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A terceira romaria: o poema da alma da terra
Luiz Alberto Machado
“A terceira romaria” é um livro do José Inácio Vieira de Melo, lançado há alguns meses pela Aboio Livre Edições, reunindo poemas de seus livros anteriores: “Códigos do silêncio”, de 2000, “Decifração de abismos” de 2002 e “Luzeiro” de 2003.
Este livro já veio com o peso dos avais de autógrafos nada razoáveis, como o do poeta alagoano Ledo Ivo que diz: “Depois de Jorge de Lima, no início do século passado, José Inácio Vieira de Melo é o primeiro alagoano a dar os primeiros e decisivos passos nessa Bahia que ´como todas as mulheres/ tem os lugares sombrios mais gostosos`. Muito apreciei o seu lirismo cortante como o fio de uma navalha, uma poesia que, embora seca, esconde e guarda uma chuva secreta. Uma descoberta que tanto me alegra”.
Também a não menos Nelly Novas Coelho comenta: “Sua palavra tem força e está ´sintonizada`com os ventos que sopram neste nosso tempo em mutação. Continue ´decifrando abismos`e buscando os possíveis ´oásis`no aparente ´deserto`em que o mundo atolou. Mais do que nunca o mundo precisa de poesia, que é o caminho da Beleza e da Grande humana”.
Também encontramos nada menos que Olga Savary assinalando: “A poesia de José Inácio é forte e verdadeira como as algorabeiras alagoanas, e tem a beleza simples e profunda do verde que a rodeia, pura seiva, puro sangue”.
E mais recente, Sânzio de Azevedo comentou: “Parece-nos entretanto que, apesar da alta qualidade de textos livres como “Caramujos”, “Ribeira do Traipu”, “Cantiga de Amor”, “Retrato”, e vários mais, José Inácio Vieira de Melo, a nosso ver, se realiza melhor nos poemas compostos de versos medidos, notadamente naqueles vazados em redondilho maior, verso medieval dos romanceiros hispânicos que remanesce na poesia popular do Nordeste brasileiro. “Romaria”, que faz intertextualidade com os versos que lhe servem de epígrafe, uns anônimos e outros de Humberto Teixeira (da canção “Légua tirana”, com melodia de Luiz Gonzaga), nem sempre tem rimas consoantes, mas o caráter popular do poema é patente (....) Já o poema “Construção” é totalmente sem rima, mesmo toante ou atenuada, mas igualmente vazado rigorosamente em versos de sete sílabas (...) A “Ladainha corporal” é composta de dois quartetos e dois tercetos, mas não é um soneto, porque em versos livres, o que Mário de Andrade, com sua lucidez, já condenava. Entretanto, “Ave”, na página anterior, é um soneto, embora com uma ou outra rima. Com sua maneira bem nordestina de cantar, em versos que nos fazem ouvir “Pandeiro, triângulo, zabumba/ e a sanfona de Gonzaga” (Disritmia”), em poemas cheios de mandacarus e algarobas, vacarias, olhos d’água e ventos andarilhos, José Inácio Vieira de Melo faz uma poesia original, bem dele, e bem de nosso chão. É o caso, para encerrar este comentário, do belo poema “Cerca de Pedra”, na verdade uma trova no esquema rimático popular (ABCB), mas com rima toante: Aqui, na Cerca de Pedra, nesta noite caatingueira, estou em silêncio, ouvindo o silêncio das estrelas. Quem escreve versos como estes é poeta de verdade. Nem é preciso dizer mais nada”.
No prefácio da obra, Hildeberto Barbosa Filho enfatiza que: “(...) José Inácio Vieira de Melo intenta como que rever também a perdurabilidade dos seus versos. A comparar A terceira Romaria com os títulos de ontem, diria que o poeta apura a técnica de nomear e torna mais contido o discurso expressivo, sem que esta contensão venha dirimir a inventividade de certas imagens”.
E, por fim, Mayrant Gallo, nas orelhas do livro, afirma que: “(...) projetando um eu-lírico que, de súbito, se depara com suas limitações, José Inácio Vieira de Melo o transforma em arquétipo (...) Em tempos de discurso arrogante por parte de tantos segmentos da sociedade, alguns inclusive belicosos, tal poema é um alerta. Quem somos? O que somos? Poeira, peneira. O pó da criação, o filtro por onde tudo escapa, se dilui. Este é o homem, o atual e o de sempre, mas que só o poeta descobre, compreende”.
Exemplos disso tudo que dizem? Ah, começa com as quatro “Cantiga de amor”, a primeira delas dizendo:
“Por que não me acompanhaste?
Por que não me acompanhaste,
Se sabias que sem ti o alvorecer não faria sentido?
Que o brilho das estrelas ficaria desnutrido
E seríamos mesmo como ovelhas desgarradas?
Por que eleger outros interesses que não os do amor?”.
É com esse tom que qualquer leitor, como eu, não só passará por Olho d ´Água do Pai Mané, um povoadozinho do município de Dois Riachos, terra natal do autor, como também terá a oportunidade, tal como eu, de transitar entre Piranhas e Penedo, descer por Porto Calvo, alcançar Mata Grande e de lá se embrenhar pelo percurso que eu mesmo fiz pela minha “Panacéia: o mapa da mina”, buscando a sereia d´água doce pela escultura da terra na erosão dos paredões rochosos que um canoeiro de primeira viagem saltou na vida no meio do pastoril regado a pirão de carapeba e cocadas, sururus, lagoas, taieiras, rabecas e frutas do mais poético pomar.
Esta, pois, a identidade do poeta: o cantor da alma da sua terra. De nascença, alagoano. Hoje radicado na Bahia onde é jornalista e co-editor da revista de arte, crítica e literatura Iararana. Identidade essa que se enconta no “Eu”:
“Não vi o floco solitário de nuvem cruzar o azul.
Não tenho tempo. O mundo me persegue
E preciso encontrar as cifras e os signos,
Preciso encontrar as chaves de todas as coisas.
Mas como? Se não acho a chave de mim mesmo!
Em que espelho ficou perdida a minha face?
Creio que em ti os espelhos se estilhaçam:
Tu és a flor onde me escondo
E longe de ti os caminhos são tão ermos...
As trombetas clamam: tu e eu somos um,
Vamos, então, ver as pedras apascentarem a eternidade,
Mas saiba, tu és eu e eu sou tu:
- não há lugar para dois eus em minha morada”.
E tudo se transforma instrospectivamente quando em “Lajedo e Lua” ele diz:
“A pedra que piso diz silencio
E das águas que molham as plantas dos pés
Para que os arvoredos dos passos possam brotar.
A pedra que olho diz do espelho
E da luz que persigo a cada instante,
Como palha que busca ser brasa da eterna fogueira”.
Com se vê, versos enxutos, lapidação hábil, engenho de exímio. Esta é a poesia de José Inácio Vieira de Melo que a mim, nada mais resta, que recomendar.
SERVIÇO
A Terceira Romaria, de José Inácio Vieira de Melo
Salvador: Aboio Livre Edições 2005 126 págs. R$ 20
End. do autor:
Rua Cruzador Bahia, 01/05 Nazaré
Salvador – BA CEP 40050-040
E-mail: jivm.inacio@ig.com.br
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