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A poesia de Antonio Miranda
Por Luiz Alberto Machado
Tive oportunidade conhecer a obra de Antonio Miranda, um porta, escritor, dramaturgo, ensaísta, escultor e professor maranhense; Ele é formado em Biblioteconomia pela Universidade Central da Venezuela, mestre pela Loughborough University of Techbology, da Inglaterra e doutor pela Universidade de São Paulo – USP. É professor da Universidade de Brasilia, do Departamento de Ciência a Informação. É membro da Academia de Letras do Distrito Federal. E colaborou com revistas e suplementos literários do Brasil e do exterior. E é autor de dezenas de livros, tendo já publicado romances, poesias e peças para teatro.
Em 1967, por decisão própria, exilou-se para viver intensamente um período de efervescente agitação cultural na América Latina, dedicando-se à produção literária e artística.
Sua criatividade foi reconhecida com prêmios pela crítica internacional (Medellin - Colômbia, San Juan de Puerto Rico).
Além de tudo isso, Miranda viveu e publicou em Buenos Aires (Argentina), Caracas (Venezuela), Bogotá (Colômbia) e Londres (Inglaterra).
Tu País Está Feliz, é uma peça teatral dele estreada em 1971, que foi representada em mais de 20 países e só publicada no Brasil em 1979.
Entre os vários livros por ele publicados, destacamos Brasil, brasis, onde ele canta:
“O Brasil que eu vejo se imagina
Diferente em seus ínclitos fervores
Mas que é, nas entranhas férteis
- horrores! – miragens e estertores.
Um Brasil que se dá negando
Seus favores. Palavras vazias,
Luzidias, ostentando insígnias
Na imensidão insólita
Voraz. Continental. Etc. e tal.
De paredes alcalinas,
Ou de pedras de alcantaria;
Dormentes pungentes,
Vociferando seus rancores.
Seus amores.
Brasil que se sabe imperfeito
Em sua completeza,
Natureza falaz.
(...)
A Pátria dói nas entrelinhas!
(...)
Patria que se derrama pelos esgotos,
Pelos escombros, como escambo,
Favores e escárnio. Raios!
(...)
O Brasil que se mostra não é
O que é, mesmo que verdadeiro.
(...)
O Brasil é uma nota de rodapé.
Terra dos papagaios,
Pára-raios, parabólicas,
Das multidões distraídas,
Sefreguidões.
Mas a gente ainda chega lá.
O Brasil que a gente sonha
Tem contornos de mulher,
Tem ancas, bumbum, potrancas,
Duas polegadas a mais.
(...)
Todos os brasis no relicário,
Todos os brasões, armários,
Virgens, salafrários,
Não obstante os altares profanos,
Os terreiros, a jaca de aroma
Afrodisíaco. Tudo ou nada.
(...)
O Brasil é um ponto de exclamação,
Extrema-unção,
Salve-se quem puder!
(...)
Do Brasil que historiamos
Saem heróis e estatuas eqüestres.
Inconfidentes, videntes,
Vedetes. Santos barrocos,
Piás, jangadeiros,
Campeões de formula um.
(...)
Porque o Brasil é muitas vezes,
É muito mais, é isso aí,
É aquele abraço,
É o jeito e trejeito,
É a hóstia e o despacho.
(...)
Mãe gentil,
Teu filho pródigo,
Teu amante endividado,
Tua razão e o nosso ser,
Hipotecado de amor,
E de esperança.
Brasil.
Também no livro “Perversos”, destacamos:
IX
Engenheiro do ar, cão sem plumas
João Cabral de Melo Neto
- do surrealismo ao verso cinzelado –
Faz coro contra as injustiças do mundo
Vida Severina.
Que o osso é nosso
Garante Monteiro Lobato – um colosso!
Desamados do mundo, uni-vos!
Que as nuvens pétreas não desabem
Sobre nossas cabeças
Que as pragas divinas dos
Lirvos-Sagrados-de-Todas-as-Religiões
Não estraguem nosso fim-de-semana.
Faz escuro mas eu canto
Com Thiago de Mello nesse vale de lágrimas
Nesse vale de silício
- valha-me Deus que não creio em Deus!
XI
A bussola de nosso tempo
Em vez de dar o norte
Dá o sul
Mais abaixo.
Quem disse que o Universo
Tem encima e tem embaixo?
No “25 poemas” merece destaque, entre outros poemas o “Poesia enferma”:
A poesia
A poesia escrita
A poema mesma dessa vida
Desaparece
Como pensar em poesia nos dias
Que vivemos?
Passando fome
Nem a poesia sobre a fome interessa!
E, também, o “Poesia no porta-retratos”:
III
Eu me reconheço
Medíocre
E apelo para as musas difuntas
Ou aposentadas.
A poesia é um caminho viciado
Ou é inovação e criação
(única inspiração)
E o poeta queima as próprias roupas
Incinera as vãs convicções, crenças
Deserta do mundo e suas ideologias
E destrói a própria torre de marfim
Seu ultimo refugio.
E não sabe o que fazer
Com a própria liberdade.
No livro “Retratos & Poesia Reunida”, entre outros poemas meritórios está o Poética:
Um menino me disse
- mas estava enganado –
Gostar de poesia
Porque ele lia tudo rapidinho.
Ledo engano: quanto menor
O poema, mais denso
Requer pausas, releituras
Cruzar os pensamentos.
Ler no espaço das palavras
Além das formas/idéias
Não ler as palavras
Mas sua tessitura interna.
A poesia é mais de quem lê
Do que de quem escreve
- o poema circunscreve
Um universo qualquer.
Todo poema é hermético
Requer um certo desvendar
Por que o poeta-ventriloquo
Fala pela boca de outrem.
Palavras-coisas, lapidais.
Palavras-pessoas, além
De si mesmas – outras
- palavras homologais.
Mesmo as circunstanciais
Cifradas no eu-mesmo
Da poesia do circunlóquio
Que se liberta e ganha
Espaço.
Já no livro “Canções Perversas – recital lítero-musical” vem o excelente “Auto-retrato”:
Às vezes sou um, às vezes sou outro:
Todo mundo é assim, ou é assado.
Eu, sem fugir à regra, transgredi.
Fui, ao mesmo tempo, eu e o outro
- um para dentro, outro para os outros
Mas, confesso, sou igual a todos
Num disfarce que é a outra face
De uma falsa dicotomia.
Nem religioso eu sou, nem romântico,
Muito menos ideólogo ou assumido
De qualquer coisa, na minha infidelidade,
Falta de fé. E, no entanto, obstinado
Quase otimista porque realista
- na reversão da contradição.
Sou um pouco o Orlando de Virginia Woolf
O Patinho Feio disfarçado de Dorian Gray.
Li uma montanha inexpugnável de livros
Tentei reescrevê-los, sem qualquer humildade
Subi, letra a letra, degraus estonteantes
Delirantes, construindo arquiteturas etéreas
No circulo vicioso das virtualidade banais.
Deveria rasgar todas as frases deletérias
Todas as imprecações, todas as contrafações
Verbais e veniais que produzi – lixo execrável.
Deveria envergonhar-me de minha falsa polidez
De minha insensatez, minhas impropriedades
Mas sempre tenho a firmeza dos inseguros
Enquanto os crédulos, os convictos
Não resistem às próprias contradições.
Transgredi mas, juro, apenas verbalmente.
No mais, sou casto na minha perversidade.
Sou beato na minha mais intima heresia.
E mais desprentensioso do que a minha soberba.
Quero dizer: no fundo sou inseguro e fiel
A princípios de que nem participo.
Deu para entender? Nem Deus pressente
Aquela dor que finjo que deveras sinto
Ao plagiar aquele poeta que nem mesmo venero.
Dele fala Xavier Placer: “(...) Trabalhador de primeira, no oficio e na literatura. Poesia. Ficção (romance, novela, conto). Memorialismo (crônicas de corre-mundo). Ensaista, conferencista. Premiado e presente em antologias. Membro da Academia de Letras do Distrito Federal. E nas eventuais horas fin-de-semana inda arranja tempo – esculpe, cultiva bromélias, coleciona postais. Tu País está Feliz, poema-espetáculo, destaca-se na biografia dele. Com êxito lido e representado nas três Américas e na Europa, hoje em onze edições, português e espanhol”.
Também a professora de Teoria Literaria da Universidade de Brasilia, Elga Pérez-Laborde fala: “(...) A poesia de Miranda pode produzir, às vezes, constrangimento numa primeira reação do leitor, ou assombro ou perplexidade, ou também riso. De qualquer forma trata-se de uma linguagem racional e poética, nervosa e inesperada, disposta para o anedotário e as vivencias de um poeta que se confessa solitário, mas ao mesmo tempo solidário. Uma linguagem que se torna torrencial acumulação de palavras e conceitos sagrados e profanos para expressar uma brasilidade que sabe das iras e demônios, dos sonhos e amores, das frustrações e carências do ser humano. Nisso torna-se universal. (...) Concordamos com o poeta que se pretende antipoeta: o poema sujo pode ser, como uma vacina da alma, sem duvida, o mais limpo de todos”.
Já o academico Sul Mato-Grossense, Zorrrilho de Almeida Sobrinho assim se manifesta: “(...) é um primus inter pares, um poeta maior, escritor primoroso e muito mais: poliglota, dominando completamente o espanhol e o portugues, dramaturgo, globe-trotter, escultor, critico de arte e literatura, professor universitário, conferencista, escafandrista da cultura, leitor infatigável e, dentre outras cousas mais, oximoro, ou seja, um intelectual controvertido, buscando nos sonhos e nas metamorfoses uma vivencia não vivida, projetando-se no espaço-tempo em busco do eterno e do infinito, crendo e descrendo (...) Antonio Miranda é cosmopolita e está vindo, como um bandeirante, conquistar as terras do Centro Oeste com sua forte e bem talhada literatura”.
O critico e poeta Marcio Almeida fala: “(...) Sua poesia singulariza-se também por uma discursividade de base retórica: “Poemas assumidamente discursivos, próprios de um desmemorial”, como afirma na Apresentação de “Despertar das águas”. Não a discursividade espacializada de Haroldo de Campos, ou a discursividade relígio-filosófica de um Bruno Tolentino, ou a discursividade estéril que grassa boa quantidade da produção poética hodierna; mas a discursividade da fala em si, que se opõe à ruptura radical das vanguardas e à tensão fugaz do minimalismo imediatista. Esse diferencial em sua poesia está latente na linguagem outsider que produz com a tradição whitmaniana, borgiana, drummondiana, e dos ibero-americanos (...)”
Em suma, para falar de Antonio Miranda já usei aqui para demonstrar o seu talento e a sua arte, o que me permite economizar um pouco mais, não significando, contudo, que não me faça reiterar tudo que já expus e disse a respeito do poeta/escritor. Muito pelo contrário, tanto reitero como reafirmo e ratifico se houver necessidade: este é o poeta! Confira mais do autor acessando o seu sítio.
Bibliografia:
MIRANDA, Antonio. 25 poemas. Campo Grande: Uniderp, 2004.
_____. Brasil, brasis. Brasilia: Thesaurus, 1999.
_____. Retratos e poesias reunida. Brasilia: Thesaurus, 2004.
_____. Perversos. Brasilia: Thesaurus, 2003.
_____. Canções perversas: poemas de Antonio Miranda e canções compostas especialmente por Xulio Formoso.VIII Congresso Nacional de Humanidades. Instituto de Letras – Universidade de Brasilia, 20 de outubro de 2005.
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