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Luiz Alberto Machado
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CINCO POETAS - Entrevista (página 2 de 2)
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GP : Tanussi, como se deu a trajetória iniciada com "Desintegração", em 1979 até este "A medida do deserto e outros poemas revisitados", publicado na antologia "Rios"?

Tanussi Cardoso: Minha trajetória não foi diferente de muitos poetas que estão por aí, na batalha. Em 1979, lancei “Desintegração”, um livrinho feito de forma artesanal, como era comum naquela época, de tantos atos poéticos e políticos. Era um apanhado de poemas publicados em diversos jornais e revistas, sem qualquer harmonia entre eles e sem qualquer consistência poética. Um livro de aprendizado, para ser esquecido, como a maioria dos primeiros livros, escritos no ímpeto da juventude. Foi feito especialmente para ser lançado em Brusque, Santa Catarina, numa feira de livros ou festival de poesia, organizada pelo poeta Luís.

Em 1982, veio “Boca Maldita”, com prefácio de Leila Míccolis, publicado pela Editora Trote, que eu, a Glória Perez e a Leila, dirigíamos. O livro fez muito sucesso, dentro da literatura marginal. Nele, há poemas de que gosto até hoje. Ousei, misturando poemas pornôs (àquela época, ferviam eventos e happenings incríveis, aqui no Rio, comandados pelo Cairo e Denizis Trindade, Mano Melo, Claufe Rodrigues, Eugenia Loretti, Eduardo Kac, Brasil Barreto, Paco Cac, Samaral, Carmen Moreno, Leila Míccolis, Flávio Nascimento, Chacal, Sandra Terra, eu e tantos outros; em São Paulo, com a própria Thereza, com o saudoso Touchê, etc. Havia movimentos em Juiz de Fora, Belo Horizonte, Santa Catarina, Santos, Salvador, Porto Alegre... tempos muito criativos e de boas lembranças...), assim, em “Boca Maldita”, os poemas pornôs e de humor misturavam-se a outros mais densos e profundos, muito embora, apesar de pertencer ao grupo marginal, minha poesia sempre se manteve com um passo atrás, ou na frente, do que era costume na época, não me permitindo fazer a piada pela piada, sempre procurando fazer da poesia o primado da melhor palavra, do melhor verso. “Boca Maldita” foi, antes de mais nada, um momento de libertação e de aprimoramento da minha poesia.

Somente em 1991, lancei meu 3º livro, “Beco com Saídas”, da Edicon/SP, com prefácio de Socorro Trindade, um livro premiado pelas UBE, de Goiás e do Rio. Lá estava o embrião do poeta que sou hoje. Nele, aprendi a força da palavra poética, o valor da técnica e da forma, aprendi a equilibrar a emoção, a cortar, a tirar gorduras, a entender que o poeta, o escritor tem o dever de conhecer os meandros do seu ofício, de se profissionalizar. “Beco com Saídas” ainda é um livro que me emociona, feito com muito carinho, com capa e ilustrações do saudoso Albert Harrigan.

Como não sou ansioso, haja vista a demora de um livro para outro, somente em 2000, publiquei pela 7 Letras, o meu maior sucesso, de crítica e de vendas (em pouco tempo saiu a 2ª edição), o “Viagem em torno de”, com a honra de ter sido prefaciado por um dos grandes poetas brasileiros, Salgado Maranhão. O livro recebeu o “Prêmio ALAP de Cultura” e o “Prêmio Capital Nacional-Poeta do Ano”, do jornal O Capital, de Sergipe. Considero-o, sem modéstia, um grande livro de poesia, um livro de imagens fortes, tendo os temas da morte e do amor perpassando-o todo o tempo. Mas, apesar do tema, um livro de esperança no homem e no futuro. E na poesia.

É óbvio que nesse tempo todo, participei de várias antologias importantes por esse Brasil afora, até desembocar nesse “Rios”, presente do meu amigo Marcio Catunda. “A Medida do Deserto”, inserido nele, é um livro feito com carinho, onde aproveitei para reler alguns poemas que curto muito, e onde selecionei poemas inéditos que me parecem de algum valor literário. Resta-me agradecer ao Marcio pelo convite, a Thereza pela beleza da edição, e à grande poesia de meus companheiros na coletânea. Agora, é aguardar o próximo ano, e a possibilidade de um novo livro.

 

GP : Tanussi, você milita pela poesia, conto, crítica e letra de música e todo seu trabalho tem sido reconhecido e comentado bastante. Como se dá, então, o seu processo de criação?

Tanussi Cardoso: Olha, Luiz, apesar de exercer essas diversas facetas culturais, é como poeta que me percebo melhor. Tenho alguns contos, poucos publicados, e, agora aposentado, pretendo ter tempo para escrever outros e colocá-los em livro. A crítica exerço somente quando surge a oportunidade de comentar algum livro que me tenha entusiasmado sobremaneira. Sou levado pela emoção, muitas vezes, de maneira hiperbólica. Acho que a crítica verdadeira consegue acrescentar algo à literatura, ao escritor, ao leitor ou ao estudioso. Entretanto, a crítica é sempre pessoal – e parcial – porque vem alimentada, subjetivamente, por preferências particulares. É o gosto do crítico que conta, e cabe a ele explicitar de forma lógica o porquê de sua preferência. Daí, a crítica tem que ser vista sempre com um olhar crítico (sem trocadilho). Nem sempre deve ser dada à ela muita importância, ou, pelo menos, ela não deve ser superdimensionada. Afinal, grande parte da crítica atual serve apenas ao mercado e ao sistema, reforçando os clichês dominantes. Uma crítica que, por covardia ou preguiça, foge dos autores novos ou desconhecidos; a priori, eles já seriam ruins. Uma crítica que não tem coragem ou não quer ou não sabe distinguir ou discutir, num texto novo, a mera possibilidade de qualquer qualidade. Uma crítica que se transformou num mero vendedor do objeto-livro. Aplaudo o crítico que, mesmo correndo o risco de errar, tem coragem de assumir a sua posição. Mas esses são raros.

Quanto às letras de música, é extremamente prazeroso fazê-las. Mas é um exercício extremamente difícil, quando se tem de colocar milimetricamente a letra dentro de uma composição pronta, atento à melodia, aos acordes, à harmonia, com a sensibilidade poética de saber a letra adequada à música, à serviço da música; enfim, é excitante. Gosto muito desse trabalho. Tenho composições com o Amarildo Silva, com o pessoal do Cambada Mineira, com a Delayne Brasil, com a Sandra Bernardo...

Quanto à poesia, minha praia maior, não sou dos que comungam pela cartilha da inspiração, mas tampouco sou daqueles que suam e se esforçam para tirar das vísceras um poema. Não, a poesia me vem de súbito, como uma explosão, uma luz, sei lá... às vezes, através de uma palavra, às vezes, de uma imagem interessante, às vezes, “soprada” por um deus desconhecido, às vezes, em sonho... Já dizia Borges que “ a poesia está logo ali, à espreita. Pode saltar sobre nós a qualquer instante ”. Cabe ao poeta, então, aceitá-la, abraçá-la e convidá-la para o seu banquete. Cabe ao poeta transformar o que lhe foi soprado como poesia, em poema, que parece a mesma coisa mas não é. “ A poesia pertence ao ver, ao observar, e o poema pertence ao fazer, ao experimentar ”, disse alguém. Portanto, se a poesia pertence a todos, o poema pertence ao poeta porque é meio de conhecimento, não de revelação. Sei que existem poetas que se sentam diante do computador e trabalham e fazem poemas belíssimos. Eu não consigo. Na maioria das vezes que tentei algo parecido, o poema saiu mentiroso, fraco, frágil, caricatural. Não era eu. Não era meu. Admiro quem consegue, não é o meu caso. Logo, meu processo de criação se traduz em, chegando o tema, a idéia, a mensagem, a palavra, debruçar-me como uma mãe se debruça sobre o filho, ou guerrear como um toureiro e seu touro, de preferência com papel e caneta, riscar, cortar, ler em voz alta para sentir a cadência, o ritmo, a harmonia e a sonoridade das palavras. Depois, levo ao computador, e refaço todo o caminho torturante dos cortes, da exigência da melhor palavra, do melhor verso. Quando consigo, é um êxtase; quando não, guardo-o para um dia, quem sabe, jogá-lo às traças.

 

GP : Tanussi, como você vê o tratamento dado à poesia pelas antologias, concursos e Internet, principalmente pelas editoras?

Tanussi Cardoso: Como em todo negócio, Luiz, há editores sérios e picaretas. Infelizmente, esses em maior número. Veja bem: quantas antologias se predispõem, como as da Ibis Libris, por exemplo, a colocarem a poesia e o poeta em primeiro plano? A maioria cobra quase R$ 100,00 (cem reais) por uma única página, o incauto paga e vê seu poema perdido no meio de duzentos outros poetas igualmente perdidos, e, pior, em sua grande maioria de péssimo nível. Pessoas que por puro narcisismo ou alienação pagam caro para verem seu nome estampado num livro. Eis aí o cerne de uma grande batalha: o artista em busca de ver a sua obra exposta, analisada, descoberta. Contra o poder daqueles que só visam ao lucro.

Quanto às grandes editoras, elas não jogam no escuro, e preferem as antologias de nomes já consagrados, ou então as que viraram moda, essas dos Melhores disso, Melhores daquilo etc. É a linha editorial que não pensa a Cultura como um projeto maior e literário, mas somente como comércio e dinheiro.

Concursos de poesia sempre existiram. É um meio mais do que válido para poetas mostrarem suas obras. Entretanto, está na moda concursos de poesia com taxas exorbitantes, onde os vencedores ganham medalhas e diplomas e onde, às vezes, se publicam antologias pagas pelos próprios poetas premiados. Os pobres poetas se acham o máximo porque ganharam menção honrosa (praticamente, todos ganham, afinal quanto maior o número de participantes, maior o lucro dos editores), acreditam que são grandes escritores e não sentem que estão numa grande arapuca, enriquecendo um monte de 171 por aí. É uma vergonha! Óbvio, que há exceções, mas são tão raras, que é difícil citá-las. Em sua grande maioria, essas antologias são pura picaretagem, onde a boa poesia fica perdida em meio a dezenas de poesias horríveis e onde meia dúzia de espertos se locupletam em nome da literatura e do desejo de alguns ingênuos que pensam assim conseguir mostrar o seu trabalho. Acho um abuso. Acho mesmo que é caso de polícia.

Os concursos de poesia, no Brasil, poderiam pagar, além do prêmio em dinheiro, o prêmio de publicação. Mas, igualmente, são raros os concursos que oferecem essa oportunidade, o que é uma pena. O Prêmio de Juiz de Fora, o Cruz e Souza, de Santa Catarina, o Gregório de Mattos, da Bahia, são bons exemplos de concursos válidos no Brasil.

E chegamos ao mundo da internet, esse avanço, essa ferramenta cultural de informação e arte. Vemos os poetas unindo-se em listas de discussões e chats, criando páginas. Os sites culturais são a grande alternativa para se difundir a poesia. Atualmente, grande número de poetas se faz conhecer e à sua obra, através da internet. É, sem dúvida, um grande veículo de divulgação! Existem sites magníficos, o acesso é cada vez mais simples, o escritor desconhecido tem a chance de tornar-se conhecido nos círculos literários, de link a link. Mas será verdadeiro que aqueles que acessam os sites têm tempo de ler as obras? Conseguirão, realmente, aprender, apreender o que lhes é passado através da telinha? Terão saco, sentados diante do computador, de lerem páginas e mais páginas de poesia e de textos muitas vezes cansativos? (Confesso que, muitas vezes, eu me encontro nesse caso, preferindo imprimir o que me interessa para poder ler depois.) Muita gente deve se perguntar o que acontecerá, no futuro, com os livros. Tenho dúvidas... Será que já fizeram uma pesquisa séria para se traçar o perfil sobre quem é o leitor da internet? Longe de mim desdenhar dessa forma de comunicação, válida, importante e irrecusável, mas, creio, que mesmo com a alta tecnologia, com os e-books, apesar dos apelos virtuais, o livro, no papel, permanecerá vivo, como a grande via alternativa de cada escritor. A edição eletrônica não o substituirá e eles se desenvolverão paralelamente, cada qual com sua linguagem específica. Somado a tudo isso, a grande maioria da população não tem acesso à internet. O livro impresso nos traz um prazer lúdico, táctil, que não existe em nenhum outro meio. Só ele pode ser lido no silêncio de um canto qualquer desse mundo. Para mim, o livro, esse veículo que perpetua a cultura, será sempre insubstituível.

 

GP: Thereza, tudo começa com "Relógio de sol", em 1980 até "Pandora" inserido na antologia "Rios" isso sem falar dos inéditos. Conta como se deu essa trajetória.

Thereza: Em 1980, lancei o primeiro livro em parceria com outro poeta da Universidade Mackenzie, com quem havia fundado um grupo de poetas do campus universitário. Já publicava meus poemas no jornal do DCE, o "Análise", e isso chamou atenção de João Scortecci (dono da Scortecci Editora, de São Paulo hoje), que estudava Economia, enquanto eu cursava Direito. Dividimos o livro irmanamente e o projeto gráfico foi executado pelo meu irmão, na época também estudante de Engenharia do Mackenzie, Carlos Rocque da Motta, que continuou participando de todos os meus livros até 2002, quando já tinha a editora, a partir de 2000. Depois vieram os outros livros do Grupo Poeco-Só Poesia e nossos primeiros livros individuais, já em 1982.

A minha estréia individual ocorreu com "Joio&trigo", com projeto gráfico de Tarceu Pinto e capa de Silvio Pires. Em seguida, houve um lapso de 13 anos até meu livro seguinte, em 1995, "Areal", que fiz questão de caprichar visualmente, com oito ilustrações coloridas de quadros de Maninha Cavalcanti e uma versão em disquete (neobook) para computador, bilíngüe. Foi minha primeira incursão em fazer a versão dos meus poemas para o inglês, que publiquei somente de forma virtual. Três anos depois, já mais reinserida no cenário literário paulista, lancei "Sabbath" (Blocos, 1998) e no ano seguinte, voltei ao Rio de Janeiro, onde vivi  dos 5 aos 18 anos de idade. No Rio, tive chance de integrar o grupo de poetas que começava a agitar o caldo poético das noites cariocas a partir de 1999 e, em 2000, fundei a Ibis Libris no rastro das apresentações e eventos poéticos, justamente para começar a apresentar o que estava se fazendo em poesia na cidade.

Em 2001, lancei "Alba", prefaciado por José Nêumanne Pinto e resenhado por Elaine Pauvolid no jornal O Globo em janeiro de 2002. Foi minha estréia no Rio, alicerçando o trabalho a ser feito pela editora. Em 2002, a Ibis Libris estava com 12 livros publicados e termina 2003 com 29 livros editados, entre eles, "Rios" e "Lilacs/Lilases", livro também bilíngüe, com 22 poemas inspirados em "A Terra Devastada" de T. S. Eliot. O outro título foi "Chiaroscuro - Poems in the dark" (Ibis Libris, 2002), escrito em inglês, como decorrência do meu trabalho de versão e tradução dos meus próprios poemas e de autores americanos e ingleses, lançado também nos EUA, na Universidade do Colorado, onde estive por duas vezes na Conference on World Affairs que se realiza anualmente em abril, para falar sobre meu trabalho de tradução de poesia e ler poemas tanto em português como em inglês.

 

GP : Thereza, você mantém uma atividade que passa pela poesia além do trabalho como editora, tradutora, professora e advogada. Como você concilia tais atividades?

Thereza: Comecei a escrever poesia aos 15 anos de idade. Trabalhei como advogada de 1980 a 2000, quando fundei a editora. Fui professora de inglês por 17 anos, de 1984 a 2001, dando aulas particulares em empresas. Passei a fazer traduções quando trabalhei na Editora Três como chefe de pesquisa do "Guinness, o Livro dos Recordes" (1992) e, desde então, me especializei em tradução jurídica, tendo sido tradutora interna por quase três anos em um escritório de advocacia em São Paulo (1996-1999). Porém, a primeira dedicação foi à poesia e a editora resgatou para mim a minha principal e mais importante atividade, que é escrever, além de publicar meus livros e de outros autores. Então, quando me perguntam como uma advogada virou poeta, respondo que foi a poeta que virou advogada e as outras coisas também. Todas essas funções foram exercidas como meio de sobrevivência. Como a advocacia não me rendia sustento suficiente, parti para as aulas de inglês, cujos rendimentos eram imediatos e não a perder de vista como na defesa da lei (há casos que ainda não terminaram, mesmo depois de tê-los abandonado há tempos).

Logo passei a praticar a advocacia como hobby, porque além de ser uma fonte de renda complementar, também gostava de continuar a exercê-la, mesmo esporadicamente, mas depois de 20 anos, me cansei dela. Ainda há um caso para eu fazer, mas será algo inédito para mim e raríssimo: uma reconciliação, que me pediram carinhosamente que acompanhasse, o que farei com o maior prazer, por se tratar de pessoa amicíssima há muitos anos. Vez por outra, surge um aluno de inglês e nunca me nego a dar aulas, se necessário. A tradução é um veio mais recente, mas fundamental - há poucos advogados que sejam tradutores jurídicos e juramentados, caso onde me incluo. Embora a editora ocupe todo o meu tempo, ainda consigo exercer essa função de forma esporádica, mas muito satisfatória. Como editora, tenho feito descoberta de grandes autores e movimentado o espaço literário, lançando novos livros, porém, apenas atendo à demanda: são autores que já estavam aí esperando uma chance de ver publicado o seu trabalho. Além de tudo isso, tenho de reservar um tempo para minha poesia, para ler e aperfeiçoar meus poemas, além de editá-los e divulgá-los. "Rios" foi um excelente modo de fazer isso quase sem esforço, um pequeno "livro" que criei para mim, o "Pandora", em que reuni poemas de quatro outros livros inéditos, enquanto não tive chance de publicá-los. Pandora é parte do título de outro livro que estou preparando, "O livro de Pandora", segunda parte de uma edição de 44 poemas, sobre Ulisses (Odysseus) e as mulheres da Odisséia.

 

GP : Thereza, como editora, a poesia tem público? As edições poéticas dão retorno satisfatório?

Thereza: A poesia sempre teve seu público, que continua se renovando e aumentando. Em mais de 20 anos que publico poesia, nunca vi esse interesse diminuir. Digo que a poesia é a primeira forma de manifestação artística. Você pode não ter escrito um romance, ou um conto, ou uma crônica, mas algum dia, alguma vez, escreveu ou quis escrever um poema para alguém. Então todos são naturalmente poetas e sentem necessidade de descobrir em outros poemas como teriam dito aquilo que gostariam de dizer. O "retorno" de obras poéticas é sempre excelente, a não ser que você esteja se referindo a retorno financeiro, o que torna a pergunta temerária. Como já tenho tido a chance de dizer quando me afirmam que poesia vende "pouco", digo que poesia vende aos poucos", mas vende. Quando alguém duvida que um livro de poemas venda, eu só concordarei depois de, se posto à venda, não vender, porque só poderá vender ou não, se estiver à venda e, para isso, é preciso publicá-lo antes. Um livro de poesia tem que ser divulgado, tem que ser trabalhado, as pessoas têm que descobrir que o livro existe, senão jamais comprarão. Um livro, para vender, tem de estar bem feito, bem editado, pois, por mais que esteja bem escrito, mal editado nem dá vontade de ler. Então, as edições poéticas para darem "retorno satisfatório", a qualquer nível que seja, têm de ser bem publicadas, senão não darão retorno nunca.

GP : O que os autores de "Rios" possuem como projeto vindouro de realizações poéticas?

Elaine: Prentendo publicar um livro em 2005. Gostaria de dar continuidade a parceria com os poetas de Rios e espero que Aliás cresça cada vez mais. Pretendo continuar trabalhando nisso.

Márcio: Penso em consolidar ainda mais a amizade entre nós e encontrar meios de divulgar mais a obra de cada poeta. Não sei o método a ser utilizado pra isso. Mas creio que, se cada um de nós trabalharmos com seriedade, ao longo de algum tempo teremos uma produção cada vez mais bem elaborada. Sou desalentadamente otimista, quase quixotesco, como deve ser um poeta. Acredito mesmo que possamos constituir um grupo, até um movimento literário novo, se tivermos força suficiente e se nossas idéias se conjugarem harmoniosamente. Tenho idéia de escrever ensaios sobre cada um dos poetas do livro, mas não posso estabelecer um prazo, porque tenho muita coisa por escrever que ainda não fiz. Se, no futuro, voltarmos a nos reunir em livro, tenho certeza de que o resultado será ainda melhor.

Ricardo: A participação em Rios acarretou o convite para estar presente em "Onze Autores da Web", antologia da qual participarei em troca de 15 exemplares de Rios. Nessa estarei com 19 poemas, cujo título será "Dez em Cantos Sedutores e Nove Poemas ao Mar". Nos dois lotes, não abandono as características conceituais e filosóficas que assinalam grande parte de minha produção, porém, apresento-me, desde o título, um tanto mais lírico do que de outras vezes. "Onze Autores da Web", é organizada por Douglas Lara. O lançamento foi no dia 27 de novembro, em Sorocaba, na ASI, Associação Sorocabana de Imprensa. Os participantes, em ordem alfabética: Adhemar Molon, Alípio José Valadão, Douglas Lara, Érica Monteiro Nunes, Ivone da Conceição Rodrigues Carvalho, José Geraldo Neres, Marisa Pimentel, Priscila de Loureiro Coelho, Ricardo Alfaya, Ricardo Pisoler, Rui Batista de Albuquerque Martins. Pretendo ainda continuar trabalhando sobre meu blogue Nozarte, tanto no sentido de aprimorá-lo quanto no de divulgá-lo. Existe já muito material nele postado inclusive sobre "Rios", com resenha sobre os autores, poemas, fotos, imagens do livro e tudo mais. O endereço é: http://nozartecultural.blog.aol.com.br/. No mais é continuar empenhado no sentido de registrar e divulgar nossos escritos o máximo que for possível.

Tanussi: O próximo livro é o meu grande projeto futuro. Espero lançá-lo em meados do ano que vem (2004), quem sabe com uma gravação em cd dos melhores poemas, ditos por mim e por outros poetas. Pretendo, também, escrever meu livro de contos e outro de literatura infantil. Também escrever um roteiro com meus poemas para apresentar em teatro. No mais, estar vivo até lá. Amando, com saúde, cercado de amigos e de poesia, pois, como dizia Fernando Pessoa, “o por fazer é só com Deus.”

Thereza: Tenho 15 livros de poesia inéditos, escritos a partir de 1996, depois que publiquei "Areal". Fiz parte de uma oficina literária durante três meses em 1997 com Claudio Willer, que serviu de alavanca para esse processo de escrita, em que estava trabalhando três livros ao mesmo tempo (Sabbath, Odysseus e O livro de Pandora), terminando-os ao final da oficina. Logo depois de encerrá-la, escrevi "Lilases" numa única tarde, em três horas e meia, tão intenso foi o processo de criação suscitado pela oficina. Desde então, tenho trabalhado incessantemente, de forma periódica, trabalhando temas, assuntos, reunindo meus poemas em livros de 44 textos cada um, formando unidades de leitura comedida, porque quero que cada livro seja lido inteiro, de um só trago (como lembra o título de um dos livros de Elaine Pauvolid).

Entre os novos livros estão Lázuli, Amor e Asa, Olhar Flamingo, Marco Polo e A Princesa Azul, Folias, Pares, Colombo, Uno, Futebol e mais nada e Estio e dois em inglês, Let's e Shell to the Sea. Jamais farei um livro com 100 poemas de uma vez, a não ser que seja obra reunida, antologia, ou póstuma. O leitor não tem tempo de ler muito. E poesia tem que ser sorvida aos poucos (como se vendem os livros), em pequenos cálices, como um licor (como diria Neide Archanjo, cujo livro "As marinhas", em segunda edição pela editora já está esgotado). Assim, tenho certeza que temos muitos projetos. E queremos realizá-los todos. Parabéns a Márcio, Tanussi, Ricardo e Elaine, mais uma vez, por nossa bravata fluida e poética.




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