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Tchello
d´Barros é poeta, escritor, artista plástico
e ator catarinense, que começou a vida sendo premiado com desenhos, até realizar
exposições no Brasil e no exterior, participa de antologias poéticas,
publica livros, atua no teatro e milita nos mais diversos eventos culturais e
artísticos, a exemplo de chegar a presidir a Sociedade Escritores de Blumenau.
Mesmo
com a sua vida intensa de trabalho e realizações,
visitando Maceió, eis que nos encontramos numa
tarde de fevereiro e conversamos despojadamente sobre
seu trabalho, arte e vida.
Com
vocês, Tchello d´Barros.
GP:
Tchello, parece que tudo começou com a
sua vida artística nas artes plásticas.
Quando a poesia chegou até você?
Tchello
d'Barros : Creio que tudo começou mesmo
foi com um tal Big-Bang! Bem depois, em meu
caso, por pura necessidade - estética e metafísica
- de expressão, houve uma identificação
inicial com o desenho, ofício que amadureceu
na lida com as artes plásticas e artes visuais
em geral. Participei de exposições e
salões de pintura, também ilustrei
jornais, livros e revistas. Mais tarde passei
a fazer teatro, atividade que exigiu muita leitura,
incluindo-se aí a poesia, modalidade que nunca
gostei. Ao conhecer poetas de linguagem contemporânea
e experimental - que não se vê em salas
de aula - passei a rascunhar uns versitos, já com
meus 25 anos de idade e talvez por acaso nunca mais
parei. Em suma, a poesia chegou sorrateiramaente, calada,
alada, na calada da noite, como a lua, quando
a gente vê, já está lá.
GP:
Salvo engano você começa com os volumes "Olho
Nu" e "Palavrório". Como você vê sua
trajetória a partir desses lançamentos
até o mais recente "Amor à Flor
da Pele"?
Tchello
d'Barros : O lançamento desses livros
foram a tentativa - vã - de organizar o caos
pessoal de um iniciante na arte poética. Uma
proposta de reunir em coletâneas determinadas
propostas estéticas. "Olho Nu" é meu
segundo trabalho escrito, embora tenha sido lançado
primeiro. É um livro de ideogramas ocidentais,
ou seja, resulta de uma pesquisa de linguagem, donde
se teoriza que o homem principiou a fala por onomatopéias
e grunhidos monossilábicos. Daí para
a poesia foi um grito. Desconheço trabalho paralelo
em nosso idioma. Depois lancei "Palavrório",
a primeira série de poemas que escrevi. São
textos que tem entre si uma organização
rítmica e preocupação com a métrica.
A metalinguagem é outro elemento presente
nessa série. Quanto à temática
os textos apresentam percepções sobre muito
do que transita entre dois polos da natureza humana:
a sexualidade e a espiritualidade. Esses temas
e conceitos até hoje permeiam minha produção
em poesia. "Amor à Flor da Pele" surgiu
bem depois, depois de meus livros de hai-kais. São
quadrinhas - trovas - e foi publicado com uma versão
em braille .
GP:
Você transita por várias áreas:
artes plásticas, teatro, infantil, literatura,
dentre outras. Como você concilia tudo isso?
Tchello
d'Barros : Penso - e sinto - que as coisas se complementam.
Minha principal preocupação
não está na quantidade das modalidades
artísticas que pratico, mas na identidade de
meu trabalho. Há que se manter o estilo e a
linguagem peculiar, em todas as criações,
sejam visuais, sejam literárias. Hoje, mais
maduro, separo tudo por projetos, para que haja um
mínimo de controle. Enfim, são viagens
diferentes, mas o destino, é o mesmo.
GP:
As artes plásticas exercem influência
no seu trabalho poético?
Tchello
d'Barros : Eu até gostaria de dizer
que não, mas é difícil dissociar
uma da outra. Consideremos que na leitura de um poema,
antes de se atingir o nível semântico,
estamos diante de uma imagem, uma mancha gráfica
composta de pequenas figuras, sinais, signos -
as letras, palavras, versos, estrofes - daí muitas
vezes a oportunidade de organizar no espaço
da página tais elementos gráficos, com
o propósito de atingir um equilíbrio
no nível visual. O poema por vezes é diagramado
no espaço, mediante recursos das artes plásticas.
Como vingança, eventualmente o próprio
poema se utiliza do tema da pintura.
GP:
Com o livro "Letramorfose" você reúne
poemínimos. Fala um pouco dessa sua proposta
poética.
Tchello
d'Barros : Creio que "Letramorfose" define
e fundamenta o trabalho iniciado em "Palavrório".
São 50 textos curtos - três anos de elaboração
- explorando as possibilidades semânticas, fonéticas
e visuais que as palavras permitem. Há aí desde
neologismos até trocadilhos, de expressões
populares até gírias e regionalismos.
Mas tudo filtrado sob a lente da metalinguagem e o
prisma da concisão. É tudo enxuto e exíguo,
lapidado mesmo. Se tirar uma palavra que seja, o poema
desmonta. Essa obra exigiu uma seqüência
- mais 50 poemas, mais 3 anos - que se traduz no livro "Vide-Verso",
já apresentado em versão virtual, inédito
em versão impressa. Como essa série de
poemas exige o mínimo de palavras para comunicar,
as pessoas começaram a chamá-los de poemínimos
.
GP:
Você desenvolve um trabalho de militância
literária em Blumenau. Fala prá gente
como se dá essa experiência, da forma
como é desenvolvida e o que você traz
dessa experiência nesse trabalho?
Tchello
d'Barros : São mais de 10 anos de política
cultural em várias cidades do sul do Brasil.
Antes vou mencionar que minha obra não é engajada,
talvez engajada seja minha atitude diante do sistema.
Não sou filiado em partidos, mas minha atitude é política.
Participei de entidades e associações
de artistas, com o objetivo de conseguir mais espaço,
recursos e mesmo reconhecimento aos que fazem arte
mas vivem a mercê do sistema capitalista e de
uma sociedade consumista. São experiências
positivas, com conquistas reais, seja brigando com
políticos alienados, provocando empresários
avarentos, cutucando a burguesia alienada, refutando
pseudo-críticos ou afrontando os mercenários
de plantão. É preciso lembrar que a arte
no Brasil é riquíssima, mas a cultura
- a indústria cultural e seus meandros - são
uma balbúrdia completa, um descalabro total.
Não vou destilar aqui relatório de atividades,
pra não cansar os leitores mas finalizo mencionando
que quanto mais a classe artística conseguir
força mediante união e conhecer seus
direitos, maiores as chances de mudar esse quadro que
se agrava com o fenômeno da globalização.
GP:
Você já presidiu a Sociedade Escritores
de Blumenau. Fala um pouco a respeito disso.
Tchello
d'Barros : Fui co-fundador da SEB e presidente por
duas gestões dessa entidade literária
que hoje conta com escritores de vários estados
do Brasil e mesmo de outros países. A entidade
surgiu em função do descaso com que os
escritores são tratados e de lá pra cá foram
muitas conquistas, desde o intercâmbio cultural
entre autores e entidades, participações
em Bienais do Livro - Rio e Sampa - Feiras, Congressos,
Eventos, Lançamentos, Antologias, Projetos,
Patrocínios, Prêmios, Cursos, Concursos
e uma série de ações culturais
que não seriam possíveis sem uma entidade
desse porte. A SEB apresentou para a prefeitura
da cidade de Blumenau o ante-projeto de um congresso
literário de âmbito nacional e a Fundação
Cultural de Blumenau, em parceria com a SEB, realiza
esse evento com o nome de Fórum Brasileiro de
Literatura. Já participaram nesse projeto nomes
de relevo da literatura nacional e nesse momento está em
fase de planejamento a terceira edição
desse evento que é um significativo momento
de discussão entre autores, editores, livreiros,
tradutores, ilustradores, professores e amantes da
literatura em geral.
GP:
A gente teve oportunidade de conversar bebemorando
muito a respeito de vários assuntos. Gostaria,
portanto, que agora você fizesse uma análise
de como você vê a poesia e a literatura
em geral atualmente?
Tchello
d'Barros : Confetes à parte, considero
um privilégio dialogar com um autor - e editor
- consciente e erudito do naipe de um Luiz Alberto
Machado. Penso que no Brasil alguns caminhos se desenham
no horizonte da literatura. O brasileiro está lendo
mais - inclui-se aí a egrégora internauta
- está tomando conhecimento da nova e novíssima
geração de escritores. A indústria
gráfica/editorial está caminhando para
a excelência - tanto em forma quanto em
conteúdo - e as Bienais do Livro nunca foram
tão visitadas. A cultura popular - digamos
aqui o cordel e tantas outras formas fixas de
nosso rico Brasil - estão resistindo e se afirmando
diante da globalização e americanização
de nossa cultura e idioma. Em contra-ponto, creio que
ainda falta muita discussão no meio intelectual
e crivo por parte das editoras. A mídia fica
devendo pela falta de crítica - e resenhas -
e as universidades pela pouca valorização
da literatura de suas respectivas regiões. À parte
isso penso que estamos todos inseridos num interminável
lance de dados.
GP:
Fala prá gente os projetos que você têm
em mente por realizar.
Tchello
d'Barros : Quem me conhece pessoalmente sabe que
raramente comento meus projetos. As pessoas ficam
sabendo quando recebem o convite ou lêem na mídia,
depois que está tudo pronto. Aqui vou adiantar
apenas que estou aí as voltas com meu livro
de relatos de viagens pelos países onde perambulei
e nas artes visuais estou catalogando antigos trabalhos
e pesquisando uma série de Mandalas e Labirintos,
assuntos pelos quais sou apaixonado e estarão
presentes em minhas próximas exposições. À parte
isso, meu principal projeto é mergulhar cada
vez mais fundo na vida, com sua multiplicidade de experiências
e aventuras. |