Certa vez, estando numa das minhas várias e constantes passagens por Aracaju, tive oportunidade de conversar com o professor João Costa.
O assunto inevitavelmente foi conduzido para a obra de Hermilo Borba Filho, uma vez que, ao ser apresentado ao professor, fui declarado não só como conterrâneo dele, como também de Ascenso Ferreira, de Darel Valença Lins e de Murilo La Greca.
Também inevitavelmente há de se considerar que em conversa com o professor João Costa sobre Hermilo Borba Filho, logo que seria evidente surgir o trabalho desenvolvido pela professora Sonia van Dijck. Sabedor desse trabalho bonito, logo entrei em contato com ela que logo gentilmente me premiou duplamente, primeiro com o seu livro “Hermilo Borba Filho: fisionomia e espírito de uma literatura”, publicado pela Editora Atual em 1986, e o seu artigo “Hermilo Borba Filho” para publicação no tablóide lítero-cultural que editei entre os anos 1995/99, o Nascente.
Depois disso, em conversa com a poeta Arriete Vilela, seu nome surgiu trazendo a possibilidade de entrevistá-la para o Guia de Poesia. Não foi diferente, gentil como sempre, Sônia van Dijck concedeu esta entrevista exclusivíssima. GP - Sônia, você é poeta, escritora, professora e pesquisadora. Como este Guia é de Poesia, vou começar por ela e com a pergunta de praxe: como foi a sua descoberta da poesia, da literatura? Como se deu o seu encontro com a poesia? Que influências foram marcantes? Sonia: Nunca pensei nesse tipo de pergunta: descoberta da poesia? da literatura? Talvez não saiba responder, mas vou tentar. Aprendi a ler muito miúda (acabava de fazer 5 anos de idade – minha professora, dona Dalva, era uma moça bonita, quase vizinha de minha mãe) e sempre gostei de ler. Li Alencar e Machado ainda menina (entre os 11 e os 14 anos, no tempo do ginásio). Espumas flutuantes (Castro Alves) era um dos muitos livros que tinha em casa – ainda tenho o exemplar que pertenceu a minha avó materna. Fiz Letras. Não sei se descobri a poesia, a literatura, pois sempre fizeram parte de minha vida, como fatos naturais. Ler sempre foi um ato cotidiano (e não só Literatura).
GP - Resumindo grosseiramente em pouquíssimas palavras, a sua poesia é forte, rica, enxuta e altamente expressiva. Fale um pouco da sua poesia, do seu propósito poético e da sua maneira de poetar para os leitores do Guia de Poesia. Sonia: Grata pela qualificação atribuída a minha poesia (a meus poemas). Você deve saber o que está dizendo com esses adjetivos.
Se tenho algum propósito poético é o de não ser passadista, forjando sonetos em pleno século XXI; o de não cometer rimas de “amor” com “flor” ou “dor”, por não saber dizer de outro modo; o de não confundir desabafo pessoal com exercício poético; o de evitar a frase de efeito, trazendo de volta as “plagas” e “máculas”, apenas para parecer erudita; o de não subordinar a poesia a bandeiras de lutas ou de protestos, pois isso é mais próprio do manifesto. É por aí. O que me interessa é uma linguagem simples, econômica e, se possível, de acordo com meu tempo. GP - Como poeta, qual a sua perspectiva da poesia? O que você diz da poesia depois de, digamos, colocando um mero parâmetro, Shakespeare, Eliot, Mallarmé, Ezra Pound, e.e. cummings, beats, concretos, pós-modernos?
Sonia: De Shakespeare, Eliot, Pound, e. e. cummings e dos beats, sou leitora das traduções – portanto, não me sinto autorizada a falar de suas obras. Só com a leitura de seus críticos especializados é que pude alcançar uma avaliação dessas obras – mas, não me cabe discutir agora esses críticos.
Quanto a Mallarmé: prefiro colocar Mallarmé ao lado de Baudelaire, Rimbaud, Verlaine. Revelaram caminhos para as poéticas do século XX e ainda deixaram herança substancial para o século XXI. Por causa deles, descobriu-se caminho para atitudes vanguardistas. Não vou falar dos concretos – tem muita gente boa que estuda a produção do grupo; mas, confesso que sou leitora de Haroldo de Campos e considero que deixou uma contribuição significativa para a Literatura brasileira não só como poeta, mas como crítico, tradutor e garimpeiro de nomes esquecidos (isso com Augusto de Campos). Para falar dos pós-modernos, seria melhor citarmos alguns nomes – isso não é desejável nesta entrevista, pois nos desviaria do interesse da conversa. GP - Parafraseando a indagação inicial do Friedrich Dürrenmatt no seu "A pane", pergunto: ainda existirá poesia possível?
Sonia: Não vejo razão para a pergunta. Se eu respondesse negativamente, teria que guardar meus diplomas todos, negar todos os meus artigos de crítica literária e encerrar minha atividade de pesquisa. GP - Você também é escritora e já tem alguns contos publicados em revistas, jornais, livros. Da poesia para o conto, como a escritora trabalha a matéria-prima para o resultado final?
Sonia: Antes de responder: as temáticas de meus poemas são bem diferentes daquelas de meus contos.
Com muitas reescrituras. Seja um poema, seja um conto, reescrevo e reescrevo. Consulto alguns amigos generosos que lêem meus rascunhos, fazem críticas e sugestões. Mas, essa minha prática não se limita à escritura de poemas e de contos. Meus textos de crítica e de resultados de pesquisa são reescritos e reescritos e também passam pela leitura de amigos. A diferença é que meus textos de crítica e de pesquisa, quando publicados, estão na forma final, salvo descoberta de novas informações; meus poemas e contos, nunca sei se estão na forma final; sempre é possível que os retome e reescreva alguma coisa. GP - Além de poeta e escritora, você é professora e pesquisadora e tem um trabalho acadêmico representativo. Como professora aposentada, como você ver a dificuldade de se falar de poesia, literatura e arte num país de desigualdades gritantes, mediocridade reinante e, principalmente, quando há má formação e uma parcela considerável da população precisando, em primeiro lugar, abastecer a barriga? Sonia: Sobre a difícil realidade brasileira (do ponto de vista político, econômico e social), quem me conhece de perto sabe o que penso. Mas, não sou do tipo “revolucionária obscura”, que mistura questões de natureza política e social (fome, baixos salários, desemprego, prostituição infantil, corrupção dos políticos, desmandos do governo), com arte e literatura, a ponto de dizer que não há espaço para a arte e para a literatura porque nossa miséria é grande, porque nossos políticos são corruptos e porque a violência urbana é assustadora. Quem gosta de obscurantismo é o MST e aquelas mulheres do movimento campesino que destruíram um laboratório de pesquisa, em nome de defender a reforma agrária. Se a violência e o obscurantismo não vão resolver as questões graves da sociedade brasileira, também não cabe à arte e à literatura a bandeira de resolver os problemas políticos – para tratar de questões políticas e sociais há outras categorias de textos, tais como o panfleto, o manifesto, o discurso de protesto ou de campanha, entre outros. Uma literatura que reflita o contexto histórico não significa que seja servidora de bandeiras políticas, pois isso seria fazer uma literatura empobrecida de seu maior compromisso que é com a linguagem, que deve sempre buscar ser discurso de seu tempo e não de algumas causas ou lutas, que devem ser resolvidas e superadas, enquanto a literatura deve permanecer. Balzac é o exemplo que gosto de citar.
Vale a pena observar que sempre que se fala em “mediocridade reinante” o pensamento vai para os menos instruídos, os mais pobres, os trabalhadores que ganham pouco e precisam pagar suas contas e comprar comida, os habitantes das povoações distantes dos centros urbanos, às quais o progresso de nosso tempo ainda não chegou. Quem disse que isso é verdadeiro? Temos centenas de medíocres engravatados, em gabinetes decorados arrojadamente, e mais umas tantas medíocres muito bem vestidas e bem penteadas. Se duvidar, veja uma sessão do Congresso Nacional: os argumentos, além de repetitivos, são quase sempre primários e rasteiros; a linguagem usada desconhece concordância e regência. Depois, faça um passeio até alguma comunidade de trabalhadores: verá que têm histórias muito interessantes para contar, cultivam formas em versos que vão do cordel, passando pela cantoria e cantam Fagner, sem saber que estão cantando Cecília Meireles; quando se oferece a essa comunidade um show musical ou um espetáculo teatral, a vibração contamina a atmosfera. Claro que se o oferecido for axé music, ninguém é de ferro, e a comunidade vai aproveitar a festa e fazer carnaval fora de época.
Estava na fila da balança do restaurante “Mangai” – enquanto nos atendiam, as duas funcionárias falavam de um sucesso do Legião Urbana – e uma dizia para a outra que não sabia o nome do poeta que eles tinham usado, mas tinha certeza de que era um poeta da Antigüidade, e que o resto era de São Paulo. Como minha natureza de professora não resiste a tal desafio, contei às moças que o poeta não era da Antigüidade; que era Camões e que a outra parte da composição era de uma epístola de Paulo. Ficaram encantadas em lembrar o nome de Camões e aquela que dizia ser poeta da Antigüidade virou-se para a colega e sublinhou: “eu não lhe disse? eu sabia que era um poeta bem antigo, mas não lembrava o nome”. Os sorrisos deram-me a certeza de que aquelas assalariadas, trabalhando no almoço de domingo, nada têm de medíocres e sabem reconhecer uma bela composição artística – quem tem obrigação de não esquecer o nome do poeta sou eu; elas são consumidoras de poesia.
Tem também a história da “música do ‘Vinólia’”, que era “A Primavera” (de Vivaldi) e as pessoas simples, mas de bom gosto, diziam ser a “música do ‘Vinólia’”. Já viu medíocre apreciar uma composição barroca? Só que para apreciar ninguém precisa saber as características do barroco. GP - Você também faz parte da Associação de Pesquisadores do Manuscrito Literário, sendo líder do grupo de pesquisa Arquivos Literários. Qual o campo de atuação dessa associação e o seu objetivo? Sonia: Sou do grupo que fundou a APML. Mas o Grupo de Pesquisa “Arquivos Literários” não é ligado à APML – é um dos grupos de pesquisa da UFPB e participa do Diretório dos Grupos de Pesquisa do Brasil – CNPq, e nem todos os pesquisadores do Grupo são sócios da APML.
Em 1985, éramos um grupo de pesquisadores de manuscritos (ligados à crítica genética, à edótica, à arquivologia, à história da literatura), sob a liderança de Philippe Willemart, que acabava de publicar artigos de crítica genética e a transcrição dos manuscritos de “Hérodias” (Flaubert), e criamos, na USP, a Associação como forma de nos organizarmos no Brasil e termos um instrumento de intercâmbio com ITEM-CNRS (Paris). Também queríamos reunir os pesquisadores, de modo não só a nos conhecermos e conhecer as pesquisas realizadas, mas estabelecer um espaço de divulgação dos trabalhos, garantindo-se o debate e a troca de experiências e informações.
Em 1990, criei, no âmbito da ANPOLL, o GT de Crítica Genética, com objetivos iguais.
Evidentemente, o interesse maior está em divulgar a importância dos materiais de arquivo e defender sua preservação, incentivando-se a pesquisa.
Hoje, os participantes da APML e do GTCG não são apenas estudiosos de manuscritos literários. Há pesquisadores que trabalham com documentos de música, roteiros de filmes e de peças teatrais, documentos de artistas plásticos, e outras formas de manifestação do texto.
A APML começou com um Boletim, que era montado manualmente por mim e Telê Ancona Lopez e, depois, fotocopiado, aumentando o congestionamento da máquina de um dos prédios das “colméias” (USP), e eu tinha que esperar até 2 ou 3 dias para o Boletim ficar pronto. Essa foi uma fase muito gostosa: Lenira Marques Covizzi, por exemplo, fez umas traduções de estudos sobre papel e Telê encontrou, no arquivo do IEB, um inédito de Bandeira, de gozação com os modernistas, que foi estampado no Boletim, com uma apresentação assinada por ela.
Hoje, a Associação tem a revista “Manuscrítica. Revista de crítica genética”, conhecida no Brasil e no exterior, e já não nos perguntam se não estamos quebrando a “aura de mistério da criação artística”, quando investigamos os procedimentos autorais e revelamos as fases de composição de uma obra. GP - Dos seus estudos, dentre eles, você envolveu a história da literatura e crítica genética, inclusive um estudo acerca de Hans Robert Jauss. Quais as suas conclusões a respeito?
Sonia: De Jauss faço uso de formulações. No Brasil, a estudiosa de Jauss é Regina Zilberman.
Usei a estética da recepção para demonstrar os movimentos de construção do cânone literário, que passou a incluir “Sagarana” (Guimarães Rosa), a partir de 1946.
À luz da teorização de Jauss, a conclusão foi que o livro de Guimarães Rosa foi recebido nos limites do “horizonte de expectativa” da crítica literária, tendo-se consagrado o autor como canônico, ao tempo em que o “Maria Perigosa” (Luís Jardim) foi afastado do cânone.
Esse estudo está publicado por partes em 2 ou 3 artigos, foi objetivo do curso que ministrei na pós da UEL (Londrina) e está sendo retomado, para preparar mais um livro sobre “Sagarana”.
É trabalho no campo da história da literatura. GP - Você realizou também estudos acerca de grandes nomes da Literatura Brasileira, como Guimarães Rosa, José Lins do Rego e, também, de Hermilo Borba Filho, dentre outros. Notadamente de Hermilo que você escreveu, salvo engano 3 livros, o "Gênese de uma poética da transtextualidade: apresentação do discurso hermiliano", o "Hermilo Borba Filho: fisionomia e espírito de uma literatura" e "Um cavalheiro da segunda decadência: busca degradada de valores autênticos", afora vários artigos publicados em revistas, jornais e livros. Em suma, qual o seu entendimento da obra hermiliana e qual a importância da literatura deste escritor pernambucano?
Sonia: Passei 19 anos estudando Hermilo. Falar da obra hermiliana é um vício e posso levar horas fazendo isso. Tive o privilégio de orientar trabalhos de mestrado e doutorado sobre Hermilo e, assim, transmitir meu vício para outros estudiosos. Mas, não fica bem me deixar levar pela compulsão, não é? Serei breve.
Hermilo foi polígrafo e deixou excelente contribuição em todos os terrenos de sua atuação (conto, crônica, romance, dramaturgia, crítica literária, história do teatro, pesquisa de cultura popular, tradução). Entre os traços de sua poética está o interesse pela renovação estética. Para isso, buscou na fonte popular os elementos de que precisava. Leitor e pesquisador, construiu uma obra marcada pelo diálogo com outros textos (desde a Bíblia até Hermilo, ele mesmo, passando pelo discurso publicitário e mergulhando na literatura erótica). De fatura erudita, recorreu sempre ao popular regional, ao calão e ao palavrão, em benefício da verossimilhança do texto.
Mas, Hermilo, como animador cultural (digamos assim), contribuiu para a revelação de talentos, como Ariano Suassuna (que, aliás, mencionou isso em recente entrevista à revista “Preá” – Natal), além de ter participado da resistência à ditadura militar, com as armas de sua literatura e com sua participação na editoria cultural de “O movimento” (São Paulo).
Não conclui meu estudo sobre Hermilo. Apenas interrompi. Queria fazer um trabalho no arquivo de José Lins do Rego e, depois, resolvi estudar “Sagarana”. De vez em quando, ainda falo da obra de Hermilo, pois continuo tendo muito prazer em ler a literatura hermiliana. GP - Sônia, realçando o que você mencionou de Ariano sobre Hermilo, saliento que o mesmo Ariano fez exatamente a mesma referência por você aqui colocada, em entrevista concedida que se encontra aqui no Guia de Poesia. Você mantém um site na internet, onde reúne todo o seu trabalho literário e acadêmico. A seu ver, a internet tem contribuído para difusão do seu trabalho?
Sonia: Apenas parte de meus textos estão no site. Lá também estão textos de alguns amigos, que me honram com suas contribuições para a qualidade do site.
Quando criei o site, foi para dar suporte ao curso que ministrei na pós da UEL. Funcionou. Modifiquei o site (hoje, só uma página é resumo de uma parte daquele curso – isso está informado na página) e coloquei outros materiais, para fazer um espaço dedicado à literatura – na verdade, mais um espaço na web. O propósito é oferecer mais um instrumento de pesquisa (por isso há páginas com bibliografias, por exemplo). Alguns ex-alunos já me fizeram consultas a partir de leituras feitas no site e parece que há citações ou referências de páginas em trabalhos de pós-graduação (colegas já me contaram, mas não conheço esses trabalhos). Também já aconteceu pesquisador que não conheço fazer contato comigo por causa de algum texto do site. Bem... O site está ativo; desejo que possa dar algumas informações aos visitantes; mas não coloquei contador, por isso não sei o quanto é visitado.
Para não perder a ocasião, eis o endereço: http://www.soniavandijck.com GP - Qual a importância da internet, a seu ver, para a poesia, para a literatura? Sonia: Como todo veículo de comunicação e difusão de informação, a internet é importantíssima. Como permite facilidades que outros veículos não oferecem (visitar museus, por exemplo, em uma tarde de domingo preguiçoso – bem... “não tem preço”), sua importância aumenta. E não só para a literatura, é claro! Mas, também para falar contra a corrupção dos políticos e contra o racismo, uso a internet. Somos uma imensa tribo de internautas, neste mundo velho que perdeu as porteiras.
Mas, como tudo que o gênio cria, tem o lado bom e o lado ruim. Deleto sempre o que não me interessa e tento escapar dos vírus e piratas e spans e outras pragas – mas, isso faz parte do jogo. Fico torcendo para que a polícia combata com eficácia a pornografia infantil na internet e o roubo de contas bancárias, entre outros crimes. Aliás, na página de links de meu site, tem um link para o combate à pornografia infantil.
GP - Para finalizar, quais os projetos que a poeta, escritora, professora e pesquisadora Sônia van Dijck tem por perspectiva realizar?
Sonia: Completar o livro sobre “Sagarana”. Como alguns amigos queridos me cobram, preciso organizar uns poemas para publicar em livro – publiquei em cd rom. Talvez organizar uns contos para livro. Ler mais e escrever algumas coisas.
Obrigado. E para conhecer mais Sonia van Dijck, acesse: http://www.soniavandijck.com
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