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Xênia Antunes é uma maravilhosa poeta, fotógrafa, jornalista e artista plástica que concedeu uma entrevista exclusiva para o Guia de Poesia.
Com você, Xênia Antunes.
GP - Xênia, você é poeta, escritora, artista plástica, fotógrafa e já fez de tudo um pouco. Vamos então para a pergunta de praxe: como e quando ocorreu o seu encontro com a arte?
Não tenho explicações para ter aprendido a ler e escrever aos 4 anos de idade, por minha conta. Eu apenas pegava o que estava ao meu alcance - livros, revistas e jornais - e lia. Não me lembro de ninguém ter me ensinado e até hoje ninguém na família reclamou a autoria da façanha. Portanto, foi nessa época que tudo começou. A arte que me rodeava eram precisamente dois quadros na sala de jantar da casa dos meus avós, um representando um veleiro em uma tempestade em alto mar e, o outro, um buquê de rosas vermelhas: eu era fascinada por eles. Já no escritório do meu pai havia paredes com estantes enormes repletas de livros de direito e filosofia, que eu lia sem entender nada, mas classificava as palavras como “belas”, “estranhas”, “difíceis” etc. Havia também uma enciclopédia em espanhol, da UTHEA, que me serviu como fonte de pesquisa da infância ao vestibular. Por causa dela também aprendi a ler e escrever em espanhol. E sobre a mesa do meu pai aquilo que passou a ser meu objeto de desejo: uma máquina de escrever Olivetti Lexikon 80. Até hoje sou ótima “datilógrafa” com dois dedos.
GP - Quais as contribuições que ocorreram entre a sua infância e adolescência que levaram a você optar pela arte na vida?
Primeiro, foi o fato de meu pai ter deixado que eu freqüentasse seu escritório e que eu lesse os livros de direito e filosofia e os autos de processos penais, com fotos e laudos cadavéricos. Não eram assuntos de arte, mas ali havia todos os elementos que poderiam se transformar em arte: textos, citações, palavras poderosas, fotografias. Havia a máquina de escrever, os papéis “ofício”, a caneta tinteiro, o mata-borrão. Eu sentia um encantamento por aquilo tudo. Apesar de já escrever poesias e até publicar eventualmente aqui e acolá, nem passou pela minha cabeça ou na dos meus pais que eu tivesse alguma vocação para a carreira artística. Eu tinha um dom, que se tornara um hobby e nada mais. A influência do meu pai me colocou na faculdade de Direito. Entrei na faculdade em 68, já com a cabeça voltada pra política. Percebi que não tinha nada a ver estudar Direito e viver sob uma ditadura. Foi então que a poesia assumiu seu lugar pra valer, por causa da indignação, da revolta, da incoerência entre uma aula clássica de direito constitucional e o AI-5. Um dia, já no final do curso, saí da sala de aula e não voltei mais. Escolhi a arte, para sempre.
GP - Fala da experiência da sua poesia, seus livros já publicados, as influências e perspectivas poéticas.
Quem me deu tanto o tom, o tema quanto a inspiração foi a ambivalência daquela época - os movimentos de paz e amor, de liberação sexual e as guerras. Meus escritos eram assim, tinham forma ora de poesia, ora de manifestos. Nem pensava em virar escritora, poeta, artista, embora escrevesse, fizesse teatro e outras coisas. Eu tinha 13 anos quando meu primeiro poema foi publicado em jornal, mas publiquei meus dois livros, Parto Normal e Exercícios de Amor e de Ódio muito depois dos 20 anos. Há poemas publicados em várias antologias por aí e muita coisa nas gavetas e no disco rígido, ainda sem destino certo.
GP - Onde e quando entra o jornalismo?
Na escola. Eu era “a que sabia escrever”, logo, a que vai fazer o jornalzinho da escola, da faculdade. Profissionalmente, de 1983 a 85, ou 86, não me lembro, editei uma página semanal de literatura no Correio Braziliense (além de fazer entrevistas e matérias avulsas em outros dias). Foi legal enquanto durou. Fui demitida publicamente a “pedido” do então Ministro do Exército por supostamente ter ofendido as Forças Armadas em uma crônica de ficção (de muito mau gosto literário, confesso, mas muito pior e de péssimo gosto foi o assassinato de um colega jornalista, que me inspirou a escrever a tal obra de ficção, a carapuça). Depois fiz muito frila, mas sempre decentemente. Jamais fiz “assessoria de imprensa”, no sentido brasiliense da palavra. Sou muito malcriada pra escrever o que me mandam. Andei publicando artigos políticos na internet, mas não tenho mais tempo nem paciência pra isso. Ainda bem que o Diogo Mainardi escreve tudo o que eu penso. (Quando rompi radicalmente com o Lula e o PT, oficialmente no dia seguinte á posse do homem, fui execrada e perdi montes de amigos - que voltaram pra mim depois, hahahaha... Agora vão me segregar por ser “tiete” do Mainardi, pode apostar.)
GP - Como você concilia a poeta, a escritora, a artista plástica, a jornalista e a fotógrafa?
Fácil: sendo mãe de 4 filhos, avó de 2 netos, tendo uma mãe de 84 anos pra cuidar, um marido, um cão, dois gatos e um stent nas coronárias...
GP - A sua arte transita de forma contundente pelo erotismo. Há nisso uma proposta pela liberdade e uma bandeira pela mulher?
Sem propostas nem bandeiras. Liberdade é uma necessidade, algo inegociável, não só para as mulheres, mas para o ser humano. E eu vejo erotismo em quase tudo que é bom, bonito, prazeroso. Geralmente onde não há erotismo há violência, destruição, crueldade, pornografia.
GP - Como você vê hoje os movimentos artísticos contemporâneos pós-marginálias, pós-modernas e pós-vanguardas?
Caramba. Como algo pode ser pós no momento presente? Eu só quero ser pós ou pertencer a um movimento pós depois da minha morte. Daí farei parte do movimento que acabo de lançar, o post-mortem.
GP - A Internet tem contribuído para a difusão do seu trabalho artístico?
Adoro a internet, é mágica! Tenho encontrado muitas pessoas bacanas (como você), que dividem seus espaços, que me promovem generosamente. E meu site tem me dado retornos incríveis, desde 2002.
GP - Quais as suas perspectivas em se tratando de Brasil?
Não tenho esperanças em nenhum dos slogans que ouço há meio século, tipo “pra frente, Brasil” ou “Brasil, um país de todos”. Só sei que me aterroriza constatar que o capitão Nascimento (de Tropa de Elite) está se tornando herói de muita gente neste país. Este é um pensamento bastante equivocado, que fragiliza o Estado de Direito, abrindo lugar para um Estado policial, que é tudo com o que o governo sonha: não precisar mais se preocupar com problemas sociais e políticas públicas. Ficaria tudo a cargo das “tropas de elite” - um eufemismo para esquadrão da morte ou para eugenia, em seu modo mais ideológico. Todos já viram esses filmes e sabem como terminam.
GP - Quais os projetos que Xenïa Antunes está preparando para o presente e futuro?
Eu não sou de fazer projetos. Simplesmente faço o que eu gosto, que é escrever, ler, desenhar, pintar, fotografar, fazer arte digital e websites, ouvir música e assistir bons filmes. E as coisas vão acontecendo.
Xênia Antunes tem um site reunindo seu trabalho em galeria, armail, literatura, jornalismo e fotografia. É só acessar: http://www.xenia.com.br/
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