|
|
|
|
|
 |
|
|
|
|
Joyce
Cavalccante nasceu em Fortaleza e mora em São
Paulo. Seu texto é marcado pela inquietude e pelo
desassossego, característica principal de sua
geração, a geração do medo.
Seu mundo é a literatura: é jornalista,
romancista, contista, cronista e conferencista. Publicou
sete livros de prosa de ficção individualmente,
e participou de nove coletâneas de contos com outros
autores. Tem obras traduzidas para inglês, italiano,
espanhol e sueco. Contribui sistematicamente com a imprensa
publicando contos, resenhas ou artigos, e já faz
algum tempo vem se dedicando a palestras sobre literatura
feminina brasileira nas universidades do Brasil e do
exterior. É a atual presidente da REBRA - Rede
de Escritoras Brasileiras, e membro do conselho diretor
da RELAT - Rede de Escritoras latinoamericanas. Prêmio
APCA - Associação Paulista de Críticos
de Arte - de melhor ficção de 1993, por
seu romance Inimigas íntimas. Prêmio Radio
France Internationale, 2002 pelo conto Neguinha. Seu
próximo livro, já no prelo, será de
contos e se chamará "Longos Trechos de Dias
Líquidos".
|
|
Luiz -
Como
a Literatura chegou até Joyce Cavalccante? |
| JC - De forma legítima como todos os amores a primeira
vista. Eu já sabia que iria viver literatura desde
a primeira redação escolar. Quando chegava
o dia da aula de português eu exultava de alegria.
Era uma excitação cheia de sensualidade,
faces coradas, coração aos pulos e inquietude.
Só muito mais tarde, quase hoje, que aprendi ser
o mesmo o chacra da criatividade e o da sensualidade, ou
seja, essas duas emoções dividem o mesmo
espaço energético. Aliás, diga-se,
essas duas coisas são de extrema importância
para minha felicidade e realização como ser
humano. |
|
Luiz -
E os primeiros escritos, os primeiros passos,
como ocorreram?
|
| JC - Assim mesmo. Na escola. Comecei ganhando concursos
de redação e pra mim isso nunca foi importante.
O que eu queria mesmo, como ainda quero é emocionar
com minha narrativa. Quero buscar dentro de cada pessoa
as preciosidades que elas nem suspeitam possuir. Quero
encantar. O que mais mexia comigo eram as redações.
Eu estava sempre narrando algo, descrevendo o que via;
mas depois, quando aprendi metrificação
na escola, resolvi ser poeta. Cometi algumas poesias, é verdade,
mas logo logo voltei ao meu estado natural: a prosa.
Eu tenho uma irmã que nesse tempo estava fundando
um grupo literário com alguns colegas de faculdade,
o Grupo Literário “Sim”, que até hoje é uma
referência importante na literatura cearense. Eu,
ainda menina, ficava ali escutando as discussões
do pessoal. Ficava querendo me meter na conversa, mas
me continha com medo de ser rechaçada por ser
criança. Mas certa vez, não me contive
e quando acabou a reunião eu chamei um dos membros
do grupo, o Pedro Lyra que hoje em dia é um grande
crítico e poeta conhecido nacionalmente, e confidenciei-lhe
que havia escrito um poema. Pedi-lhe para que lesse e
dissesse o que achou. Ora, O Pedro não só leu
como publicou no jornal “O Povo”de Fortaleza, o poeminha
ingênuo de autoria da menina escutadeira de conversa
dos adultos. E foi assim que tudo começou. |
|
Luiz - Que avaliação você faz
de toda a sua trajetória até o "Cão
Chupando Manga"?
|
|
JC - Hoje eu vejo que não carecia de ter tido tanta insegurança
ou dúvidas. Tudo iria acontecer de qualquer forma.
Mas a gente é sempre assim: descrente, ansiosa.
Eu não faço exceção. Todas
as vezes que estou escrevendo algo sempre acho que nunca
estará suficientemente bom, até que um dia
fica do jeito que eu gostaria. E é só assim
que eu libero um original pra publicação.
Eu sou daqueles autores que desconstroi para construir.
Fico na lida o tempo todo, mexo muito no texto, limpo,
limpo, limpo. Escrevo e reescrevo quantas vezes forem necessárias
porque escrever mediocridades, coisas imperfeitas, ninguém
merece. No mais, a trajetória foi essa: uma letra
em seguida da outra formando frases que se ligaram em parágrafos
que se ligaram em textos literários. Belos, senão
não os assino. |
|
Luiz -
Você vem arrebatando prêmios ao longo da
carreira. Como isso tem contribuído para a receptividade
do público ao "Cão Chupando Manga"? |
| JC - Deixe de exagero, poeta. Eu não venho arrebatando
prêmios assim a torto e a direito, não. Mesmo
porque eu nem participo tanto de concursos. Ganhei uns
reconhecimentos, foi só. Na verdade o maior prêmio
da minha vida foi o encantamento que o “Cão Chupando
Manga” provocou no coração daqueles que o
leram. Foi um arraso geral. Todos os leitores desse romance
quiseram interferir, modificar, escolher um destino para
tal e tal personagem, reclamar. Todos se tornam co-autores,
e a meu ver essa é a finalidade de um livro. Só assim
uma obra artística se completa. |
|
Luiz -
Como foi escrever o "Cão Chupando Manga",
aproveitando para que você indique onde ele pode
ser encontrado pelo leitor internauta? |
|
JC - Bom, escrever o "Cão Chupando
Manga" foi um suplício, pra ser mais precisa.
Foram três anos de trabalho diário e ininterrupto,
pois é assim que se faz romances: sentada em frente
ao computador sem se dar tréguas. Enquanto isso
os personagens me atormentavam se intrometendo na minha
vida, me pedindo dinheiro emprestado, atrapalhando meus
namoros, sujando minha cozinha e me assustando com seus
pesadelos. Eu tinha uma idéia para onde deveria
ir mas não sabia se ia chegar. Mas no fim tudo deu
certo. Tudo deu certo. Quanto a indicar aonde o "Cão
Chupando Manga" poderá ser encontrado, tenho
a dizer que ele está bem distribuído e pode
ser encontrado em qualquer livraria física. Como
toda livraria nos dias de hoje faz vendas online, no site
das referidas livrarias logicamente terá o "Cão
Chupando Manga". Mas se quiser uma indicação
mais direta, pode procurar na livraria REBRA: http://www.asabeca.com.br/. |
|
Luiz -
Qual a sua visão sobre a Literatura brasileira
atual? Que destaques você pontua? |
| JC -
Acho difícil julgar. É uma tarefa que
não me atrai. Mas gosto de ler principalmente romances
e novelas. Tenho lido boas coisas de Ana Miranda, de Roberto
Drummond , de João Ubaldo e outros colegas. A poesia
contemporânea ainda não me cativou, mas talvez
seja porque eu tenho o gosto muito clássico. Talvez
até eu esteja perdendo muita coisa. Gosto de ler,
isso sim. Não fico um minuto sem um livro na cabeceira. |
|
Luiz -
Como você encara o processo editorial convencional
mediante o advento da Internet?
|
| JC - Uma
coisa não tem nada a ver com outra por isso
não dá pra comparar. O processo editorial
do livro impresso é uma coisa totalmente diversa
da publicação online. Um livro de papel é um
objeto de arte, concreto, palpável; uma publicação
na Internet é volátil como uma boa idéia.
O livro físico sempre existirá. Há uma
enorme camada da população que não
passa sem ele, eu sou um exemplo disso. Quanto a publicações
virtuais não sei responder já que nunca li
nenhuma. Não me atrai ficar sentada diante de um
computador lendo um livro. Pobre da minha coluna. Pobre
do meu juízo. Mas uma coisa eu garanto, a Internet
auxilia muito na divulgação de um livro,
Isso sim. Considero que ela é hoje um instrumento
de primeira necessidade ao mundo das artes e do intelecto.
De qualquer forma essas minhas afirmações
tem um certo prazo de validade. Vamos ver como as coisas
irão se situar no futuro. |
|
|
|
1 - 2 |
|
|
|
|
|
|
|