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GP :
Tanussi, como se deu a trajetória
iniciada com "Desintegração",
em 1979 até este "A medida do deserto e
outros poemas revisitados", publicado na antologia "Rios"?
Tanussi
Cardoso: Minha
trajetória não foi diferente de
muitos poetas que estão por aí, na batalha.
Em 1979, lancei “Desintegração”, um livrinho
feito de forma artesanal, como era comum naquela época,
de tantos atos poéticos e políticos.
Era um apanhado de poemas publicados em diversos jornais
e revistas, sem qualquer harmonia entre eles e sem
qualquer consistência poética. Um livro
de aprendizado, para ser esquecido, como a maioria
dos primeiros livros, escritos no ímpeto da
juventude. Foi feito especialmente para ser lançado
em Brusque, Santa Catarina, numa feira de livros ou
festival de poesia, organizada pelo poeta Luís.
Em
1982, veio “Boca Maldita”, com prefácio
de Leila Míccolis, publicado pela Editora Trote,
que eu, a Glória Perez e a Leila, dirigíamos.
O livro fez muito sucesso, dentro da literatura marginal.
Nele, há poemas de que gosto até hoje.
Ousei, misturando poemas pornôs (àquela época,
ferviam eventos e happenings incríveis, aqui
no Rio, comandados pelo Cairo e Denizis Trindade, Mano
Melo, Claufe Rodrigues, Eugenia Loretti, Eduardo Kac,
Brasil Barreto, Paco Cac, Samaral, Carmen Moreno, Leila
Míccolis, Flávio Nascimento, Chacal,
Sandra Terra, eu e tantos outros; em São Paulo,
com a própria Thereza, com o saudoso Touchê,
etc. Havia movimentos em Juiz de Fora, Belo Horizonte,
Santa Catarina, Santos, Salvador, Porto Alegre... tempos
muito criativos e de boas lembranças...), assim,
em “Boca Maldita”, os poemas pornôs e de humor
misturavam-se a outros mais densos e profundos, muito
embora, apesar de pertencer ao grupo marginal, minha
poesia sempre se manteve com um passo atrás,
ou na frente, do que era costume na época, não
me permitindo fazer a piada pela piada, sempre procurando
fazer da poesia o primado da melhor palavra, do melhor
verso. “Boca Maldita” foi, antes de mais nada, um momento
de libertação e de aprimoramento da minha
poesia.
Somente
em 1991, lancei meu 3º livro, “Beco com
Saídas”, da Edicon/SP, com prefácio de
Socorro Trindade, um livro premiado pelas UBE, de Goiás
e do Rio. Lá estava o embrião do poeta
que sou hoje. Nele, aprendi a força da palavra
poética, o valor da técnica e da forma,
aprendi a equilibrar a emoção, a cortar,
a tirar gorduras, a entender que o poeta, o escritor
tem o dever de conhecer os meandros do seu ofício,
de se profissionalizar. “Beco com Saídas” ainda é um
livro que me emociona, feito com muito carinho, com
capa e ilustrações do saudoso Albert
Harrigan.
Como
não sou ansioso, haja vista a demora de
um livro para outro, somente em 2000, publiquei pela
7 Letras, o meu maior sucesso, de crítica e
de vendas (em pouco tempo saiu a 2ª edição),
o “Viagem em torno de”, com a honra de ter sido prefaciado
por um dos grandes poetas brasileiros, Salgado Maranhão.
O livro recebeu o “Prêmio ALAP de Cultura” e
o “Prêmio Capital Nacional-Poeta do Ano”, do
jornal O Capital, de Sergipe. Considero-o, sem modéstia,
um grande livro de poesia, um livro de imagens fortes,
tendo os temas da morte e do amor perpassando-o todo
o tempo. Mas, apesar do tema, um livro de esperança
no homem e no futuro. E na poesia.
É óbvio que nesse tempo todo, participei
de várias antologias importantes por esse Brasil
afora, até desembocar nesse “Rios”, presente
do meu amigo Marcio Catunda. “A Medida do Deserto”,
inserido nele, é um livro feito com carinho,
onde aproveitei para reler alguns poemas que curto
muito, e onde selecionei poemas inéditos que
me parecem de algum valor literário. Resta-me
agradecer ao Marcio pelo convite, a Thereza pela beleza
da edição, e à grande poesia de
meus companheiros na coletânea. Agora, é aguardar
o próximo ano, e a possibilidade de um novo
livro.
GP :
Tanussi, você milita pela
poesia, conto, crítica e letra de música
e todo seu trabalho tem sido reconhecido e comentado
bastante. Como se dá, então, o seu processo
de criação?
Tanussi
Cardoso: Olha,
Luiz, apesar de exercer essas diversas facetas culturais, é como
poeta que me percebo melhor. Tenho alguns contos,
poucos publicados, e, agora aposentado, pretendo
ter tempo para escrever outros e colocá-los
em livro. A crítica exerço somente quando
surge a oportunidade de comentar algum livro que me
tenha entusiasmado sobremaneira. Sou levado pela emoção,
muitas vezes, de maneira hiperbólica. Acho que
a crítica verdadeira consegue acrescentar algo à literatura,
ao escritor, ao leitor ou ao estudioso. Entretanto,
a crítica é sempre pessoal – e parcial – porque
vem alimentada, subjetivamente, por preferências
particulares. É o gosto do crítico que
conta, e cabe a ele explicitar de forma lógica
o porquê de sua preferência. Daí,
a crítica tem que ser vista sempre com um olhar
crítico (sem trocadilho). Nem sempre deve ser
dada à ela muita importância, ou, pelo
menos, ela não deve ser superdimensionada. Afinal,
grande parte da crítica atual serve apenas ao
mercado e ao sistema, reforçando os clichês
dominantes. Uma crítica que, por covardia ou
preguiça, foge dos autores novos ou desconhecidos;
a priori, eles já seriam ruins. Uma crítica
que não tem coragem ou não quer ou não
sabe distinguir ou discutir, num texto novo, a mera
possibilidade de qualquer qualidade. Uma crítica
que se transformou num mero vendedor do objeto-livro.
Aplaudo o crítico que, mesmo correndo o risco
de errar, tem coragem de assumir a sua posição.
Mas esses são raros.
Quanto às letras de música, é extremamente
prazeroso fazê-las. Mas é um exercício
extremamente difícil, quando se tem de colocar
milimetricamente a letra dentro de uma composição
pronta, atento à melodia, aos acordes, à harmonia,
com a sensibilidade poética de saber a letra
adequada à música, à serviço
da música; enfim, é excitante. Gosto
muito desse trabalho. Tenho composições
com o Amarildo Silva, com o pessoal do Cambada Mineira,
com a Delayne Brasil, com a Sandra Bernardo...
Quanto à poesia, minha praia maior, não
sou dos que comungam pela cartilha da inspiração,
mas tampouco sou daqueles que suam e se esforçam
para tirar das vísceras um poema. Não,
a poesia me vem de súbito, como uma explosão,
uma luz, sei lá... às vezes, através
de uma palavra, às vezes, de uma imagem interessante, às
vezes, “soprada” por um deus desconhecido, às
vezes, em sonho... Já dizia Borges que “ a poesia
está logo ali, à espreita. Pode saltar
sobre nós a qualquer instante ”. Cabe ao poeta,
então, aceitá-la, abraçá-la
e convidá-la para o seu banquete. Cabe ao poeta
transformar o que lhe foi soprado como poesia, em poema,
que parece a mesma coisa mas não é. “ A
poesia pertence ao ver, ao observar, e o poema pertence
ao fazer, ao experimentar ”, disse alguém. Portanto,
se a poesia pertence a todos, o poema pertence ao poeta
porque é meio de conhecimento, não de
revelação. Sei que existem poetas que
se sentam diante do computador e trabalham e fazem
poemas belíssimos. Eu não consigo. Na
maioria das vezes que tentei algo parecido, o poema
saiu mentiroso, fraco, frágil, caricatural.
Não era eu. Não era meu. Admiro quem
consegue, não é o meu caso. Logo, meu
processo de criação se traduz em, chegando
o tema, a idéia, a mensagem, a palavra, debruçar-me
como uma mãe se debruça sobre o filho,
ou guerrear como um toureiro e seu touro, de preferência
com papel e caneta, riscar, cortar, ler em voz alta
para sentir a cadência, o ritmo, a harmonia e
a sonoridade das palavras. Depois, levo ao computador,
e refaço todo o caminho torturante dos cortes,
da exigência da melhor palavra, do melhor verso.
Quando consigo, é um êxtase; quando não,
guardo-o para um dia, quem sabe, jogá-lo às
traças.
GP :
Tanussi, como você vê o
tratamento dado à poesia pelas antologias, concursos
e Internet, principalmente pelas editoras?
Tanussi
Cardoso: Como
em todo negócio, Luiz, há editores
sérios e picaretas. Infelizmente, esses em maior
número. Veja bem: quantas antologias se predispõem,
como as da Ibis Libris, por exemplo, a colocarem a
poesia e o poeta em primeiro plano? A maioria cobra
quase R$ 100,00 (cem reais) por uma única página,
o incauto paga e vê seu poema perdido no meio
de duzentos outros poetas igualmente perdidos, e, pior,
em sua grande maioria de péssimo nível.
Pessoas que por puro narcisismo ou alienação
pagam caro para verem seu nome estampado num livro.
Eis aí o cerne de uma grande batalha: o artista
em busca de ver a sua obra exposta, analisada, descoberta.
Contra o poder daqueles que só visam ao lucro.
Quanto às grandes editoras, elas não
jogam no escuro, e preferem as antologias de nomes
já consagrados, ou então as que viraram
moda, essas dos Melhores disso, Melhores daquilo etc. É a
linha editorial que não pensa a Cultura como
um projeto maior e literário, mas somente como
comércio e dinheiro.
Concursos
de poesia sempre existiram. É um
meio mais do que válido para poetas mostrarem
suas obras. Entretanto, está na moda concursos
de poesia com taxas exorbitantes, onde os vencedores
ganham medalhas e diplomas e onde, às vezes,
se publicam antologias pagas pelos próprios
poetas premiados. Os pobres poetas se acham o máximo
porque ganharam menção honrosa (praticamente,
todos ganham, afinal quanto maior o número de
participantes, maior o lucro dos editores), acreditam
que são grandes escritores e não sentem
que estão numa grande arapuca, enriquecendo
um monte de 171 por aí. É uma vergonha! Óbvio,
que há exceções, mas são
tão raras, que é difícil citá-las.
Em sua grande maioria, essas antologias são
pura picaretagem, onde a boa poesia fica perdida em
meio a dezenas de poesias horríveis e onde meia
dúzia de espertos se locupletam em nome da literatura
e do desejo de alguns ingênuos que pensam assim
conseguir mostrar o seu trabalho. Acho um abuso. Acho
mesmo que é caso de polícia.
Os
concursos de poesia, no Brasil, poderiam pagar, além do prêmio em dinheiro, o prêmio
de publicação. Mas, igualmente, são
raros os concursos que oferecem essa oportunidade,
o que é uma pena. O Prêmio de Juiz de
Fora, o Cruz e Souza, de Santa Catarina, o Gregório
de Mattos, da Bahia, são bons exemplos de concursos
válidos no Brasil.
E
chegamos ao mundo da internet, esse avanço,
essa ferramenta cultural de informação
e arte. Vemos os poetas unindo-se em listas de discussões
e chats, criando páginas. Os sites culturais
são a grande alternativa para se difundir a
poesia. Atualmente, grande número de poetas
se faz conhecer e à sua obra, através
da internet. É, sem dúvida, um grande
veículo de divulgação! Existem
sites magníficos, o acesso é cada vez
mais simples, o escritor desconhecido tem a chance
de tornar-se conhecido nos círculos literários,
de link a link. Mas será verdadeiro que aqueles
que acessam os sites têm tempo de ler as obras?
Conseguirão, realmente, aprender, apreender
o que lhes é passado através da telinha?
Terão saco, sentados diante do computador, de
lerem páginas e mais páginas de poesia
e de textos muitas vezes cansativos? (Confesso que,
muitas vezes, eu me encontro nesse caso, preferindo
imprimir o que me interessa para poder ler depois.)
Muita gente deve se perguntar o que acontecerá,
no futuro, com os livros. Tenho dúvidas... Será que
já fizeram uma pesquisa séria para se
traçar o perfil sobre quem é o leitor
da internet? Longe de mim desdenhar dessa forma de
comunicação, válida, importante
e irrecusável, mas, creio, que mesmo com a alta
tecnologia, com os e-books, apesar dos apelos virtuais,
o livro, no papel, permanecerá vivo, como a
grande via alternativa de cada escritor. A edição
eletrônica não o substituirá e
eles se desenvolverão paralelamente, cada qual
com sua linguagem específica. Somado a tudo
isso, a grande maioria da população não
tem acesso à internet. O livro impresso nos
traz um prazer lúdico, táctil, que não
existe em nenhum outro meio. Só ele pode ser
lido no silêncio de um canto qualquer desse mundo.
Para mim, o livro, esse veículo que perpetua
a cultura, será sempre insubstituível.
GP:
Thereza, tudo começa
com "Relógio de sol", em 1980 até "Pandora" inserido
na antologia "Rios" isso sem falar dos inéditos.
Conta como se deu essa trajetória.
Thereza: Em
1980, lancei o primeiro livro em parceria com outro
poeta da Universidade Mackenzie, com quem havia fundado
um grupo de poetas do campus universitário.
Já publicava meus poemas no jornal do DCE, o "Análise",
e isso chamou atenção de João
Scortecci (dono da Scortecci Editora, de São
Paulo hoje), que estudava Economia, enquanto eu cursava
Direito. Dividimos o livro irmanamente e o projeto
gráfico foi executado pelo meu irmão,
na época também estudante de Engenharia
do Mackenzie, Carlos Rocque da Motta, que continuou
participando de todos os meus livros até 2002,
quando já tinha a editora, a partir de 2000.
Depois vieram os outros livros do Grupo Poeco-Só Poesia
e nossos primeiros livros individuais, já em
1982.
A minha estréia individual ocorreu com "Joio&trigo",
com projeto gráfico de Tarceu Pinto e capa de
Silvio Pires. Em seguida, houve um lapso de 13 anos
até meu livro seguinte, em 1995, "Areal",
que fiz questão de caprichar visualmente, com
oito ilustrações coloridas de quadros
de Maninha Cavalcanti e uma versão em disquete
(neobook) para computador, bilíngüe. Foi
minha primeira incursão em fazer a versão
dos meus poemas para o inglês, que publiquei
somente de forma virtual. Três anos depois, já mais
reinserida no cenário literário paulista,
lancei "Sabbath" (Blocos, 1998) e no ano
seguinte, voltei ao Rio de Janeiro, onde vivi dos
5 aos 18 anos de idade. No Rio, tive chance de integrar
o grupo de poetas que começava a agitar o caldo
poético das noites cariocas a partir de 1999
e, em 2000, fundei a Ibis Libris no rastro das apresentações
e eventos poéticos, justamente para começar
a apresentar o que estava se fazendo em poesia na cidade.
Em 2001, lancei "Alba", prefaciado por José Nêumanne
Pinto e resenhado por Elaine Pauvolid no jornal O Globo
em janeiro de 2002. Foi minha estréia no Rio,
alicerçando o trabalho a ser feito pela editora.
Em 2002, a Ibis Libris estava com 12 livros publicados
e termina 2003 com 29 livros editados, entre eles, "Rios" e "Lilacs/Lilases",
livro também bilíngüe, com 22 poemas
inspirados em "A Terra Devastada" de T. S.
Eliot. O outro título foi "Chiaroscuro
- Poems in the dark" (Ibis Libris, 2002), escrito
em inglês, como decorrência do meu trabalho
de versão e tradução dos meus
próprios poemas e de autores americanos e ingleses,
lançado também nos EUA, na Universidade
do Colorado, onde estive por duas vezes na Conference
on World Affairs que se realiza anualmente em abril,
para falar sobre meu trabalho de tradução
de poesia e ler poemas tanto em português como
em inglês.
GP :
Thereza, você mantém
uma atividade que passa pela poesia além do
trabalho como editora, tradutora, professora e advogada.
Como você concilia tais atividades?
Thereza: Comecei
a escrever poesia aos 15 anos de idade. Trabalhei
como advogada de 1980 a 2000, quando fundei a editora.
Fui professora de inglês por 17 anos, de 1984
a 2001, dando aulas particulares em empresas. Passei
a fazer traduções quando trabalhei na
Editora Três como chefe de pesquisa do "Guinness,
o Livro dos Recordes" (1992) e, desde então,
me especializei em tradução jurídica,
tendo sido tradutora interna por quase três anos
em um escritório de advocacia em São
Paulo (1996-1999). Porém, a primeira dedicação
foi à poesia e a editora resgatou para mim a
minha principal e mais importante atividade, que é escrever,
além de publicar meus livros e de outros autores.
Então, quando me perguntam como uma advogada
virou poeta, respondo que foi a poeta que virou advogada
e as outras coisas também. Todas essas funções
foram exercidas como meio de sobrevivência. Como
a advocacia
não me rendia sustento suficiente, parti para as aulas de inglês,
cujos
rendimentos eram imediatos e não a perder de vista como na defesa da
lei (há casos que ainda não terminaram, mesmo depois de tê-los
abandonado há tempos).
Logo passei a praticar a advocacia como hobby,
porque além de ser uma fonte de renda complementar, também gostava
de continuar a exercê-la, mesmo esporadicamente, mas depois de 20 anos,
me cansei dela. Ainda há um caso para eu fazer, mas será algo
inédito para mim e raríssimo: uma reconciliação,
que me pediram carinhosamente que acompanhasse, o que farei com o maior prazer,
por se tratar de pessoa amicíssima há muitos anos. Vez por outra,
surge um aluno de inglês e nunca me nego a dar aulas, se necessário.
A tradução é um veio mais recente, mas fundamental - há poucos
advogados que sejam tradutores jurídicos e juramentados, caso onde me
incluo. Embora a editora ocupe todo o meu tempo, ainda consigo exercer essa
função de forma esporádica, mas muito satisfatória.
Como editora, tenho feito descoberta de grandes autores e movimentado o espaço
literário, lançando novos livros, porém, apenas atendo à demanda:
são autores que já estavam aí esperando uma chance de
ver publicado o seu trabalho. Além de tudo isso, tenho de reservar um
tempo para minha poesia, para ler e aperfeiçoar meus poemas, além
de editá-los e divulgá-los. "Rios" foi um excelente
modo de fazer isso quase sem esforço, um pequeno "livro" que
criei para mim, o "Pandora", em que reuni poemas de quatro outros
livros inéditos, enquanto não tive chance de publicá-los.
Pandora é parte do título de outro livro que estou preparando, "O
livro de Pandora", segunda parte de uma edição de 44 poemas,
sobre Ulisses (Odysseus) e as mulheres da Odisséia.
GP :
Thereza, como editora, a poesia tem público? As edições poéticas
dão retorno satisfatório?
Thereza: A
poesia sempre teve seu público, que continua
se renovando e aumentando. Em mais de 20 anos que publico
poesia, nunca vi esse interesse diminuir. Digo que
a poesia é a primeira forma de manifestação
artística. Você pode não ter escrito
um romance, ou um conto, ou uma crônica, mas
algum dia, alguma vez, escreveu ou quis escrever um
poema para alguém. Então todos são
naturalmente poetas e sentem necessidade de descobrir
em outros poemas como teriam dito aquilo que gostariam
de dizer. O "retorno" de obras poéticas é sempre
excelente, a não ser que você esteja se
referindo a retorno financeiro, o que torna a pergunta
temerária. Como já tenho tido a chance
de dizer quando me afirmam que poesia vende "pouco",
digo que poesia vende aos poucos", mas vende.
Quando alguém duvida que um livro de poemas
venda, eu só concordarei depois de, se posto à venda,
não vender, porque só poderá vender
ou não, se estiver à venda e, para isso, é preciso
publicá-lo antes. Um livro de poesia tem que
ser divulgado, tem que ser trabalhado, as pessoas têm
que descobrir que o livro existe, senão jamais
comprarão. Um livro, para vender, tem de estar
bem feito, bem editado, pois, por mais que esteja bem
escrito, mal editado nem dá vontade de ler.
Então, as edições poéticas
para darem "retorno satisfatório",
a qualquer nível que seja, têm de ser
bem
publicadas, senão não darão retorno
nunca.
GP :
O que os autores de "Rios" possuem
como projeto vindouro de realizações
poéticas?
Elaine:
Prentendo publicar um livro em 2005. Gostaria de
dar continuidade a parceria com os poetas de Rios
e espero que Aliás cresça
cada vez mais. Pretendo continuar trabalhando nisso.
Márcio: Penso
em consolidar ainda mais a amizade entre nós
e encontrar meios de divulgar mais a obra de cada poeta.
Não sei o método a ser utilizado pra
isso. Mas creio que, se cada um de nós trabalharmos
com seriedade, ao longo de algum tempo teremos uma
produção cada vez mais bem elaborada.
Sou desalentadamente otimista, quase quixotesco, como
deve ser um poeta. Acredito mesmo que possamos constituir
um grupo, até um movimento literário
novo, se tivermos força suficiente e se nossas
idéias se conjugarem harmoniosamente. Tenho
idéia de escrever ensaios sobre cada um dos
poetas do livro, mas não posso estabelecer um
prazo, porque tenho muita coisa por escrever que ainda
não fiz. Se, no futuro, voltarmos a nos reunir
em livro, tenho certeza de que o resultado será ainda
melhor.
Ricardo: A participação em Rios acarretou
o convite para estar presente em "Onze Autores
da Web",
antologia da qual participarei em troca de 15 exemplares
de Rios. Nessa estarei com 19 poemas, cujo título
será "Dez em Cantos Sedutores e Nove Poemas
ao Mar". Nos dois lotes, não abandono as
características conceituais e filosóficas
que assinalam grande parte de minha produção,
porém, apresento-me, desde o título,
um tanto mais lírico do que de outras vezes. "Onze
Autores da Web", é organizada por Douglas
Lara. O lançamento foi no dia 27 de novembro,
em Sorocaba, na ASI, Associação Sorocabana
de Imprensa. Os participantes, em ordem alfabética:
Adhemar Molon, Alípio José Valadão,
Douglas Lara, Érica Monteiro Nunes, Ivone da
Conceição Rodrigues Carvalho, José Geraldo
Neres, Marisa Pimentel, Priscila de Loureiro Coelho,
Ricardo Alfaya, Ricardo Pisoler, Rui Batista de Albuquerque
Martins. Pretendo ainda continuar trabalhando sobre
meu blogue Nozarte, tanto no sentido de aprimorá-lo
quanto no de divulgá-lo. Existe já muito
material nele postado inclusive sobre "Rios",
com resenha sobre os autores, poemas, fotos, imagens
do livro e tudo mais. O endereço é: http://nozartecultural.blog.aol.com.br/.
No mais é continuar empenhado no sentido de
registrar e divulgar nossos escritos o máximo
que for possível.
Tanussi: O próximo livro é o meu grande
projeto futuro. Espero lançá-lo em meados
do ano que vem (2004), quem sabe com uma gravação
em cd dos melhores poemas, ditos por mim e por outros
poetas. Pretendo, também, escrever meu livro
de contos e outro de literatura infantil. Também
escrever um roteiro com meus poemas para apresentar
em teatro. No mais, estar vivo até lá.
Amando, com saúde, cercado de amigos e de poesia,
pois, como dizia Fernando Pessoa, “o por fazer é só com
Deus.”
Thereza: Tenho 15 livros de poesia inéditos,
escritos a partir de 1996,
depois que publiquei "Areal". Fiz parte de uma oficina literária
durante
três meses em 1997 com Claudio Willer, que serviu de alavanca para esse
processo de escrita, em que estava trabalhando três livros ao mesmo tempo
(Sabbath, Odysseus e O livro de Pandora), terminando-os ao final da oficina.
Logo depois de encerrá-la, escrevi "Lilases" numa única
tarde, em três horas e meia, tão intenso foi o processo de criação
suscitado pela oficina. Desde então, tenho trabalhado incessantemente,
de forma periódica, trabalhando temas, assuntos, reunindo meus poemas
em livros de 44 textos cada um, formando unidades de leitura comedida, porque
quero que cada livro seja lido inteiro, de um só trago (como lembra
o título de um dos livros de Elaine Pauvolid).
Entre os novos livros
estão Lázuli, Amor e Asa, Olhar Flamingo, Marco Polo e A Princesa
Azul, Folias, Pares, Colombo, Uno, Futebol e mais nada e Estio e dois em inglês,
Let's e Shell to the Sea. Jamais farei um livro com 100 poemas de uma vez,
a não ser que seja obra reunida, antologia, ou póstuma. O leitor
não tem tempo de ler muito. E poesia tem que ser sorvida aos poucos
(como se vendem os livros), em pequenos cálices, como um licor (como
diria Neide Archanjo, cujo livro "As marinhas", em segunda edição
pela editora já está esgotado). Assim, tenho certeza que temos
muitos projetos. E queremos realizá-los todos. Parabéns a Márcio,
Tanussi, Ricardo e Elaine, mais uma vez, por nossa bravata fluida e poética.
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