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MARIZA LOURENÇO - ENTREVISTA

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Marizoca Lourenço é poeta, escritora, webdesigner e nossa parceira em diversos projetos, inclusive é moderadora do Fórum do Guia de Poesia. 

Ela também é uma das editoras das excelentes revistas internéticas Germina e Escritoras Suicidas.  

Além de tudo isso é advogada criminalista, representante da Comissão Mulher Advogada, de Valinhos – SP, e Conselheira do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher.  

Desta feita, gentil e simpaticamente concedeu esta entrevista pro Guia de Poesia. 

LAM - Primeiro, Marizoca, vamos para a pergunta de praxe: como foi e quando se deu seu encontro com a arte? 

Desde muito pequena, Luiz Alberto, primeiro com a música e, em seguida, com a dança, que pratiquei por muitos anos. Tive sorte, meus pais colocaram à minha disposição todas as ferramentas para que eu pudesse escolher. E se hoje não sou uma boa pianista ou bailarina profissional, é por falta de dedicação e empenho, que oportunidade de prosperar nunca me faltou. Às vezes culpamos demasiadamente a vida, os encargos, as decepções, quando, na verdade, o que falta é uma reflexão honesta acerca do quanto fizemos para levar adiante uma boa semeadura.

A literatura aconteceu naturalmente, por necessidade, sobretudo. A escrita formal da advocacia aguçou a vontade de me libertar da rigidez, do formalismo mecânico. E o que antes era esporádico, virou compulsão.

Escrever é libertação. Com a alma livre, minha militância na advocacia tem outro viés, muito mais humano e sensível. 

LAM - Quais as influências da infância e adolescência que determinaram sua formação e opção pela literatura? 

Tudo, absolutamente, porque de tudo o que li nesses períodos, algo de bom, de sonho, de espanto, me restou. Desde os contos de fadas, as fábulas, as Reinações de Narizinho, à poesia de Cecília. No entanto, devo admitir que, em todas as minhas fases, e gostos adquiridos em razão da idade, Machado de Assis é o que se fez – e faz – mais presente. Não existe ficcionista que se iguale a Machado em minha opinião. 

LAM - Você diz que mantém uma relação difícil com a poesia e o que gosta de fazer mesmo é prosa. Não será prosa poética? Onde você pontua a divisão distinguindo a poesia da prosa no seu texto? Onde e como a hora de cada uma? 

Sim, minha relação com a poesia é de caso-descaso, nunca haverá um rompimento definitivo, porque, afinal, eu gosto de poesia, no entanto, quando me sento para escrever, nunca é minha primeira opção, e se o faço é num rompante, sem hora certa.

Como disse Drummond "poesia é negócio de grande responsabilidade", tem que haver disciplina, e o trato com a minha produção poética é irresponsável, indisciplinado. Não sou poeta e caso venha a ter meu trabalho reconhecido um dia, certamente, não será como tal.

Em contrapartida, sou amante dedicada e faceira quando a história é prosa. Gosto de escrever contos, gosto de inventar contos, gosto de imaginá-los, de cozê-los em minha cabeça, gosto, especialmente, de estruturá-los, de dar-lhes início, meio e fim.

Ah! A tal de distinção entre uma e outra coisa, pois bem, num dia qualquer, sem hora definida, dou início a um conto e, de repente, surge uma rima que me faz perder o rumo, e o que era conto se transforma em prosa poética, ou poema em prosa, como queira. Já em relação à poesia propriamente dita, num dia qualquer e etc., meu espírito é assaltado por súbita inspiração e nasce um poema. Ocorre que não é sempre, o que nos leva ao início desta resposta.

Ironia ou brincadeiras à parte, fato é que não considero meus poemas, ou seu conjunto, relevantes. Escrevi um ou outro digno de maior atenção, mas é só. Meu desejo real é de colocar meu bloco de personagens na rua, deixá-las contar suas histórias e, com as devidas ressalvas, minha trajetória no mundo.  

LAM - Você, apesar dos aplausos, de uma platéia cativa e do talento constatado por gente de peso ainda continua inédita praticamente na publicação de livros. Você tem algum livro pronto que pretende publicar? 

Continuo inédita em termos, Luiz Alberto, porque já tive poemas publicados em antologia organizada por Leila Míccolis e Urhacy Faustino, entre outras publicações impressas, fora a internet onde, volta e meia, encontro contos e poemas publicados sem minha autorização. Mas continuo inédita em livro individual, por não ter me disposto a uma séria organização do que já escrevi até o momento. Para falar a verdade isso nunca me preocupou.

Quanto à constatação do meu ‘suposto’ talento, há aí uma certa dose de exagero e generosidade de sua parte, não é? Não pretendo publicar livro, por ora. Sou sonhadora, mas meu sonho é exigente, não quero publicar nada que não esteja dentro dos meus padrões de exigência. Não quero ser festejada, mas faço questão, se for o caso, de deixar um legado que orgulhe àqueles que me querem bem e acreditam em mim. Preciso estar segura e satisfeita quando chegar o momento de levar um livro à publicação.  

LAM - Para você quais as dificuldades para publicar um livro? 

Não posso falar por mim, já que nunca tentei, portanto, não tenho a experiência pessoal de correr atrás de um sonho que, verdade seja dita, pertence a tantos. Mas, a julgar pelo que ouço, e pelos relatos, a dificuldade maior, claro, é financeira, porque, invariavelmente, a publicação de um primeiro livro, de um segundo ou, até, de um terceiro, conta exclusivamente com recursos desembolsados pelo próprio autor. A não ser que o escritor ou poeta tenha um talento assombroso ou o que escreva seja comercialmente interessante, não vejo editoras dispostas a investirem em escritores e poetas inéditos.  

LAM - Qual a sua relação com a internet? Ela tem contribuído para difundir seu trabalho literário? E como vai o Proseando com Mariza? 

À exceção de um ou outro contratempo, contornável, e nunca causado pelo veículo, mas por quem dele se utiliza, minha relação é ótima. Encontro tudo o que procuro. Naturalmente, não fosse a internet, e eu jamais estaria sendo honrada com esta entrevista, continuaria, provavelmente, mantendo meus rabiscos em cadernos de notas espalhados pelo escritório, carro e quarto. A internet me trouxe conhecimento, acesso, interação, possibilidade de ousar e mandar a timidez, meu maior entrave, às favas. Se antes eu tremia só de pensar em revelar meus contos e crônicas a quem quer que fosse, com a internet à disposição, com blogue à disposição, com e-mail configurado, a tremedeira cedeu lugar a uma, até então, desconhecida coragem ou meia-coragem. Ainda preciso fazer mais por mim, ousar mais, contatar mais gente.

O Proseando com Mariza não vai, estacionou por falta de tempo. Atualizo muito pouco, retribuo muito pouco e, claro, com um histórico instável desses, poucos o lêem. Mas é um blogue que eu gosto, um espaço que me faz bem manter, porque é só meu.  

LAM - Você é advogada criminalista, feminista, mãe e consultora conselheira do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher na cidade de Valinhos - SP. A seu ver qual a situação da mulher hoje? Quais as perspectivas? 

Acrescente a esses “títulos”: presidenta da Comissão Mulher Advogada da 139ª Subsecção da OAB/SP e Assessora Regional da Comissão da Mulher Advogada da Seccional Paulista. Parece coisa demais, não é mesmo? Mas são desdobramentos naturais de uma batalha de anos.

A mulher permanece em situação de luta e busca permanentes, quer seja para tornar real a igualdade preconizada em nossa Carta Constitucional, quer seja pelo seu empoderamento e ocupação, maior e progressiva, dos espaços de poder.

O pleito municipal se aproxima, somos em maior número de eleitores, e nada mais esperado, até por uma questão de bom senso, que o número de vereadoras e prefeitas aumente. Aliás, permita-me mencionar a Presidenta do Chile, Michelle Bachelet, que a respeito, diz o seguinte: “Quando uma mulher entra na política, muda a mulher. Mas, quando muitas mulheres entram na política, muda a política". É isso aí!

A luta dos movimentos de mulheres é de formiga, persistente, árdua, constante. A Lei Maria da Penha é um exemplo de determinação. Enfim, podemos dormir e acordar sem aquela sensação horrorosa de impunidade. Portanto, ao sujeito acostumado a dar porrada em mulher não lhe será mais permitido transacionar cesta básica. Agora, a história é outra, muito mais séria. E justa. 

LAM - Vamos falar do seu trabalho como editora: Como se dá o processo de feitura e proposta de edição das revistas Germina e Escritoras Suicidas? 

São propostas e formatos diferentes, a Germina é uma revista eletrônica, o Escritoras Suicidas é um site com quadro fixo de escritoras. Ambos, entretanto, têm em comum a difusão da literatura, a qual, sem falsa modéstia, considero de excelente qualidade.

A ‘feitura’ da Germina é artesanal, amorosa, sensitiva, criteriosa, desde a seleção de autores que comporão as edições, às imagens que comporão as páginas individuais. Contamos, também, com a colaboração fixa e graciosa de gente de peso em nossas colunas, o que faz da revista referencial em literatura de boa qualidade e credibilidade. Tivéssemos patrocínio e  Germina já teria se transformado em revista impressa, uma realidade que, me parece, está próxima.

Mas, honestamente, todo esse trabalho não prosperaria sem a perfeita integração entre suas editoras. Silvana Guimarães, há mais tempo na editoria, minha editora-mor, portanto, é de uma sensibilidade ímpar, rara de encontrar, é a maior responsável pela Germina ser, atualmente, o que é. E me compraz dizer que entre nós existe uma quase muda harmonia. Não discordamos nunca, o que beneficia a revista e seus leitores.

Quanto ao Escritoras Suicidas, embora faça parte da editoria e do quadro fixo de escritoras, meu trabalho é técnico e se limita a transformar as páginas para a linguagem adequada, colocá-las no ar, e, eventualmente, quando disponho de tempo, convidar uma/um escritora para integrar a edição.

É um site com edições temáticas, e, ao contrário da Germina, em que existe arte visual aliada a conteúdo, no Escritoras, à exceção das fotografias das garotas, não nos utilizamos do recurso de imagens. De todo modo, me agrada demais participar, é um exercício que requer empenho, porque, dependendo do tema, a inspiração não surge e o grau de dificuldade aumenta. É divertido. Além do mais, fazer parte do quadro fixo de escritoras traz visibilidade aos meus contos. 

LAM - Você também desenvolve um trabalho como webdesigner. Como você tem sido recebida pelas pessoas nessa sua área de atuação? 

Como sou péssima divulgadora do meu trabalho, e nessa condição poucos sabem dessa faceta criadora e criativa de sites, posso afirmar com certeza que esses poucos recepcionam muito bem aquilo que crio como webdesigner. Assim como coloco à disposição da Germina tudo o que aprendo, da mesma maneira, quando sou contratada para criar e desenvolver um site, me utilizo de recursos que priorizem o conteúdo.  A arte é complemento essencial e indispensável, não abro mão, entretanto, sou cautelosa e leve, menos é sempre mais. 

LAM - Quais os projetos Mariza Lourenço pretende realizar? 

Vale, como resposta, o projeto de ser feliz? Quero felicidade integral, publicada, publicável ou não. Projetos são conseqüências da minha satisfação com a vida. 

Veja mais Mariza Lourenço no Tataritaritatá (http://blogdotataritaritata.blogspot.com/2008/05/musa-da-semana-mariza-loureno.html) e no Poeta do Mês (http://www.sobresites.com/poesia/poeta/marizalourenco.htm). 
 

 

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