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Luiz Alberto Machado
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LUCIANA MARTINS

Luciana Martins é uma daquelas surpresas agradáveis que nos chegam do inopinado.

Mulher, poeta e professora maranhense, hoje domiciliada em Curitiba, é mestre em Literatura pela Universidade de Brasília – UnB, onde defendeu a dissertação “A estética da crueldade em Dalton Trevisan”, em 1993. É também doutora em Literatura, pela Universidade de São Paulo – USP, onde defendeu a tese “Tensões da poesia e da crítica em Mário Faustino”, em 2000.

Em 1996, publicou seu primeiro livro: “Lapidação da aurora”, pela Editora Giordano. Esse livro veio logo com o aval de ninguém menos que o poeta Manoel de Barros: “Todos os seus poemas trazem essa graça misteriosa. A ternura disfarçada. (...) Me faz bem a sua poesia. Está bem madura, sem as muletas dos adjetivos. ´Um rouxinol sem sol`. Os poetas são anjos. E têm o dom de encantar. Fiquei um tanto encantado com os seus poemas tão disfarces. Seus poemas são luminosas gotas. Muito obrigado pelo presente. Seu amigo, com carinho, Manoel de Barros”.

Lapidação da aurora traz de cara uma epígrafe de Arthur Rimbaud: “Acabei por achar sagrada a desordem de meu espírito”. E logo vê-se tal situação nas duas partes que o dividem: Amar e Vagar.

Na primeira parte, Amar, logo se defronta com o poema “Destino”: “um delineador de esperas na palma de minha mão”. E a seguir, vem “Ulisses” que “(....) durante anos, em minhas navegações, teci com as linhas das borbulhantes vagas (eu, Penélope, também ousei), e “Amar” com “construir estradas para se perder”.

Na segunda parte, Vagar, destacam-se: “Disfarce”, “lado oposto: único lado exposto de mim”; “Pessoando”, “fraquejo, gaguejo e nada vejo diante de mim que acabe dardejo do mundo; o que sou hoje é apenas sobejo do que ontem fui”; além dos poemas “Domingo”, “Salmoura” e “Diletantes”.

Já em 2003, a autora apresenta “Espetáculo das sensações alheias – drama lírico em três atos”, que traz logo no Prólogo, “Evangelho”. No Párodo, vem “fala do coro”. E daí, o primeiro ato, com “Sintoma”, “Eu”, “Na batucada” (depois de eu ter passado/ a noite inteira dançando/ no ensaio do Ilê Ayê/ em pleno carnaval/ da Bahia,/ meu amigo virou pra mim/ e disse: / ´Você é alegre como um réquiem`”), “Eterno retorno” (com o mesmo assunto/ besunto este poema (...) o mesmo óleo gosmento/ compõe este lamento/ (...) areia movediça/ em que pisa este verbo/ (...) cá estou eu a dizer-te, leitor,/ mais uma vez sempre outra vez/ do amor do amor do amor”), “Canto cáustico” (“Deus não existe/ mas incomoda bastante”), “Passeio na floresta”, “Melindre” (“se não acabei com minha vida até o momento/ foi por receio de parecer indelicada”), “Fim de ano”, “Consolo”, “Táticas para atacar a depressão”, dentre outros.

No segundo ato, destacam-se “Lamento de Penélope” (“de rima em rima/ vou removendo a resina/ de poeta sem verso e sem poema / de mulher sem nome e sem semema/ de anjo sem sêmen e só dilema”), “Paradoxo”, “Gramática do amor” (“ser/ permanecer/ ficar/ - verbos de ligação/ que não cumprem/ sua função”), “Sabor”, “Ludíbrio”, “Partilha 1”, “Recidiva” (“ se o amor entorna/ lamber no chão/ o leite derramado/ para tornar a amar”), “Sexo oposto” , “Armadilha”, dentre outros.

Por fim, no terceiro ato, vem “Descoberta” (“querer medir o íntimo/ com fita métrica precisa/ é arriscar-se a ver toda verdade desmentida/ e a deparar-se com o medonho/ destamanho do ser”).

Sobre este livro, fala Henryk Siewierski: “(....) Um livro em três atos, com o prólogo e o párodo, estruturado como se fazia nas primeiras peças teatrais gregas (....) no fundo, o drama representado é o da desapropriação sofrida no processo da aculturação nossa de cada dia. A poeta e personagem do drama sofre os efeitos desse processo e os encara, resistindo em nome da liberdade, no seu relacionamento com a linguagem e com o outro. Por isso, em sua voz, soam mil vozes, e uma única, inconfudível, voz de quem sempre de novo, sempre outra vez, sempre apesar de tudo procura cuidar da frágil aliança amorosa entre palavra e o mundo”.

Ambos os livros são gostosos de se ler porque são escritos com o talento de quem olha e participa, entrega-se e restaura o que se foi para o que ainda não é há muito desejado, remonta-se e, por resultado, demonstra que vive, sofre, saracoteia, ri e dá o recado.

Mais ainda: Luciana Martins escreve crônicas quinzenais para o jornal Truma da Barra, onde aborda desde Pessoa, Ponge, Borges, Bakhtin, Nietzche, Clarice Lispector, Gilberto Gil, Umberto Eco, José Miguel Wisnik, Haroldo de Campos, Chico Buarque, cultura de massa, apocalípticos e integrados, preconceitos, televisão, enfim, suas reminiscências da Barra do Corda, no Maranhão.

Para quem quiser conhecer tais trabalhos, basta acessar http://www.geocities.com/Heartland/Ranch/9109/mat11.htm e lá poderá ter uma idéia do seu talento.

Da minha parte, nada mais resta senão celebrar a mulher, a poeta, a escritora e a professora Luciana Martins, somente acrescentar que, para conhece-la melhor, recomendo a verem a entrevista que a Luciana concedeu pro Guia de Poesia e boa leitura na navegação.

 

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