SobreSites > Poesia > Poeta do Mês > Mariza Lourenço
Página Inicial do Guia
Editorial
Portais Poéticos
Poetas Consagrados
Contemporâneos
Poeta do Mês
Mariza Lourenço
Entrevistas
Resenhas
Artigos
Bibliotecas Virtuais
Concretismo & Afins
Cordel
Haikai
Revistas Eletrônicas
Associações
Publique
Eventos & Concursos
Fórum
Fale com o Editor
  Poesia
Luiz Alberto Machado

Editor do seu Guia de Poesia na Internet
Pesquisa personalizada
MARIZA LUOURENÇO

Saiba das atualizações por e-mail

Mariza Lourenço, a poeta e a mulher

 

Luiz Alberto Machado

 

Mariza Lourenço, como ela mesma se diz, é paulista, advogada criminalista, escritora, poeta e mãe. Mulher. Uma mulher-poeta encantadora e apaixonante, diga-se de passagem.

 

Com orgulho, ela mostra uma insígnia: é vice-presidenta do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Valinhos, consultora para questões de gênero.

 

Também é moderadora do Fórum do Guia de Poesia.

 

Além disso, mantém um blog na rede, o Proseando com Mariza (http://marizalourenco.blogspot.com/). É editora de arte da revista de arte e literatura, Germina (http://www.germinaliteratura.com.br/), do site Escritoras Suicidas (http://www.escritorassuicidas.com.br/) e do meu site pessoal (http://www.luizalbertomachado.com).

 

Ela tem poemas e textos publicados em diversos sites da internet, dentre eles, Plataforma para a poesia, PD-Literatura, Officina do Pensamento e Nave da Palavra, dentre outras.

 

Para se ter uma idéia da sua poesia, trago aqui o seu poema Prognóstico:

 

Sete romãs

Duas velas brancas apagadas

Sete ondas puladas

Doze caroços de uva.

Uma oração bem feita

Esparramada num pote de mel.

Durante o ano

Nada demais.

Nem a falta

Tão dolorida.

Só meu coração e eu.

Só ele

desmanchado num pedaço

Virgem de papel.

 

Vê-se como ela prepara toda a atmosfera usando todos os recursos imagéticos possíveis para delinear a solidão de quem conta nos dedos o tempo passando e passado.

 

A riqueza de sua literatura está no poetar com a carne, o sexo, as emoções e a vida, com o sentimento exacerbado de quem vive além da conta. Exemplo? O homem:

 

não havia homem que se igualasse a ele. e à sua pele. tão branca e cheia de promessas (feito lua quando nasce).

as roupas caiam-lhe impecavelmente sobre o corpo, moldando-se a ele com íntima reverência.

quem o viu não permaneceu imune à beleza de seus traços; cuidadosamente desenhados por alguma mão divina.

e quem, sublimado por tamanha beleza, haveria de encontrar qualquer resquício de humana imperfeição?

mas havia.

para além daqueles olhos emoldurados por espessas cortinas de negros cílios, havia ânsia. misturada a uma fome secular.

quem o viu, soube. e não conseguiu escapar.

e não fora essa fome, jamais teria penetrado as minhas noites.

e não fora a ânsia, jamais teria se apossado de minha alma.

tão ansiosa e faminta quanto a dele.

beijou-me.

e o gosto era de sangue.

invadiu-me.

já não era um Homem.

 

Toda sua poesia é feita de paixões, emoções, queda, solidão, decepções, carne, sangue e vida, toda uma vertigem lírica que se deixa levar pelo dédalo dos dias e vai em frente sem saber onde tudo vai dar. E erotiza com essas circunstâncias, como em Vinte e uma horas:

 

 

Vinte e uma hora

(uma tarde. uma noite. uma manhã)

 

(...)

 

e toda a ânsia foi engolida pelas horas e pelo homem.

dentro de mim.

dentro dele, o amor, com todos os seus fins, justificou as minhas esperas.

dentro de mim, as previsões de nosso signo desmentiram as incertezas de sempre.

há tempos.

a mandala movimentou-se feito vento e por vinte e uma horas todas as casas escancararam suas portas.

era o mar invadindo o céu. com todos os seus propósitos.

era o homem dentro de mim e sua paixão latejando em minha boca. e minha língua inteira estancando o futuro. tão dolorosamente incerto.

ainda.

por vinte e uma horas minha nudez flutuou à sua frente. e o homem, de olhos bem abertos, agarrou-se às lembranças que viriam.

era o sol desafiando a lua. com todos os seus segredos.

minha nudez em seu colo.

meu corpo em sua cama.

minhas pernas abertas, abraçando-lhe o pescoço.

uma flor inteira.

uma mulher de quatro. úmida.

e o amor. mais antigo que as nossas rimas.

por vinte e uma horas foi tudo o que o homem quis.

e teve

:de mim.

 

E também em Rotina:

 

Rotina

 

Ele me lambeu, como lambia todos os dias. Ele me chupou, como chupava todos os dias. Ele me comeu, como comia todos os dias.

E depois morreu. Do mesmo jeito que vinha me fazendo morrer:

Todos os dias.

 

E deliciosamente em Cotidianamente erótica:

 

cotidianamente erótica

e banal

1

sentou-se ao meu lado e disse uma indecência tão antiga e irresistível que me arrancou um sorriso

(e a calcinha de renda chantilly)

uma hora depois.

2

gosto de vê-lo tirar as roupas às pressas, enquanto tiro as minhas, l e n t a m e n t e, peça por peça. até que, de joelhos, ele peça.

(...tire)

3

entre pecado e castidade, sou inteira.

nunca metade.

 

A pronunciada condição mulher, como ela mesma diz: fêmea de nascença, estampa a nítida grandeza do ser humano na sua mais poderosa riqueza: o poder de estar constantemente a vencer a derrota e se refazendo na derrota da vitória perdida, num sisifismo próprio dos seres geminianos. A mulher que sabe Todo mês:

 

Todo mês

 

sangro.

todo mês sinto a dor do terceiro filho.

aquele que não pari.

há muito ele finge que vem, mas é fingimento que dura o tempo exato da próxima dor.

no próximo mês.

 

E das paixões amadas e desamadas, queridas e retardadas, preteridas e afogadas, presentes e pretéritas, como em De lendas:

 

De lendas

(a rosa de outono e o poeta)

 

era uma vez a poesia fecundando a terra. e era outra vez a terra parindo a flor. rosa de outono e de sangue, amor-perfeito e exato para caber em um poema. não escrito.

era uma vez o poeta. e era outra vez a busca. entre as letras descoloridas e todas as intenções. ocultas.

era uma vez o caminho de sempre, sustentando os passos dele. claudicantes e incertos, tropeçando na espera. dela.

e na boca do homem a rosa fez-se verbo, sangue.

e cio.

e em suas mãos os espinhos sangraram as rimas.

primeiras.

era uma vez o início de tudo.

era uma vez um poeta e o amor.

e ainda é a poesia inscrita

:em todas as pétalas da flor

 

E de solidão, no solilóquio de De gelo e névoa:

 

De gelo e névoa

 

De novo

e sempre

(como se nunca

tivesse sido)

a mesma parede

o mesmo ciclo

interminável

e agônico

da espera.

De novo

somente eu

e a minha

verdade

eu

o espelho

e a dor

deste

esganamento

entre as pernas.

De novo

em minha vida

(como sempre

haverá de ser

- até a morte)

somente eu

:gelo e névoa.

 

E a observação do seu e do outro mundo entre tantos outros mundos de todos os seus personagens que é ela mesma, como em À espera de Eulália:

 

À espera de Eulália

(La masturbation)

Era um ritual quase sagrado, aquele de lavar as partes baixas enquanto aguardava Eulália. Fizesse chuva ou sol, ainda que ela não aparecesse ou que nada mais acontecesse, além de uma boa beberagem de chá. E isso, talvez fosse tão importante quanto a visão de Eulália abrindo o pequeno portão de ferro. Dava-lhe prazer a espera, perfumada pelo sabonete de malva. Excitavam-no as mãos que lavavam o falo, repuxando-lhe a pele sobre a glande.

Sim... E depois, Eulália. Ou o chá.

 

Todo clímax de sua prosa-poética é constatável em Por volta das três...

 

Por volta das três...

 

A esta hora o sono me foge. Sempre às três. Como se fosse um castigo, uma praga jogada por ele. A esta hora o cheiro dele me atormenta: sobe pelas minhas pernas e bole com as minhas partes. O cheiro dele tem mãos.

...E língua.

Era um lugar ordinário, mas estava invariavelmente aberto quando me esgueirava pelas ruas de madrugada. Não me importava de caminhar sozinha àquela hora ou de entrar em um bar cheio de homens.

Incomodava-me não encontrar nada em minha cama.

...Às três da manhã.

Naquela primeira noite ele não me tocou. Ordenou que eu não falasse e, então, farejou o ar. E meu corpo, dos pés à cabeça.

...Feito um cão.

Foi lá, naquele lugar, que o vi. Ele se sentou ao meu lado, bem junto, e pediu lhe fosse servida a bebida. Aquela, disse ele. E bebeu mais de uma dose. Sua perna pressionava a minha, enquanto sua mão direita fazia um círculo sobre o balcão.

Senti-me perversamente disposta.

Ele notou.

...E me seguiu.

Não sei onde foi parar minha vergonha naquela segunda noite, tampouco meu juízo e minhas roupas. Não sei em que momento ele começou a se despir.

Estávamos desesperados.

Deixei-me comer.

...E comi.

Naquele bar havia um lacre. E, em volta, um silêncio de morte. Mudei de calçada e segui sem olhar pra trás.

Joguei no lixo os jornais do dia seguinte.

...E a minha curiosidade, também.

Não o esperei naquela que seria a terceira noite. A certeza de sua ausência era tão grande quanto a minha vontade de perambular novamente.

Mais uma vez saí. Caminhei pelas ruas esperando escutar a música dos gatos.

Nunca havia me sentido tão só. O desejo nunca havia sido tão agônico quanto naquela terceira noite.

...Corri, com medo de mim.

O bar continua lacrado, mas a notícia do crime já se espalhou pelos quatro cantos do beco. Dois homens, disseram, por conta de uma dívida.

Não sei quem morreu. Ou matou. Continuo ignorando os jornais.

O lixo tem sido a salvaguarda das incertezas. E de minha vida.

Esta noite é minha, ainda que o cheiro dele esteja presente. E mais forte. Ainda que ele se enfie entre as minhas pernas. E me molhe. Ainda que não venha. Ainda que, vivo ou morto, não o saiba.

Ainda assim:

esta noite, a quarta, é minha.

("de tudo ao meu amor serei atento".

E que seja, por amor a Deus.

...Às três da manhã.)

 

Por esta arte poderosamente humana, fantasticamente fêmea, maravilhosamente feminina, extremamente poética e ardorosamente grandiosa que Mariza Lourenço é a poeta do mês e de sempre do meu coração.

 

Beijabrações, Marizoca!!!


Projeto SobreSites | Sala de Imprensa | Usabilidade
Política de Privacidade | Condições de Uso | Torne-se Editor