|
Poeta e professor mineiro radicado em Goiás, mestre em Engenharia Civil, pela PUC-RJ. É autor dos livros publicados ”A sensualidade da língua” e “Inspiração erótica”. Recentemente, publicou o livro de poemas “Partitura”. É autor destes versos na “Lenda árabe”:
“Para passar o tempo da sua cor / vou contar os grãos de areia / deste deserto / sua pele / pálido infinito / para enfrentar os temporais de seus olhos / vou olhar o sol / ao meio-dia / seu brilho / silêncio de estrela / para decifrar as tempestades / vou perguntar do futuro / à esfinge / devoro a reposta /no caminho que já sigo /sei pelas dunas / de seu corpo / tem uma estrela pálida que me guia / quase em silêncio / quase me olham / esses olhos paralelos / que se encontram / como o céu e a areia no oriente / à noite / lá estarei / e só descansarei / quando seus cabelos / dourados / me fizerem ver o pôr-do-sol/ pela segunda vez em um mesmo dia / neste dia / de boa oásis / e palavras úmidas / as estrelas vão brilhar menos / que a minha estrela pálida / e será o momento em que eu quero sentir / e eu sentirei / sede de camelo”.
Com este excelente poema, apresento Al-Chaer, um poeta mineiro radicado em Goiás, que é professor e mestre em Engenharia Civil, pela PUC-RJ. É autor dos livros publicados ”A sensualidade da língua” e “Inspiração erótica”.
O poema apresentado supra, faz parte do livro “Partituras” lançado recentemente.
Neste volume o poema “Decote” merece destaque:
“se eu tocasse / um instrumento / saxofone / um movimento de jazz / talvez / acompanharia / coadjuvante / as variações / dos meus olhos/ descendo e subindo / cabelos ombros e fendas / por isto toquei suas costas / que ouviram / da minha mão / aquele solo / que me descompôs / não sei de partituras / muito menos de cifras / mas tenho nos meus dedos / cinco notas inacabadas/ um dia vou soprá-las / no seu corpo / será / a um só tempo / minha iniciação e sintonia”.
Também merece ser ressaltado “Museu Rodin, Philadelphia”:
“vi / nas curvas em mármore / na suavidade do gesso / nas fendas em bronze / uma surpresa déja vu / já estive no tempo / creme quase branco / das tuas pálpebras / já estive na intimidade / castanha quase negra / dos teus olhos / Rodin viveu fora de época / esculpiu / o movimento / da emoção em formas alvinegras / sem, nunca ter visto teus olhos / por isso demorei tanto / a sair do museu / Rodin profetizou / as cores / que teu olhar um dia / esculpiria no espaço / dos meus olhos / e do brilho / entendi a poesia de Rodin /por isso demoro tanto / no teu olhar”.
E mais com “João Cabral de Severino”:
“Morre o poeta que ensina / a escrever poema reto / de veracidade nordestina / João Cabral de Melo Neto / órfãos estamos de novo / de pai -´continuada sina / para onde corre seu povo / nesta fila clandestina? / viúva que se acostuma / sobrevive e se ilumina / resista, Nação! É só uma / nossa Pátria-Mãe Severina”.
E muito mais poesia é encontrada nas 141 páginas do livro publicado pela Editora da Universidade Católica de Goiás.
Sobre o livro prefacia Sylvia H. Cyntrão:
“(...) A estrutura deste livro-Paratitura fará o leitor perceber que esta é uma poética que se desdobra a partir de princípios ontológicos, no mundo da matéria transformada alquimicamente pelos procedimentos estéticos, que é a alquimia dos tempos pós-modernos! Difícil de entender? Só mergulhando mesmo, concordo, para atingir a plenitude desta poética”.
Também sobre o livro se manifesta Luis Araújo Pereira:
“(...) Al-Chaer não disfarça. Não é um lírico qualquer, mas aquele que ouve os ecos das mil e uma noites dos amantes felizes. Tudo isso, afinal, quer dizer uma densidade que tanto é tímida quanto escancarada. Um porta que conhece as nuanças. Sem querer emitir uma sentença, eu vejo na poesia de Al-Chaer uma alegria. Como se sabe, Allah, o Verdadeiro, é justo e protege os seus”.
A respeito dele, escreve o poeta, escritor e artista visual, Tchello d´Barros: Al-Chaer: uma partitura poética e plural.
“Al-Chaer é a grafia correta do sobrenome árabe do poeta Alberto Vilela Chaer, mineiro de Uberlândia radicado em Goiânia, onde leciona numa faculdade de Engenharia. Desde o advento da Internet que ele vem traficando suas experimentações literárias pelas ondas virtuais, e embora tenha publicado alguns poemas em antologias, somente agora publica este Partitura, seu primeiro livro solo.
O volume conta com orelha assinada por Luis Araújo Pereira e prefácio da profª. de Literatura Sylvia Cyntrão, que além de utilizar textos do autor nas aulas que ministra na Universidade de Brasília, foi cúmplice na seleção dos poemas do livro, resultando numa surpreendente coesão formal. É preciso dizer isso tudo para mostrar o que não aparece no livro: o tempo da espera, o trabalho esmerilhado de um escritor que há duas décadas se debate com os desafios da palavra poética e somente agora decide publicar sua colheita madura, num tempo apropriado, por ele escolhido. Partitura, que é também uma bela peça gráfica, reúne seis conjuntos de poemas: Sopro, Semeadura, Manifestação, Transformação, Integração e Ressonância. Cada grupo de poemas é de certa forma independente dos outros e ao mesmo tempo se interligam, seja pela forma, pelo tema ou pela linguagem. Há um último buquê de poemas, o corolário Solo de Laura, comovente homenagem para uma das musas do poeta.
Partitura nos brinda com uma leitura instigante, cujo sabor maior está nas releituras, pois Al-Chaer nos possibilita visões originais e mesmo inusitadas sobre temas vastamente explorados na poesia universal, sendo essa uma tarefa dos poetas contemporâneos, falar de um jeito novo sobre temas de ontem e de sempre. Assim, como tantos outros, é também um poeta que fala do amor. E mediante um primoroso exercício de linguagem, livra o tema das pieguices meramente confessionais dos incautos estreantes, ao tempo que, sem deixar de falar em sentimento, nos diz de uma carnalidade, do corpo, da pele, das mãos, do toque. São lábios, línguas, beijos, cheiros, sabores, espasmos. E fala do olhar, de olhares. Assim, o vate está para o clássico persa Omar Khayann assim como Partitura está para um Rubayat, com suas inebriantes intimidades, epifanias amorosas e cotidianos alumbramentos.
Poeta solar, seus escritos nesse livro são tingidos de muito Sol, céu, luares e claridades, até mesmo na ode para uma Rainha Branca, musa do poeta. E o leitor é levado também por algumas geografias bastante caras ao poeta, que com sua ascendência árabe nos leva ao Oriente, passando pela Abissínia e Líbano, daqui a pouco nos encontramos pela velha Europa e logo estamos no Nordeste brasileiro, para então visitarmos os cerrados do Planalto Central, geografia pessoal do autor.
Borges dizia que a obra de Dante é uma obra visual, mais que ler, o leitor sempre vê as cenas e cenários da ação. Partitura, na maioria de seus textos também convida o olho do leitor e seu imaginário, pois há sobretudo a presença da cor, menção de tonalidades, matizes, e nas entrelinhas uma confessa paixão pelas artes plásticas, como se o poeta nos levasse por um vernissage com obras de Boticelli, Rodin, Matisse, Dalí, Miró e Warhol. E mais, esse diálogo com grandes mestres se dá também com genuína admiração numa intertextualidade com Neruda, Bandeira, Drummond, João Cabral, Affonso, Wandré, Mario Prata, e assim aparecem também Toninho Horta, Elis, The Beatles e até o goiano poeta Carlão, num repentino clarão, iluminando a página toda.
Mas mais que um tema, que uma musa, uma das principais protagonistas da obra é a própria linguagem, em cuja engenharia da palavra Al-Chaer vai construindo neologismos com aglutinações e justaposições, ou em outros momentos, vai desconstruindo os vocábulos, revelando novas possibilidades de significados, sonoridades fonéticas e diagramações alternativas, jogando abertamente com o repertório do leitor. Percebe-se uma apropriação de elementos do Concretismo, mas sem a pretensão de atualizar aquele movimento. Pura metalinguagem.
Vejamos por exemplo, um poema muito curto, que curto muito: aluado/ler/a lua do mar/rio/prata/. Aqui além de homenagear o escritor Mario Prata - seu conterrâneo, radicado em Santa Catarina - o poeta nos brinda com paisagens, sejam marítimas, seja uma lua que espraia seus raios na superfície de um rio. São experimentações como essa, com vários sentidos semânticos que permeiam boa parte da obra multifacetada que o autor tem disseminada pelos sites, blogs e listas de Literatura, Internet afora.
Mas vejamos este brevíssimo poema, que dá título ao livro: neste momento/todas as músicas/têm teu nome/teu tom/harmonia/pelo teu corpo/ sigo/as teclas do sonho/e depois/me arranjo/. Ora, é um poema que fala também do tempo – elemento presente em vários textos do livro – pois nos diz de um instante e de um depois desse momento, aludindo à fugacidade do presente. Se alguns elementos da partitura desse poema, como “música”, “tom” e a “harmonia” remetem à amada e seu corpo, em seguida o poeta dedilha um verso – talvez único na literatura brasileira e mesmo universal – onde ele segue “as teclas do sonho”, palavras que apontam não para um ou dois, mas no mínimo três níveis semânticos. Se num primeiro momento o verso alude à carícia no corpo da amada, numa segunda leitura, as “teclas” nos remetem ao âmbito virtual digital, universo muito freqüentado pelo autor e finalmente o “sonho”, universo também virtual, contrastando ainda mais com aquele instante tão físico e intimista. E talvez não seja por acaso que na palavra final do poema encontremos as sílabas da palavra anjo.
Al-Chaer é um poeta que sabe brincar com as palavras com propriedade, a aparente leveza dos textos escondem uma sólida engenharia e seus textos revelam em muitos momentos aquilo que, sendo pessoal no poeta, no leitor é universal. Tchello d’Barros - Maceió/AL – primavera de 2006”.
Assino embaixo os três depoimentos e não preciso dizer mais nada. Apenas dou meu testemunho da magnífica poesia de Al-Chaer nessa sua “Partura” que se inicia com “Sopro” na primeira parte; com “Semeadura”, na segunda; depois “Manifestação”; “Transformação”, “Integração”; “Ressonância”; e “Solo de Laura”.
Dentre outros poemas de rara grandeza poética, destaco além dos acima transcritos, também “lua árabe”, “desejo”, “coração de poeta”, “laranjas laranjeiras laranjais”, “Affonso jardineiro” e todos do “Solo de Laura”.
Com isso assevero ser Al-Chaer um poeta que pela riqueza poética construída/desconstruída na sua “Partitura” apresenta o seu caminho sedimentado digno de prestígio e aplausos. Valeu, Al-Chaer, meu abração!
Conheça mais da obra de Al-Chaer em acessando o blog http://tresdoisverbo.blogspot.com e a revista Germina Literatura http://www.germinaliteratura.com.br/gmarcondes.htm.
|