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LUCIANA MARTINS - Entrevista

 


Luciana Martins é poeta, escritora e professora maranhense, mestre em Literatura pela UnB e doutora pela USP, autora dos livros Lapidação da Aurora e Espetáculo das sensações alheias .

GP: Como a literatura, notadamente a poesia, chegou até você?

Luciana: A “literatura” chegou um dia, para mim, na hora do almoço. Meu pai veio do banco onde trabalhava com três livros grandes na mão, intitulados Maravilhas da literatura infantil . Eu tinha quatro anos de idade, tinha acabado de me mudar para aquela cidade, no interior do Maranhão, e não conhecia nenhuma criança ainda, de forma que aquela coleção me salvou da solidão (perdoem-me pela rima fora de hora). Daquele dia em diante, nunca mais fiquei só, embora o mundo tenha me revelado muitas vezes o sentimento de abandono.

Em frente à minha casa, em Itapecuru-mirim, tinha o “Clube de Mães”, que contava com a presidência de uma mulher muito inventiva, a Dona Dinoca. Essa senhora adorava fazer festa, no clube, com os adultos e as crianças. Era lá que eu podia dar vazão ao meu, vamos dizer assim, lado artístico. Meus pais haviam me colocado para estudar o Jardim de Infância num colégio de freiras, onde tudo era levado muito a sério, até a brincadeira de roda. O clube, ao contrário, era um local “aberto para os talentos”, e foi lá que foi se mostrando para mim mesma(somente agora descobri) o meu pendor para a poesia. No dia das mães, em maio do ano seguinte, eu estava no palco, cantando em alto e bom tom uma música para a minha mãe. “Andei por todos os jardins/ procurando uma flor pra te ofertar./ Em algum lugar eu encontrei/ a flor perfeita pra te dar./ Ninguém sabia onde estava/ esta flor, mimosa perfeição./ Ela se chama flor-mamãe/ e só nasce no jardim do coração...” As luzes e as atenções se voltaram para mim, e cada palavra que eu dizia era como que estivesse encantando as pessoas que me assistiam. Tudo não passou, é claro, de uma fantasmagoria, de uma fantasia dentro de minha cabeça, mas, a partir daquele instante, passei a associar, para sempre, a palavra falada ou cantada ao dom do encantamento.

A poesia propriamente escrita veio alguns anos depois, quando fui morar em Brasília, e pude ter contato com bibliotecas maiores do que as que eu conhecia até aquele momento. Eu tinha pouco mais nove anos de idade quando conheci os poetas românticos e parnasianos que eram lidos na escola, nos livros didáticos de então, e também o Vinícius de Morais num livro que peguei não sei aonde. Eu logo me deslumbrei pela coisa e comecei a recitar para quem quisesse ouvir os poemas que aprendia. Era um sentimento performático de criança, de quem queria se afirmar, de alguma maneira, para os adultos. Meus pais também estavam conhecendo pessoas novas em Brasília, estavam se afirmando naquela cidade tão diferente das que já conhecíamos; por isso, aproveitavam para me botar na comissão de frente, recitando o “Soneto de fidelidade”, o “Soneto de separação” etc.

Depois fui aprendendo devagar que a leitura de poesia podia ser um ato solitário. E com quinze anos veio a virada: me deparei com o Fernando Pessoa. Foi uma mudança brutal: virei atéia, niilista, romântica e protestadora; melhor dizendo: assumi isso tudo, porque desde sempre nunca fui considerada uma menina dentro dos padrões da “normalidade”.

Logo depois do Fernando Pessoa, li um livro de contos da Clarice Lispector ( Laços de família ) e foi o bastante para constatar que realmente o mundo da literatura era o mundo em que eu mais gostava de ficar, porque me sentia acolhida, entre semelhantes (os personagens, não os autores – por favor!). O que não quer dizer que parti para o alheamento, é claro. Lembro de um amigo que, me olhando, disse: “Você fica fora do mundo quando lê”. E eu respondi: “ Não, eu fico dentro do mundo, lendo.”

GP: Como foi a experiência de publicar Lapidação da aurora?

Luciana: Publiquei esse primeiro livro no final de 1995, quando estava beirando os 32 anos de idade. No entanto, eu vinha escrevendo versos desde muito antes; desde os quinze. Só que nunca tinha certeza de que se “aquilo” era ou não era poesia. Por isso fui adiando a publicação ao máximo, até não ter mais jeito, e os amigos insistirem muito. Depois que o livro saiu, foi uma maravilha. Quem lia o livro me dizia: é poesia sim, pode ficar tranqüila. E fui ficando menos intranqüila nesse sentido. (Como sou poeta de um lirismo subjetivo flagrante, sempre tem aquele medo de estar sendo muito “pessoal”).

Nunca quis “impor” meus versos a ninguém. Gosto de recitar poemas de outras pessoas, e não os meus. Sempre me serviu de parâmetro crítico aquela cena do Machado de Assis, em que o Bentinho pega o bonde com um rapaz que resolve ler na viagem um calhamaço de versos que escreveu, deixando o pobre do Bentinho com tanto sono a ponto de adormecer de verdade. O rapaz fica tão zangado que acaba o apelidando de Dom Casmurro. Portanto, me coloco, na medida do possível, no lugar do Dom Casmurro, e não no lugar do rapaz versejador. É claro que muitas vezes faço o papel deste último sem perceber...

De qualquer forma, não vou negar que o Lapidação tem sido bastante bem aceito. Vez por outra tento arrumar um exemplar para alguém que me pede; no entanto, o livro está esgotado, a não ser que o Cláudio Giordano inda tenha alguns exemplares guardados. Vou ver isso com ele. Talvez seja até o caso de batalhar por uma segunda edição.


GP: Você fez o seu mestrado em Literatura Brasileira na UnB, abordando "A estética da crueldade em Dalton Trevisan". Como se deu esse trabalho?

Luciana: Eu sou tarada pelo Dalton Trevisan. Inclusive já observei que o mundo literário no Brasil está dividido em dois: entre aqueles que amam o Dalton e aqueles que o odeiam. É difícil encontrar um meio termo aí.

Na década de oitenta, em 1984 precisamente, por uma série de circunstâncias que não vem ao caso aqui relatar, vim morar em Curitiba. Já fui chegando na cidade procurando o “Vampiro”. Esses dias contei essa anedota para meus alunos de literatura, e um deles perguntou: “ E você encontrou esse vampiro?”

“Sim (respondi). Encontrei dentro de mim o Vampiro de Curitiba.” É a mesma coisa do Guimarães Rosa, lá do Grande Sertão: Veredas : “ O sertão está dentro”.

Portanto, quando fui fazer o mestrado na UnB, não fazia sentido escolher outro autor. Ou era o Dalton ou era o Machado de Assis. Mas, como muita gente está sempre escrevendo sobre o Machado, e tinha pouca bibliografia sobre o Dalton, optei por ficar com este último.

Meu trabalho ficou voltado para o mais óbvio do autor: a narrativa da guerra conjugal, da guerra amorosa, e seu lado mal e cruel. A partir daí, fui estudar o conceito de “Mal” nas ciências humanas, o que me deixou bastante impressionada.

Mas hoje, se eu fosse escrever sobre o Dalton, eu ia falar do lirismo poético que ele vem desenvolvendo, que no começo era um tanto encoberto, e que agora é escancarado. O Dalton faz uma prosa poética como poucos. O mais interessante também é quando ele escreve em versos.


GP: Depois, no seu doutoramento, abordou "Tensões da crítica e da poesia em Mário Faustino". Fale a respeito disso.

Luciana: Aconteceu o seguinte: o desafio para mim naquele momento era correr o risco de escrever sobre POESIA. Eu fazia poesia e ponto. Agora, escrever SOBRE poesia, fazer crítica de poesia me parecia muito complicado. Eu tinha medo de misturar as coisas.

O interessante é que acabei escolhendo um poeta que viveu o mesmo conflito (sem ter consciência de que o vivia). Mário Faustino fez poesia e fez crítica. Meu orientador, o Alcides Villaça, da USP, me apontou como a crítica de Faustino era idealizada (influência de Ezra Pound), e, a partir daí, fui caminhando.

Mas foi barra pesada. Ainda preciso retomar esse trabalho e dar uma melhorada nele.


GP: Em 2003, você publica "Espetáculo das sensações alheias” - drama lírico em três atos . Como se deu o processo de criação?

Luciana: A montagem do “Espetáculo” foi feita em uma semana. Os poemas vinham sendo feitos desde imediatamente depois da publicação do Lapidação . Ainda assim, publiquei poemas mais antigos, só que refeitos. Quando fui sentar para finalizar o livro, verifiquei que tinha uma série de poemas inacabados, por isso tive um certo trabalho para concluí-los. O meu “processo de criação”(como você chama) é muito dolorido. Eu sempre deixo tudo para a última hora. Não sou de ficar organizando todo dia um pouquinho, para depois não sofrer tanto. Pelo contrário: vou escrevendo os poemas em papeizinhos, canhoto de cheque, guardanapo, no meu diário, na agenda etc. E fica tudo perdido pela casa. Depois de um tempo saio catando os papéis e colocando numa caixa. E depois de mais outro tempo pego um e passo pro computador. Quando está digitado, é que eu vejo, na maioria das vezes, que o poema está incompleto. Aí lá vem outro sofrimento. Mas, para não exagerar, é lógico que não é sempre assim: algumas vezes tem poemas que já saem prontinhos, como se tivessem sido ditados por um sopro de Orfeu, no meu ouvido.


GP: Como você avalia a trajetória de Lapidação da aurora até o “Espetáculo das sensações alheias” ?

Luciana: Entre um livro e outro, fui aprendendo a me arriscar mais. Fiquei menos tímida; me preocupei menos em errar. Também li MUITA poesia nos últimos tempos. Ler poesia (para mim) é uma forma de aprendizagem para fazer poesia. Mas fugi correndo dos(das) poetas medíocres; tenho medo de pegar a doença da mediocridade.


GP: Como você vê a literatura e a poesia brasileiras hoje?

Luciana: Como sempre vi. Honestamente, prefiro não ficar dando opinião sobre quem presta ou quem não presta na “literatura atual”. Quando eu quiser fazer isso, vou escrever um ensaio.


GP: Como você vê a perspectiva da literatura e da poesia mediante a prática pedagógica com os seus alunos?

Luciana: Adoro ler poesia com meus alunos. Todo mundo sabe que no ensino de literatura a prosa sempre é privilegiada. Mas eu bato o pé, insisto; se for preciso, brigo para que seja possível ler direito poesia em sala. Digo “ler direito”, porque não adianta ficar levando fragmentos de poemas, pedaços de estrofe, e privilegiar o ensino de “estilos de época da literatura”, em detrimento de uma leitura aprofundada do texto poético.

O mesmo costuma acontecer com o ensino de prosa. Tenho alunos no curso superior de informática que dizem ter passado no vestibular sem ler um livro sequer dos que foram pedidos. Leram os resumos dos cursinhos, decoraram as “características do autor” e pronto.

Acho que sempre devemos chamar atenção para o caráter radical da literatura, para seu aspecto revolucionário mesmo.

GP: A seu ver ainda existem leitores para a poesia?

Luciana: Sim. Mas os leitores de poesia nunca foram muitos. A gente sabe que a carência de educação no Brasil é grande, e que, sem dúvida, influencia negativamente na formação de leitores. Mas lá fora também pouca gente lê poesia. E, portanto, talvez não seja apenas uma questão de “desenvolvimento social”. De qualquer forma não deixa de ser simpático o desejo de Oswald de Andrade, de que um dia “a massa ainda comerá o biscoito fino que eu fabrico.”

GP: Como se dá o relacionamento da professora com a poeta?

Luciana: Essa é mesmo uma pergunta inevitável. Olha, é tranqüilo para mim ser poeta e professora ao mesmo tempo. Na medida do possível, evito usar a sala de aula para me auto-promover como poeta. É claro que quando é “lançamento” de livro todo mundo fica sabendo. Antes de “ser poeta”, entretanto, sou uma leitora apaixonada, de forma que leciono com muito entusiasmo. E, o principal de tudo, tenho um profundo respeito por todos os meus alunos, sem exceção.

GP: A Internet, a seu ver, tem contribuído para a difusão da poesia e da literatura?

Luciana: A internet tem contribuído para a difusão de tudo, para o bem e para o mal. No começo eu a via com desconfiança, principalmente porque era tudo muito lento, a gente tinha de ficar horas na frente do computador esperando o resultado de uma busca. E o pior era ter que separar o joio do trigo depois. Atualmente, com o advento do ADSL, a internet rápida, as pesquisas ficaram mais fáceis.

Eu fiquei impressionada com o tanto de sites que tem só de poesia. Tem muita coisa boa, tem muita gente criativa, inventiva, que sabe lidar com a coisa, inventar blogs, criar links etc. Bem legal mesmo.

Para você ter uma idéia, eu moro em Curitiba, mas, a cada quinze dias, escrevo uma crônica para o jornal eletrônico de minha terra, que é Barra do Corda, e fica lá no sertão do Maranhão.

GP: Que projetos pretende desenvolver literariamente?

Luciana: Estou querendo concluir outro livro de poesia este ano, e também escrever um livro de contos pornográficos. Acho que vou conseguir.

 
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