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Luiz Alberto Machado
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CINCO POETAS - Entrevista (página 1 de 2)
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O Guia de Poesia aproveitou o lançamento da Antologia Rios – coletânea de poemas e fortuna crítica , reunindo poesias de Elaine Pauvolid, Márcio Catunda, Ricardo Alfaya, Tanussi Cardoso e Thereza Christina Rocque da Motta, numa edição da Íbis Libris, do Rio de Janeiro.

Elaine Pauvolid é poeta carioca, com mestrado incompleto em Ciência da Arte pela Universidade Federal Fluminense e editora da revista eletrônica de cultura Aliás .

Márcio Catunda Ferreira Gomes é poeta, advogado e diplomata cearense, com uma extensa obra que transita pela poesia, contos e ensaios.

Ricardo Alfaya é poeta, advogado e jornalista carioca, que desenvolve uma série de atividades na Literatura, dentre elas poesia, contos, crônicas, resenhas, artigos e ensaios, editor da publicação Nozarte.

Tanussi Cardoso é poeta, jornalista, advogado, crítico literário e letrista.

Thereza Christina Rocque da Motta é poeta, tradutora, professora e advogada paulista, além de editora da Íbis Libris, no Rio de Janeiro.

Num papo descontraído, reunimos os autores e batemos um papo a respeito da coletânea Rios e de outros projetos individuais.

 

GP: Como surgiu a idéia da antologia "Rios"?

Elaine Pauvolid:Um dia, Márcio veio ao Rio e nos encontramos, ele, Tanussi Cardoso, Ricardo Alfaya e eu num agradável almoço em Copacabana. Só conhecia o Márcio por cartas e por poesia lida. O Ricardo conheci no dia e o Tanussi já era velho conhecido. Então, Márcio começou a nos sondar sobre isso. Adoramos a idéia, claro. Mais dois almoços, um em cada ano e o negócio estava fechado. Sendo nós os convidados. O título veio depois já com a Thereza na jogada. A idéia inicial permaneceu, a de fazer um livro com um tema para cada poeta.

Márcio Catunda:A idéia foi minha. Conheci pela internet, no ano de 1999, os quatro colegas de livro. Constatei que todos, além de grandes poetas, eram e são muito ativos na divulgação dos seus trabalhos e que promovem eventos culturais. Então, pensei, vale a pena fazer um livro com gente assim, competente, que escreve com um sentido profissional. Um dia, num almoço em Copacabana, em que compareceram a Elaine, o Tanussi e o Ricardo, fiz a proposta da edição do livro. E eles concordaram. Só depois é que coordenei o assunto com a Thereza. Observei que ela além de excelente poeta, é editora e promove recitais. Notei tratar-se da pessoa ideal para compor um grupo de cinco poeta, número esotericamente ideal. Convidei-a. Ela também aceitou. Solicitei a cada um que entrasse em contato com os outros e fizemos tudo pela fibra ótica. As únicas dificuldades foram encontrar o título e escolher a capa. Mas, com certo esforço negociador, chegamos ao máximo denominador comum.

Ricardo Alfaya: Penso que todos aqui seremos um tanto repetitivos, Luiz. A idéia da antologia foi uma iniciativa do Márcio. Ela emergiu após alguns almoços e trocas de mensagens entre quatro participantes: Elaine, Márcio, Ricardo e Tanussi. O Márcio fez o convite para que participássemos da antologia, promovida por ele, e, uma vez aceito o convite por todos, sugeriu o nome da Ibis Libris, de Thereza Christina, para editora, expressando o desejo de convidá-la também para integrar a obra. Todos concordamos, e assim se realizou.

Tanussi Cardoso: Tudo começou num convite feito pelo Marcio Catunda, para almoçarmos num restaurante em Copacabana, numa das vezes em que ele esteve de passagem pelo Brasil. Fomos eu, o Ricardo Alfaya e a Elaine Pauvolid. No meio da conversa, o Marcio lançou a idéia da coletânea, imediatamente aceita por todos. A Ibis Libris foi logo lembrada. Passados alguns dias, alguém pensou (acho que o próprio Marcio) em convidar a Thereza, já que além de editora e amiga, era excelente poeta. Topamos todos, pra nossa alegria.

Thereza Motta: Márcio Catunda, quem já conheço há alguns anos por poesia, escreveu-me convidando para editar e participar da coletânea com meus poemas, informando-me do nome dos demais poetas que comporiam o livro. Achei a idéia excelente e bem apropriada, já que não tínhamos um tipo de reunião de poemas desse tipo entre poetas da geração 80 e 2000, e muito menos estes em especial, embora Márcio já tenha patrocinado outros livros em coletânea. Então, como mentor, idealizador e elo de união entre os demais autores (mesmo que parte deles já se conhecesse e tivesse feito parte de outras antologias), devemos ao Márcio a idéia da coletânea do modo como foi feita, tendo me deixado livre para realizar o projeto editorialmente falando, porém tudo foi decidido democraticamente por meio de votações entre os cinco participantes.

GP : Elaine, você já publicou "Brindei com mão serenata o sonho que tive durante minha noite-estrela", em 1998 e "Trago", em 2002. Na antologia, você traz "Donde evade", reunindo poemas desses dois livros e outros como "Interiores", "Fio tênue" e "Leão lírico". Estes outros que subdividem o "Donde evade" seriam outros livros inéditos? Fala um pouco a respeito dos dois livros publicados.

Elaine: Donde Evade é um título que me alegra muito. Criei para um poema e fala de onde vem o fluxo constituinte do que se projeta como poema. Achei que seria um bom título para o tema que escolhi para a antologia, a metafísica. Pois donde evade a poesia é algo um tanto fora da matéria, não acha? Os poemas que estão no livro fazem parte de livros inéditos registrados. Pretendo publicá-los todos, mas, agora sem pressa, porque esta antologia amenizou a ansiedade nascida do fato de tê-los prontos, mas, sem publicação. Agora posso planejar melhor. Tenho isso a dever a Márcio.

Quanto aos meus dois primeiros livros, o primeiro foi uma surpresa. Sempre escrevi para desabafar. Meus amigos gostavam. Também andei fazendo esculturas em argila, borrando uns quadros e freqüentando aulas de canto lírico. Só o canto eu pensava transformar em algo profissional. Pois, acabei tornando-me poeta e diletante nas outras artes. Me aconselharam a mandar meus livros, que tinha quatro prontos, a 7 Letras, que na época, 1998, estava publicando novos autores. A resposta foi imediata e em agosto estava lançando Brindei...

Trago veio depois, mais maduro e já com um ensaio crítico de um poeta consagrado, o Gerardo Mello Mourão. O prefácio dele me fez ter mais confiança em minha poesia. Antes disso eu não me atreveria e me definir como poeta, mesmo com um livro publicado. Depois de tantas águas passadas, outras manifestações me fizeram acreditar-me poeta, inclusive as críticas de Ricardo Alfaya, e o convite de Márcio.

GP : Elaine, você edita a revista eletrônica de cultura, Aliás e também publica dois blogs poéticos na rede. A seu ver, como a Internet contribui para a difusão da poesia?

Elaine: Acho que contribui muito. Sem eles eu não conheceria vocês e nem vocês a mim. Acho que é uma revolução para todos nós.

GP : Além do mais, Elaine, você milita poeticamente por recitais e saraus em diversos lugares, sendo incluída em diversas antologias, participando ativamente pela difusão da poesia. Neste sentido você tem encontrado receptividade do público nesses eventos poéticos e, a seu ver, o que deve ser feito para que a poesia possa ser mais apreciada tanto em audição como em leitura?

Elaine: Que os eventos não cessem. E que comecemos a receber por isso. Mas, o caminho será longo. Se vendêssemos pelo menos um exemplar a cada récita já seria um bom começo. Ainda há a tendência de achar que poeta é um nada, um vagabundo. Alguém que está aí para fazer palhaçada ou para contar suas mazelas. Acho que a única forma de isso se modificar é a continuidade dos eventos. Como aconteceu com os músicos, acho que a noite pode ser um bom berço para os poetas. Eles precisam, ou melhor, nós precisamos apenas continuar.

GP : Márcio, você é cearense e traz na antologia "Engenho urbano", com poemas dedicados ao Rio de Janeiro. Como se deu a experiência de criação desses poemas e participar da antologia "Rios"?

Márcio: Vinha escrevendo há algum tempo uma série do poemas sobre o Rio de Janeiro, nas diversas viagens que fiz à cidade. Sou um apaixonado pelo Rio, como se pode ver nos poemas. Os textos foram escritos em diferentes períodos e refletem inclusive a evolução social da urbanidade carioca. Os mais recentes são mais dramáticos e denunciam aspectos críticos da realidade vivida pela cidade nos últimos anos. Mas o que permeia o conjunto de poemas é o lirismo, a minha visão contemplativa da beleza geográfica do Rio. Ao idealizar a edição de um livro com poetas cariocas percebi que deveria usar esses em homenagem à cidade e às pessoas que nela habitam, as quais sempre me receberam tão bem. Pretendo ampliar esses textos e depois publicá-los num livro à parte, porque constituem um documento vivo de amor de um cearense pela cidade mais bela do mundo.

GP : Márcio, você tem uma extensa obra literária, preodminantemente poética, mas também com contos e ensaios. Você inaugurou a poesia em 1976, com "Poemas de hoje" que passa por uma série de publicações até o "Mística beleza", poemas musicados e lançados em Brasília, já em 2003. Fala um pouco dessa trajetória poética.

Márcio :É uma trajetória que pode revelar os meus esforços para evoluir literariamente. Creio que eles poderiam ser graficamente representados pela figura de uma escada. Penso que todo escritor passa por essa experiência. As leituras, a vivência produzem a evolução na expressão linguística. E com o tempo, o espírito aperfeiçoa a dicção. Outra coisa relevante é que sempre denunciei a falta de editores competentes para descobrir novos autores no Brasil. Mas acredito que quando eu chegar a um certo nível, haverá editor que distribua adequadamente o meu trabalho. E qual o poeta que não nutre essa esperança de ver seu livro nas livrarias, mesmo que sejam as de shopings?

GP: Márcio, Fortaleza e Brasília exercem influência importante nos seus poemas. Agora com a antologia você traz "Engenho urbano" e promete publicar um logo poema épico "De todas las Histórias, la História", sobre a História de Espanha. Fala, então, do fascínio que os lugares e viagens tem exercido no trabalho de criação poética.

Márcio: Fortaleza é a força do sol, do mar, dos laços de família, da infância, das origens. Acho que não é por acaso que nascemos em determinado lugar. O lugar de nascimento tem a ver com a essência do espírito. Saí de Fortaleza aos 26 anos. Brasília é o lugar onde comecei a trabalhar como diplomata. Tem alguns aspectos interessantes: é um ambiente em que convivem pessoas de todas as regiões brasileiras, é o centro das decisões políticas. Acho que valeu a pena ter vivido 9 anos em Brasília. Com certeza as viagens ajudam a escrever. De 1991 a 2000, vivi quase 4 anos em Lima, três anos em Genebra e três em Sófia. Nesses 10 anos no exterior me trouxeram muitas experiências que transmiti nos livros. Viajei por muitos países, estudando algo da cultura de cada um, visitando os principais monumentos, museus, e assistindo a manifestações artísticas como o teatro, recitais e concertos de música.

Tudo isso, creio, enriqueceu minha forma de ver o mundo e de dizer os sentimentos em poesia. Quanto à Espanha, é uma paixão que permanece. Não esqueçamos que a maioria dos brasileiros somos, em origem, além de lusitanos, ibéricos. O conhecimento da Europa como um todo é essencial na formação cultural de alguém. Mas a Espanha é especial. Tudo nela me pareceu mais autêntico, mais humano que no resto do Velho Continente. Mesmo a desumanidade espanhola parece que foi cometida de uma forma diferente. A inquisição, por exemplo, foi como um delírio, uma loucura mística. Contudo, alguns países, me parece que as atrocidades se perpetram de forma mais cínica, fria e calculada, como se costuma dizer.

Além disso, não se pode considerar comum um país que tem, na literatura, Cervantes, García Lorca, Unamuno, San Juan de la Cruz, Lope de Vega, Antonio Machado. Na pintura estão Velásquez, Goya, Picasso, na música Rodrigo, Albéniz, De Falla, na arquitetura, Gaudí. A história da Espanha é incrivelmente arrebatadora. Estou escrevendo minha versão, com a veleidade de ser em espanhol e em poesia.

GP : Ricardo, você escreve poesia, conto, crônica, artigo e ensaio, e desde 1980 tem ativa participação no universo poético. Fala, então, da experiência de "Através da vidraça" até "Sujeito a objetos" que integra a sua parte na antologia "Rios".

Ricardo Alfaya: "Através da Vidraça", de 1982, foi o primeiro livro. Minha idéia era fazer outros em seguida, inclusive um de contos, mas a experiência da edição da obra de estréia foi muito forte, um verdadeiro impacto. Comecei a não ter muita preocupação em editar ou publicar logo. Tratei foi de ler e estudar. Debrucei-me sobre livros dos mais variados assuntos durante oito anos. Nesse interregno conheci pessoalmente os escritores Joaquim Branco e P.J. Ribeiro, de Cataguases-MG, que, assim como a poeta Eva Creuza de Oliveira, sempre me apoiaram e me incentivaram a publicar. Joaquim insistia muito comigo, deu-me listas de endereços de escritores e editores, falava para eu mandar meu livro, meus contos, mas somente por volta de 1990 eu decidiria voltar.

Com Joaquim Branco e P.J. Ribeiro, a partir de 1983, aprofundei meu conhecimento nas formas de poesia que empregam recursos visuais. Já conhecia esse estilo antes, pois, além de ter visto um pouco da poesia concreta, encontrara numa livraria uma obra de Álvaro de Sá, relativa ao poema processo. Desse modo, em meados dos anos 80 eu havia realizado diversos esboços de poemas visuais, mas não sabia como fazer para transformar os projetos em obras bem acabadas. Nessa época, não tínhamos computador. Acontece que minha esposa veio a estudar artes plásticas. Assim, com seu auxílio, foi possível materializar os poemas. Como ao fazê-lo muitas vezes discutíamos e reelaborávamos o trabalho, resolvi dividir com ela a autoria. Fazia também poemas neoconcretos. Executava tais gêneros, mas sem abandonar a poesia discursiva, embora ela se tenha tornado um tanto mais concisa e mais lapidada do que era antes.

Esse material todo eu passaria a remeter a diversas publicações. Os primeiros a me conceder espaço foram o jornal Blocos Cultural, de Leila Míccolis e Urhacy Faustino, e a página Comunicarte, de Hugo Pontes, voltada para a poesia visual. Ocorre que o jornal Blocos tinha por prática divulgar o endereço dos colaboradores. Eu possuía ainda muitos exemplares de "Através da Vidraça", porque, na minha santa e jovem ingenuidade, havia feito uma tiragem quase que de "best-seller", a despeito de todos os conselhos para que produzisse quantidade menor. Então, eu peguei aquele monte de exemplares e comecei a distribuir pelo correio aos poetas que apareciam nas páginas do jornal Blocos. Porém, não aleatoriamente. Fiz uma espécie de seleção. De modo que foram surgindo novos e novos contatos. J. Cardias, por exemplo, foi uma peça fundamental, pois ele era muito atuante nesse tempo e me remetia vários recortes de jornais, endereços, prospectos, regulamentos de concurso.

Eu me assumo como um poeta da Geração 80, por causa da minha idade, cinqüentinha cravados este ano, e porque meu primeiro livro é de 82. Porém, sempre me senti mais um poeta da Geração 90, tanto que estou no catálogo de Leila Míccolis desse período, feito para Blocos Editores, porque foi realmente a partir daí que comecei uma atuação verdadeiramente pública, sistemática e constante. Dos anos 90 em diante, não paro mais. Porém, sem editar livro individual. Participei de mais de 20 antologias, com trabalhos divulgados em exposições de poesia visual em vários países, inclusive freqüentando catálogos das mostras. Tenho ainda dezenas de textos, em verso e em prosa, divulgados em jornais e revistas de todo o país. Ao retornar, no início dos anos 90, achei que valeria a pena fazer um segundo livro e até sondei uma ou duas editoras a respeito. Porém, por motivos financeiros, acabei não o fazendo, pondo-me apenas a participar das antologias que mencionei.

Creio que Rios teve um grande significado para todos os cinco autores, por inúmeros motivos. Para mim foi especial, por tratar-se da maior quantidade de poemas que pude reunir desde 1982. Considero "Sujeito a Objetos" um livro. Meu segundo livro. São 25 poemas em torno de um tema, escritos na maturidade. Ora, em "Através da Vidraça" se acham entre 30 e 32 poemas, escritos na juventude.

GP : Você obteve 22 prêmios literários, tem participado de diversas antologias de renome e se faz presente em diversos veículos impressos e virtuais. A seu ver, como esses veículos e recursos, notadamente a Internet, tem contribuído para a difusão do seu trabalho literário?

Ricardo Alfaya:Penso que devo a esses veículos, em particular à Internet, ter conseguido tornar minha obra mais conhecida. Não apenas isso. A parte em prosa andava muito parada, antes, por falta de estímulo. Uma entrevista como essa, por exemplo, seria difícil de acontecer no meio impresso por causa do custo. A coisa que mais me deixou espantado, quando me iniciei na Internet, foi a facilidade com que me convidavam para escrever e publicar crônicas, contos, colunas. No meio impresso isso era muito mais difícil. É verdade que tive muitos textos em prosa publicados em jornais, suplementos e revistas. Porém, nada como o ensaio que escrevi para Palavreiros, "Poesia Vale a Pena Publicar?", com nada menos de 20 laudas. Vinte! Já pensou o custo disso no meio impresso? E a coluna que faço para o PD-Literatura, "De Olho Vivo na Arte", toda cheia de imagens, legendas, nos mais variados tamanhos? Então isso me dá muita satisfação. Minha única tristeza é que não estou certo da permanência desse trabalho. A página virtual se tem revelado mais frágil do que a de papel. O desaparecimento súbito de Nozarte, sem qualquer explicação ou justificativa, mostra a fragilidade do sistema. Enquanto não houver uma instituição que desempenhe no mundo virtual o papel que a Biblioteca Nacional desempenha no mundo físico, tudo estará vulnerável, correndo risco de desaparecer. Espero que surja alguma solução para esse problema que, por enquanto, nem sequer vejo fazer parte do debate dos internautas, mesmo quando são intelectuais.

GP : O Nozarte é uma publicação que você vem trabalhando desde 1995. Fala dessa experiência.

Ricardo Alfaya: Conforme mencionei, no início dos anos 90 comecei a corresponder-me com diversos poetas e publicações. Enviava também muitos trabalhos de poesia visual, fosse para cultores do gênero ou não. Quem envia, recebe de volta. Então, comecei a observar que em muitos dos envelopes do pessoal que fazia poesia visual existiam palavras e imagens carimbadas como se fossem logomarcas satíricas. O Hugo Pontes (Poços de Caldas-MG), tinha a conhecida imagem "Pouco a Porco". Joaquim Branco (Cataguses-MG), vários carimbos; um era uma caricatura dele feita pelo Ziraldo. Paulo Bruscky (Recife-PE), usava um pato uniformizado de carteiro, desenho de mãos se cumprimentando, rostos com óculos. Havia um italiano que empregava como símbolo uma raposa com cara bem zombeteira. Giovanni Strada, também da Itália, costuma pôr um círculo com notas musicais. E há um japonês chamado Ryosuke Cohen que faz colagens coloridas com todos esses símbolos que encontra nas mensagens que lhe remetem, acrescidos de poesia visual, frases, slogans, tudo junto, formando um painel que se pode inclusive transformar em pôster ou até emoldurar, caso se deseje. Desse modo, eu e Amelinda resolvemos inventar um símbolo. É interessante que a presença de elementos da fauna e da flora nas logomarcas dos poetas visuais remete à Heráldica antiga, que, por sua vez, tem sua origem nos símbolos totêmicos dos tempos mais remotos. Nós quisemos manter esse tipo de sugestão e escolhemos a noz. Não é uma fruta brasileira, é verdade, mas isso convinha ao espírito da poesia visual que sempre foi internacionalista, laborando em favor da união dos povos. Então, antes de ser uma publicação, Nozarte existiu desde 1993 como um símbolo. Nós criamos um carimbo. Aliás, um não, foram produzidos diversos carimbos, alguns especialmente para fazer poesia visual, como o CENSURADO, distribuído em forma de cruz sobre o espaço da página a lembrar um cemitério. Esse poema, aliás, se acha no volume V de Saciedade dos Poetas Vivos, da editora Blocos, que foi a primeira antologia brasileira inteiramente dedicada à poesia visual. Um outro que fez muito sucesso dizia "Atenção Poemas na Estrada!", numa alusão ao circuito alternativo impresso. Esse foi o contrário.

Primeiro existiu o poema, no qual os dizeres se sobrepunham a uma dessas placas que indicam estrada perigosa. Foi reproduzido em vários periódicos, inclusive numa matéria redigida por Hugo Pontes para a Livre Espaço, na qual ele selecionou 10 visuais para exemplificar o gênero. A Livre Espaço era uma revista em papel cuchê feita pelo grupo de excelentes poetas que existe até hoje muito atuante em Santo André-SP. Houve um momento em que se tornou impraticável continuar a responder individualmente. Em 1995, desde dois anos atrás dispunha de computador. Portanto, achei que seria interessante editar uma publicação e passar a responder coletivamente. Portanto, uma vez que já existia um carimbo com o símbolo e o nome Nozarte, pareceu-me natural assim batizar o informe. No início minha intenção era dar-lhe periodicidade mensal. Isso não foi possível, pois em junho daquele mesmo ano, após ter publicado três números, eu aderi a um PDV, Plano de Demissão Voluntária, saindo do Banco do Brasil. Na ocasião pareceu-me de fato o melhor a fazer em razão das circunstâncias. Hoje não estou bem certo. Enfim, o fato é que tive de mudar muita coisa em minha vida e no que diz respeito a Nozarte, editei-o, desde então, uma média de uma a duas vezes por ano.

A partir de dezembro de 2001, passou a circular na Internet, ficando depois à disposição no hospedeiro Intermega, da Globo. Entretanto, em meados deste ano, conforme já dissemos, o Intermega simplesmente desapareceu do ar, levando Nozarte junto. Ainda meio em dúvida sobre o que fazer no futuro, por enquanto resolvi abrir um blogue em nome de Nozarte, mas o que estou pondo nele por enquanto não está sendo impresso por causa do custo que isso implicaria. Seja como for, em dezembro espero que tenhamos o Nozarte 12, impresso e virtual, com suas resenhas, poemas, minicontos e notícias.

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