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Luiz Alberto Machado
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MAURÍCIO MÉLO JÚNIOR - Entrevista (página 1 de 2)
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O escritor e jornalista pernambucano Maurício Mélo Júnior, é apresentador do programa literário Leitura, nos finais de semana da TV Senado, já tendo desenvolvido atividades de critico literário do Correio Brasiliense, professor do Centro de Ensino Universitário de Brasília - CEUB e assessor de imprensa do Ministério da Justiça.


Luiz - O que é o programa Leituras, da TV Senado?

Maurício - Esse programa nasceu de uma maneira curiosa, porque quando eu fui para a TV Senado, eu fui mandado cobrir uma feira de livros e trouxe dezoito entrevistas que fiz em cinco dias que estive na feira. E não foi possível colocar na programação durante todo mês. Um dia surge uma brecha na programação e queria repetir as entrevistas e me propus a fazer novas e saí correndo atrás e por isso está há uma ano e meio no ar. Por isso, o programa está rolando na TV Senado há um pouco mais de um ano e em linhas gerais ele procura desvendar o que é a Literatura Brasileira. A minha proposta é entrevistar autores brasileiros que falem de Literatura Brasileira e comentar livros de autores brasileiros. Isto não quer dizer que eu não tenha entrevistado alguns autores argentinos, portugueses, mas basicamente a proposta é desvendar o que está sendo feito na literatura nacional.

Luiz - O programa vai ao ar, regularmente, no final de semana...

Maurício - O meu projeto como apresentador do programa Leituras é buscar cada vez mais a literatura que está se fazendo fora do eixo. Agora mesmo, tenho uma entrevista agendada com o Afonso Romano de Sant´Anna, continuar ouvindo Ignácio de Loyola Brandão, Antônio Torres, e ouvir outros escritores e poetas, a exemplo do Wilson Rossato que nunca publicou um livro falando sobre a experiência de como se fazer escritor no Brasil. Estou com um projeto na TV Senado para que ela vá a todo roteiro de livros no país, onde quero ouvir os autores locais e que não têm espaço. Existem pessoas fazendo alguma coisa e a gente precisa ouvir esse pessoal, é isso que pretendo com o programa.

Luiz - E a poesia?

Maurício - A poesia tem um destaque, já entrevistando e comentando poetas, tais como Frabrício Carpinejar, excelente poeta gaúcho; o maranhense Casas, Patativa de Assaré, e sempre procurado ouvir os poetas, considerando que a poesia brasileira é uma das mais fortes expressões da Literatura Brasileira. No entanto, acho que ela, atualmente, passa por um equívoco, que o excesso de influência do que foi a poesia concreta.

Há um certo trauma da modernidade e de vanguarda que tem prejudicado a poesia brasileira. Quando ela busca o real sentido da poesia, que não é a inspiração, mas é algo parecido com isso, estando mais para um flash de idéia que desperta o bom poema, e quando ela deixa de ser cerebral, sendo mais sentimental , mais humana, ganha uma dimensão muito grande.

A poesia feita com intenção tem qualidade e João Cabral de Melo Neto é o maior exemplo disso. No entanto, quando é espontânea, a exemplo do Ferreira Gullar, torna-se mais pura, mais forte e mais densa.
 
Luiz - Qual a sua perspectiva da Literatura Brasileira, notadamente na poesia?
Maurício - Há uma ditadura das editoras, as de São Paulo protegem os autores de São Paulo, as do Rio protegendo os cariocas, que são as mais visíveis e equivocadas por pensarem que só existe literatura no Brasil no Rio e São Paulo. Pode-se ver que está se fazendo excelente literatura em Belém do Pará, no Rio Grande do Sul, no Recife, existe uma literatura viva em todo país. E a mídia precisa descobrir. Descobrir esses nichos.
Luiz - E como você vê o processo editorial brasileiro?
Maurício - É muito complicado. Jorge Amado dizia uma coisa muito freqüentemente, de que era muito fácil ser escritor no Brasil , isso para ele foi uma coisa muito fácil. A Marta Medeiros diz isso, que foi muito fácil, quase um conto de fadas. Ela pegou o primeiro livro de poemas que escreveu, mandou para uma das principais editoras do país na época, e eles publicaram na versão principal da coleção de poesia da Brasiliense, na série Cantadas Literárias. Isso, claro, é exceção, não é a regra. A regra, até por não saber se vender, como sabe um Fernando Sabino com muita competência, o autor brasileiro acaba, em sua grande maioria, escondido, escrevendo para as gavetas. O que é muito ruim. Então deve se ter muita coisa boa por aí escondida, e até não. Lembro que a ditadura militar era tida como responsável pelo boom da literatura. Acabou-se a ditadura e a literatura não apareceu, as gavetas vazias.

O Fernando Sabino conta que ele dizia pro Mário de Andrade; "Eu sou amigo de pintores que não pintam, de escritores que não escrevem e poetas que não versejam". E Mário de Andrade dizia: "Então, mude de amigos". Eu não sei, mas acho que a gente deveria ter um pouco da ousadia do Fernando Sabino e a fé e orgulho que tinha o Darcy Ribeiro que dizia: "Já que ninguém quer falar bem de mim, eu falo". E se mostrar e aparecer e, se possível, fugir dos cânones das editores que impõem o que está ai hoje.
Luiz - E o trabalho das editoras alternativas?
Maurício - Maravilhoso. Cito milhões delas que estão no Pará, no Amazonas, em Pernambuco, no Acre, no Rio Grande do Sul. Você tem uma par de editoras no Brasil a fora, fazendo a publicação e divulgação de uma boa literatura. Para se ter uma idéia, a Paim editou toda uma revisão da história acreana e isso nos interessa porque, na verdade, só houve uma revolução de verdade no Brasil, que foi a revolução acreana, única revolução de fato existente no século XX. É fantástico.

A Bagaço mesmo, está publicando um dos maiores autores brasileiros, que é o Gilvan Lemos. Na Valer li um livro maravilhoso "Rio comanda a vida", do Leandro sobre a vivência amazônica. Isso está colocando a nova cultura brasileira à disposição dos leitores.
Luiz - E como você vê o autor de hoje?
Maurício - O autor brasileiro atual sofre de três pragas: a do aparentemente folclore erótico do Jorge Amado, onde todo mundo quer carnavalizar a sexualidade brasileira, o que é um erro porque surge uma prosa inautêntica; outros querem sofisticar a linguagem popular à maneira do Guimarães Rosa, outro equívoco, porque Guimarães Rosa foi grande porque conseguiu conjugar três pontos fundamentais a partir de um apuro lingüístico belíssimo, depois a construção do tempo narrativo maravilhosamente bem escrito, contando uma história com começo, meio e fim, e uma profundidade psicológica em seus personagens; a terceira, é o querer ser moderno, falando de violência, sob o que já escreveu Rubem Fonseca, contando uma história policial, com bastante palavrão, um delegado folclórico e estereotipado, e com pontos de erudição. Daí, acho que o importante é buscar a própria carga do escritor com originalidade, sem precisar copiar Jorge Amado, nem Guimarães Rosa, nem Rubem Fonseca.
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