regina
- O que eu diria? Que continuem escrevendo, apesar de todas as dificuldades em publicar, em serem recebidos por uma editora, etc. Que
não desanimem se um editor nem sequer lhes enviar uma carta acusando recebimento de seus originais... Que tenham fé em si mesmos. Que prossigam. E que prestigiem nosso idioma.
|
|
|
|
1
- 2 |
|
|
|
|
|
|
|