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JUAREIZ CORREYA - ENTREVISTA

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Antes de tudo quero logo dizer uma coisa: em primeiro lugar, o poeta e montão de coisa Juareiz Correya, o poeta Juá da praça da Luz das terras palmarenses, irmão do Jamilton Tareco, filho do seu Bio alfaiate e que conheço desde minha adolescência azucrinada é, asseguro, gente boa e biriteiro.

Em segundo lugar avalizo: Juareiz é meu irmão, amigo, conterrâneo, pronto!

Como já entreguei os pontos, é evidente que seria possível me julgar suspeito para mencionar mais qualquer coisa. Muito embora queira, mesmo assim, ainda sapecar, em terceiro lugar, que Juareiz além de ser meu irmão, meu amigo e meu conterrâneo, é um poeta da porra com meio mundo de livro publicado. Também é escritor e é editor da Panamérica Nordestal Editora, organizador das antologias Poetas dos Palmares já em terceira edição, e também das Poesia Viva de Recife e de Natal.

Ainda é meritório mencionar que ele é gestor cultural, pois, foi quem criou e presidiu por duas vezes a Fundação Casa da Cultura Hermilo Borba Filho, em Palmares – PE.

Tem mais: é parceiro musical do não menos arretado pernambucano Paulo Diniz, resultando em músicas que foram gravadas nos discos “Estradas” e “Marca Ferrada”. Nessa vertente também é meu parceiro musical, porque musiquei o seu poema “Ponte sobre águas turvas”, poema este recolhido do seu livro “Americanto amar América”.

Pois bem, acho que razoavelmente está apresentado o meu entrevistado desta vez. E se prepare! Com vocês: Juarez Correya. 

GUIA DE POESIA: Juareiz, inicialmente, vamos para a pergunta de praxe: como foi a descoberta pela poesia ?  

Descobri a poesia ainda no curso ginasial, em Palmares, onde nasci.  De forma desordenada e aleatória, como ocorre com todo autodidata.  Sou um autodidata, em matéria de literatura.  Aliás, tenho apenas esse curso ginasial, concluído em 1967.  O que quer dizer que sou um autodidata na vida, de verdade, literária e profissionalmente. Duas pessoas foram fundamentais nessa minha descoberta: uma primeira namorada, Hilda, de 22 anos, quando eu tinha 16, que era uma leitora de bons poetas modernos brasileiros, muito bem informada, e que me incentivou com carinho de amiga e mulher, dizendo acreditar no meu futuro, quando eu ainda não era nada e nem pensava que poderia ser alguém na vida; e a minha mãe espiritual, a professora Jessiva Sabino de Oliveira, então diretora da Biblioteca Pública dos Palmares, onde eu me refugiava, caladão, tímido, lendo de cambulhada (e sem indicação de ninguém, nem mesmo da diretora Jessiva), os livros que ia descobrindo.   Até o meu primeiro alumbramento com a poesia: Manuel Bandeira.  Daí então o vírus me envenenou...  

GUIA DE POESIA: Você começou a publicar seus poemas muito cedo. Transitou por formas diversas, passou por várias experimentações até apresentar uma poesia viva, assumindo desde sempre a profissão de poeta.  Conta, então, como foi a experiência de publicar cada um dos seus livros atuando corpo a corpo com o leitor na rua, nas escolas, por aí levando o “Americanto Amar América” e seus outros livros.     

Meu primeiro poema publicado se intitulava “Poema vago olhando a cidade”. Foi impresso no primeiro e único número do jornal O Olho, que eu e um grupo de amigos publicamos, em Palmares, no ano de 1970.  Sem saber, eu já estava definindo um caminho para a poesia que criaria nos anos seguintes: uma poesia visceralmente urbana, sem nenhum vínculo com o mundo rural onde eu nasci. O jornal, com a publicação desse poema, anunciava um pretendido livro de estréia intitulado Poemas sem corpo (o corpo, o corporal, a carne, a amorosidade carnal humana, outra temática fundamental da minha poesia). Saí de Palmares, fui para São Paulo, onde, em 3 meses, sem sequer conhecer a cidade direito, fui incluído em uma antologia da editora paulistana Ila Palma (POETAS DA CIDADE–São Paulo-2), publicada em 1970. Conheci então o primeiro editor na minha vida – o ítalo-brasileiro Renzo Mazzone -, uma figura mitológica para mim e que influenciou decisivamente o meu futuro papel de editor. São Paulo começou a mexer e transformar a minha poesia e, nas duas antologias do Renzo Mazzone, onde publiquei alguns poemas, o que me incentivou para publicar o meu primeiro livro. Nessas três experiências editoriais, a minha poesia era anti-discursiva, dura, meio neo-concreta, expositiva, cerebral. Depois, em contato com a poesia da geração beat norte-americana, lendo uma antologia publicada no Brasil pela editora paulista Brasiliense, minha cabeça se abriu como uma avenida rasgando o coração da cidade, minha voz se alteou e me danei a escrever uma poesia que era mais do que pura libertação, integrando o meu sangue à palavra, incendiando o meu corpo com o amor que só a poesia é capaz de criar e transmitir: o amor de um homem pela terra inteira. Foi a hora da gestação do meu poema “Americanto Amar América”, que virou livro depois, história em quadrinhos, será um dia canção, peça de teatro, cinema talvez... O “Americanto” não é uma realização minha. É o que me realiza. 

Acho que poeta não é profissão. É destino.  Escritor, jornalista, editor, esses podem ser “profissionais” e os seus registros cabem em carteira.  Poeta, não. É uma condenação. Heber Fonseca, jornalista e escritor pernambucano, me entrevistou para o Jornal do Commercio, do Recife, quando eu estava circulando por algumas cidades com o meu primeiro livro publicado em São Paulo, sem título, e tascou  na reportagem este título bastante revelador : “Poeta vende livro mas não vende poesia”.  É isto. Poesia não é uma mercadoria, o livro é que é. Por isto, um livro de poesia pode até ser bonitinho, como produto bem acabado, feito para vender.  Mas a beleza da poesia é outra. E ela pode até desagradar, mesmo bem embalada para vender. Poesia pode até dar alegria ao poeta. Mas não é sorte, é desgraça mesmo. Um poeta não vive de poesia. Vive para a poesia. E só é poeta mesmo (parafraseando um grande pintor mexicano, quando aconselhava Frida Khalo) se ele se dedicar a vida inteira a ela e for capaz de morrer pela sua poesia.   

Com o meu primeiro livro publicado em São Paulo, numa gloriosa edição do autor, no início da década de 1970, passei a visitar colégios e faculdades, sistematicamente, apresentando o meu trabalho em venda direta ao meu possível leitor.  As nossas poucas livrarias não tinham, e não têm, até hoje, o menor interesse em vender livro de poesia de autor iniciante, desconhecido, jovem, e chegam até a discriminar livros produzidos pelos autores e por editoras locais.   E, miseravelmente, as livrarias, que seriam o espaço natural para o escoamento de toda produção editorial, não se multiplicam, diminuem e desaparecem. Isto é retrocesso cultural mesmo e se a história tiver de ser contada mesmo, fede, fede muito. Depois, somos uma nação de muitos analfabetismos, esse mal é grande e os escritores, em geral, não são levados em conta sequer para servir de paliativo diante do grande atraso cultural que, apesar de todo o progresso, avança. É um câncer educacional e social sem tamanho. Digo melhor: do tamanho do Brasil. Por que os escritores não são chamados para participar diretamente do processo educacional brasileiro? Por que ainda existe esse fosso imenso entre o processo educacional e o processo cultural? 

Publiquei o meu primeiro livro, uns livretos, o “Americanto Amar América”, em 1982, já com a assumida edição da Nordestal Editora, que fundei no Recife, e sempre procurei diretamente o meu possível leitor nas escolas e nas faculdades, inclusive nas cidades do interior. Na medida do possível, com a apresentação dos meus trabalhos, procurava sempre oferecer alguma informação sobre a produção poética e literária local, contextualizando melhor a minha poesia no dia-a-dia da literatura pernambucana, nordestina, brasileira.  Qualquer escritor tem condição de fazer isso, e esse modelo vale mais do que as dezenas de lições de literatura ou as práticas de iniciação literária que abundam nos colégios e nas faculdades da vida. Literatura é vida verdadeira. Os cursos de Letras, por exemplo, vivem dissociados da contemporaneidade, que mais parece, para alguns professores, um incômodo.  Para os estudantes, com certeza, será um inextinguível sopro de vida.    

GUIA DE POESIA - Você também publicou em prosa, a exemplo de “A clara história de Preta, o futuro presidente do Brasil”.  Fale dessa sua veia e da publicação.    

A veia da minha prosa ainda está cheia, bastante vigorosa, sem qualquer impedimento cardíaco. Têm pouca quilometragem de uso os caminhos da minha ficção.  Não sei, com a minha ficção, se injeto sangue novo na ficção pernambucana e nordestina, mas não é isso que me interessa.  Escrevo os meus contos há algum tempo, tenho poucos textos publicados e até hoje não publiquei um só livro de contos.  A publicação da novela – é uma novela, uma “ficção política de verdade”, como eu sub-intitulo “A clara história de Preta... -  aconteceu mais por força do incentivo do poeta e editor Jaci Bezerra, à frente da Edições Pirata, em 1979, no Recife.  Não digo que a minha produção em prosa é pequena – tenho três livros de contos prontos : A biografia de Deus, Pequenas Histórias Pequenas  e Histórias de Atlântida -, mas os projetos editoriais com a minha  prosa são sempre adiados e superados pelos projetos com a minha poesia.  Falta estímulo, faltam os jornais, revistas, ou mesmo falta a minha fé no que tenho escrito. Aliás, com a minha prosa acontece uma completa inversão temática nos meus escritos : o mundo criado/recriado é o rural, ou um pouco “rurbano”, como diria Gilberto Freyre, enquanto a minha poesia é inteiramente urbana. E isso não é intencional, logicamente cerebral. Como a poesia, é. E se como poeta sou ainda um ilustre desconhecido (o escritor brasileiro, nordestino, sobretudo, luta todos os dias para ser ao menos conhecido... não dá para imaginar mesmo que será “reconhecido” um dia...), como contista e novelista ainda estou engatinhando...   No ano que passou, por exemplo, pude  me enxergar melhor nesse papel: fui publicado na grande antologia organizada por Antonio Campos e Cyl Gallindo – Panorama do Conto em Pernambuco -,  lançada, em setembro, na III FLIPORTO (Porto de Galinhas / Ipojuca, PE), figurando entre ficcionistas  pernambucanos de projeção nacional e até internacional, a exemplo de Amílcar Dória Matos, Augusto Ferraz, Clarice Lispector, Cristovam Buarque, Eduardo Lucena, Everaldo Moreira Veras, Fernando Monteiro, Gastão de Holanda, Gilberto Freyre, Gilvan Lemos, Hermilo Borba Filho, José Condé, Lucilo Varejão, Luís Jardim, Luiz Arraes, Luzilá Gonçalves Ferreira, Maria de Lourdes Hortas, Mário Sette, Maurício Melo Junior, Mauro Mota,  Maximiano Campos, Medeiros e Albuquerque, Milton Lins, Múcio Leão, Nelson Rodrigues, Olímpio Bonald Neto, Osman Lins, Pelópidas Soares, Raimundo Carrero, Rubem Rocha Filho, Sérgio Moacir de Albuquerque, Vanja Carneiro Campos e Zuleide Duarte.  Citei 33 nomes apenas. A antologia apresenta 115 contistas. Da nossa Palmares, “terra dos poetas”, apenas 3 nomes : Ascenso Ferreira, Hermilo Borba Filho e eu. Faltou incluir, de lá, no meu entender, os nomes de Jayme Griz e Afonso Paulins (este, ainda inédito em livro), contistas prontos, bem acabados, ou melhor, bem criados e bons criadores.  Mas nenhuma antologia esgota o assunto....   

GUIA DE POESIA – Além de poeta e escritor, você é editor.  E esta sua outra faceta começa com a edição dos “Poetas de Palmares”, em 1973, quando da proposta da Editora Palmares?    

Em primeiro lugar, me permita corrigir a informação: sou poeta e ficcionista, mais exatamente contista.  Todo poeta é um escritor, mas nem todo escritor é um poeta. A diferença entre prosa e poesia é clara, muito distinta e nítida, e sobre isso eu escrevi este poemeto intitulado “Prosa & Poesia”: Quando não queres / dizer nada / tu dizes: /- Isso é só prosa./ Quando queres / dizer tudo / tu dizes: / - É pura poesia. E essa faceta de editor já é uma outra história.  Longa e velha história, tão velha quanto o próprio Faceta do Pastoril.  E não começou em Palmares, onde os romancistas Hermilo e Luiz Berto acham que o mundo começou e termina. Começou um pouco antes, em São Paulo, no ano de 1971, quando eu publiquei o meu primeiro livro, aquele dito “sem título” de poesia. Claro, foi a grande influência de Renzo Mazzone, o editor das antologias paulistanas. Ele viabilizava mesmo a produção dos livros, promovendo uma espécie de edição cooperativada entre os autores. Aliás, a influência dele foi meio pelo avesso. Lembra daquele meu primeiro pretendido livro, o “Poemas sem corpo”? Cheguei a São Paulo com a intenção de publicá-lo, de cara, conheci um poeta e jornalista, Ramão Gomes Portão, que se fez meu amigo, me apresentou a Renzo Mazzone, editor dele, e Renzo foi logo me aconselhando a não editar aquele meu primeiro livro... Quer dizer, foi me desaconselhando... e me convidou para participar da antologia Poetas da Cidade – São Paulo 2, publicada em 1970,  ao lado de Alberto Beuttenmuller, Eunice Arruda, Renata Pallotini, Cassiano Ricardo, entre outros.  O conselho dele era maduro e corretíssimo.  Eu tinha apenas 19 anos, queria porque queria fazer as minhas coisas, ele ponderou: “você precisa primeiro divulgar o seu nome, se fazer conhecido, depois você publica o seu primeiro livro”. Nada mais certo, lógico. Ia amadurecendo, naturalmente. E ele me convidou, no ano seguinte, para participar da antologia Poetas da Cidade – São Paulo 4 -, ao lado de outro time de poetas paulistanos: Menotti del Picchia, Oliveira Ribeiro Neto, Érico Max Muller, Maria José Giglio, Jaa Torrano e outros.  Já morando em Santo André, trabalhando no jornal  Diário do Grande ABC, onde eu escrevia uma coluna diária sobre arte, sobretudo literatura, fiz umas economias e publiquei o meu primeiro livro de poesia. Não promovi lançamento festivo, mas procurei promover a exposição e apresentação do livro em colégios e faculdades. Fiz isso também na UBE de São Paulo, onde conheci e mantenho, até hoje, amizade com Caio Porfírio Carneiro, Antonio Possidonio Sampaio, Dalila Teles Veras e Fernando Coelho; e na Fundação das Artes de São Caetano, onde conheci um jovem poeta carioca, vencedor de um concurso de poesia local, que eu divulguei no Diário do Grande ABC, euma jovem poetisa paranaense, Haydée Sorensen, que me abriu as portas da percepção ao me emprestar a antologia poética Beat Generation. Inicialmente, numa faculdade de São Paulo, na Mackenzie, quebrei a cara: levei o livro para o pessoal do Diretório Acadêmico, fui acolhido na minha intenção de expor e apresentar aos estudantes o livro, coloquei os exemplares à venda em uma mesa, alguns cartazes em cartolina com reprodução de reportagens sobre o livro, e fiquei, como um camelô sem voz, esperando os “leitores interessados”...  Durante toda a tarde da exposição e venda, os estudantes passavam, olhavam rapidamente as reportagens reproduzidas nas cartolinas expostas, não liam direito, davam uma mirada no livro, sem tocá-lo, sem interesse, sem querer saber direito o que era aquilo. O próprio pessoal do Diretório não chegou a se interessar por aquilo... Ninguém disse ou dizia nada quando chegava perto da “minha banca” improvisada. No final da tarde, uma jovem bem paulistana, branca e gordinha, bonita, simpática, agradável, chegou, pegou um exemplar do livro, começou a folhear, leu algumas páginas atentamente, balançando a cabeça de forma afirmativa, me encarou, viu que eu era o autor  (tinha reparado também as reproduções das reportagens), e perguntou quanto era o livro. Eu lhe disse o preço e ela me pediu um exemplar. Eu pedi que ela me dissesse o seu nome, fiz uma dedicatória, entreguei o livro a ela e lhe disse: não precisa me pagar, é um presente. Ela ficou meio espantada, sorriu, agradeceu e foi embora. Foi a única leitora interessada naquela exposição e venda do meu primeiro livro. Essa situação me serviu de lição. A gente aprende é na porrada mesmo. Eu estava apenas começando e tinha o mundo inteiro para conquistar. Entendi que precisava me dirigir diretamente aos estudantes, levar a informação sobre o meu trabalho, provocá-los, entrar nas salas de aula dos colégios e das faculdades, eles eram um possível público, os meus possíveis leitores, estavam em um lugar prontos para receber as informações necessárias, mesmo sobre poesia, a poesia de alguém parecido ou igual a eles, uma matéria viva do dia-a-dia que não era do interesse deles nem eles tinham idéia de que existia. Eu precisava lhes dar isso. Eles estavam em formação, e, passando por cima da “deformação” criada pelo imenso fosso que separa o processo educacional do processo cultural, nas cidades, nos Estados, nas regiões brasileiras, eu podia contribuir para abrir um pouco os seus olhos e suas cabeças e seus corações. Minha poesia era pouca, eu sei, mas não era negada. Era dada, era uma motivação para eles, e para quem me pudesse ouvir.  Procurei logo fazer isso em São Paulo e Santo André. Foi só o começo. Voltei a Palmares e visitei alguns colégios e a faculdade de Palmares, colégios de Catende, Vitória de Santo Antão e Limoeiro. Viajei de novo a São Paulo, me danei pelo oco do mundo, fiz uma viagem a pé e de carona pelo Rio de Janeiro, Espírito Santo, Minas Gerais, Bahia, voltei de ônibus para Palmares e fiquei alguns meses hibernando... Eu era uma espécie de filho “ilustre” e sem grandeza da cidade: fui a São Paulo, trabalhei como jornalista (sem ser jornalista, era um bosta de um autodidata com um simples curso ginasial...), publiquei um livro de poesia, lancei o livro festivamente na Biblioteca de Palmares, no início de 1972, viajei de volta a São Paulo e voltei para a casa dos meus pais, na Praça da Luz, “hippie e meio doido”, era o que diziam todas as línguas. E foi nessa situação que eu me encontrei com um vendedor de livros, representante do Círculo do Livro, de São Paulo, um bom sujeito, positivo e incentivador, um sertanejo chamado Elói Pedro da Silva. Os “Elói” são editores por natureza (lembre-se, aqui, do Elói Melo, do Recife, que com a sua revista “Lírica” publicou, inicialmente, o pessoal da renomada Geração 65 de poetas pernambucanos...) e ele, tinha o sonho de editar alguma coisa na cidade. Toda vez que me encontrava me dizia que a gente devia realizar algum trabalho nesse sentido. Era ele então a única voz que me incentivava. Um dia o surpreendi, como surpreendi Jessiva Sabino de Oliveira, ao chegar de repente na Biblioteca Pública Municipal, que ela dirigia, com um pedido na ponta da língua e meu manifesto desejo de organizar uma antologia de Poetas de Palmares. Elói topou na hora o projeto e criamos a Editora Palmares, já trabalhando a edição do livro. Deixei de ser “hippie e doido” para a cidade e fui objetivamente tratar de produzir a primeira edição da antologia Poetas de Palmares.

A Editora Palmares foi fundada e registrada.  Mas a gente não tinha um tostão para publicar o livro. Então eu criei um projeto de edição da obra por meio de um sistema de assinaturas de pré-aquisição, recebendo o valor do preço de capa do exemplar do livro, antecipadamente, prestigiando os assinantes com a publicação dos seus nomes em uma lista que figurava nas últimas páginas do volume. Eu, um pouco arrumado, e Elói Pedro da Silva, arrumadíssimo (parecia mais um embaixador do que vendedor e editor de livros), invadimos, então, colégios, a Faculdade de Formação de Professores, clubes de serviço, Associação Comercial, Prefeitura e até a Maçonaria Fraternidade Palmarense. Onde tinha gente a gente estava lá, com o livro, em campanha direta de assinatura, pulando o fosso que separava o livro do seu possível leitor, criando um elo direto entre o produto e o consumidor. As livrarias, que são poucas no Estado, e cada vez em número menor, não são capazes de vender livros locais. E nem fazem o menor esforço para isso, ainda hoje, em pleno século 21, neste quase impensado Terceiro Milênio.  Um esforço mínimo, de livreiros e educadores seria capaz de promover uma imediata e saudável valorização do livro publicado em cada cidade, em cada Estado. Pelo menos aqui em Pernambuco e no Nordeste isso ainda não acontece. E a cantilena de que nossos livros não vendem continua sendo repetida, todos os anos, por escritores que publicam com o dinheiro do próprio bolso, pelas pequenas editoras que arcam com o prejuízo de edições que não circulam, e até pelos livreiros, que, estupidamente, não têm interesse real na valorização do livro local. Conheço essa história besta desde esse tempo em que tive de me virar e assumir o papel de editor, criando a Editora Palmares, junto com Elói Pedro da Silva, em 1973, e a Nordestal Editora, no Recife, em 1980. 

A primeira edição da antologia Poetas de Palmares foi um sucesso de venda local como nenhum livro alcançou, creio, até hoje, na cidade. Oitenta por cento da tiragem de 1.000 exemplares foi toda distribuída na cidade, entregue diretamente aos nossos assinantes (contando também com assinantes de cidades vizinhas como Catende, Água Preta, Ribeirão, Barreiros e até do Recife). Com a Editora Palmares já se projetando regionalmente, por força da campanha do livro Poetas de Palmares, idealizei um projeto mais ambicioso e organizei a Antologia Geral 1, que reunia poetas, contistas, cronistas e historiadores contemporâneos  da região Mata Sul de Pernambuco: de Palmares, os poetas Eniel Sabino de Oliveira e Juareiz Correya, o contista Afonso Paulins e o romancista Hermilo Borba Filho; de Catende, o contista Pelópidas Soares, a poetisa Bartyra Soares e o dramaturgo Aristóteles Soares, a dinastia dos Soares, como comentou Mauro Mota, no Diário de Pernambuco; de Ribeirão, o novíssimo poeta Antonio Olívio; de Rio Formoso, o poeta Múcio Moraes; de Barreiros, o historiador Ruy de Aires Bello.  Eu e Eloi Pedro da Silva percorremos essas cidades da região, em campanha aberta de assinatura do livro, da forma idêntica à campanha do livro de Palmares, promovemos um levantamento de mais de 600 assinantes, todas as assinaturas pagas, mas, na hora agá da produção gráfica do livro, um sujeito mais sabido do que a gente, em quem confiamos para realizar essa produção, embolsou o dinheiro e deu no pé. O livro ficou em pedaços de frias composições de linotipo. Estava então inviabilizado o projeto da editora e o projeto de uma futura coleção de antologias –  Antologia Geral 1 (Mata Sul), Antologia Geral 2 (Mata Norte), Antologia Geral 3 (Agreste) , e por aí vai -  que, até hoje, mais de 30 anos depois, ninguém pensou igual nem realizará coisa parecida.    

GUIA DE POESIA – Falando da antologia Poetas dos Palmares, que já teve 3 edições, fala, então, a respeito desse projeto e de como se deu a concretização do projeto da primeira até a edição de 2002.  

A concretização do projeto da primeira edição dessa antologia já está devidamente conhecida na resposta da pergunta anterior.  Devo acrescentar que, com essa primeira edição de Poetas dos Palmares, entrei em desentendimento e me entendi depois com Hermilo Borba Filho, e isto originou uma das maiores e mais completas admirações da minha vida.  Não sou um homem admirável, mas sou capaz de admirar quem tem valor.  Bato palmas e Palmares para quem presta, abertamente.  E gosto disto.  Não gosto de falar ou de gastar a minha pouca inteligência com o que não presta.  Além disso, esse tipo de coisa faz sempre mal ao coração, e eu, com mais de meio século de existência, já cardiopata, tenho de cuidar muito direito do meu “todo coração”.  Hermilo publicou, no Diário de Pernambuco, em outubro de 1973, um artigo sobre o livro que me deu muita alegria, uma sensação de dever cumprido, de plena aprovação pelo meu trabalho e é, o que considero, até hoje, um elogio perfeito.  Ser elogiado por um Hermilo é ser verdadeiramente elogiado, meu amigo. Depois disso, quer dizer, por causa do livro, Hermilo manteve atenciosa correspondência comigo, crescendo na minha admiração, por sua sinceridade e pelo seu extremo amor à literatura e a Palmares. O artigo dele, claro, serviu perfeitamente como Introdução, na segunda edição da antologia, realizada em 1987.  Na apresentação, eu afirmei o seguinte:

“Editado em 1973, com trabalhos de vinte poetas, este livro serviu para uma afirmação definitiva da conhecida “terra dos poetas” na vida cultural pernambucana. Vale a pena a opinião de Mauro Mota, que comentou a sua publicação acentuando o seguinte :Velhos e novos autores encontram-se no livro, o que o  faz  senão de forma global, em termos de amostragem, panorama da poética e da poesia de um município, de tradição literária procedente, firme, do século XIX”.  E, logo adiante, fiz questão de documentar que: “(...) hoje,14 anos depois, em reedição revista e ampliada, o livro POETAS DOS PALMARES coloca mais uma vez esta cidade na vanguarda dos acontecimentos literários no interior do Estado de Pernambuco”. É isto. A segunda edição, atualizada com trabalhos de 45 poetas, publicada em 1987, foi produzida em co-edição da Fundação Casa da Cultura Hermilo Borba Filho, instituição municipal criada em 1983,  e da Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco-FUNDARPE, órgão do Governo do Estado. Citarei os nomes dos poetas da primeira edição então reeditados: Fernando Griz, Eurípedes Afonso Ferreira, Adalberto Marroquim, Mário Marroquim, Raimundo Alves de Souza, Artur Griz, Fenelon Barreto, Antonio Veloso, João Costa, Calazans Alves d’Araújo, Ezequias Pessoa de Siqueira, José Ramos, Eliseu Pereira de Melo, Rubem de Lima Machado, Jayme Griz, Ascenso Ferreira, Telles Junior, Eniel Sabino de Oliveira, Afonso Paulins, Juareiz Correya.

Parte do projeto editorial da Fundação Casa da Cultura Hermilo Borba Filho, que eu dirigia, infelizmente, essa segunda edição da antologia foi muito prejudicada e até impossível de ser razoavelmente difundida: o livro ficou pronto no final do ano de 1987, nem foi possível sequer lançá-lo e apresentá-lo em Palmares e na região, visto que, tendo de lutar em defesa do tombamento e da preservação do Mercado Público dos Palmares, edificação que era motivo de uma campanha, até meio sórdida, da própria Prefeitura da cidade, para derrubá-lo, o nosso posicionamento e o posicionamento oficial da Fundação Hermilo Borba Filho foram desrespeitados e “atropelados” pela tropa de choque da Prefeitura e pelo povo da cidade incitado pelo prefeito naquilo que eu chamei e chamo, até hoje, de “plebe-excito”.  O prefeito dizia que era um plebiscito. A sanha do povo, o absurdo dessa campanha e a nossa defesa íntegra viraram motivo de uma excelente reportagem da Rede Globo Nordeste editada nacionalmente no “Fantástico”, exatamente na hora em que o povo, mobilizado pelo prefeito Luiz Portela de Carvalho, votava e marchava contra o Mercado Público para derrubá-lo. Para mim, foi o único erro da administração do prefeito que criou a Fundação Casa da Cultura Hermilo Borba Filho. Um erro, uma contradição sem tamanho. Ele mesmo reconheceu isso, logo depois. E eu, diante daquilo tudo, só tinha um gesto: entregar o cargo. Foi o que fiz, mesmo sob o pedido do prefeito de que eu devia permanecer no cargo. Ele permaneceu me respeitando.  Eu, na verdade, não tinha mais condição de trabalhar com ele. E larguei tudo para me distanciar de Palmares por longos dez anos.  

Vale a pena lembrar também que a antologia foi publicada em um projeto de co-edição da FUNDARPE - Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco, órgão do Governo do Estado, e da Fundação Casa da Cultura Hermilo Borba Filho, da Prefeitura dos Palmares. E ressaltar, nesse empreendimento, a ação positiva do então presidente da FUNDARPE, o professor Roberto Pereira.  

A terceira edição da antologia Poetas dos Palmares foi realizada com tudo o que os poetas têm direito: com pompa e circunstância, como se dizia antigamente. Dez anos depois do lamentável epísódio da derrubada do Mercado Público, em 1997, voltei a Palmares, a convite de Francisco de Assis Rodrigues, o então prefeito, para presidir novamente a Fundação Casa da Cultura Hermilo Borba Filho. Participaram ativamente, desse processo, duas amigas minhas e do então prefeito: Leda Alves, viúva de Hermilo, e Vanja Carneiro Campos, filha de Renato Carneiro Campos, que era, nesse tempo, chefe-de-gabinete do Governador Miguel Arraes, e com quem eu trabalhava diretamente, prestando assessoria.   Tive de reestruturar / reorganizar tudo.  E retomar o projeto editorial da Fundação, que ainda não tinha sido levado adiante. Isto implicava na reedição e edição da obra de  Hermilo, e, de forma muito conseqüente, de edição e até reedição de autores locais, sobretudo os contemporâneos, ou, na medida do possível, apoiando, concretamente, financeiramente, a edição dos seus trabalhos. Depois de organizar e publicar uma antologia de crônicas, gênero inédito na bibliografia hermiliana, o livro “Palmares e o coração”, de Hermilo Borba Filho (1987) e de organizar, ao lado de Leda Alves e Jaci Bezerra, também de Hermilo, e publicar, em parceria com a Edições Bagaço, do Recife, a antologia “Louvações, encantamentos e outras crônicas” (2000), pude então retomar meu projeto coletivo com os poetas.  Reorganizei a antologia e a terceira edição de Poetas dos Palmares foi lançada em 2002, no dia do aniversário da cidade, no auditório da Casa da Justiça, no Fórum de Palmares, em homenagem ao seu 123º.  aniversário de fundação.  Editada pela Fundação Casa da Cultura Hermilo Borba Filho/Prefeitura dos Palmares, com tiragem de 1.000 exemplares, foi lançada festivamente na cidade, no seu aniversário, no dia 9 de junho, e, no Recife, no Teatro Hermilo Borba Filho, bairro do Recife Antigo, como parte da programação da Semana de Hermilo em Palmares e no Recife, com a presença de 21 poetas da antologia. Em ambos os lançamentos, organizamos um recital impecável, para a alegria dos aplausos dos convidados presentes e a alegria e o reconhecimento vivo nos corações dos poetas. Assim foi feito e bem feito. Essa terceira edição de Poetas dos Paçlmares manteve  o artigo de Hermilo, publicado no Recife, em 1973, como texto introdutório, transcreveu, nas orelhas, opiniões de Luiz Luna, Mauro Mota e Jaci Bezerra, e, em sua apresentação, eu revelei antecipadamente o seu conteúdo :

“Revisto e atualizado, o livro segue a reestrutura que serviu para definir a sua segunda edição, dividido agora em três partes: de 1900 a 1970, reúne trabalhos dos poetas das gerações da primeira metade do século 20 publicados na primeira edição; de 1970 a 1986, engloba trabalhos de poetas novos e novíssimos, inéditos no livro, e de alguns que já haviam sido incluídos na edição anterior; e, de 1986 a 2000, completando um século de poesia, apresenta os nomes dos autores surgidos em Palmares nas duas últimas décadas, além de reabilitar alguns que, infelizmente, não puderam ser incluídos nas duas edições anteriores da antologia”. Estes são os outros autores (acrescidos aos que estão presentes na primeira edição) publicados na terceira edição da antologia:  Aloísio Fraga, Amaro Matias, Júlia de Morais Leite, Lelé Correia, Manuel Bemtevi, Olívio José de Freitas, Stella Griz, Zenóbio Melo, Alfredo de Moraes, Américo Furtunato, Ângelo Meyer, Elita Ferreira, Fred Caminha, Jesimiel Gonçalves de Lima, João Lins, Leonilda Silva, Luiz Alberto Machado, Paulo Menezes, Roberto Quental, Sandra Lustosa, Vilmar Carvalho, Admmauro Gommes, Aparecida Ventura, Aldo Soares, Ana Sara, Betânia Pinheiro, Dora Angeiras, Dorinha Ferreira, Elias Sabino de Oliveira, Flávia Cedrim Falcão, Hermilo Borba Filho, Inês Falcão, Ivandelma Gabriel, Jordana do Carmo R. Maciel, José Bartolomeu Miranda Maciel, José Maria Sales (Pica-Pau), José Terra, Jucimar Siqueira (Mazinho), Jussara Koury, Laís Vasconcelos Sá Barreto, Lindinalva de Lima, Luciano França, Luiz de Oliveira, Margarida de Mesquita, Marcos Meyer, Severino Cassiano Ferreira, Wilson Alves dos Santos, Zezinha Alves de Souza.    

GUIA DE POESIA – Como editor, você também publicou a Revista “POESIA” e organizou um volume com a obra de Ascenso Ferreira.  Como se deu a experiência da revista e, em seguida, de trazer a obra de Ascenso ?    

A pergunta é muito conseqüente porque foi com a Revista POESIA que eu entrei na aventura venturosa da publicação da obra de Ascenso Ferreira. Com a Revista POESIA eu criei, no Recife, a Nordestal Editora. E a publicação foi uma das experiências mais positivas da minha atividade editorial. E eu fiz de tudo: era diretor, redator, coordenador de textos, revisor, vendedor de publicidade, representante e vendedor de assinaturas, propagandista, distribuidor, cobrador, o escambau.  Contei sempre, desde o início, com o incentivo de muita gente boa do Recife: Jaci Bezerra, que comandava, então, a vitoriosa iniciativa da Edições Pirata, foi o primeiro. Depois, no próprio grupo dos piratas, o incentivo cresceu, e entrou nisso o pessoal da Fundação Joaquim Nabuco, o próprio Fernando Freyre, então presidente da instituição, me incentivou nisso, Moacir Sena Dantas, da Editora Universitária/UFPE, a Prefeitura de Olinda, com José Arnaldo e Ivan Maurício, Tarcísio Pereira, da Livro 7, os jornais diários, gente do rádio e da televisão, professores de colégios e faculdades, pequenos comerciantes e um expressivo número de estudantes, todos assinantes de primeira hora da revista, que circulou, de 1980 a l983, em antológicos dez números. Para melhor idéia, transcrevo um trecho do texto de apresentação do primeiro número (Recife, abril, 1980) :

“Pode parecer um troço do outro mundo a publicação de uma revista de poesia nesse tempo. Os anos 80 chegaram e com ele a certeza mais apressada do homem na cibernética, nos valores computadorizados, na objetividade consumista, no isso e no aquilo e no raio que o parta.  Muito menos, ou não mais, o homem em geral deposita fé nos seus próprios valores humanísticos, no prazer da estética e de uma compreensão mais íntima do seu universo e, em tom mais aberto, do universo das outras pessoas, da arte do amor e do amor à arte.  Mas os anos 80 chegaram também para algumas poucas pessoas que acreditam nisso tudo (...) POESIA está sendo lançada para uma valorização imediata, extrema, radical, do texto poético. Todo texto poético, todo poeta tem vez nesta revista aberta para a grande população de poetas sem vez, engavetados, marginalizados, impossibilitados de vivenciar e validar o seu trabalho.”  

E transcrevo um trecho do texto de apresentação do último número (Recife, número 10, maio, 1983) :

“A volta da nossa revista, relançada com o seu número 9, que circulou no mês passado, foi saudada pelo escritor Sebastião Vila Nova, no Diário de Pernambuco, como publicação atenta para a dimensão cosmopolita, sem a qual não se faz arte digna do nome...  Mais adiante ele assevera que a revista já se impôs como uma das mais sérias e conseqüentes iniciativas culturais do Recife.  No mesmo Diário de Pernambuco, o escritor Potiguar Matos, em sua crônica habitual dos sábados, revelou que a edição da revista POESIA, em suas mãos, é uma vitória, uma esplêndida e animadora vitória.  E ele prossegue assim : Juareiz Correya anda fazendo bruxaria, nesse Nordeste tão pobre e tão esquecido das coisas do espírito. Raro é um gesto de mecenato entre nós.  Na cruel luta pela sobrevivência, a poesia passa a ser o supérfluo ironizado.  Os poetas são emparedados pelo silêncio.  Os cantos de beleza e os gritos de revolta agonizam perdidos nos fundos das gavetas.  Bato palmas à capacidade criadora de Juareiz e seus companheiros.    E o crítico Paulo Azevedo Chaves, no mesmo jornal, em sua coluna “Poliedro”, não deixou por menos : A revista POESIA, da Nordestal Editora, uma das melhores publicações do gênero, no País, está de volta... Mas POESIA parou por aí. Deixou, particularmente para a minha alegria, este belo saldo: publicação de textos de mais de  120 poetas pernambucanos, nordestinos e brasileiros  e de poetas estrangeiros (Giuseppe Ungaretti, Mao Tse-Tung, Ernesto Cardenal, Pablo Neruda), e de números especiais com  “Manuel Bemtevi, o maior cantor da mata”, “Piratas do Brasil atacam”, “Catimbó, Cana Caiana e Xenhenhém de Ascenso Ferreira”, “O Brasil descobre Portugal” – sobre trabalho de Maria de Lourdes Hortas, revelando, para o Brasil, a poesia pós-Fernando Pessoa de José Gomes Ferreira, Vitorino Nemésio,  José Régio, Antonio Navarro, Pedro Homem de Mello, Antonio Gedeão, Miguel Torga,  Azinhal Abelho, Jorge de Sena, Sallete Tavares, Sophia de Mello Breynner Andresen, Mário Cezariny de Vasconcelos, Antonio Ramos Rosa, Herberto Helder, José Carlos Ary dos Santos, David Mourão Ferreira, Eduíno de Jesus, Jorge de Sampaio, Maria Tereza Horta, Fernando Grade. Com esta edição, o número 8 da revista POESIA, a nossa publicação conquistou um diploma de mérito cultural concedido pela UBE-União Brasileira de Escritores, seção do Rio de Janeiro.  E, com o número 7, inteiramente dedicado a Ascenso Ferreira, iniciamos o projeto de reedição da grande obra do poeta mais original do Modernismo Brasileiro, há 18 sem ser publicado no Brasil.  

A atividade editorial, para mim, nunca foi uma atividade comercial.  O jornalista  Héber Fonseca, em reportagem sobre o meu primeiro livro publicado,  revelou tudo no título da sua matéria :  “Poeta vende livro mas não vende poesia”.  É isto.  Vender livro, no Brasil, literatura propriamente dita, não digo os para-didáticos de uma indústria muito bem estrutura, que vende livro como quem vende papel higiênico, e é livro de rolo e rodo mesmo, mas vender romance, conto, novela, teatro, é uma aventura de alto risco. Poesia então nem se fala.  E autor local, autor do Estado, de uma região isolada, como é o caso do Nordeste, vai ter mesmo é de enfrentar as estatísticas criminosas do nosso enviesado desenvolvimento educacional e cultural: o analfabetismo primário, funcional e jornalístico, a ausência de livrarias, a falta de incentivo governamental (Município, Estado, Federação), a pobre e limitada política cultural das prefeituras, e até a insensibilidade e o desprezo dos artistas das outras áreas de produção cultural... Entra governo e sai governo e a poesia continua ao deus-dará.

Então eu tive a sorte de ser o primeiro editor, em Pernambuco, a resolver um problema editorial que já tinha virado anedota em nosso Estado.  Uma anedota perversa, é verdade, e ninguém podia ter o prazer de rir disso.  Como é que o maior poeta do Nordeste, destacado no quadro histórico do Modernismo Brasileiro, não era publicado? Nem grande nem pequena editora, nem Governo, ninguém podia publicar Ascenso. E há 18 anos ele não era publicado... Quando o número 7 da revista POESIA circulou eu tive a oportunidade de fazer isso. Uma amiga minha, a pintora olindense Tereza Costa Rego, junto com Sílvia Pontual, também olindense e pintora, em uma exposição, na galeria de Sílvia, me apresentou à viúva do poeta, Maria de Lourdes Medeiros.  Eu lhe perguntei logo: - Por que você não permite a publicação de Ascenso?  Ela me disse, com o seu jeito sincero e direto: - Porque até hoje ninguém me procurou para publicá-lo.  Essa era a verdade, que ninguém dizia. Havia mesmo um boato generalizado de que a viúva e a filha do poeta, Maria Luiza, proibiam, juntas, a publicação de qualquer livro do poeta. E eu, com a minha pequena editora, descapitalizado, resolvi a parada, pura e simplesmente, levando a Lourdes um contrato de edição da obra do poeta e a promessa de reeditar o livro POEMAS, que reunia os títulos Catimbó, Cana Caiana e Xenhenhém, publicados por Ascenso até o ano de 1963, quando saiu a terceira edição pela José Olympio Editora, do Rio de Janeiro. Depois, silêncio total.  Como se, com a morte do poeta, em 1965, tivessem de enterrar também a sua poesia. Resolvi a edição da obra de Ascenso, paralisada há 18 anos, sem um centavo no bolso, pois a Nordestal nunca foi capitalizada na vida. Potiguar Matos dizia que eu fazia bruxaria e Jaci Bezerra afirmava que era “mágica”. Jaci mesmo fez parte das “minhas prestidigitações...” E o Moacir Sena Dantas, que, na época, dirigia a Editora Universitária, da Universidade Federal de Pernambuco. Quando Lourdes assinou o contrato da nova edição do livro POEMAS, de Ascenso, encontrei os meus dois amigos, editores de certo poder no Estado – Jaci Bezerra, por seu lado, dirigia a Editora Massangana, da Fundação Joaquim Nabuco -, dei a notícia a eles, os dois se espantaram e se alegraram, e Moacir foi direto no assunto: - E como é que a Nordestal vai publicar esse livro, se você não tem dinheiro? Fui o mais sincero que pude: - Com uma pequena ajuda dos amigos, como diziam os Beatles. Na próxima semana eu passo na Editora Universitária, meu amigo. E bebemos bem para comemorar aquela bela vitória. Na semana seguinte eu fiz a proposta direta, clara e cristalina, que tinha em mente, ao diretor da Editora Universitária: composição, impressão e acabamento do livro, com o pagamento de toda a produção gráfica de 1.000 exemplares, parceladamente,  a cada três meses.  Pronto: assim foi viabilizada a quarta edição do livro POEMAS, de Ascenso Ferreira, ressuscitando de vez, para Pernambuco, o Nordeste e o Brasil, o poeta e a sua poesia. Essa história está bem registrada em livros e nos jornais Diário de Pernambuco, Jornal do Commercio, Jornal da Cidade, Jornal do Brasil e Folha de São Paulo.  

GUIA DE POESIA - Você mantém um projeto “Poesia Viva” que já publicou poetas de Recife e de Natal.  Qual a proposta deste projeto ?    

Talvez esse seja o projeto mais ambicioso da minha vida. Dizem que os poetas não têm ambição, mas eu tenho a grande ambição de publicar “a poesia viva de todas as capitais brasileiras”.  É mole ou quer mais, como dizem os maloqueiros de Palmares...? Pois é. Trata-se de um sonho meio de administração governamental, um troço institucional, ministerial talvez, maior do que a gente, mas é possível fazer isso acontecer.  A história já começou em 1996, quando, com o apoio e a decisiva parceria da CEPE - Companhia Editora de Pernambuco, do Governo do Estado, por iniciativa do então diretor presidente, o jornalista Evaldo Costa, foi publicada a antologia POESIA VIVA DO RECIFE (100 poetas vivem, amam e eternizam a cidade). Nasceu aí a “Coleção Poesia da Cidade”, que tem o claro objetivo de retratar poeticamente as capitais brasileiras.  É um projeto da Panamerica Nordestal Editora, que eu dirijo no Recife, com a participação dos meus filhos, que poderá muito bem ser empreendido com parceiros governamentais (Prefeituras, Estados), como já foi feito com a POESIA VIVA DO RECIFE (publicada pela CEPE/Governo do Estado de Pernambuco) e com a POESIA VIVA DE NATAL, organizada por Manoel Onofre Jr., publicada em projeto de co-edição pela Panamerica Nordestal e Fundação Capitania das Artes, da Prefeitura da Cidade do Natal, no ano de 1999, em homenagem aos 400 anos da capital potiguar. 

Agora, já reorganizei a segunda edição de POESIA VIVA DO RECIFE, com a participação de 160 poetas contemporâneos vivos, incentivado pelo poeta Flávio Chaves, e o livro, com certeza, será publicado pela CEPE em agosto deste ano de 2008.  Espero que, com essa reedição, a Coleção Poesia da Cidade tome novo impulso e possamos publicar, ainda neste ano, a antologia POESIA VIVA DE SÃO PAULO, que eu organizei ao lado da poetisa paulista Dalila Teles Veras, e também a POESIA VIVA DE MACEIÓ, que pretendo organizar com o poeta Luiz Alberto Machado, meu amigo e parceiro nessa nova empreitada. Outras cidades e outros parceiros virão – estamos tentando viabilizar a organização da POESIA VIVA DE FORTALEZA, JOÃO PESSOA, GOIÂNIA, SALVADOR e BRASÍLIA - e temos certeza de que objetivamente, todos compreenderão que “os poetas têm mesmo a condição de oferecer uma visão mais enriquecedora de suas cidades, até melhor do que a de alguns economistas, jornalistas, políticos, cientistas e outros intelectuais...”, como eu já tive a oportunidade de afirmar.    

GUIA DE POESIA – Você criou e foi presidente da Fundação Casa da Cultura Hermilo Borba Filho, de Palmares.  Primeiro, gostaria que você falasse da sua experiência com Hermilo Borba Filho e da importância dele para a literatura brasileira.    

Não conheci Hermilo direito, pessoalmente, não tive o privilégio, como muitos tiveram, no Recife, por exemplo, de ser um aluno dele, de vivenciar teatro com ele, sequer de ouvi-lo em uma palestra. Meu contato com ele é aquele do episódio já conhecido aqui nesta entrevista sobre o livro POETAS DOS PALMARES e a atenção respeitosa, dele, com o meu pequeno trabalho literário e editorial. Nasceu, nesse ponto, nesse momento, uma identificação entre nós dois que me influenciou, decisivamente, para idealizar e lutar pela criação da Fundação Casa da Cultura Hermilo Borba Filho. Acho que eu devia essa gratidão a Hermilo. E sobre a importância dele para a literatura brasileira não sou eu quem falo ou tenho capacidade de reconhecer isso. São os escritores, críticos e editores brasileiros que souberam muito bem aplaudir a sua obra, gente desta grandeza, por exemplo: Érico Veríssimo, Mário da Silva Brito, Nelly Novaes Coelho, Leandro Konder, Paulo Cavalcanti, Gilberto Freyre,  Hélio Pólvora, Ariano Suassuna, Raymundo Souza Dantas, Márcio Souza. Eles souberam relevar a importância da obra ficcional criada por Hermilo.  Sobre o teatro de Hermilo o time de valores que o aplaudiram é ainda maior.  E, embora no Brasil um escritor não valha nada, como dizia o próprio Hermilo, “escrever é uma maldição como outra qualquer”, não precisamos nos esforçar muito para saber que o nosso “invencível Hermilo” está vivo, continua vivinho da silva...   O que é feito no Recife, atualmente, com as “Semanas de Hermilo”, promovidas nos meses de julho, a cada ano, por um grupo de hermilianos que o conheceram e de novos hermilianos que têm a sorte e a alegria de conhecer a sua obra, prova isso.   

GUIA DE POESIA – Agora, fala como se deu o processo de criação e fundação da entidade, fazendo uma avaliação da sua representatividade para Palmares, para a Mata Sul de Pernambuco e para a memória de Hermilo.    

Acredito que qualquer cidade brasileira se orgulharia, de peito inchado, e se louvaria com a glória de ter como filho um Ascenso Ferreira e um Hermilo Borba Filho. Mas Palmares não tem. Nunca teve a iniciativa de valorizá-los e louvá-los direito, com as suas obras, que eles existem, se projetaram, criaram a eternidade da própria cidade, com as suas obras. Quando eu idealizei a criação da Casa da Cultura Hermilo Borba Filho, teve gente graúda, em Palmares, que chegou a me dizer o seguinte: “Hermilo é um cachorro”. Segui em frente, encontrei bons amigos na empreitada, que foi iniciada junto com o pessoal que faz hoje o vitorioso empreendimento da Edições Bagaço, no Recife. No início do ano de 1983, encaminhei um pedido para apresentar o projeto ao então  prefeito eleito Luís Portela de Carvalho e ele programou uma reunião comigo. Fui ao seu gabinete, num domingo de manhã, em companhia de José Eduardo, um líder camponês que voltava a fazer política na cidade, e do meu amigo Arnaldo Afonso Ferreira, que fundou e dirige a Edições Bagaço. O prefeito estava lá, com o seu vice-prefeito, nosso amigo Francisco de Assis Rodrigues, e com todo o seu staff governamental: os secretários, presidente da Câmara, vereadores, líder do Governo... Pensei que seria uma pequena reunião e o prefeito deu, ao nosso encontro, uma clara demonstração de importância que eu nunca seria capaz de imaginar. Assim que começamos a conversar, ele me disse: pode apresentar o seu projeto, estamos aqui para isso. Não tive dúvida: fiz uma rápida exposição do projeto, da importância de se reconhecer um homem de valor como Hermilo, um filho de Palmares de projeção nacional e até internacional, essas coisas, e entreguei a cópia do documento datilografado ao prefeito, com a seguinte recomendação: - “Aqui está o projeto da Casa da Cultura. Peço que o Sr. estude, com a sua equipe de governo, se será possível realizá-lo ainda neste ano ou durante o seu mandato...”  O prefeito recebeu a cópia do projeto e, sem sequer folhear o texto,  sem qualquer consulta a sua equipe, que permanecia no gabinete  obedientemente silenciosa,  disse: “Hermilo era meu primo. Até me colocou em algumas histórias dele. Palmares precisa homenagear Hermilo. E eu acredito que nada me impede de lhe dar a resposta agora...”  Eu disse logo, sem pestanejar: “Então dê.”  Ele disse : “Nós vamos fazer”.  Pronto. A vitória já tinha sido alcançada e saímos da Prefeitura, eu, José Eduardo e Arnaldo, para comemorar com outros conhecidos. Eu tinha feito tudo mesmo, inclusive indicado, com a aceitação clara de todos, sobretudo de Luís Portela e de Francisco de Assis Rodrigues, o nome de Jessiva Sabino de Oliveira, então diretora da Biblioteca Pública Municipal, para presidir a instituição. O parto durou praticamente um ano.  Nesse tempo, entrou em questão a preservação do Teatro Cinema Apolo, que, fechado há alguns meses, poderia ser vendido para se transformar em uma loja de eletrodomésticos, um banco ou uma igreja evangélica,  e  a Casa do Alto do Inglês, que seria destinada para abrigar a sede da Fundação Casa da Cultura Hermilo Borba Filho, foi deixada para trás, por força da mobilização, com a gente à frente da Revista A REGIÃO, embrião da futura Edições Bagaço, pela aquisição e preservação do Teatro Cinema Apolo. O prefeito resolveu isso logo, em negociação direta com a família proprietária do edifício. Outra bela vitória e a Casa de Hermilo já começava a beneficiar culturalmente a cidade mesmo antes de ser criada e entrar em atividade.   Sim, porque, até então, a instituição ainda estava no papel, a professora Jessiva vivia desestimulada, e eu, quando podia aparecer no município, não chegava a falar diretamente com o prefeito.  Até que, vendo que se avizinhava o mês de julho, motivado pelo dia de aniversário de nascimento do patrono da Casa da Cultura, procurei diretamente o prefeito e fiz ver a ele que esse seria um período ideal para a inauguração da instituição. Eu já havia adiantado também um modelo de estatuto, auxiliado pelo poeta Jaci Bezerra, que era assessor da presidência da Fundação Joaquim Nabuco, e o prefeito me chamou então para participar das reuniões que definiriam a criação e a inauguração da Fundação Casa da Cultura Hermilo Borba Filho. Das reuniões, com a equipe do Governo, secretários e vereadores, participava também a futura presidenta Jessiva Sabino de Oliveira. As dificuldades iam surgindo e, à luz da discussão com a equipe, no gabinete do prefeito, eu ia esclarecendo tudo o que podia. Até que em uma noite, faltando pouco mais de um mês para a data prevista da inauguração, a professora Jessiva Sabino entregou ao prefeito uma curta comunicação onde renunciava, em caráter irrevogável, ao cargo de presidenta da Fundação. A comunicação caiu como uma bomba no gabinete, o prefeito Luis Portela e o vice-prefeito Francisco de Assis Rodrigues ficaram desnorteados, meio chateados, mas o prefeito recuperou logo o fôlego e convocou uma reunião, com a presença de todos, na manhã seguinte, às 10 horas da manhã, ali mesmo no gabinete, para decidir quem deveria ser o presidente da instituição. Cheguei ao gabinete do prefeito na hora acertada por ele com o firme propósito de não querer saber de mais nada: o prefeito já tinha o projeto, a sede da fundação já estava comprada, ele e a equipe dele saberiam muito bem o que fazer. Eu mesmo já tinha feito a minha parte, eu pensava assim e disse isso abertamente ao prefeito, na primeira oportunidade em que pude lhe falar, ali, no meio das conversas e desconversas, das idas e vindas de secretários, assessores e vereadores... Vi por exemplo, nessa hora, que as pessoas traziam nomes escritos em pedaços de papel, seriam as indicações para o tal cargo de presidente da Fundação. Quando eu disse ao prefeito que queria voltar ao Recife ainda naquela manhã, ele me disse: “Tenha calma e espere até meio-dia. Depois de meio-dia volte aqui que eu tenho um resultado sobre a Casa da Cultura.” Quando voltei à Prefeitura, duas horas depois, a reunião já havia se encerrado.  O prefeito estava me esperando, me disseram na recepção.  Passaram por mim alguns secretários e vereadores que viraram a cara para o outro lado. Uns quatro me cumprimentaram até efusivamente. Me encontrei com o prefeito e ele foi direto no assunto : “Houve muita discussão, muita briga, mas você é o presidente da Casa da Cultura.” Eu respondi rápido, sem tempo para surpresa: “Muito obrigado, prefeito.  Agora vou voltar ao Recife, dar a notícia à Imprensa e organizar tudo para a festa da inauguração no dia do aniversário de Hermilo”.  Dizendo assim é possível se pensar que foi fácil, claro e simples como a comunicação dele e rápido e certeiro como o que eu prontamente respondi.  Nada disso. Eu soube depois que “muita discussão, muita briga” existiu mesmo. É que o prefeito ouviu a opinião de todos, com indicações até estapafúrdias de nomes que nem a Palmares pertenciam. Ele recusou todos os nomes apresentados pela sua equipe e colocou na mesa o seu voto: o meu nome. Os protestos foram imediatos, com acusações de todo tipo sobre a minha figura (que eu bebia muito, era mulherengo, tinha sido preso, não tinha formação universitária...), Luís Portela rebateu tudo isso, com energia e discernimento, e colocou objetivamente o meu nome em votação. Eu era o candidato dele e perdi de 5 a 4. Ele não se perturbou e arrematou desta forma: - Tudo bem. Juarez perdeu. Agora, eu quero que me digam, logo, sem mais tempo para discussão, quem é que vai dirigir a Casa da Cultura sem ele ?” Ninguém deu um pio. E ele sacramentou tudo : “Então Juarez é o presidente.” Começamos então a tarefa de edificar a Fundação Casa da Cultura Hermilo Borba Filho. Com o Teatro Cinema Apolo, atividades para o teatro, a música, realização de palestras e debates, lançamentos de livros, exposições de arte, exibições cinematográficas. O espaço não seria  apenas um cinema, como sempre funcionou por várias décadas.  E sim um centro cultural ativo no centro, no coração da cidade.  Poucos funcionários, pouco dinheiro, mas o trabalho sendo desenvolvido com uma equipe unida. A comunidade identificou-se com a Casa da Cultura e ela existe hoje há quase 25 anos. Depois de três anos de atividade, realizando  apenas uma parte de 20% do seu projeto, com muita coisa para criar ainda, tive de entregar o cargo de presidente da Fundação ao prefeito por causa do enfrentamento, da luta de braço que mantivemos com a Prefeitura, discordando abertamente do nosso prefeito que queria, a todo custo, derrubar o edifício do Mercado Público dos Palmares, para, em seu lugar, construir uma nova praça. Lutamos com argumentos sérios e convincentes, conquistamos o apoio de uma parcela da comunidade e, o que era mais importante então, da comunidade cultural de Pernambuco, com depoimentos e apelos dirigidos ao prefeito Luiz Portela para que ele preservasse a edificação que completaria, em 12 anos, um século. Mobilizamos a opinião pública e conquistamos a adesão, o apoio concreto, respeitável, da Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco, da Academia Pernambucana de Letras, da Fundação Joaquim Nabuco, da Universidade Federal de Pernambuco, do Ministério da Cultura, mas o prefeito, irredutível, teimosamente, promoveu a derrubada do Mercado Público numa “noite de terror” indescritível, para o espanto das pessoas de bem e mais informadas, inclusive com o protesto, em forma de denúncia, de reportagens bem fundamentadas do Jornal do Brasil e do programa Fantástico, da Rede Globo. Fiquei ausente de Palmares durante 10 anos e voltei, para administrar a Fundação, por força do convite de Francisco de Assis Rodrigues, eleito prefeito da cidade, em 1997. Para início de conversa, tive de reorganizar / restruturar a Fundação, visto que até o Teatro Cinema Apolo estava em estado lamentável. Presidi a Fundação Casa da Cultura Hermilo Borba Filho, nos dois governos de Francisco de Assis Rodrigues, de 1997 a 2000 e de 2001 a 2004.  Infelizmente, deixei o Teatro Cinema Apolo em inatividade, por causa do desabamento de uma parte do telhado do edifício, em 2001, e o desinteresse do Governo do Estado em realizar a sua reforma. Já tombado pelo patrimônio histórico estadual, o Teatro Cinema Apolo, que é o mais antigo do Interior de Pernambuco, merecia o respeito e o compromisso do Governo do Estado com a sua reforma.  Isso não foi feito por questões políticas ou, melhor dizendo, por um comportamento político pobre e mesquinho do então governador. Mas promovemos algumas conquistas e deixamos realizações concretas, além de um projeto que, se for devidamente cumprido, deixará Palmares na vanguarda cultural da região e também de todo o Interior do Estado de Pernambuco.  Conseguimos preservar e colocar em atividade, como Estação Cultural dos Palmares, a antiga Estação Ferroviária, marco histórico da cidade. Na Estação Cultural, criamos a biblioteca da instituição, sempre colocada a serviço da comunidade estudantil, montamos a Livraria Griz, iniciamos a instalação do Museu dos Palmares e do Centro de Arte Murillo La Greca e idealizamos o Memorial Luís Portela de Carvalho.  Tudo isso deveria ter sido inaugurado pelo ainda prefeito Francisco de Assis Rodrigues, até o ano de 2004, mas ele teimosamente deixou para depois e ninguém sabe mesmo para quando...

Já tive a oportunidade de afirmar, de escrever e publicar, em uma carta aberta dirigida a Palmares e à Região Mata Sul de Pernambuco, que a Fundação Casa da Cultura Hermilo Borba Filho é significativa e representativa não apenas para o município dos Palmares, mas para todos os municípios da região Mata Sul de Pernambuco.  À luz do espírito de Hermilo, Palmares pode assumir, naturalmente, com a Casa da Cultura, a vanguarda cultural de toda a Região, e alavancar os seus valores, que são muitos, e projetá-los na região e para além dela, como já tentamos fazer, na segunda administração do prefeito Francisco de Assis Rodrigues, com a publicação da Revista Atlântica. Mas ficamos só em um único primeiro número. Se pudesse ser mantida em circulação,  divulgando e relevando “a cultura e o desenvolvimento da Região Mata Sul de Pernambuco”, já teríamos avançado muito o nosso processo histórico e a região seria reconhecida realmente pelo valor cultural que ela tem, tão rico e tão diverso. Penso mesmo que a Fundação Casa da Cultura Hermilo Borba Filho deve ser transformada em uma fundação regional de cultura, mantida pelo Governo do Estado com a co-gestão dos municípios que integram a região. Creio que isso é possível fazer, com vontade política do Governo Estadual, e isso o atual Governador Eduardo Campos tem de sobra, aliada a sua invejável sensibilidade com a produção cultural pernambucana. E Palmares, participando ativamente da co-gestão de uma Fundação Regional de Cultura Hermilo Borba Filho, manteria vivo o seu patrimônio cultural e se projetaria igualmente com todos os municípios-irmãos, consolidando uma identidade cultural nunca sonhada, mas acredito que de certo modo já  “traduzida”  pelo próprio Hermilo quando escreveu as suas histórias, como ele revelou em uma das suas entrevistas publicadas recentemente no livro A PALAVRA DE HERMILO, consciente de que traduzia “o espírito, a linguagem, o tom de uma determinada região: a zona da mata sul de Pernambuco.”  Acho que, com isto, com este meu testemunho e minhas esperanças reveladas sobre a vida cultural da minha região, encerro todo assunto que me diz respeito. As minhas outras atuações, na área da música popular, por exemplo, ao lado de Paulo de Diniz, em um passado já quase remoto, e os meus projetos como poeta e editor, no Recife e até em São Paulo, devem ficar para depois, e falaremos sobre eles à medida em que eu possa realizá-los. Mas adianto que tenho mais projetos do que a SUDENE (isso lembrando o órgão no tempo em que ele funcionava). E que o meu coração tem sonhos maiores e melhores do que eu. (Recife, fevereiro de 2008)

   

Veja mais de Juareiz Correya acessando: http://varejosortido.blogspot.com/2008/01/juareiz-correya.html

 

 


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