LAM
- Você também traçou relações em outros estudos acadêmicos,
abordando obras de Jorge Luís Borges, de Octavio Paz, Fernando
Pessoa, Mallarmé, Augusto dos Anjos, até Kierkegaard e Peter
Greenaway. Isso, inclusive, resultou na publicação de uma
série de ensaios e artigos seus. O que poderia falar desse
horizonte amplo de observações?
Maria Esther - Meus interesses
são muitos e diversificados. Estou sempre buscando me
desviar da chamada “especialização”. Sou pela transdisciplinaridade,
pelo entrecruzamento de saberes, pelo diálogo entre autores
e campos artísticos diferentes. Isso justifica também
minha preferência por autores que exerceram esses cruzamentos
em suas obras, que se abriram aos influxos de outras
artes e culturas. Borges, Paz, Greenaway, Pessoa, Kierkegaard
e Mallarmé são exemplos de escritores/artistas que se
deram o exercício da multiplicidade. Eu acrescentaria à lista
o poeta Haroldo de Campos, sobre quem desenvolvi também
alguns trabalhos nessa linha. Já no caso de Augusto dos
Anjos, que não foi necessariamente um poeta da pluralidade,
o que mais me seduziu em sua obra foi o caráter inclassificável
de sua poesia, além do seu lado maldito, escatológico.
Tenho uma particular atração pelos autores malditos,
aqueles que trazem para suas obras o que eu chamaria
de “esfera do terrível”. Sob esse aspecto, o cineasta
britânico Greenaway também me atrai enormemente. Como
me fascina o pensamento do filósofo romeno Emil Cioran,
um de meus grandes mestres.
Pessoa, Kierkegaard e Borges me interessam ainda pelo jogo das identidades postiças,
pelos embustes autorais, pela prática consciente do artifício. Greenaway também
adota, em seus escritos literários e primeiros filmes, esses jogos ficcionais.
São autores que muito divertem também, pelo humor irônico.
Mas todos esses nomes citados têm, um com o outro, pontos de afinidade e interseção.
Eu diria que o que os une em um mesmo topos é o apreço que eles têm pelo paradoxo
enquanto forma de pensamento (ou “paixão”, como o definiu Kierkegaard).Kierkegaard,
aliás, é um de meus escritores-filósofos de cabeceira, desses que me ensinam
a suportar a vida, como é também o caso de Cioran.
No mais, tento sempre pesquisar e escrever fora dos imperativos e modismos acadêmicos,
ainda que eu atue dentro da universidade. Recuso-me a adotar as teorias da moda
(o que não quer dizer que eu não as acompanhe), a escrever sobre certos temas
e autores que dão ibope acadêmico ou espaço na mídia. Meus trabalhos são todos
decorrentes de minhas paixões literárias, teóricas e estéticas. Sigo ao sabor
de minhas demandas internas, de meus impactos intelectuais, de minhas descobertas
felizes de autores e textos. E busco compartilhar isso com meus alunos e leitores.
LAM -
Uma outra coisa é a sua sempre abordagem ao cinema, a
exemplo de um texto seu sobre Nelson Pereira dos Santos
e um livro seu, inclusive no prelo, sobre O cinema enciclopédico
de Peter Greenaway. Isso significa uma estreita relação
entre a sua literatura e o cinema?
Maria Esther - O cinema
sempre ocupou meu horizonte de interesses, embora eu
só tenha começado a escrever sobre filmes a partir de
1999, quando resolvi estudar as relações entre literatura
e cinema, com ênfase na obra de Peter Greenaway. Passei
inclusive uma temporada na Inglaterra para pesquisas
sobre o diretor britânico. Sobre ele venho escrevendo
vários ensaios, sempre numa perspectiva comparativista.
O livro O cinema enciclopédico de Peter Greenaway é uma
coletânea de textos sobre sua obra, de autoria de vários
especialistas, que deverá sair ainda este ano (espero)
pela Unimarcos Editora. Estou com um outro livro de ensaios
(muitos são sobre Greenaway), intitulado A memória das
coisas, que reúne textos sobre literatura, cinema e artes
plásticas, aguardando publicação.
Ao longo dos últimos quatro anos, escrevi ainda ensaios enfocando filmes de outros
diretores nacionais e estrangeiros, como Nelson Pereira dos Santos, Helvécio
Ratton, Alain Resnais e Buñuel. Realizei ainda um estudo sobre as conjunções
entre poesia e cinema (estou no momento ministrando um curso sobre isso na Pós-Graduação
da UFMG), em que abordo, num mesmo espaço de reflexão, filmes de Eisenstein,
Buñuel, Resnais, Mário Peixoto, Greenaway, Wim Wenders, Bressane e Jim Jarmusch.
No que se refere ao cinema, sou mais afeita aos filmes de linha poética e/ou
experimental. Mais do que nunca tenho estado avessa aos realismos explícitos,
sobretudo o que está em voga na literatura e no cinema brasileiros contemporâneos.
A realidade que vivemos já é forte e explícita demais. Estamos todos, atualmente,
intoxicados de realidade, de uma bruta, quase insuportável realidade. A arte
tem mais é que nos oferecer outros mundos, sobretudo os impossíveis, para que
possamos revitalizar nossa imaginação e ver, com olhos menos viciados, as coisas
que estão aí, diante de nós.
Quanto a possíveis relações entre minha literatura e o cinema, eu diria que a
linguagem cinematográfica tem contaminado mais a minha prosa do que propriamente
a minha poesia. Tenho dado bastante ênfase à visualidade de cenas e situações
que narro, transformando cada texto (em geral curto, concentrado) em uma espécie
de plano fílmico. Mas já escrevi também alguns poemas inspirados em filmes que
me tocaram de modo especial. No livro Dos haveres do corpo, por exemplo, há um
poema sobre o filme Esse obscuro objeto do desejo, de Buñuel. Já escrevi outros
sobre O anjo exterminador, também de Buñuel, Amor à flor da pele, de Wong Kar-Way,
e mais recentemente, sobre o Spider, de David Cronenberg.
LAM -
Você também traduziu alguns textos. O que nos diz da
tradução no Brasil?
Maria Esther - A minha
experiência no campo da tradução é ainda escassa e incipiente.Já traduzi
ensaios de Paz e de outros autores menos conhecidos,
do inglês e do espanhol. Mas nunca me aventurei a traduzir
nenhum poema. Há mais ou menos um ano, venho me dedicando à tradução
de textos ficcionais e ensaísticos de Peter Greenaway,
que pretendo reunir em um livro. Cheguei a publicar uma
parte desse trabalho na Revista Babel, editada pelo poeta
Ademir Demarchi. A receptividade por parte dos leitores
foi muito favorável, o que me deixou bastante estimulada
a prosseguir no trabalho. Mas confesso que não é o meu
ofício preferido, esse da tradução. É uma atividade cansativa,
lenta, que demanda muita pesquisa. Sobretudo quando o
original tem especificidades estilísticas muito evidentes
e referências estéticas e culturais muito variadas, como é o
caso de Greenaway.
Mas a tradução sempre me interessou muito, no plano da reflexão teórica. Escrevi
alguns ensaios sobre o tema, enfocando trabalhos de Octavio Paz, Haroldo de Campos
e Borges. Fiz também um estudo sobre São Jerônimo, o santo tradutor que reinventou
o latim para traduzir a Bíblia diretamente do hebraico. E recentemente escrevi
também sobre o monumental trabalho de Donaldo Schüler, que assumiu a desafiante
– e quase insana – tarefa de verter para a língua portuguesa o “intraduzível”
Finnegans Wake, de James Joyce.
Creio que os irmãos Campos trouxeram para o horizonte cultural brasileiro uma
nova concepção da arte de traduzir, que certamente contribuiu para o excelente
nível das traduções de poesia que têm sido feitas hoje no Brasil. Mesmo que muitos
tradutores contemporâneos recusem a proposta “haroldiana” de transcriação, sob
a alegação de que ela estaria mais a serviço da produção criativa do tradutor
do que para a sobrevivência da voz do autor traduzido; mesmo que nela encontremos
uma tendenciosidade estética (e certamente ideológica), cuja meta principal é reforçar
as diretrizes de um projeto específico de vanguarda, não dá para negar a importância
dessa proposta para a reconfiguração dos rumos da prática de tradução no cenário
cultural do Brasil das últimas décadas.
No caso da tradução do Prof. Donaldo Schüler, por exemplo, percebe-se nela uma
“influência” dos concretos, mas uma influência filtrada, digerida. Schüler, a
meu ver, aproveita desse legado sobretudo aquilo que lhe interessa do ponto de
vista da linguagem: o cuidado formal, o rigor criativo, a atenção à função poética.
Mas não se coloca a serviço do projeto a que esses princípios estão vinculados.
Ele acaba, por nos trazer, por isso mesmo, um outro Joyce, um Joyce mais dado às
impurezas, híbrido, atravessado de humor, referências mitológicas, místicas,
históricas e filosóficas. E está aí, certamente, o maior mérito desse impressionante
trabalho.
Acredito que muitos tradutores, hoje, têm encontrado suas próprias vias para
a prática da tradução. E feito trabalhos importantes, no campo da poesia, da
prosa ficcional e do ensaio.
LAM -
Como você vê a poesia e a literatura atual?
Maria Esther - Vejo uma
grande diversidade literária no Brasil hoje, difícil
de ser cartografada. Com o desaparecimento dos movimentos
estéticos coletivos que nortearam a modernidade, os escritores
do presente têm tido a liberdade de escolher suas próprias
vias criativas, podendo retomar dicções do passado, inventar
outras, seguir rastros deixados pelos grupos que os precederam,
adequar-se às diretrizes impostas pelo mercado, buscar
linguagens estranhas, experimentar recursos tecnológicos,
combinar todas essas possibilidades ou negar todas elas
e procurar outras formas de fazer literatura. Dentro
de cada uma dessas opções, encontramos (ou não ) escritores
interessantes.
No campo da poesia, isso é muito evidente. Temos de tudo na poesia brasileira
contemporânea. Há, certamente, as tendências que recebem uma maior acolhida por
parte da mídia e das universidades. E que não são, certamente, as mais instigantes.
Percebo que, mesmo com o desgaste das estéticas de feição mais construtivista,
que tiveram na “tradição da ruptura” o seu espaço (e tempo) privilegiado, ainda
perdura o culto a um tipo de poesia asséptica, decantada do vivido, fechada para
as figurações da subjetividade. Uma poesia que ainda insiste na metalinguagem,
nos trocadilhos desvitalizados, no princípio parnasiano da forma pela forma.
Vejo muitos poetas jovens (ou não) que, por não digerirem muito bem (ou nada)
o legado da poesia concreta, ainda estão nessa. Por outro lado, há poetas bastante
instigantes espalhados pelo Brasil afora, muitos deles sem qualquer visibilidade
na mídia, que buscam dicções alternativas, mais viscerais.
Tenho lido, recentemente, alguns poetas que têm me surpreendido pelo vigor de
seus textos: além dos mais “antigos” que estão sempre me causando algum tipo
de encanto, como Hilda Hilst, eu destacaria (reitero que é uma lista dos que
tenho lido nos últimos meses), os nomes de Floriano Martins, Cláudio Daniel,
Solange Rebuzzi, Ademir Assunção, Rodrigo Garcia Lopes, Luiz Ruffato, Cláudia
Roquette-Pinto, Fabrício Marques e Sérgio Medeiros. Descobri ainda alguns ótimos
poetas mais jovens (abaixo ou em torno dos 30), dentre os quais eu ressaltaria
Rodrigo Petronio, André Dick e Alexandre Rodrigues da Costa (este, ganhador do
Prêmio Murilo Mendes 2003, de Juiz de Fora). Com certeza, o leque se ampliaria
se não fosse o critério das leituras recentes.
De qualquer maneira, acho que os nossos poetas de hoje deveriam estar mais atentos
para o que a experiência vital, os mitos, os sonhos, o corpo, a memória e a dimensão
do trágico têm a oferecer para a imaginação.
LAM -
A Internet tem contribuído para a difusão da Literatura?
Maria Esther - Sem dúvida
alguma. A Internet é uma maravilha tecnológica e está mudando
significativamente os rumos da pesquisa, da criação e
da difusão no campo da literatura e de outras artes.
Há preciosidades na rede, basta saber encontrá-las. Mas
há que se atentar também para os perigos dessa maravilha,
quando colocada a serviço da mediocridade e da boçalidade,
que parecem ter se tornado as marcas mais visíveis de
um certo tipo de “cultura” a que tem tido acesso a maioria
das pessoas deste país.
LAM -
Que projeto tem em mente por desenvolver?
Maria Esther - Estou trabalhando,
no momento, em um novo livro de poemas em prosa. Nesses
textos tento mesclar narrativa, poesia e ensaio, além
de experimentar algumas outras modalidades textuais,
como o roteiro, a lista, a entrevista e os verbetes de
enciclopédia, com propósitos ficcionais. Estou, também,
finalizando – como já disse – a tradução de alguns contos
e ensaios de Peter Greenaway. E, mais adiante, enfrentarei
a empreitada de recolher os escritos inéditos deixados
por Altino Caixeta Castro (um poeta impressionante, que
o Brasil ainda tem que conhecer), fazer uma seleção de
seus poemas já publicados e organizar uma antologia de
sua obra. Estou à procura de uma editora que se disponha
a lançar esse magnifíco e inclassificável poeta (que
estaria hoje com 87 anos) no cenário nacional.
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