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Quando decidi incluir no guia de quadrinhos do sobresites
o item Bastidores, eu tinha um objetivo bem claro: dar conta
do aspecto histórico dos quadrinhos no Brasil. Explico:
sou fascinado pelo aspecto humano que forma a nossa realidade
- trata-se de milhares de vidas que levaram tal coisa a ser
de tal forma e não de outra. Nos quadrinhos, como no
resto, isso também ocorre. E como bom amante desta
arte, eu tive certo contato com pessoas que fazem e fizeram
a HQ em nosso país. Aqui, pretendo contar um pouco
desta experiência.
Nem todos os relatos foram vividos por mim. Quando me reportar
a experiências não vividas, estarei me referindo
apenas ao aspecto subjetivo das histórias. É
por isso que estou optando pela narrativa em primeira pessoa
e usando e abusando do gerúndio (para raiva e desespero
dos jornalistas). Penso que o item bastidores não poderia
ser escrito de outra maneira.
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Eloyr Pacheco
É pouco provável que haja alguém da minha
geração em Londrina que não conheça
o Eloyr. Certamente não há entre os leitores de
HQ. Eloyr foi o grande fundador da Batbanca, a primeira
banca de Londrina a levar os títulos americanos com regularidade
para cidade. Eloyr também foi o criador do Londrina
ComicCon (evento que reunia editores, desenhistas, roteiristas
de HQ de todo o país). Ele teve ainda uma breve passagem
pela Metal Pesado e a geração mais nova
- que ainda não se ligou nos nomes que abrem os créditos
dos livros e revistas - vai entender de quem estou falando quando
me referir ao seu sinônimo: Brain
Store.
Eu já tive a feliz oportunidade de hospedar o Eloyr em
minha casa. Isso foi em 1995 (há dez anos, portanto).
Ele é uma figura muito carinhosa, superprestativa e obcecado
com o seu trabalho (no bom sentido!). Isso explica a meticulosidade
com que administra a Editora Brain Store.
Eloyr é uma daquelas pessoas perfeccionistas. Difícil
vê-lo complemente satisfeito. Já vi e ouvi algumas
histórias de rusgas envolvendo ele. Provavelmente contarei
algumas, no futuro. Mas todas que tive conhecimento são
frutos dessa meticulosidade quase européia que ele tem
- e que às vezes entra em choque com o jeitinho brasileiro.
De minha parte, sempre fui muito bem tratado pelo Eloyr e digo
(sem constrangimento) que quando o hospedei não consegui
fazer jus à recepção que tive por ele em
Londrina.
A última vez que o vi foi em São Paulo (quando
morei lá, há pouco mais de um ano). Fui conhecer
a sede da Brain Store, acompanhando o Maron, editor da revista
Monet e meu grande amigo. Eloyr me recebeu como sempre: com
grande zelo, uma paixão infinita por quadrinhos e um
grande orgulho de seu trabalho. Tenho uma grande afeição
por ele.
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Mauro
da Devir
A primeira vez que vi o Mauro foi na Bienal do Livro de 1989.
Na época, a Devir tinha um stand bem modesto (sei que é difícil
crer, mas era assim). O Mauro tentava convencer a mim e ao meu
amigo Cazuo a um feito difícil: entregar nossas economias
à Devir, abrindo uma espécie de conta, na qual
tudo seria automaticamente convertido para dólares. Depois,
nós iríamos abatendo esses dólares de nossa
conta virtual por meio de compras de títulos americanos
que a Devir entregaria em nossas casas. Quando a conta zerasse,
nós poderíamos colocar mais dinheiro e manter
nossas coleções em dia. Ele garantiu que trazia
todos os títulos da DC e da Marvel. Com regularidade!
Difícil crer que alguém seria convencido a entregar
seu dinheiro a uma empresa desconhecida em troca das vendas
de títulos futuros que ainda nem tinham sido publicados.
Eu e o Cazuo fomos!
E - para nossa sorte - O Mauro convenceu muita gente. Tanto,
que a Devir deu certo e se tornou um marco para nós.
Pela primeira vez os títulos americanos passaram a entrar
com regularidade no país. Até então, era
praticamente impossível ter uma coleção.
As distribuidoras brasileiras traziam as revistas americanas
de modo desorganizado, aleatório e sem constância.
Você comprava um título em um mês e não
tinha nenhuma garantia de que teria a continuação
da história no mês seguinte. Aliás, era
bem mais provável que não tivesse. A promessa
de vendedor que o Mauro fez, tanto a mim quanto aos diversos
adolescentes da Bienal, era verdade.
Mas o que eu acho mais fantástico não foi o fato
do Mauro ter me convencido, nem de ser verdade o que ele dizia.
Mais fantástico é que era ele ali: o próprio
dono da Devir fazendo o papel de vendedor; travando a árdua
tarefa de convencer adolescentes a abrir contas virtuais em
dólar.
O Mauro é conhecido nos bastidores como o homem de negócios
da Devir. Sempre á frente das coisas. Guardada as devidas
proporções, ele tem um pouco da aura do Bill Gates.
É admirado por muitos e odiado por outros. Admirado porque
tem tino para os negócios e não tem pudores. Começou
do nada e fez todo tipo de trabalho para criar a Devir. Odiado
porque já fez diversos movimentos no limiar do ético
para crescer. Engoliu algumas empresas, vetou outras no mercado
com manobras não tão limpas. Mas negócios
são negócios. De minha parte, só posso
dizer que quando eu e o Artur fechamos a Nova Vecchi, o Mauro
me pareceu sinceramente triste. Ele comprou todo o nosso estoque.
Muitos podem dizer que isso foi uma manobra para ter lucro,
mas acho pouco provável. Acredito que o Mauro realmente
quis nos ajudar (e, de fato, ajudou). E duvido muito que ele
tenha tido algum lucro (fora o humano).
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Marcão da Gibimania
Eu sou de uma época em que era muito difícil manter
uma coleção de quadrinhos. Precisava-se comprar
os títulos nas bancas. Se você perdia um título,
tinha seis meses para comprá-lo na editora antes do estoque
ser vendido como papel velho. Depois disso, só com três
coisas você conseguiria achá-lo: pernas, muita
paciência e SORTE.
Não havia lojas especializadas. Os sebos tratavam revistas
como resto. Jogavam tudo empilhado num canto. Passei muitas
horas da minha vida no meio de papel velho, tirando título
por título de uma pilha atrás de algo que me interessasse.
Eu e muitos da minha época. Inclusive o Marcão
da Gibimania.
Num belo dia ensolarado abriu um sebo diferente no Méier.
Chamava-se Gibicenter. Ele era especializado em vinil (até
aí, tudo bem) e... quadrinhos! Genial! Cazuo, garoto
de coragem, foi o primeiro da turma a se aventurar. Traçou
um caminho louco. Perdeu-se. Quase chorou. Mas conseguiu achar.
Depois, me levou lá. Quando eu entrei no Gibicenter,
não acreditei: as revistas eram organizadas por títulos
e ordenadas numericamente. E tinha de tudo! Era o sonho! Fiquei
três horas lá e só fui embora porque a loja
ia fechar.
O responsável por isso era o funcionário da loja:
Marcão. Figura simpática, sempre sorridente, muito
brincalhão e com um coração de ouro. Depois
de algum tempo, Marcão abriu sua própria loja,
só que na Tijuca: a Gibimania. Daí veio o bum
de lojas especializadas. Mas a Gibimania ainda é minha
loja preferida. E como bom amante dos bastidores, tiro o meu
chapéu para o Marcão. Quanto ao Gibicenter, nunca
mais foi o mesmo. As revistas passaram a ficar desorganizadas,
misturadas e pouco cuidadas. O que só prova que era mesmo
o Marcão a alma do Gibicenter. Mas eu não tenho
nada a reclamar, prefiro mesmo a Gibimania.
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Otacílio
D´Assunção: o Ota...
...Nada idiota, diga-se de passagem. Lotario Vecchi (antigo
dono da famosa Vecchi) diz que o Ota era uma figura muito engraçada.
Quando ele o conheceu, o Ota tinha um cabelão e vinha
com um monte de revistas embaixo do braço. As revistas
eram um lixo! Estou me referindo a MAD. Ota dizia que
era uma boa idéia lançá-la no Brasil. Muito
improvável! Quem iria ler uma droga daquelas? Pra piorar,
a revista já tinha sido feita aqui e os antigos editores
tinham dado um calote na editora americana. Resultado: eles
não queriam nem ouvir falar do Brasil. Para a Vecchi
negociar os royaltes da MAD, teve de pagar adiantado
o equivalente a 6% da tiragem impressa (e não os 10%
da tiragem vendida, como de praxe).
Só o Ota para convencer o Lotario a uma loucura dessas!
Sorte do Lotario, da Vecchi, do Ota e da HQ brasileira. Por
quê? Simplesmente porque a revista foi um sucesso. Se
tornou o carro-chefe dos quadrinhos da Vecchi (junto com o Tex).
E a MAD tinha uma grande vantagem: a maior parte do material
dela (70%, segundo o Lotario) era de temática local.
Não dava para publicar no Brasil. Solução:
montar uma redação brasileira para produzir material
no estilo MAD, mas com temática local. Surgia,
assim, as sátiras ao futebol, às novelas, às
minisséries. Montava-se também uma redação
que iria formar vários autores e desenhistas de quadrinhos
no Brasil.
Na seqüência, Ota trouxe um título para concorrer
com a Kripta da RGE: Spectro. No primeiro número
da revista (que eu tenho... hehehe!!!) só tinha material
americano (aliás, o nome da revista era Dr. Spektro).
Mas a partir do número dois começou a entrar material
nacional e, até que enfim, se tornou brasileira. A Spektro trouxe outros títulos e se tornou um marco na HQB.
Quando a Vecchi foi comprada pelo JB e fechou as portas, Ota
(barbudo, ao invés de cebeludo) botou a MAD debaixo
do braço e entrou na Record. Foi quando a Record lançou Love and Rockets; Cripta do Terror; Diabolik.
Conheci o Ota pessoalmente nessa época (ele me apresentou
a redação da Record naqueles tempos).
Além de ser responsável pela publicação
da MAD, da Spectro, de Love & Rockets,
da Cripta do Terror, Ota fez algumas outras besteiras:
casou, separou, publicou no JB uma tirinha autobiográfica
quase tão tosca quanto a sua própria vida, intitulada Idi-Otas; lançou diversos títulos de terror
- no estilo da Vecchi - pela Ediouro e entrou para o Orkut,
onde tem 554 fãs e mais de 1.000 amigos (dentre os quais,
eu). E eu concordo com o Lotario: o amiguinho Ota é uma
figura muito engraçada.
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Alexandre
Maron, vulgo Maron, vulgo Alê
Existe uma tirinha do Touro-sentado em que seu cavalo diz detestar quem vive falando que é amigo de pessoas importantes. Ele e seus amigos: Rin-Tin-Tin, Lassie e o Silver... Pois é, mas se tem algo que posso dizer com muito orgulho é que sou grande amigo do Alê. E nossa amizade vem desde a época da faculdade.
Maron abriu a primeira loja especializada da Ilha do Governador (não sei se houve uma segunda): a Interativa. Foi repórter da Folha de São Paulo por três anos e publicou na Ilustrada entrevista com Stan Lee, Flávio Colin e diversas matérias sobre quadrinhos. Atualmente é editor da revista Monet (da Net) e mantém sempre uma novidade sobre quadrinhos na coluna de livros. É o cara mais leal que já conheci. Se o Stan Lee o tivesse conhecido no início de sua carreira, eu juraria que o Homem-Aranha seria baseado no Maron. Como o aracnídeo já existia quando Alê nasceu, sou capaz de jurar que o Maron foi influenciado pelo Peter Parker quando traçou sua trajetória de vida. |
Henfil
Henfil foi certamente o gênio mais sick que o mundo já
teve. De espírito supercrítico, teve diversas
rusgas durante sua vida. O termo de patrulha ideológica
não dá conta do cartunista. Ele criticava tudo
e todos. Ninguém escapava de sua pena. Fosse de direita,
fosse de esquerda. De situação a oposição.
Elis Regina foi sua musa. Ela se apaixonou por ele. Acha que
ele ficou desbundado? Necas, pegou um deslize da menina e a
criticou duramente. Apaixonado pelo seu irmão Betinho,
não cedeu nem quando a ditadura tentou seduzi-lo com
a volta do irmão. Anistia? Só se for irrestrita!
Morou com Glauco e com Laerte no que parece ter sido uma espécie
de "República do Cartoon". Abriu uma cooperativa,
produziu material para partidos e sindicatos, morou nos EUA
e esteve na China comunista. Dialético? Talvez, mas não
para o próprio.
Tinha um humor ferino. Certa feita, viajando com sua primeira
mulher, a viu alertando seu filho Ivan para não tocar
na panela quente. Irreverente, se aproveitou da distração
dela e disse para o filho. "Rápido, aproveita agora
e pega na panela." Ivan se queimou e abriu o berreiro.
"Isso é para você aprender a não confiar
em ninguém, nem mesmo em seu pai." Não era
sadismo, não. Era ele tentando ensinar ao filho sua essência.
Henfil foi um libertário desde o primeiro momento. Não
deu um segundo de descanso à ditadura. Mas nunca se enquadrou
em nenhum grupo. Era libertário e crítico demais
para se enquadrar. Foi a grande inspiração de
Glauco e Laerte. Mas Angeli é seco quando fala do Henfil.
É que ele sofreu uma crítica severa quando decidiu
fazer quadrinhos sobre crítica de comportamento ao, invés
de críticas políticas. Logo Henfil, que é
praticamente o pai da crítica de comportamento. Afinal,
nada mais sick do que os Fradins.
Tem algo que eu desconfio, mas nunca ouvi nem li nada a respeito.
O traço do Angeli é, certamente, o que possui
maior influência do underground americano. Dado
o temperamento de Henfil, acho provável que ele tenha
tido alguma acusação de aculturação.
Mas se houve, não há como saber. Angeli não
fala sobre o assunto e Henfil..., bem, só se for em sessões
espíritas... |
Ziraldo
A primeira vez que vi o Ziraldo ao vivo e a cores foi em seu
apartamento na Lagoa. Na época, eu era um jovem estudante
de economia, usava um bigode estilo Nigel Mansell, bermuda curta
e meias sociais azul-marinho até a canela (sim, eu já
era bizarro). Estava na casa do Ziraldo fazendo uma entrevista
para o jornal da faculdade. Ziraldo falou horas. É uma
figura divertida, cheia de projetos e fala com muita propriedade.
Ao mesmo tempo, superacessível e modesto.
Ziraldo foi comunistão (do PCB) durante a Ditadura Militar.
Perseguido pelo seu trabalho como editor do Pasquim,
foi diversas vezes preso. Encabeçou um projeto para uma
distribuidora de tiras nacionais. Escreveu cartilhas para sindicatos
e partidos. Produziu nos anos de 1960 a primeira revista brasileira
colorida em quadrinhos: A turma do Pererê. Lançou
- nos anos 1990 - a maravilhosa revista mineira de cultura A
palavra (que teve dezessete números) em formato maior
que a Caros Amigos e toda colorida. Ele é uma
figura supersimpática, muito carismática e cheia
de projetos mirabolantes (como aquele de abrir fábricas
de macarrão para erradicar a fome no Brasil). Tem a habilidade
de iniciar novos caminhos, mas se entedia rápido e precisa
sempre de pessoas que assumam os projetos implementados para
dar-lhes continuidade.
Muitos anos depois da entrevista que fiz em sua casa, reencontrei
Ziraldo numa palestra que tive na ESDI, (num curso ministrado
pelo Zuenir Ventura). Ziraldo continuava com seu humor leve
e seu jeito carismático de contar histórias. No
bate-papo com a turma, revelou que a quantidade de mulheres
bonitas no mundo aumenta com o tempo. Explicou: "Quando
tinha vinte anos eu achava as mulheres de 20 lindas. Com trinta
eu continuei achando as mulheres de 20 bonitas, mas passei a
admirar também as de 30. Com 40, eu gostava das de 20,
30 e 40. E assim sucessivamente. Agora eu estou com 60 e acho
as mulheres de 20, 30, 40, 50 e 60 maravilhosas. Quer dizer,
meu leque só aumentou."
Em 2002, quando eu trabalhava em São Paulo na Editora
Globo, minha mãe me ligou e pediu o contato do velho
comunista. Ela queria que o Ziraldo ilustrasse as apostilas
que a Igreja Católica produziria para o ensino religioso
nas escolas públicas. Eu ri... Imagina se um ateu como
o velho Ziraldo iria se prestar a ilustrar o absurdo que é
o ensino religioso na rede oficial. Tinha certeza que não!
Mas não é que ela o convenceu. E ele trabalhou
de graça. Não sei como ela consegui. Ela tinha
58 na época... epa!?!
Pô, Ziraldo, minha mãe não, né?
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Alexandre
Cabral
Cabral é uma figura ímpar. Como ele mesmo diz,
só há uma coisa maior do que ele: seu ego. Foi
colunista do Globinho durante alguns anos e - embora
poucos saibam - defendeu as tiras nacionais quando o segundo
caderno decidiu reformular a página de quadrinhos. Insistiu
na manutenção de Urbano - o aposentado. Cortou
as tiras seriadas. Enfim, comprou a briga interna do caderno
defendendo o quadrinho nacional. Mas acabou ficando mais conhecido
pelo seu trabalho com RPG e cardgame. Editou a Black Lotus e a Roleplaying.
A maior anedota sobre o Cabral, porém, foi quando decidiu
mudar de profissão. Largou o jornalismo e fez concurso
para Polícia Federal. A última vez que o vi foi
pela televisão. Ele estava servindo de segurança
para algum ministro que agora não me lembro. Um fim um
tanto triste para um jornalista tão talentoso. Espero
ainda ver os dois de volta ao mercado de quadrinhos: o Cabral
e o seu ego. E que o diabo leve o raio do ministro...
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Arthuro Vecchi
Quando Arthuro Vecchi chegou ao Brasil, tinha 17 anos e não
falava nenhuma palavra em português. Trazia algum dinheiro
e um conselho de seu irmão mais velho - por quem nutria
uma admiração quase filial - "abra uma editora
no Brasil. Lá é um país de grandes possibilidades."
Ainda não tinha acontecido a Segunda Grande Guerra e
a Itália era considerada um país amigo. O fluxo
imigratório para o Brasil era alto. Lothario, seu irmão,
tinha feito fortuna com a venda de fascículos na velha
bota européia. Arthuro fez jus ao sangue da família
e montou no país uma pequena editora. A Vecchi começou
sua história com venda de figurinhas colecionáveis.
Cresceu graças ao tino e a ousadia de Arthuro, que fez
vários movimentos arriscados. Certa feita, hipotecou
até a casa para colocar dinheiro na editora. Foi sempre
feliz em suas jogadas e teve muito mais lucros do que prejuízos
no decorrer da vida.
Contra a vontade de todos, colocou os imóveis da editora
em nome próprio. Medida considerada inapropriada porque
restringia o capital fixo da empresa. "É melhor
ter cautela para os dias incertos", respondia ele quando
inquirido pelo filho. De fato, sua atitude salvou a família
anos mais tarde, quando já nem estava presente.
Embora editor, não chegou a completar nenhum curso superior.
Foi um homem que se fez sozinho. Não dava grande valor
ao diploma e chegou a censurar os filhos que insistiram em se
formar. Colocou o nome do irmão em seu primogênito
e o manteve nos negócios durante toda a vida, o que gerou
grande ciúme por parte dos outros filhos. A Vecchi terminou
num emaranhado de brigas familiares após a morte de seu
fundador, mas deixou um grande legado para a HQ Nacional. Das
grandes editoras de sua época, provavelmente foi - junto
com a EBAL - a mais importante produtora de HQ brasileira. Enquanto
Lotario e Arthuro estiveram à frente de sua administração,
a HQB conheceu dias prósperos.
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Lotario
Vecchi
Se tem algo que posso dizer a respeito do Lotario é que
ele é uma das pessoas mais doces que já conheci.
Tem uma fibra considerável, um humor leve, um grande
carinho e uma boa dose de modéstia. É um paisão
em todos os aspectos. Trabalhou com seu pai (o fundador da Vecchi)
durante muitos anos. Levou a editora nas costas durante a crise
dos anos 80. Foi afastado da diretoria por conta de brigas familiares
que levaram a empresa à bancarrota.
Não o conheci nesse período. Já afastado
da empresa, contam que se tornou agressivo durante sua falência
(difícil acreditar, para quem o conhece hoje). Impotente,
não foi capaz de ver todo seu trabalho sendo reduzido
a nada. Passou dificuldades financeiras e acabou dando razão
ao velho Arthuro, quando este decidiu colocar o prédio
da editora em nome particular. Foi o que o salvou alguns anos
depois. Enfrentou as adversidades e as superou.
Hoje, ama a pesca em alto-mar. É um pai amoroso, marido
carinhoso, figura paciente e companheira. Tem uma longa experiência
de vida e é uma das melhores companhias que conheço.
Quando estou com ele, sinto aquela aura que Allan Moore conseguiu
captar tão bem nas conversas dos dois Night Owns aposentados (Quem ainda não leu Watchmen terá
de ler para entender o que digo). Enfim, o tenho em grande estima.
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