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Luiz Alberto Machado
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VÔO NA DISTÂNCIA

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Vôo (dentro/fora de si) na distância

Por Luiz Alberto Machado

"Voar é do homem", assinala Djavan numa de suas canções. Tanto é que não basta só acompanhar a odisséia do Santos Dumont no seu 14-Bis, ou dos irmãos Orville e Wilbur Wright, mas todas as tentativas repetidas e fracassadas desde o desejo de imitar o vôo dos pássaros, o lendário Ícaro, as criações de Júlio Verne, as explorações siderais, a busca pelo Nirvana e as elucubrações reverberadas do rock progressivo. Maior viagem. Inclusive, dá-se a entender que todos os projetos humanos são verdadeiros planos de vôo, tal como projetou Gonzaguinha num de seus discos de início de carreira. E, por isso, parece que as pessoas realmente voam, mesmo estando dormindo e sonhando, ou com os olhos bem abertos quando refletem sobre o futuro de suas próprias vidas. Tudo sugere voar alcançando novas possibilidades. Tudo sugere perspectivas, basta ter o brevê da coragem e determinação, pilotar pelos riscos e oportunidades e, acendendo a vida, asas à imaginação. E claro, realizar. É, parece que voar é preciso. Melhor: voar é preciso.

Por esta razão, apertei o cinto e fui de cabeça para o "Vôo na distância", livro da poeta e escritora Vânia Moreira Diniz, que é o canto da ave-do-paraíso na sua mais exuberante expressão: " Meu canto é de ternura, Meu canto é de tristeza, Meu canto é de doçura, Meu canto é sentimento...". Este é o canto que diz: "...escrever é meu perene e encantado destino".

A partir daí, fiz minha habilitação de passageiro e acompanhei todos os tripulantes sentimentos e emoções pelas altitudes singelas da introspecção, até as longitudes da grandiosidade que se expressa no abraço do canto mavioso da poeta. Pura adrenalina. Uma hora, toda profundidade interior de seu ser se confunde com a amplitude do espaço cósmico; noutro momento, a sua exteriorização mais parece a estabilidade do íntimo de um aerólito que foi catapultado do nada para se iluminar com as estrelas do céu da sua boca, ao falar seus versos na candura de sua voz. Verdade, toda uma atmosfera de encantos. E essa atmosfera vem sem creditar o valor do tempo, misturado ao destino do mar, aos devaneios de novas paragens, sem o escrúpulo do seu segredo que não lembra de graça do ontem, do passado "...pequenina era ela", mas como aprendizado para a liberdade de se conduzir por caminhos estranhos e sonhos devastados. Principalmente quando entoa sua canção:

Os acordes são suaves
A expressão só harmonia,
As notas estão em sintonia
Com o universo e a beleza.
Meu canto domina o espaço,
Com a alegria do momento,
Jamais perde os compassos
E desvia os sofrimentos
Ou quando solfeja seu acalanto:
Não durmas longe dos sonhos,
Esquecido de nossas angústias,
Não durmas sem recordar...
Ou em Miséria, quando: "a vida que ninguém sabe o que é... de quem nem socorro conhece.... o espetáculo da morte pelo mais vil motivo". Noutra rompante assevera: " por favor, abra os olhos ainda hoje".
Manifestando-se, assim, ela mesmo diz de seus poemas:
Meus poemas talvez
Não te causem mais emoção...
Mas a urgência é grande...
Enquanto aqui estiver,
Enquanto puder amar....
E me enxergue no labirinto da alma...


De mim mesmo, revolvi todas as páginas. Foi um exercício que a própria poeta sugeriu ao escrever seus versos. E eu nem mais sabia se era eu ou a poeta que voava. Se éramos os dois irmanados ou apenas um, ela em mim, revelado na comunhão dos sentimentos. O que sei de verdade, é que esse "Vôo na distância" é a revelação da proximidade entre a segurança desejada da terra firme e o átimo indesejável do desvario abissal humano: o lance da finitude sob o domínio do infinito.

Então, leitor ou leitora, habilite-se: boa viagem.

 

 

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