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LAU SIQUEIRA - ENTREVISTA

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Lau Siqueira é poeta nascido em Jaguarão, no Rio Grande do Sul e radicado em João Pessoa, na Paraíba. Ele já publicou os livros: O Comício das Veias (Paraíba: Editora Idéia, 1993), O Guardador de Sorrisos (Paraíba: Editora Trema, 1998) e Sem Meias Palavras (Paraíba: Editora Idéia, 2002) e acaba de lançar o seu quarto livro Texto Sentido. Além disso, tem poemas publicados nas últimas edições do Livro da Tribo (São Paulo: Editora Tribo) e na antologia Na Virada do Século — Poesia de Invenção no Brasil (São Paulo: Editora Landy, 2002), organizada pelos poetas Frederico Barbosa e Cláudio Daniel.

Agora ele concede uma entrevista exclusiva para o Guia de Poesia.

Com você, Lau Siqueira.

 

GP - Inicialmente a pergunta de praxe: como foi e quando se deu a sua descoberta pela poesia?

Na verdade, estou ainda descobrindo. Penso que a poesia nunca se mostra por inteira.  O início de tudo, nem sei quando foi.  Concordo com Quintana: “Poeta a gente é e pronto”. De repente até faz sentido dizer que nascemos assim.  Não sei... a poesia, me parece, é um tipo de conexão com a memória das coisas não vividas, como diz o Ruy Guerra. Portanto, acho que sempre esteve e sempre me acompanhará, inevitavelmente pra sempre. Não como um lugar, mas uma procura.

 

GP - Quais as influências na infância e adolescência que contribuíram para a formação do poeta?

Acho que foi tanta coisa. Os passeios de charrete, com meu velho pai. As visitas casa de à Mama, minha avó materna, conduzido pela mão de minha mãe pelos caminhos do Cerro da Pólvora, em Jaguarão. A visita do palhaço Carequinha na minha cidade. A beleza e a doçura de Alice, minha primeira professora. O incentivo da minha irmã, que me emprestava livros e me incentivava na leitura.  Tudo isso foi tão intenso quanto a leitura do primeiro livro, Robinson Cruzoé, de Daniel Defoe. Depois vieram as leituras dos livros de Sérgio Antônio Raupp: Saudades de Monteflor, Os Três Amigos, Os Sonhos de José e outros. Nesse último, o protagonista era um cara que escrevia tudo que sentia, o tempo todo. Passei, então, a imitá-lo compulsivamente. Eu devia ter uns 10 ou 11 anos, na época. Mais tarde, ainda menino, descobri Castro Alves e fiquei impressionado com a força da poesia condoreira do baiano. Também logo em seguida conheci Gregório de Matos Guerra e outros poetas que contestavam o sistema. Na época, vivíamos uma ditadura no Brasil e aquela rebeldia com o sistema, me encantava. Por isso tudo  e porque isso tudo ainda é muito vivo em mim, na verdade, penso que ainda estou descobrindo. Na adolescência, gostava de Neruda, Quintana, Baudelaire, Rimbaud, Bandeira... mais tarde, conheci os concretos, lá pelos anos 80, os movimentos de vanguarda, Mallarmé... e tudo isso desenhou pra mim a sensação de estar sempre aprendendo sobre uma arte que se renova cotidianamente.

 

GP - Como se deu o processo fixação do gaúcho num universo nordestino como a Paraíba?

Eu vim pra Paraíba e casei aqui. Depois separei, mas tenho duas filhas e uma neta paraibanas, publiquei todos os meus livros aqui. Enfim, essa fixação se deu no cotidiano de um homem comum com suas responsabilidades perante a vida. Estou na Paraíba há 23 anos e minha cidadania, certamente é um elo entre o extremo sul e o extremo oriental desta América de Athaualpa Yupanchi, que dizia: “ser latino-americano é não ser estrangeiro em lugar nenhum”. E assim, sinto que entre esses dois lugares residem as minhas melhores capacidades de vôos e pousos. Ter nascido em Jaguarão e ter vindo morar na capital da Paraíba foi um movimento que me tornou um cidadão pleno.

 

GP - Você publicou o Comício das Veias, depois O Guardador de Sorrisos e Sem meias Palavras, até chegar agora no Texto Sentido. Sendo, inclusive, incluído na antologia "Na virada do século". Que avaliação você faz da sua trajetória poética?

Eu nunca me preocupei em ter ou não uma trajetória na poesia, uma carreira. Na verdade, eu simplesmente fui caminhando. Aliás, estou caminhando e vou continuar. Publicar nem sempre foi uma alegria, pra mim. Ao mesmo tempo, sempre foi um ato de partilhamento e um aprendizado de novos caminhos. E acho curiosa a forma como entrei na antologia “Na virada do século”. Os alunos de Frederico Barbosa, poeta e um dos organizadores, liam meus poemas pra ele em sala de aula e ele ficou impressionado por ser um pesquisador da poesia contemporânea e não conhecer o poeta que seus alunos estavam lendo. Mas, os meninos liam poemas extraídos das agendas da Tribo e da Internet, já que nunca tive livros publicados com distribuição nacional. Então, Fred por ser um cara antenadíssimo e generoso, me colocou lá. Antes, minha poesia andou por aí, publicada até mesmo em aerogramas, convites de formatura, camisinhas, varais poéticos, fanzines, blogs, sites, revistas, jornais e suplementos literários. Enfim...  sempre estive caminhando e nunca tive “talento” pra bajular ninguém em troca de visibilidade, como vejo ocorrer algumas vezes com pessoas do tipo “oportunista patológico”, como diria Antônio Risério. Neste ano de 2008, por exemplo, meus poemas estão, além do Livro da Tribo, nas agendas do PSTU, no livro didático da Rede Pitágoras, de Minas, no Trabalho de Conclusão do Curso de uma concluinte de Letras, em Santarém, no projeto Dulcinéia Catadora, em São Paulo, em sacos de pão no projeto Pão & Poesia, do amigo Diovani, em BH, num seminário de Letras na UFPB, no Encontro Natalense de Escritores... no CEFET, onde fui dia desses conversar com os meninos sobre Poesia, no lançamento do meu livro cujo coquetel foi a presença de um público massa, com um astral maravilhoso...  enfim, sempre tive uma forma muito pessoal de caminhar. Por exemplo, nunca tive apoio de nada ou ninguém para publicar meus livros. No entanto, todos venderam o suficiente para que eu tivesse a plena certeza de que valeram a pena. Minha poesia tem, desta forma, sido auto-sustentável. Mesmo sem que meu livro Texto Sentido esteja nas livrarias (até mesmo de João Pessoa, por opção própria), continuo vendendo para todo o Brasil, pela Internet, através de uma lojinha virtual (www.lausiqueira.com) criada por um amigo e uma amiga que, hoje, agenciam as vendas.  Enfim, de uma forma ou de outra as coisas estão acontecendo. Isso é uma trajetória? De alguma forma deve ser.

 

GP - Você possui e publica seus trabalhos no blog Poesia Sim. A internet tem contribuído para difusão do seu trabalho?

A Internet contribui imensamente. Algumas vezes coloquei meu nome no Google e fiquei impressionado com a quantidade de blogs, sites e portais reproduzindo meus poemas. Minha filha fez uma comunidade pra mim, no Orkut e, de uma hora pra outra, tinha mais de 600 pessoas. A Internet me permitiu, por exemplo, receber um dia desses um livro de um poeta da Costa Rica que havia visto um poema meu num site e gostou. A Internet me permitiu receber e-mails de leitores brasileiros espalhados por aí, na Itália, nos Estados Unidos, na França. A Internet facilitou o contato com poetas de outros países e de outras regiões do país.

 

GP - Como você avalia o que se tem veiculado de Poesia na Internet?

Não somente na Internet. Se publica bons livros, mas também obras lamentáveis. Da mesma forma, você encontra blogs veiculando salmos e salmouras e blogs veiculando poetas incríveis e muitas vezes inéditos.  O que eu quero dizer que não é o meio que determina. Tem coisa boa e coisa ruim na net, na mesma proporção que tem coisa boa e coisa ruim impressa. O bom é que a net nos permite garimpar com mais rapidez e eficiência.

 

GP - Como você tem avaliado as políticas culturais desenvolvidas? Há uma política pública conseqüente de valorização e difusão artística?

Eu acho que a gestão cultural do governo Lula vem chegando muito perto do que desejava sua militância histórica, ou seja: a militância que se decepcionou com o mensalão, com os “vacilos” políticos e desvios administrativos.  A gestão de Gilberto Gil é voltada para a inclusão cultural e propõe um debate à sociedade e aos movimentos culturais e artísticos. Acho que pela primeira vez se começa a discutir e implementar políticas públicas no âmbito do Ministério da Cultura, irradiando para estados e municípios. Acho que um artista nunca deve esperar do Poder Público o amparo ou a valorização das suas carreiras. O que pensa assim está lascado. As políticas de cultura não devem ser dirigidas aos artistas, mas ao povo que é o agente financiador. Os artistas devem ser apenas os parceiros na implementação dessas políticas.

 

GP - E o Brasil? Você que vem desde as alternativas marginálias, como você tem avaliado o Brasil nos últimos 30 anos? Há esperança?

Tem uma frase de David Cooper que eu repito sempre quando se fala em esperança: “Não existe esperança. Existe uma luta. Esta é a nossa esperança”. Penso que saímos de uma ditadura, o que já foi um avanço. Baixamos as calças pro capital especulativo, continuamos num modelo neoliberal de desenvolvimento... Enfim, até mesmo os eventos lamentáveis proporcionados pelo governo do PT nos ensinaram muito. Por isso sou otimista. Acho que estamos avançando, apesar de tudo. Apesar do capitalismo ter gerado no Brasil um dos piores índices mundiais de distribuição de renda.

 

GP - Fala pra gente como está o cenário poético na Paraíba? Novidades?

Paraíba tem uma tradição poética que vem de Augusto dos Anjos. Não preciso dizer muita coisa. Temos aqui um dos maiores poetas brasileiros contemporâneos, Sérgio de Castro Pinto. Temos também uma nova geração de grande qualidade que começa a despertar o interesse da imprensa literária brasileira.  Enfim, a Paraíba está no primeiro time da produção poética nacional, com certeza. Existe uma diversidade estética acentuada e uma convivência muito saudável entre os poetas, de um modo geral. E eu sei que isso não é regra, por aí.

 

GP - Quais as perspectivas e projetos que você pretende realizar?

Estou metido novamente na preparação de um novo livro de poemas, acredita? Também estou escrevendo alguns textos e penso publicar um livro sobre gestão cultural (já que estou à frente de uma, na Fundação cultural de João Pessoa) ou sobre uma visão administrativa da gestão pública de cultura. Enfim, no meu blog, Poesia Sim, vou traçando meus rumos, minhas metas (www.poesia-sim-poesia.blogspot.com) , meu projeto final é ser lido. Mas, afinal, não é este exatamente o projeto de cada escritor, por mais hermético que seja? Meu projeto é vender os meus livros o suficiente para nunca precisar de dinheiro público ou editoras endinheiradas para publicá-los, ainda que não tenha nada contra e até goste de participar de um ou outro tipo de publicação. Só não tenho paciência pras filas e pras regras dessas duas possibilidades. Meu projeto, resumindo, é escrever, trabalhar com poesia e ser livre, ser feliz. Em última análise: viver com intensidade e mergulhado nas possibilidades da linguagem.

 

 


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