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Luiz Alberto Machado
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LUIZ BERTO - Entrevista

 


Luiz Berto é escritor pernambucano, autor das obras A prisão de São Benedito , de crônicas já em sua quarta edição; do premiadíssimo O Romance da Besta Fubana , em segunda edição; A Serenata , uma novela publicada pela Mercado Aberto, em 1986; Nunca houve guerrilha em Palmares , seu primeiro romance publicado pela Mercado Aberto, em 1987; e Memorial do mundo novo , um romance publicado pelas Edições Bagaço, em 2001.

Participou no International Writing Program, da Universidade de Iowa, nos Estados Unidos, a convite do governo americano entre 01 de setembro e 15 de dezembro de 1986; participou do International Festival of Authors, em Toronto, no Canadá, de 17 a 25 de outubro de 1986; foi contemplado com o prêmio literário nacional do Instituto Nacional do Livro – INL/MEC, em 1985 e o Prêmio Guararapes da UBE, em 1986, com a obra “O romance da Besta Fubana”, que foi tema da dissertação de mestrado da professora Ilane Ferreira Cavalcante, com o tema “O romance da Besta Fubana ou festa e utopia no interior do Nordeste”. Pela UFRN; recebeu críticas, análise e comentários de personalidades como Ênio Silveira, Wilson Martins, Oswaldino Marques, Edisio Gomes de Matos, Jorge Medauar, Maurício Melo Júnior, Luiz Beltrão, Fernando Antonio Gonçalves, Graça Santos, Marcus Prado, Paulo do Couto Malta, Mirian Paglia Costa, Juarez Correya, Eduardo Francisco Alves, Salete de Almeida Cara, Valesca Assis Brasil, Ubiratan Teixeira, Luiz Felipe Maldaner, Carlos Romero, Brasigóis Felício, Abdias Lima, Carlos Menezes, Napoleão Barroso Braga e Regina Igel.

Sobre a obra de Luiz Berto, escreveu Ênio Silveira: " Ao avançar na leitura do texto, vi-me possuído por crescente admiração e não me continha em exclamações de grande apreço, pois o Romance da Besta Fubana de fato se ia revelando das melhores coisas que havia lido nos últimos anos ".

O crítico Wilson Martins, no Jornal do Brasil, assim avaliou o seu trabalho: " Nas perspectivas abertas por Jorge Amado, João Ubaldo Ribeiro e Luiz Berto, a vida brasileira é uma aventura picaresca vivida por uma multidão de pícaros generosos e nacionalistas. Importa, acima de tudo, que tenha crescido em dificuldade e complexidade o índice qualitativo do romance brasileiro ".

Num encontro de conterrâneos e bastante descontraído, Luiz Berto concedeu esta entrevista falando dos seus livros, sua incursão pelo teatro e das idéias sobre a Literatura, a poesia e o mercado editorial.

GP - Berto, como a literatura chegou até você?

Luiz Berto: E u é que cheguei até a Literatura. Comecei a ler desde que me alfabetizei e me entendo por gente. Na minha infância havia uma livraria em Palmares - livraria, não era papelaria - e a gente não se dava conta dessa coisa admirável que era uma pequena cidade do interior ter a sua própria livraria, com obras da literatura brasileira e universal. Era de tal modo admirável que, antes de completar 15 anos, eu já havia lido Dante, Castro Alves, Júlio Ribeiro, Euclides da Cunha e mais outros nomes das literaturas brasileira e portuguesa. Pois foi assim que a literatura que chegou até eu: pela livraria do Seu Odilo.

GP - " A prisão de São Benedito " foi o seu primeiro livro publicado. Foi o primeiro escrito? Como foi a experiência de construí-lo?

LB - O primeiro livro que escrevi foi " Nunca Houve Guerrilha em Palmares ", que ficou anos e anos guardado numa gaveta, até ser publicado pela Editora Mercado Aberto, de Porto Alegre. É uma visão do golpe de 64 a partir de uma cidade do interior. O " São Benedito " foi o primeiro a ser publicado, já está na quarta edição e uma quinta deve sair no segundo semestre desse ano corrente de 2004. São memórias de infância, que saíram praticamente de uma vez só, e que me deram um prazer enorme escrever. Não foi um livro sofrido. Foi um parto prazeroso e cheio de boas lembranças.

GP - Depois veio " O Romance da Besta Fubana " e, com ele, você arrebatou vários prêmios. Como se deu a criação desse romance?

LB - Escrevi a Besta Fubana no exato espaço de um ano, de janeiro a dezembro de 1983, com um breve intervalo no mês de julho para uma viagem a Palmares, pra fazer pesquisas e levantamentos na biblioteca municipal, a fim de ajuntar dados e fatos que embasariam a trama do livro.

A feitura da Besta partiu de uma idéia simples que martelava minha cabeça havia algum tempo: a história de um grupo de pessoas que empolga o poder numa cidade interiorana e nela instala uma república autônoma, desliada do Brasil, com constituição, hino, bandeira. Enfim, com todos os penduricalhos característicos de um país independente. A cidade seria Palmares, meu ambiente, minha mina, minha oficina e minha marca. Aí, então, estabeleci quem seriam as pessoas que iriam construir esta república de sonhos: um astrólogo, um cego esmoler, uma prostituta, um sapateiro comunistas, capitaneados pela competência, pela estradeirice e pela sabedoria imensa de um cantador de viola, que desembarca em Palmares como um predestinado para comandar aquela revolução. Feito isso, comecei a procurar um tempo onde pudesse ambietar com segurança e verossimilhança o meu enredo. O tempo atual, com todo o aparato bélico e informático nas mãos do governo, com a incrível instantaneidade das comunicações, com a rede capilar dos serviços de inteliência, tornava impraticável uma aventura revolucionáro deste tipo. E o sopro desta fábula, em minha cabeça, tinha muito que ver com Canudos, com o Quilombo de Zumbi e com a Guerrra de Princesa na Paraíba. O tempo escolhido tinha que ser um tempo recente, sem televisão, quando o único meio de ligação de Palmares com o mundo era o trem das 5 da manhã, e quando uma viagem para Recife era uma aventura mágica e comprida. Escolhi um ano da miha infância, o ano de 1953, muito rico em sucedências históricas e leito de um Brasil que nem sonhava ter a face dos dias atuais. Um tempo que eu seria capaz de manejar com segurança e que estava vivíssimo dentro de mim. Depois foi só sentar e escrever. Foi um trabalho muito gostoso e que me rendeu bastante. O livro foi muito bem aceito pelo público e pela crítica. Nesse ano de 2004, as Edições Bagaço, do Recife, irão lançar sua terceira edição. É bem vendido até hoje.

GP - Tanto " A Prisão de São Benedito ", como " O Romance da Besta Fubana " e os posteriores " A Serenata " e " Nunca Houve Guerrilha em Palmares ", você coloca a sua cidade natal como cenário. Qual a sua visão de Palmares? Ou melhor, qual a importância de Palmares para a sua literatura?

LB - O único livro meu que não é ambientado em Palmares é o romance "Memorial do Mundo Novo", que foi o último a ser publicado. Palmares é fundamental em toda a minha obra. Seu povo, sua paisagem, suas ruas e seus costumes estão integralmente nos meus textos. Palmares tem o máximo de importância possível dentro do meu trabalho de criador.

GP - Você fez uma incursão pelo teatro, com a peça " Peibufo, etc e coisa e tal ". Como se deu essa experiência? Você pensa fazer outras incursões pelo teatro?

LB - Eu estava de férias em Palmares quando fui convidado por alguns jovens artistas da terra, fundadores do Grupo de Arte Popular dos Palmares, para assistir a um espetáculo que eles haviam montado em minha homenagem. Durante a apresentação, fui surpreendido por um dos integrantes do grupo incorporando um dos meus personagens da Besta Fubana e recitando o longro trecho do livro, que vem a ser a fala de um camelô vendendo remédio no meio da feira. Eu fiquei fascinado com aquilo, pois era a primeira vez que eu via um personagem meu se materializar num palco. Escrever é uma arte solitária, dirigida para um leitor solitário. De modo que eu não havia ainda gozado a experiência de ver um texto meu sendo apreciado coletivamente por uma platéia inteira. Ao final do espetáculo, os componentes do grupo se reuniram comigo e me perguntaram se haveria a possibilidade de eu escrever um texto especificamente pra eles, a fim de ser levado ao palco. Lembro-me que respondi que não só aceitava a incumbência, como até já tinha o título do espétáculo: Peibufo, Etc. e Coisa e Tal ,que vem a ser um verso de uma poesia do cantador Zé Limeira, conforme o livro de Orlando Tejo.

O espetáculo foi levado ao palco em Palmares, Recife, Belo Horizonte e Brasília, sempre com sucesso de público e de crítica em todos esses lugares, graças ao talento do grupo e à competência de Angelo Meyer, que dirigiu a montagem.

No momento estou trabalhando em um novo texto dramático, que tem a ver com a epopéia do grande herói pernambucano Frei Caneca e a sua Confederação do Equador.

GP - Fala um pouco a respeito do seu romance " Memorial do Mundo Novo ". O que motivou a sua criação?

LB - O Memorial era outra idéia que martelava minha cabeça há muitos anos, que consistia em explicar as elites corruptas do Brasil moderno, o Brasil do século XX e inícios do século XXI, a partir da corrupção das elites que aqui se instalaram desde que o Capitão Vicente Iañez Pinzon descobriu o Brasil no Cabo de Santo Agostinho. Essa idéia e esse texto foram se espichando no tempo (o livro, depois de começado, ficou mais de 10 anos na gaveta), e quando chegamos nas proximidades do ano 2.000, nas comemorações dos 500 anos do nosso descobrimento, eu resolvi terminar o trabalho, como uma modesta contribuição a esse memorável aniversário. De modo que em outubro de 2001, na Feira do Livro do Recife, o livro foi lançado e, até agora, tem feito uma boa carreira, sendo um dos mais vendidos até hoje nesta capital. Foi um mergulho na história do Brasil e de Pernambuco que me deu uma satisfação enorme, na medida que eu ia desvendendo fatos e coisas que me deixavam fascinados, relativamente à nossa formação e à formação do nosso povo.

GP - Você tem um livro em preparo, o "História que nós gostamos de contar", de crônicas. Conta como está se processando este projeto.

LB - Estou trabalhando nesse livro atualmente. É como se fosse assim uma continuação do São Benedito, com a diferença de serem memórias não mais de infância, mas de adulto, junto com algums crônicas e alguns textos esparso, publicados em jornais e revistas. É provável que venha a ser publicado ainda neste ano de 2004, no segundo semestre.

GP - Um outro livro seu em preparo, uma coletânia, traz o curioso título " Duzentas obras-primas da poesia ruim ". Fala um pouco a respeito desse outro projeto.

LB - Esse título, na verdade, não é um projeto de livro. É mais uma arenga que arrumei com os poetas de Brasília, quando lá morava. Em Brasília, tem tanto poeta e poesia ruim que chega a fazer pena. A começar por José Sarney, o expoente de todos eles. Nunca vi tanto poeta mediocre por metro quadrado como em Brasília. Aí  eu falei pro Ivan, que era o grande livreiro da Capital naquele tempo, que eu estava organizando uma antologia só com poetas de Brasília, reunindo os piores poemas de cada um, e que seria intitulada "Cem Obras Primas da Poesia Ruim". Foi um alvoroço danado! De vez em quando eu recebia um recado enviesado, uma consulta, alguém jogando verde. Eram os poetas aperreados, cada um deles querendo saber se iria ser incluído na antologia. Eu respondia sempre dizendo que, devido ao grande número de poemas de baixa qualidade, eu havia decido aumentar de 100 para 200 a quantidade de trabalhos a serem selecionados. De modo que foi assim que nasceu o projeto "Duzentas Obras Primas da Poesia Ruim". Da última vez que me perguntaram sobre o livro, eu disse que havia subido o número para quatrocentas....

GP - C omo estamos num sítio de poesia entrevistando um escritor, não posso me furtar de abordar qual a sua relação com a poesia? Como você está vendo a poesia hoje?

LB - Hoje pela manhã eu estava lendo um texto e havia uma frase de Álvaro Lins que tem a ver com essa pergunta: "Os homens que nasceram marcados pela desventura de não ser poetas são os que mais sentem a necessidade da Poesia". Eu sou um simples prosador, não tenho coragem de me aventurar na Poesia, embora sinta uma necessidade enorme da Poesia. Quanto à poesia de hoje em dia, eu não sou a pessoa mais indicada pra especular, uma vez que atualmente eu vivo de releituras, entre as quais destaco Cecília Meireles, Carlos Penna Filho, Mario Quintana e Castro Alves.

GP - Qual a sua avaliação do mercado editorial no Brasil? A seu ver, as editoras desenvolvem uma política satisfatória para o autor brasileiro?

LB - Fala-se muito em crise no país de um modo geral. Mas o que vejo nas livrarias - e olhe que sou um frequentador inveterado de livrarias... - é uma quantidade expressiva de lançamentos e títulos novos, tanto de autores brasileiros quanto de figurões estrangeiros. Quer na ficção, quer nos ensaios, tanto quanto nessa praga picaretista chama de auto-ajuda, a impressão que temos é que o mercado editorial brasileiro está em pleno vigor. É uma impressão. Não sei se reflete a real situação, nem tampouco posso afirmar se há uma politíca satisfatória para o autor nacional. Só poso falar de mim mesmo. E eu não tenho do que reclamar quanto aos meus editores, tanto o de Pernambuco quanto o de Porto Alegre.

GP - Como você vê o advento da Internet na difusão de suas obras? A Internet tem contribuído para difundir seu trabalho? A seu ver tem contribuído para a difusão da literatura?

LB - Eu tenho dois livros ( Memorial do Mundo Novo e A Prisão de São Benedito ) e mais alguns textos esparsos na Internet. Estão no endereço Caixote ( www.ocaixote.com.br ). Como se trata de um espaço onde estão trabalhos de vários e vários escritores, poetas, cronistas, ensaistas e prosadores, não tenho condições de aquilatar, individualmente, qual a contribuição que esse meio de divulgação tem no meu trabalho.

GP - 12. Fala dos projetos que você tenciona realizar futuramente.

LB - Tenho apenas três projetos em mente. Que serão feitos no meu rítmo de trabalho. Quer dizer: bem devagar, ou muito rápido, conforme a veneta. São três: escrever, escrever e escrever.


 
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