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O Pássaro de Vidro de Carlos Machado
Luiz Alberto Machado
Carlos Machado, este poeta e jornalista baiano radicado em São Paulo, já é digno de meus aplausos acalorados pela iniciativa que teve de criar o Ave, Palavra (vide Revistas Eletrônicas deste Guia), onde ele divulga semanalmente com um boletim denominado de Poesia.net, abrigando, revelando, resgatando, revalorizando e reproduzindo poemas de toda sorte de poeta, desde os clássicos até os novos e novíssimos.
Sobre o site, ele diz: “Este site foi concebido para ser a reunião na web de boletins poéticos que fiz circular, entre amigos, via e-mail. Quem conhece os boletins — primeiro, Drummond: 100 anos; depois, poesia.net— inevitavelmente faz a pergunta: qual o endereço do site? Cansado de dizer que os boletins só existiam via e-mail, resolvi então dar-lhes uma existência menos provisória, colecionando-os num site. Eventualmente, como o espaço está criado, poderão aparecer, aqui, textos em prosa e outras construções literárias”.
É justamente neste site onde está uma penca de poeta que foi contemplado com o seu boletim, isso desde Maiakóvsky, Shakespeare, Kaváfis, Yeats, passando por Décio Pignatari, Lêdo Ivo, Ungaretti, Eliot, até Iracema Macedo, Vera Lúcia de Oliveira, Virna Teixeira, dentre muitos e muitos outros. Isso prova o quanto de aplauso efusivo o seu trabalho merece.
Além disso, tem uma coluna reunindo poemas de Carlos Drummond de Andrade e uma outra, exatamente “Outras Palavras”, reunindo dicas, toques e observações sobre o que acontece no mundo da poesia e da literatura em geral.
Este poeta dos bons já tem poemas publicados em revistas literárias, como Cacto e Jandira, além de jornais, como O Escritor, da União Brasileira de Escritores. Na rede, tem uma seleção de poemas reunidos no legendário Jornal de Poesia.
Agora ele chega com o livro “O pássaro de vidro”, sob o selo da Editora Hedra, de São Paulo, reunindo poemas que ele divide nas seções do livro como “Horológio”, “Pássaro de vidro” e “Garrafa de Náufrago”.
Na primeira parte, o tempo e as horas, o homem e suas limitações, regramentos, redomas, como se o homem vivesse eternamente sob o jugo de um relógio implacável ditando a vida.
Na segunda parte, um pássaro de vidro eternamente subjacente ao mundo dos que não voam, sem canto, sem asas, presente e coisificado.
Na terceira parte, rasgando a cortina, os sentimentos são novamente aprisionados num invólucro de vidro e jogados no mar da vida como mensagens contidas nas garrafas de náufragos.
Tudo isso com muita concisão, enxuteza, exatidão. Nenhuma gordura e nenhum aparato. Tudo muito firme como a carne se arranhando enquanto desliza nua no asfalto. Tudo muito concatenado como quem prevê o trâmite da queda num segundo imperceptível, mas registrado nos relógios das fatalidades, dos acontecimentos, dos compromissos e das convenções.
No “Horológio”, ele traz o poema “Heraclitiano”:
“na segunda chicotada
você já é outro.
- não importa o lado
do chicote”.
Depois, o “Pêndulo de Nava”:
“Pedro Nava tinha um pêndulo na sala
um relógio-armário de antigos Navas
uma peça de museu e arraigada estima
seduzindo os olhos como pedra-imã
o pêndulo de Nava ponteou, no mesmo tono,
os assombros e insônias de seu dono
marcou o tempo de remotos Navas
e também o de Pedro, até a hora mais cava”.
Com esses dois poemas estão cristalinas as formas cortantes, nuas, cruas e exatas na expressão do poeta.
No “Pássaro de Vidro”, vem “Apelos”:
“a ave me
alcança
com apelos
de vidro
e eu fico
criança
o olhar anidro
e me rendo
ao espaço
do pássaro
de vidro”.
E na “Garrafa de náufrago”, vem “Maturi”:
“Até o prazer dói.
Dói como fruto
Que desponta
Na ponta do galho,
Caju indeciso.
Esse fruto –
O que está para vir
- precisa de sol
minérios
e da roleta de
chuvas e brisas.
Precisa
Do que não está
na língua
dos profetas para
se tornar doce
caju sem travo,
a essência da fruta.
O amor dói.
Dói e reque
Energia, confluência
De sóis, anzóis
Atados ao cordão
Da melancolia.
Anzóis que carecem
Fisgar a essência
Do ouro.
E ser – apenas ser – dói.
Dói porque tudo
É incerto e impreciso.
Nenhuma certeza
Tem rosto
De pedra.
Depois de sábado
Quem garante
Um infalível domingo?”
E depois, “Açafrão”:
“um ou dois poemas
de sentido oculto
um galho seco
de açafrão
e a necessidade
de ficar
sóbrio sobre as cinzas
- eis todo o meu saber
se me perguntarem
- por quê?
Vou jurar que não sei
Não sou
Desses que sabem
Talvez um dia
Eu tenha pensado
Conhecer os
Pontos cardeais
Fases da lua e
Frases da rua:
Mas o sol
É sábio e ensina
Todos os dias
Sua lição de incerteza
Uma vez
No oco branco
Da noite
Pensei que
O amanhecer me
Traria pássaros
Fáceis
E obedientes
Falhei –
O ferro quente do erro
O ferro fértil do erro”.
Sobre o livro diz Donizete Galvão: “Merece o mais vívido entusiasmo este Pássaro de vidro, que Carlos Machado há tempos vinha burilando. (...) Pássaro de vidro nos apresenta um poder em plena maturidade, rigoroso na sua concisão substantiva, em que a clareza e a leveza estão a serviço de uma poesia reflexiva e consistente. Vale ressaltar o acabamento impecável dos poemas que resultam em artefatos límpidos, sem rasuras. Seguindo a máxima de Aníbal Machado, o autor retira dos poemas toda estridência para que ganhem mais alcance e ressonância. (...) Machado lança-se na poesia com a delicadeza e precisão de um trapezista. Mostra-se hábil conhecedor do seu ofício”.
Sabe e conhece mesmo. E comprova nessa pequena mostra de poemas que acima trouxe como leve aperitivo para este excelente livro de um poeta bom da porra.
Não deixe de visitar http://www.avepalavra.kit.net/ e, também, a página http://www.revista.agulha.nom.br/carlosmachado.html e o blog http://info.abril.com.br/blog/machado/index.shtml para ter uma dimensão melhor sobre o trabalho deste poeta.
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