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Lília Diniz é maranhense, tem 30 anos, faz teatro há 11 anos e escreve poesias desde 1997.
Natural do Maranhão, Lilia Diniz costuma dizer que foi alfabetizada (tanto nas letras como no meio artístico) pela literatura de cordel.
Quando criança, participou de dramatizações na igreja e na escola.
Estava sempre escrevendo “dramas” e encenando.
Nas andanças pelo mundo, fez teatro de rua em Serra de Martins/RN, participou de muitas cantorias com repentistas da Paraíba, do Ceará e do Rio Grande do Norte.
Voltou ao Maranhão, onde pode ter contato com grupos folclóricos de bumba-meu-boi, cacuriá, lindô e mangaba dentre outros.
Chegou a Brasília para morar em 1996 e pode perceber que, além de uma qualidade de vida muito boa, esta cidade abriga o país inteiro dentro dela, com uma diversidade cultural enorme e um campo vasto a explorar artisticamente.
Como atriz tem participado de várias perfomances teatrais poéticas em Congressos, Seminários e outros eventos. É membro do Proyecto Cultural Sur, movimento de intercâmbio que abriga poetas, artistas plásticos, atores e músicos da américa latina e américa central. Participou do IX e do X Congresso Brasileiro de Poesia realizado em Bento Gonlaves-RS
Começou a escrever em 1994 e, não tendo ainda o conhecimento da linguagem poética, buscou essa referência no trabalho de Cora Coralina, e Patativa do Assaré. E como poeta, recentemente ela lançou dois livros.
O primeiro deles, Miolo de pote da cacimba de beber, livro lindíssimo e maravilhoso, coisa que só o leitor ao pegar o volume vai poder constatar.
Pois bem, Miolo de Pote da Cacimba de Beber é segundo lançamento da autora, recebe ilustrações de Manoela Afonso (arte-educadora e gravurista Curitibana) e Bia de Melo, professora do Instituto de Artes da Universidade de Brasília-UnB) ambas do grupo de gravuras Xiloucos, contém 96 paginas e um visual rústico a partir da utilização do papel craft, trazendo no acabamento ao invés de grampo ou cola, uma corda de sisal amarrando o livro e ainda uma embalagem para o livro, feita de talo da palmeira de Buriti confeccionada pelo agricultor/carpinteiro José F. Diniz, além de um projeto paralelo ao livro que é a produção de 12 modelos de cartões postais desenhados por moradores da Vila São Luiz, na cidade de Davinopólis, interior maranhense onde residem seus pais, desenhos estes que ilustram a vida no sertão maranhense das quebradeiras e coco e da vida simples no campo .
Passeiam pelos versos de Lília Diniz as lavadeiras, as quebradeiras de coco e um cheiro de mato que permeia toda a obra.
Complementando a obra, Lília trouxe ainda para sua "festança" de lançamento um espetáculo poético musical, onde cantarolou cantigas de composições próprias inseridas no livro.
O segundo, Babaçu, Cedro e outras poéticas em Tramas.
Este livro é uma publicação independente, com 80 páginas recheadas de poesias que falam de nossa cultura (não só do Maranhão, mas do Brasil), de amor, angústia, desilusão e sociedade (justiça social, liberdade, dignidade, etc).
As ilustrações são de Núbia Sampaio, também maranhense e aluna do Departamento de Artes Plásticas da UnB.
Desde que lançou seus livros, ela vem trabalhando nas escolas, falculdades, congressos, etc., dando ênfase principalmente aos poemas de cunho regional (onde fala das lavadeiras, quebradeiras de coco (babaçu), Nordeste, etc.
Para desenvolver esse trabalho, Lilia utiliza das bonecas de pano confeccionadas por “Maria de Expedito”, como é conhecida na cidadezinha de Janduís/RN e de performances poéticos teatrais para divulgar não só suas poesias, mas de outros poetas como Patativa do Assaré, Cora Coralina, Louro Branco entre outros.
Ela ainda edita o blog “Ranchinhos da Poesia” (http://lilia-diniz.blog.uol.com.br/) onde ela divulga eventos, publica seus poemas e manda ver na sua arte.
Para se ter uma idéia ainda sobre Lília Diniz, ela foi congressista do Congresso Brasileiro de Poesia em Bento Gonçalves-RS por quatro anos consecutivos (2001/2002/2003/2004); integrante do Coletivo de Poetas do Distrito Federal; pesquisadora do Núcleo Otelo de Pesquisa e Pesquisa Teatral; coordenadora a 12 anos do Projeto Arte e Consciência nos estados do RN, MA e DF; coordenadora Regional e Teatro do Proyecto Cultural Sur – Brasília; e estudante do Instituto de Artes da UnB(Universidade de Brasília), no curso de Educação Artística-licenciatura em Artes Cênicas.
Com essa carga toda de atividades, vale a pena, agora, curtir uma breve seleção dos seus poemas.
Algumas poesias do Livro Miolo de Pote da Cacimba de Beber
Bicho do mato que sou
o que germina em mim
são versos com
cheiro de
terra
mato e
fulô.
Essência
Impregnado em meu
corpo
trago o cheiro doce do
cedro.
Nas minhas magras
veias
o que corre não é
sangue azul
nem vermelho
é puro leite
é puro azeite de
babaçu.
Minha pele
foi tecida
pelos bilros de
minha avó “Baita”.
Meus olhos esbugalhados
foi mãe da lua
que alumiou,
com o triste canto da
rolinha fogo pagô
fogo pagô! fogo pagô!
O pulsar da
minha vida
tem o ritmo
traçado
pela dança da
mão de pilão.
Meu riso frouxo
nasceu
das cantigas de
cordel
à luz das lamparinas
brincadeiras de roda
cair no poço e
pulando corda.
Forjada nas
farinhadas
nos engenhos de
rapadura
e nas debulhas de
feijão
mesmo saindo do
mato...
Ele não!
permanece dentro
de mim
grudado que nem
mucuim
Estrume
O que aduba
meu pé de poesia
é o estrume do boi
marcado a fogo
que rumina versos
contra o opressor
É o bagaço da cana
moída no engenho de ferro
que traz no gosto da rapadura
o amargor de vidas
também moídas
São as toras dos babaçuais
estendidas ao chão
pelo machado da ganância
que devasta não apenas florestas
derruba Chicos, Josimos,
Margaridas...
O que fez brotar e alimenta
meu pé de poesia
é a certeza que esses
versos em flor
romperão cercas
fecundarão roçados
e saciarão barrigudas
famintas de
justiça
terra e
pão
Quebradeira de coco
Teu trono
é o de tantas outras
que se embrenham nas matas
à busca da amêndoa que dá o sustento
às vezes roubando-lhes a vida.
Teu machado
abre as entranhas do babaçu
e conhece bem as curvas
de tuas pernas, que tantas vezes
se fizeram passagem de vida.
Teu braço
já sem a força de antes,
empunha o velho macete certeiro,
aos golpes abre o coco ao meio e
em mil pedaços teus sonhos.
Tua labuta
transformada em azeite, sabão.
Gongos apetitosos
assados ao espeto na brasa
do mesmo coco que o alimentou.
Tua realeza
comparada, não menor
que as palmeiras que a ti
reverenciam.
Ofertam-te folhas, frutos
haste e pó
que aduba e fortalece
outras vidas
O coco que eu quero
Coco
em florada
esperança
alimentada.
Coco
nascido
sonho
parido.
Coco
no cacho
olhar
embaixo.
Coco
no chão
certeza do
pão.
Coco
quebrado
bucho
calado.
Coco
torrado
di cumer
temperado.
Força das águas
Esse espírito que
navega da nascente
às ribanceiras
entre matas
pedras, redes,
alimenta a poesia
nos sonhos
das lavadeiras.
As do rio
se renovam
naqueles braços de mar
pois cada dia é um rio
diferente a passar.
As dos poços
e açudes
de molho pegam a
sonhar.
Versos
arrebentam
das trouxas,
das espumas,
do olhar.
De sonhos
elas entendem
lavam todos,
todo dia
e botam
de quarador
na pedra
do meio dia,
ensaboam,
lavam,
enxáguam
em bonitas
melodias.
Como se pode ver, merece muitos aplausos esta artista promissora que está conquistando o seu espaço cada vez mais.
Daqui, meus parabéns e aplausos de pé. Beijãozão, Lilia.
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