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MARIA ESTHER MACIEL - Entrevista (página 1 de 2)
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Maria Esther Maciel
(http://www.letras.ufmg.br/esthermaciel/capa.html)

A poeta, ensaísta e professora de Literatura da Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG, Maria Esther Maciel, é mestre em Literatura e doutora em Literatura Comparada pela UFMG, com pós-doutorado em Literatura Comparada pela University of London.

É autora dos livros "Dos haveres do corpo", 1984, e "Triz", 1998, ambos de poesia. Escreveu a novela inspirada em "As mil e uma noites", que foi publicada, em capítulos, no jornal Correio Estudantil, em 1978. Já As vertigens da lucidez: poesia e crítica em Octavio Paz, a sua tese transformada em livro, foi publicada no início de 95.

Publicou, em 2002, um livro da coleção Encontro com Escritores Mineiros, sobre a poeta mineira Laís Corrêa de Araújo.
Está, no momento, traduzindo textos literários e ensaísticos de Greenaway, que deverão ser reunidos em uma edição bilíngüe a ser publicada no Brasil. Organizou também um livro de ensaios sobre ele, que será publicado pela Editora da Universidade de São Marcos. Prepara ainda uma edição ampliada do livro de poemas "Triz" e pretende se dedicar mais intensamente, a partir de agora, à escrita ficcional e à experimentação de modalidades textuais híbridas (ensaio ficcional, narrativa poética e ensaística, poemas narrativos).

Maria Esther Maciel é uma das fundadoras do NELAM – Núcleo de Estudos Latino-Americanos, da Faculdade de Letras da UFMG e acabou de fundar também, na UFMG, juntamente com o Prof. Luís Alberto Brandão Santos, o "TransVerso – Fórum Transdisciplinar de Criação e Estudos Poéticos", com o propósito de reunir pessoas do meio acadêmico que também se dedicam à criação, não apenas no campo da poesia e da narrativa, mas também em outras áreas.

A entrevistada tem vários artigos e poemas publicados em revistas impressas e eletrônicas do Brasil, Argentina, Chile, México, Espanha, Inglaterra, Escócia, Dinamarca, Suécia e Estados Unidos.



LAM - Como a literatura chegou até você?
Maria Esther - A literatura chegou-me muito cedo, através da poesia de Cecília Meireles. Eu acabara de ser alfabetizada, já lia estorinhas nas cartilhas do grupo escolar, mas não sabia ainda que as palavras tinham o poder de reinventar o mundo através do ritmo e da imagem. Lembro que ao ler, pela primeira vez, “A canção dos tamanquinhos”, fiquei completamente embalada pela sonoridade que o poema continha, era como se eu ouvisse através dos olhos o troc-troc real dos tamancos sobre a página do livro. Já a visualidade me veio com um soneto de Augusto dos Anjos, “O Morcego”, que minha professora me mostrou quando soube de meu interesse por poesia. O impacto que as imagens do poema me causaram foi intenso. Percebi, naquele momento, o poder sensorial das palavras, a força das metáforas, a potencialidade visual das letras. Mas foi só com a poesia de Carlos Drummond de Andrade que fui aprender que a poesia era capaz de mudar a vida de uma pessoa, fazê-la enxergar um outro mundo nas dobras do mundo visível. Com ele descobri que ser poeta era, sobretudo, chegar àquilo que Artaud chamou de “núcleo irrequieto” das coisas, que as formas muitas vezes não tocam. Desde então, quis ser também poeta.

Só aos onze anos descobri o prazer de ler um romance. Comecei com os românticos. Em menos de dois anos, já tinha lido toda a obra ficcional de José Alencar, além de livros de Camilo Castelo Branco e Joaquim Manoel de Macedo. No meu aniversário de treze anos, ganhei de meu pai uma coleção de clássicos da literatura inglesa. Minha identificação com as obras do romantismo inglês foi imediata, sobretudo no que se refere às escritoras. George Elliot, Jane Austen, Mary Shelley, Charlotte e Emily Brönte povoaram o meu imaginário da adolescência. Na época eu gostava também de desenhar e ficava horas ilustrando passagens desses livros. Chamava-me a atenção, nessas obras, a atmosfera sóbria e sombria da linguagem. A ironia também me seduziu, embora eu não soubesse ainda como defini-la. Charles Dickens também foi uma grande referência para o começo de minha história de leituras. Depois dessa experiência inglesa, cheguei a Machado de Assis, meu grande mestre brasileiro da ficção, até hoje. Agora, a leitura que realmente me despertou o desejo de escrever histórias foi a de As Mil e uma noites. Cheguei a compor, aos quinze anos, uma novela “inspirada” nas narrativas de Sherazade, que publiquei em capítulos em um jornal de minha cidade, Patos de Minas. Foi uma época em que eu lia o dia inteiro. Meu pai que, embora não fosse um homem letrado, sempre estimulou minha paixão pela literatura, chegou a abrir uma conta para mim em uma das livrarias da cidade, que por sinal tinha um excelente acervo e era dirigida por um senhor muito erudito, que sabia várias línguas e era especialista em Dante. Ele me orientou em inúmeras leituras e encomendava até mesmo livros importados para mim de Portugal. Uma regalia. Além dele, o poeta Altino Caixeta de Castro, que conheci aos 14 anos, também foi muito importante para a minha formação, por me introduzir no mundo poético de Baudelaire, Verlaine, Mallarmé, Octavio Paz, Rilke, Eliot e Fernando Pessoa As letras das músicas de Chico Buarque de Hollanda, a Alice de Lewis Carroll e alguns poemas de Sta. Teresa D’Ávila também podem ser inseridos no horizonte de minha iniciação literária.


LAM - Como se deu o seu processo de criação até chegar no Triz? E como se deu a experiência com Triz? Este foi o seu primeiro livro? Sua primeira experiência literária?
Maria Esther - Antes de publicar o livro Triz, em 1998, escrevi pelo menos três livros de poesia, sendo que dois deles – os que preparei ainda na adolescência – permanecem inéditos. O terceiro, Dos haveres do corpo, saiu em 1984, pela já extinta Editora Terra, de Belo Horizonte. Deste ao Triz, houve um interregno de 14 anos. Tempo suficiente para que eu pudesse descobrir outras possibilidades de linguagem para a minha poesia, encontrar uma dicção própria e me exercitar em novas leituras e perplexidades. Aliás, tenho repetido que a história de um poeta é também a história de suas perplexidades. E perplexidade, aqui, entendida como espanto, incerteza, assombro, maravilhamento diante do que não sabemos explicar. Borges externou essa consciência da perplexidade em uma breve conferência que fez sobre “o enigma da poesia”, ao dizer que diante de cada página em branco que encontrava tinha de redescobrir a literatura para si mesmo. Creio que cabe a todo poeta dar forma à sua perplexidade e transformá-la em poesia.

LAM - Você também publicou poesia com o livro Dos haveres do corpo. O que há de distinto entre os seus dois livros de poesias? Ou só há complementaridade e convergências?
Maria Esther - Dos haveres do corpo foi, como já disse, o meu primeiro livro publicado. Eu tinha 21 anos. Como o próprio título indica, o tema predominante foi o corpo e seus possíveis. De feição mais lírica, tendendo, em vários momentos, ao elegíaco, esse livro foi organizado à luz de alguns excertos do livro Fragmentos de um discurso amoroso, de Roland Barthes. Nele, algumas marcas de minha poética posterior já se manifestam explicitamente: a concisão, o despojamento da linguagem, o ritmo melódico e uma subjetividade algo oblíqua. O que o diferencia do Triz é sobretudo a espontaneidade, o frescor intuitivo, que acabou por ser atravessado, depois, por uma maior vigilância formal e pelo exercício voluntário da lucidez. Creio que meu contato com a poesia construtivista de Cabral, com o concretismo brasileiro e com as teorias poéticas modernas contribuiu para essa mudança. Isso não quer dizer, entretanto, que Triz seja um livro cerebral, construtivista. De jeito nenhum. Creio que ele apresenta, sim, uma espécie de equilíbrio instável entre a vertigem, a intuição, o pathos lírico e a lucidez, o rigor, a disciplina da linguagem. Algo que estaria mais para a linha de Octavio Paz, Murilo Mendes e Cecília Meireles do que para os poetas da “razão pura”. Hoje, estou cada vez mais tendendo ao exercício de uma poesia livre de coerções teóricas e racionais. Tento me desvencilhar da tirania da metalinguagem e da intertextualidade – práticas já exauridas, debilitadas – e buscar outras possibilidades poéticas para o meu trabalho, abrir-me às impurezas da experiência, à força do trágico e ao êxtase do sublime.

LAM - Você trabalhou alguns livros sobre Octávio Paz: o As vertigens da lucidez, o A palavra inquieta, o Vôo transverso e o Lição do fogo. O que levou a realizar estes estudos?
Maria Esther - Desses livros, apenas três tratam especificamente da obra de Octavio Paz: As vertigens da lucidez – adaptação de minha tese de doutorado sobre o poeta-crítico mexicano, Lição do fogo, um ensaio sobre a questão do erotismo na obra paziana, e A palavra inquieta, coletânea de textos de vários autores sobre Paz. O outro, Vôo transverso, já é uma coletânea de ensaios variados sobre poesia moderna e contemporânea, na qual estão incluídos também alguns sobre o poeta mexicano.

O meu interesse por Paz surgiu quando eu tinha por volta dos dezessete anos e tive acesso, através do poeta Altino Caixeta de Castro, a alguns ensaios do livro Signos em rotação, em tradução de Sebastião Uchoa Leite. Logo depois, conheci alguns de seus poemas, através de uma pequena antologia organizada por Olga Savary e publicada pela Editora Roswitha Kempf. Desde então, não consegui mais me desvencilhar de Paz. Mas foi bem mais tarde, depois de já ter passado por uma graduação em Letras e um mestrado em Literatura Brasileira, que resolvi me dedicar à sua obra de forma mais sistemática, elegendo-o como tema de minha tese de doutorado. Resolvi estudar a relação entre criação poética e reflexão crítica em sua obra. O propósito era enfocá-lo dentro de uma linhagem de poetas-críticos modernos, para isso percorrendo também obras dos românticos alemães de Jena, de Baudelaire, Mallarmé, T.S. Eliot, Pound, Valéry, dentre outros poetas aliaram o trabalho de criação ao de reflexão, a poesia e o ensaio. Desse trabalho de pesquisa, surgiu o livro As vertigens da lucidez, no qual vasculho a lógica crítico-criativa do poeta mexicano, em relação aos demais poetas-críticos mencionados e à luz dos desenhos do artista gráfico holandês M.C.Escher . Os demais livros que se seguiram vieram das “sobras” e dos desdobramentos temáticos e teóricos desse primeiro trabalho.

Digo que o que mais me fascina na obra de Paz é a forma como ele lida com a questão dos opostos. Ele é um adepto da lógica do paradoxo, rompendo com os binarismos excludentes do pensamento racionalista ocidental. Consegue conjugar, por exemplo, sem maniqueísmos, a “mexicanidade” e o cosmopolitismo, o mesmo e o outro, o Ocidente e o Oriente. Paz atuou de maneira incisiva nos rumos da modernidade latino-americana em suas interseções com a diversidade cultural dos outros continentes. Mostrou, com isso, que ser mexicano ou latino-americano é também um exercício de cosmopolitismo e de abertura à alteridade. Sua obra é inesgotável, uma espécie de ars combinatoria de linguagens e saberes extraídos de vários campos do conhecimento, na qual se pode entrar por diferentes vias, dependendo do que nela se deseja encontrar ou enfocar.

Outro aspecto que eu ressaltaria em Octavio Paz é o fato de ele ter dedicado toda a sua vida ao exercício e à defesa da poesia, mesmo quando desempenhava outras atividades intelectuais. Ele assumiu, de forma corajosa, o papel de guardião da palavra, da imaginação, do desejo e da lucidez crítica, no contexto mercantilizado do fim do século XX. Apostou no poder iluminador da “outra voz”, representada pela poesia, enquanto um antídoto eficaz contra a fixidez da sensibilidade, a reificação do desejo e o obscurecimento da lucidez crítica no mundo contemporâneo. Temos, todos os poetas do presente, muito o que aprender com esse magnífico poeta.


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